terça-feira, 10 de junho de 2008

A questão da Culpa




Na faculdade de Teologia, em minha monografia final, abordei a questão da culpa, e de como dentro de uma comunidade de fé (Igreja), por menos que se espere, ainda é mais evidente a cobrança por sermos pessoas perfeitas e “santas”.

Durante cinco anos freqüentei e participei ativamente dessas comunidades, confesso que o maior problema que pude observar foram pessoas ficando cada vez mais “doentes” emocionalmente, isso me entristeceu muito, despertando cada vez mais minha vontade de trabalhar com aconselhamento, reforçando minha dupla formação nas disciplinas teológicas e psicológicas.

Os teólogos são os únicos profissionais de aconselhamento cuja formação normal inclui o estudo sistemático de filosofia, teologia, ética, história da Igreja, religiões do mundo e psicologia da religião. O conhecimento que possuem destas áreas teológicas pode capacitá-los a prestar uma ajuda singular a pessoas cujos problemas e bloqueios de crescimento concentram-se em torno de dilemas éticos, conflitos religiosos, distorções de valores e preocupações últimas tais como achar um sentido de vida e lidar criativamente com o medo da morte.

Minha proposta futura, com a Psicologia, mediante esses anseios, é direcionar o meu trabalho, de maneira ética, uma constante troca com novas possibilidades de crescimento a partir de uma leitura mais profunda, apoiados no diálogo multidisciplinar com as ciências humanas afins, tais como: psicologia, psicanálise, etc.

Hoje sou pagã, sou bruxa, filha da Grande Mãe Terra, pertenço a religião Wicca, e não frequento mais nenhum Templo, Igreja, ou coisa parecida, não quero raízes em lugar algum a não ser com meu propósito de ajudar as pessoas a serem escutadas, compreendidas em suas dores.

Em meu trabalho, coloquei dois enfoques sobre a culpa, um enfoque psicanalítico e outro, uma reflexão teológica.

No enfoque psicanalítico, lógico, citei Freud e seu famoso texto “O mal-estar da civilização”. O homem tem pulsões, desejos, e o animal tem o instinto. A civilização é tudo que nos diferencia dos animais, pois ela tem todos os termos para controlar a natureza, ou seja, um aparato de leis, regras e regulamentações para que a convivência social seja possível.

Para viver em sociedade, temos que abrir mão de toda a nossa constituição instintiva, refrear nossos instintos e pagamos um preço caro por viver em comunidade, o nosso corpo “cobra caro” toda essa repressão de instintos.

Para Freud, o que gera esse mal-estar é a inibição desses prazeres e desses instintos. O que define o propósito da vida é o princípio do prazer, dinâmica pulsional, que seria se livrar da infelicidade buscando a felicidade. Uma pessoa se torna neurótica porque não pode tolerar a frustração que a sociedade lhe impõe, a serviço de seus ideais culturais, inferindo-se disso que a abolição ou redução dessas exigências resultaria num retorno a possibilidades de felicidade.

Isso reforça o sentimento de culpa por meio de proibições externas, a civilização limita-se a eventualidade de uma violência generalizada e cobra do indivíduo o preço de uma inevitável perda de felicidade pelo mal provocado ao equilíbrio do grupo ou progresso cultural.

Numa reflexão teológica, podemos dizer que, quando uma pessoa tem medo de perder alguém faz de tudo para assegurar sua companhia. Qualquer coisa que aconteça, mesmo sem intenção ou intervenção da pessoa, que faz com que a perda se concretize, pode originar um sentimento de culpa. Este sentimento ou medo é descrito da seguinte forma no livro Culpa, Neurose e Pecado:

"A culpa está sempre ligada ao temor de ser indigno da estima e do desejo do outro, ao mesmo tempo que ao sofrimento de perder a estima e o amor que cada um de nós dedica a si mesmo. Este temor de perder a estima e o amor pode não passar de uma culpabilidade difusa, de uma inquietação de dignidade”.

O fato é que, em maior ou menor intensidade, todos nós passamos por sentimentos de culpa constantemente, mesmo aquelas pessoas que não estão ligadas a um referencial religioso e de compromisso com o Divino. Culpa em relação a si mesmo, que está vinculada àquela sensação de que as conseqüências do estado em que se encontra determinada pessoa foram causadas por ela mesma; culpa em relação aos outros, ligada a um referencial de relacionamento e também a culpa em relação a esse mesmo Divino, juntamente com a sensação de que as atitudes não foram feitas de acordo com sua vontade.

A culpa surge em nossos relacionamentos, quando recebemos críticas alheias, com um possível desprezo da sociedade ou de um sentimento de inferioridade. Pelas pessoas conviverem juntas, acabam por gerar comparações, pois são pensamentos diferentes, conceitos e visões diferentes de vida. Cada um convicto de que seu pensamento é o verdadeiro. Daí surgem os julgamentos, que os homens tomam como se fosse o próprio julgamento do que chamam de Deus.

Um grande desafio que vejo pela frente é como podemos dialogar com a sociedade pós-moderna. Algumas de suas características peculiares como competitividade, consumismo, utilitarismo, agressividade, perda de valores absolutos, relativização da verdade, etc., têm gerado indivíduos enfermos do ponto de vista dos relacionamentos.

Somos uma sociedade enferma. Que desaprendeu a amar, que estabeleceu a desconfiança como condição ímpar na relação pessoal, que não sabe mais desenvolver relacionamentos saudáveis e profundos, que vive deprimida e angustiada, que perdeu a dimensão da comunidade e da solidariedade, dando lugar a um estilo de vida egoística, que não sabe mais construir pontes metodológicas de comunicação que levem ao encontro do outro para a celebração da vida em verdade e em amor.

Quando estive no ambiente da Igreja, também vi uma Igreja enferma, na ânsia de crescer numérica e financeiramente começou a priorizar os grandes projetos e as realizações de mega eventos, deixando de lado a importância dos relacionamentos. Tornou-se uma Igreja realizadora, mas pouco relacional.

Nada mais atual em nossos dias do que o problema da culpa. A questão da culpa está longe de ser encerrada. Cada um de nós, por mais cético que seja, se acha pessoalmente envolvido, quando lhe é pedido contas do que se faz, quer na convivência religiosa, quer fora dela.

A culpa é uma exigência exagerada de uma perfeição que não é humana, que nunca, de fato, poderemos alcançar. Devemos, então, assumir o que somos e enxergar nisto uma experiência de se encontrar na totalidade do que é ser humano, ou seja, o assumir-se humano é descobrir-se cheio de limitações, erros e acertos e encontrar nesta possibilidade a superação dos conflitos interiores, não no sentido de se conformar com o que somos, mas sim de valorização desta condição humana.

A humanidade cria e projeta deuses, anjos, heróis perfeitos e sem pecado, na expectativa de se tornar um pouco daquilo que eles são. Mas na verdade estas divindades não são humanas, e, querer tornar-se igual a elas, é deixar de ser humano.

Uma religiosidade saudável deve ser vivida a partir dos limites humanos e não dos modelos divinizados construídos longe de qualquer realidade humana. Desviar-se deste sentido é negar a própria criação de Deus. Não se aceitar como possibilidade de erros e acertos, é não compreender a própria condição de ser homem/mulher esperada como resposta ao Criador.

Posso citar, e por que não? O meu psicólogo preferido, que chamo carinhosamente de “Barbudinho” (falo do homem Jesus), teve um ministério de sanidade, à medida que promovia "cura", ao mesmo tempo, restaurava indivíduos em sua integralidade trazendo-os de volta para o convívio saudável com a sociedade.


por, Yv Luna

Nenhum comentário: