quarta-feira, 23 de julho de 2008

EU SOU A MOÇA-FANTASMA...


Eu sou a Moça-Fantasma
que espera na Rua do Chumbo
o carro da madrugada.
Eu sou branca, longa e fria,
a minha carne é um suspiro
na madrugada da serra.
Eu sou a Moça-Fantasma.

O meu nome era Maria,
Maria-Que-Morreu-Antes.

Sou a vossa namorada
que morreu de apendicite,
no desastre de automóvel
ou suicidou-se na praia
e seus cabelos ficaram
longos na vossa lembrança.
Eu nunca fui deste mundo:
Se beijava, minha boca
dizia de outros planetas
em que os amantes se queimam
num fogo casto e se tornam
estrelas, sem ironia.
Morri sem ter tido tempo
de ser vossa, como as outras.
Não me conformo com isso,
e quando as polícias dormem
em mim e foi-a de mim,
meu espectro itinerante
desce a Serra do Curral,
vai olhando as casas novas,
ronda as hortas amorosas
(Rua Cláudio Manuel da Costa),
pára no Abrigo Ceará,
nao há abrigo. Um perfume
que não conheço me invade:

é o cheiro do vosso sono
quente, doce, enrodilhado
nos braços das espanholas.
– Oh! deixai-me dormir convosco.

E vai, como não encontro
nenhum dos meus namorados,
que as francesas conquistaram,
e cine beberam todo o uísque
existente no Brasil
(agora dormem embriagados),
espreito os Carros que passam
com choferes que não suspeitam
de minha brancura e fogem.
Os tímidos guardas-civis,
coitados! um quis me prender.
Abri-lhe os braços... Incrédulo,
me apalpou. Não tinha carne
e por cima do vestido
e por baixo do vestido
era a mesma ausência branca,
um só desespero branco...
Podeis ver: o que era corpo
foi comido pelo gato.

As moças que ainda estão vivas
(hão de morrer, ficai certos)
têm medo que eu apareça
e lhes puxe a perna... Engano.
Eu fui moça, Serei moça
deserta, per omnia saecula (por todos os séculos).

Não quero saber de moças.
Mas os moços me perturbam.
Não sei como libertar-me.
Se o fantasma não sofresse,
se eles ainda me gostassem
e o espiritismo consentisse,
mas eu sei que é proibido
vós sois carne, eu sou vapor.

Um vapor que se dissolve
quando o sol rompe na Serra.

Agora estou consolada,
disse tu do que queria,
subirei àquela nuvem,
serei lâmina gelada,
cintilarei sobre os homens.
Meu reflexo na piscina da Avenida Paraúna
(estrelas não se compreendem),
ninguém o compreenderá.

Canção da Moça-Fantasma de Belo Horizonte (Poema da obra Sentimento do mundo), de Carlos Drummond de Andrade

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Neste poema Drummond parte do que seria uma lenda urbana para abordar, na imagem metafórica do espectro noturno assombrado pela solidão pós-morte, o seu isolamento e o de toda humanidade.

Assumindo a voz dramática dessa alma que vaga pelas ruas da cidade mineira em busca da comunhão amorosa desconhecida em vida, o gauche assume uma sutil máscara heterônima, marcada pelo halo do fantástico, como se sua solidão também fosse um espectro fantasmagórico a transitar pela desconcertada modernidade do mundo caduco.

A reflexão poética sobre a solidão, tecida por Drummond nesse poema, mescla-se com o questionamento sobre o próprio sentido do existir e já guarda, de certa forma, um embrião do pessimismo metafísico que dominará sua escrita a partir de Claro Enigma.

O poeta-moça-fantasma se defronta diante de uma transcendência vazia, pois a morte e a possível vida espiritual não surgem como solução para o enigma da existência, com o reencontro com o Criador, porém como um intolerável castigo, a expiação de uma solidão eterna, “Oh! Deixai-me dormir convosco”, distante das benesses gloriosas das promessas do paraíso que imperam no imaginário judaico-cristão.

Ultrapassar a fronteira da morte e encontrar a eternidade não propicia à Moça-Fantasma a onisciência sobre o sentido do existir, a comunhão adiada com a humanidade, o contato amoroso desconhecido, mas a consciência da incomunicabilidade plena de um ser ainda repleto de paixões irrealizadas.

Essa alma passa a desvelar o abandono eterno do gênero humano, excluído agora de sua substância corpórea, a transpassar corpos viventes plenos de vida e jamais conseguir com eles comungar.

Esse ser etéreo, que se apresenta sensivelmente aos homens, não causa pavor ao poeta, mas apenas uma inquietante identificação.

Resgatando a dimensão simbólica da escuridão como elemento soturno, opressor, de erupção do medonho, o ambiente da noite ressurge na trajetória dessa aparição das ruas desertas da província mineira.

Metáfora da comunhão adiada de Drummond com a humanidade, a Moça-Fantasma é aquele ente que, apartado do mundo dos vivos, sofre por perder a dimensão humana de ser vivente que, nem em vida, nem na morte, consegue o encontro com o outro. “Morri sem ter tido tempo / de ser vossa, como as outras”.

“Canção da Moça-Fantasma de Belo Horizonte” é uma alegoria de uma mundana-fantasma representando as vicissitudes da vida ingrata das mulheres de rua. A originalidade está na forma de representação e na forma poética feliz com que Drummond realizou o projeto alegórico. Com esse projeto, Drummond consegue mexer com o imaginário popular e mundano sempre atento aos percursos do amores marginais ou clandestinos. O espectro da moça-fantasma assume a narrativa em primeira pessoa numa intenção de apresentar uma mensagem necessária como se fosse uma purgação: “Agora estou consolada, disse tudo que queria, subirei àquela nuvem, serei lâmina gelada”.


Fonte:sitedepoesias.com.br

terça-feira, 22 de julho de 2008

Feliz Aniversário pai !



Hoje é seu aniversário pai, estaria completando 65 anos. Mas você não dava a mínima para datas comemorativas, provavelmente dispensaria de cara o famoso bolo com velinhas e a social com a família pra comer somente o bolo, depois, me pegar pela mão e me levar pra passear de carro, só eu e você, ou simplesmente caminhar, caminhar, contar suas histórias, você era este mestre contador de histórias e trazia em seu coração tantas memórias, e com essas histórias me ensinar alguma coisa.
Esse seria seu aniversário perfeito. Depois voltaríamos para casa, veríamos juntos TV, ou ouviríamos uma boa música e você continuaria contando suas histórias até me fazer dormir.
Queria te dar de alguma forma um presente hoje, escolhi te escrever. Pensei que fosse fácil te fazer um poema ou escrever pra você pai. Mas vejo que tua vida foi um poema difícil, que a gente não pode escrever. Então descrevo meu coração pra você, meu presente será esse, demonstrar o que sinto por ti.
Sentir sua falta é algo inexplicável. Com sua proteção eu não temia nada. Daria tudo para poder novamente segurar tua mão, te abraçar forte, ouvir a sua voz, sua gargalhada alta, te escutar e conversar os seus assuntos preferidos.
Você foi a coragem em pessoa. Hoje, você é o meu "poder crescer", você é a minha cabeça, são os meus conselhos, você é aquele que me defende, que me salva dentro de uma tempestade, me tira de um incêndio de mentiras, me mostra as verdades, tenta sempre ser justo. Quer apenas a minha completa felicidade. Gosta de mostrar a luz, a luz da vitória e me diz as oportunidades que o mundo dá. 
Tento ser forte dia após dia, é muito difícil pra mim, mas quando lembro de você, volto a ser criança, e isso me traz paz e me sinto acolhida pelas suas lembranças.
Lembro que nós tínhamos nossos segredos e códigos, isso me fazia sentir importante pra você. Quem diria que por de trás daquele rosto fechado e cara amarrada tinha um coração moleque querendo brincar? Que por de trás daquela voz grossa tinha um menino criativo querendo falar? Quem disse que aquelas mãos grandes e fortes (e pesadas!!!) não sabiam fazer carinho? Que dentro daquele peito largo e viril não tinha um coração de pudim que se desmanchava quando via sua filha chorar e te chamar quando sentia medo do escuro.
Um homem daquele tamanho que ria de desenho animado, que adorava quando o Pica-Pau levava a melhor, que me ensinou que nem sempre os "mocinhos" eram bons e que os "vilões" eram realmente maus mas precisavam ser respeitados, que imitava o Incrível Hulk pra me assustar e me levantava até o teto e gritava "Shazan". Que amava os animais, principalmente cachorro e cavalo. Dizia que a maior covardia do ser humano era maltratar criança e bicho.
Todo esse seu lado eu conhecia como ninguém, o que te faz um grande exemplo cada vez mais pra mim. Porque a tua sensibilidade em ser criança de vez em quando, sorrir, brincar, se sensibilizar, não diminuía em nada minha admiração pela sua grande força e nem a imagem da grande muralha que você sempre foi.
Me ensinou que todo homem guarda um sonho de criança, e hoje eu guardo os meus sonhos de criança também. E não tenho vergonha de admitir ser criança de vez em quando, de querer colo, abraço, atenção.
Te amo pai, por você ser diferente, especial e o alicerce da minha vida. Quero que saiba o quanto você é importante e maravilhoso no meu caminho. Este homem que eu admiro tanto e sempre vou admirar.
Pai, desculpa os erros querendo acertar, desculpa a pouca maturidade em não entender certas coisas, eu era uma criança, mas hoje enxergo cada gesto seu e obrigada por acreditar que eu poderia chegar até aqui. Obrigada por sempre valorizar quando fazia algo de bom, por nunca deixar ninguém me machucar, por sempre mandar notícias suas quando estava longe, se preocupar e me colocar em primeiro lugar em tudo. Com você eu sempre me senti especial, necessária, importante, pela sua confiança plena em mim, por ser sua confidente. Obrigada pai! Eu nunca me esquecerei de nada disso.
Eu vi recentemente, em um filme, uma frase que me lembrou muito uma coisa que você me dizia sempre, era mais ou menos assim: "Se alguém disser que você nunca será capaz de realizar algo que queira muito é porque esse alguém nunca conseguiu realizar nada e por isso acha que ninguém conseguirá, mas você consegue, então nunca deixe ninguém dizer que você não conseguirá!"

Sua filha com orgulho,

Yv


P.S.: Dedico a você pai, essa música, chama-se:

“Wherever You Will Go” (Eu vou para onde quer que você vá)

Ultimamente, tenho pensado
Quem ocupará meu lugar
Quando eu me for, você vai precisar de amor
Para iluminar as sombras do teu rosto
Se uma grande onda cair
E cair sobre nós todos
Então entre a areia e a pedra
Você conseguiria se virar sozinha?

Se eu pudesse, então eu iria
Eu vou para onde quer que você vá
Bem lá em cima ou lá embaixo
Eu vou para onde quer que você vá

E talvez eu descubra
Um modo de conseguir voltar algum dia
Para cuidar de você,
Para te guiar nos seus dias mais negros
Se uma grande onda cair
E cair sobre todos nós
Então eu espero que haja alguém lá
Que possa me trazer de volta para você

Se eu pudesse, então eu iria
Eu vou para onde quer que você vá
Bem lá em cima ou lá embaixo
Eu vou para onde quer que você vá

Foge com meu coração
Foge com minha esperança
Foge com meu amor

Agora eu sei exatamente como
Minha vida e o meu amor poderão continuar
Em seu coração, em sua mente,
Eu ficarei pra sempre com você

Se eu pudesse, então eu iria
Eu vou para onde quer que você vá
Bem lá em cima ou lá embaixo
Eu vou para onde quer que você vá
Se eu pudesse voltar no tempo
Eu vou aonde quer que você vá

Se eu pudesse fazer com que você fosse minha
Eu vou aonde quer que você vá
Eu vou aonde quer que você vá

segunda-feira, 21 de julho de 2008

Sinônimos - Zé Ramalho


Quanto tempo o coração leva pra saber
Que o sinônimo de amar é sofrer
Num aroma de amores pode haver espinhos
É como ter mulheres e milhões e ser sozinho
Na solidão de casa, descansar
O sentido da vida, encontrar
Ninguém pode dizer onde a felicidade está

O amor é feito de paixões
E quando perde a razão
Não sabe quem vai machucar
Quem ama nunca sente medo
De contar o seu segredo
Sinônimo de amor é amar

Quem revelará o mistério que tenha fé
E quantos segredos traz o coração de uma mulher
Como é triste a tristeza mendigando um sorriso
Um cego procurando a luz na imensidão do paraíso
Quem tem amor na vida, tem sorte
Quem na fraqueza sabe ser bem mais forte
Ninguém sabe dizer onde a felicidade está

O amor é feito de paixões
E quando perde a razão
Não sabe quem vai machucar
Quem ama nunca sente medo
De contar o seu segredo
Sinônimo de amor é amar

Sinônimo de amor é amar
Sinônimo de amor é amar

O amor é feito de paixões
E quando perde a razão
Não sabe quem vai machucar
Quem ama nunca sente medo
De contar o seu segredo
Sinônimo de amor é amar

POR QUE É TÃO DIFÍCIL SER TRANSPARENTE?


Às vezes, fico me perguntando porque é tão difícil ser transparente... Costumamos acreditar que ser transparente é simplesmente ser sincero, não enganar os outros.
Mas ser transparente é muito mais do que isso.
É ter coragem de se expor, de ser frágil, de chorar, de falar do que a gente sente...
Ser transparente é desnudar a alma, é deixar cair as máscaras, baixar as armas, destruir os imensos e grossos muros que nos empenhamos tanto para levantar...
Ser transparente é permitir que toda a nossa doçura aflore, desabroche, transborde!
Mas infelizmente, quase sempre, a maioria de nós decide não correr esse risco.
Preferimos a dureza da razão à leveza que exporia toda a fragilidade humana.
Preferimos o nó na garganta às lágrimas que brotam do mais profundo de nosso ser...
Preferimos nos perder numa busca insana por respostas imediatas à simplesmente nos entregar e admitir que não sabemos, que temos medo!
Por mais doloroso que seja ter de construir uma máscara que nos distancia cada vez mais de quem realmente somos, preferimos assim: manter uma imagem que nos dê a sensação de proteção...
E assim, vamos nos afogando mais e mais em falsas palavras, em falsas atitudes, em falsos sentimentos...
Não porque sejamos pessoas mentirosas, mas apenas porque nos perdemos de nós mesmos e já não sabemos onde está nossa brandura, nosso amor mais intenso e não-contaminado...
Com o passar dos anos, um vazio frio e escuro nos faz perceber que já não sabemos dar e nem pedir o que de mais precioso temos a compartilhar... doçura, compaixão... a compreensão de que todos nós sofremos, nos sentimos sós, imensamente tristes e choramos baixinho antes de dormir, num silêncio que nos remete a uma saudade desesperada de nós mesmos... daquilo que pulsa e grita dentro de nós, mas que não temos coragem de mostrar àqueles que mais amamos!
Porque, infelizmente, aprendemos que é melhor revidar, descontar, agredir, acusar, criticar e julgar do que simplesmente dizer: "você está me machucando... pode parar, por favor?".
Porque aprendemos que dizer isso é ser fraco, é ser bobo, é ser menos do que o outro. Quando, na verdade, se agíssemos com o coração, poderíamos evitar tanta dor, tanta dor...
Sugiro que deixemos explodir toda a nossa doçura!
Que consigamos não prender o choro, não conter a gargalhada, não esconder tanto o nosso medo, não desejar parecer tão invencível...
Que consigamos não tentar controlar tanto, responder tanto, competir tanto..
Que consigamos docemente viver... sentir, amar..
E que você seja não só razão, mas também coração, não só um escudo mas também sentimento. Seja transparente, apesar de todo o risco que isso possa significar...

(Infelizmente desconheço o autor)

quarta-feira, 16 de julho de 2008

TEÓLOGOS - RUBEM ALVES


“A minha profissão? Bem...sou teólogo. Não, o senhor não me ouviu bem. Não sou geólogo. Teólogo. Isto mesmo...Não é necessário dissimular o espanto porque eu mesmo me espanto freqüentemente. E nem esconder o sorriso. Eu compreendo. Também não é necessário pedir desculpas. Sei que sua intenção foi boa. Perguntou sobre minha profissão apenas para começar uma conversa. A viagem é longa. É fácil falar sobre profissões. Tudo teria dado certo se a minha fosse uma dessas profissões que todo mundo conhece. Se eu tivesse dito dentista, médico, mecânico, agente funerário já estaríamos em meio a um animado bate-papo. Da profissão passaríamos à crise econômica, da crise econômica saltaríamos para a política e o mundo seria nosso...”

Em outros tempos a situação teria sido outra. Vocês já notaram que há certas profissões que não podem esperar a pergunta? Elas tomam a iniciativa e andam por aí se anunciando. É o que acontece, por exemplo, com os médicos, que convidam a admiração de todos em razão das roupas brancas que usam. Ou com os militares, que abrem espaço com a cor e o brilho de suas túnicas, seus botões, suas condecorações...É sempre assim: profissões respeitadas se trombeteiam por meio de vestes apropriadas. No caso de lhes faltarem as vestes, basta-lhes falar a linguagem que testemunham das universidades que freqüentaram e das instituições que os acolhem. Ouçam o discurso inconfundível dos técnicos, especialistas, administradores...E pensar que em tempos idos era a batina!

Houve tempo em que os teólogos se anunciavam. Sua presença não pedia explicações, apenas respeito e admiração. E os colarinhos clericais, as vestes sacerdotais, a rigorosa linguagem dos que têm familiaridade com a erudição declaravam, com segurança e tranqüilidade, que um teólogo estava presente. Bons tempos aqueles em que os especialistas nos segredos divinos eram reverenciados e honrados...Era então que todos sabiam que as coisas que realmente importam são aquelas que não se vêem: a alma, o inferno, o céu, o purgatório, a Santíssima Trindade, a presença de Cristo na eucaristia. Como comparar coisas eternas e coisas efêmeras, coisas invisíveis e coisas visíveis? Que abismo de dignidade e honra as separa...Claro que existe um lugar para a ciência das coisas físicas. Mas ela estará, provavelmente, mais próxima das habilidades dos cozinheiros e da arte de ferreiros e seleiros: coisas a serem usadas para nosso conforto sem que nos esqueçamos nunca do seu caráter transitório.

E era sobre as coisas invisíveis e eternas que falavam os teólogos, coisas que a imaginação artística tornava visíveis na pintura, na escultura, na arquitetura...E os corações tremiam e choravam, sorriam e explodiam em esperança nas redes lingüísticas que os teólogos teciam.

Acontece que as coisas mudaram.

Progressivamente a imaginação se enfraqueceu. As pessoas deixaram de ter visões. E, se as tinham, tratavam de mantê-las em segredo. Porque se no passado visionários eram candidatos à santidade, agora eles se arriscavam à companhia dos loucos. Deus foi progressivamente expulso do mundo. Com a expansão da ciência os céus se esvaziaram de mistérios. Ficaram, repentinamente, desabitados. Sem amor, sem ódio, sem finalidade alguma...Apenas a beleza glacial, imóvel, das fórmulas matemáticas. Deus passou a ser uma hipótese desnecessária. Praticamente ele não fazia diferença alguma.

E aqui está o embaraço dos teólogos.

Antes eles falavam sobre Alguém que fazia toda a diferença e em quem se dependurava o destino dos homens. Agora eles falam sobre algo que não faz diferença alguma...Não admira que, aos olhos da ciência, o teólogo tenha ficado meio parecido com o alquimista, com o astrólogo...

À primeira vista pode parecer que o problema esteja no fato de que o teólogo nada mais faz que falar. Que diferença quando o comparamos com médicos, dentistas, mecânicos, agentes funerários, soldados, cozinheiros. Quando qualquer uma dessas profissões entra em ação, as coisas ficam diferentes: operações, obturações, soldas, funerais e sepulturas, paradas e batalhas, tortas e assados: as mãos trabalham, eventos e objetos são produzidos. Mas o teólogo fala, só fala...Acontece que também advogados, generais, políticos, psicanalistas e sociólogos são profissionais da fala – para não mencionar poetas e literatos.

E o fato é que ninguém duvida de que essas falas façam diferença. Se assim não fosse os clientes de advogados e psicanalistas não pagariam seus serviços a peso de ouro. E os generais? Haverá alguém que questione o poder de suas ordens? Elas abrem portas, fecham portas, fazem homens marchar e homens se esconder. E mesmo os sociólogos, sem clientes e sem tropas, são temidos pelo poder de sua fala, que tem a estranha capacidade de virar as coisas de cabeça para baixo, descosturando roupas de reis e sacerdotes, substituindo a pompa dos uniformes pela vergonha dos ventres proeminentes e peles flácidas, o que não raro lhes custa o ostracismo e o desemprego...Essas falas fazem uma diferença.

Não, os teólogos deixaram de se anunciar por meio de uniformes e não podem esconder o embaraço quando alguém lhes pergunta sobre a sua profissão.

Teologia, esta fala sobre as coisas invisíveis.
Que diferença faz?
Quais são os seus clientes?
Quem lhe pagaria honorários?
Quem entende seu estranho discurso?

Será que nossa clientela se reduziu a uns poucos sobreviventes do mundo romântico e mágico dos cavaleiros andantes ou àqueles que, de medo, não ousam dar ouvidos à ciência? Pergunta que nos fez Bonhoeffer. Ou não passaremos de fantasmas, assustando os desavisados? Lembro-me de um personagem de Camus que se divertia visitando os cafés freqüentados pela elite intelectual de Paris só para causar escândalo. É, brincava de teólogo... Quando a conversa já ia animada deixava escapar um palavrão obsceno: “Graças a Deus!” ou simplesmente: “Meu Deus...” E era pandemônio:

Bem sabe como os nossos ateus de roda de bar são comungantes tímidos. Um momento de espanto segui-se ao enunciado desta enormidade, entreolhavam-se, estupefatos, depois estourava o tumulto, uns fugiam do bar, outros cacarejavam com indignação sem nada ouvir, todos se retorciam em convulsões, como o diabo na água benta (Camus, s.d., p. 73).
Teria sido muito mais fácil se eu tivesse dito:
“Minha profissão? Escrevo estórias de fadas para crianças”.

Qualquer um teria entendido. Provavelmente alguns me teriam amado...Haverá coisa mais fascinante que falar sobre gigantes, bruxas más, princesas adormecidas, madrastas perversas, anões travessos, palavras encantadas, príncipes valentes e puros, felicidade até o fim dos seus dias? Tudo isto é permitido no reino da fantasia.

Mas e o teólogo? Sua fala também não se constrói com materiais tirados da fantasia? Sua boca não está ligada aos olhos da fé? Ao sonho? À visão?

E vi um novo céu e uma nova terra...
E Deus enxugará dos seus olhos todas as lágrimas...
O leão comerá palha como o boi,
o lobo habitará com o cordeiro,
as espadas serão transformadas em arados,
as lanças em tesouras de podar,
e os mansos e pobres herdarão a terra
e verão a Deus...

Por favor, que me digam a diferença entre o conto de fadas, que produz ternura, e a fala do teólogo, recebida com desdém...

Talvez a diferença tenha a ver com o fato de que contos de fadas são contados para fazer dormir as crianças, enquanto a fala teológica deseja fazer os homens acordar, viver...O teólogo fala como quem acredita. Mas é isto que ficou proibido: acreditar. Daí a vergonha e o estigma. Como é possível que o levem a sério? Mais triste: como pode o teólogo levar-se a sério?

Compreende-se que ele se sinta perdido perante seus sólidos interlocutores cujas profissões todos entendem: pés firmemente colados ao cão, imaginação subordinada à observação, o desejo do corpo controlado pelas exigências da realidade. De fato, os teólogos, pássaros de asas quebradas, não podem com eles competir.

Daí o seu silêncio, a solidão, as línguas ininteligíveis do seu discurso, os guetos em que se refugiam: comportamento de pessoas amedrontadas, que se recusam a falar por saber que uma vez dita a primeira palavra eles por ela serão traídos. E a palavra dita ficará mal / dita...

Mas é possível procurar saídas por um outro lado. E é assim que os vemos freqüentemente concordando em dizer adeus ao seu jogo tal como era jogado no passado, conformando-se em vê-lo reduzido à condição inferior de um simples dialeto de uma linguagem mais nobre – tal como acontece com o caipira que tem de esquecer sua fala e sucumbir à música e à gramática do discurso urbano. E o teólogo – por derrota ou amor, não importa – se entrega a outros jogos, seja a sociologia, seja a psicanálise, seja a política. E então, e não sem um certo constrangimento, ele muda suas coisas e palavras dos espaços da metafísica e as entulha nas cavernas da ideologia ou da neurose.

O que se ganha com isto?

É muito simples.

Ninguém faz perguntas acerca da verdade de tranqüilizantes e estimulantes. A questão da verdade sucumbe perante as evidências de sua utilidade. Lembram-se do Admirável mundo novo, de Huxley? Até lá, sob o domínio de cientistas, tecnocratas e administradores, a felicidade era terapeuticamente distribuída: em pílulas. Compreende-se assim que mesmo uma sociedade totalmente secularizada e atéia possa reconhecer o valor do ópio, seja sob a forma de compostos químicos, seja sob a forma de ilusões religiosas. E, se os sacerdotes de uma ordem estabelecida preferem o sono, os iconoclastas preferirão os corpos retesados em danças guerreiras. Há soluções químicas para ambas as demandas. Há poções teológicas para ambos os casos. E assim seria possível ao teólogo ressuscitar das cinzas, agora não mais sob o patrocínio da verdade, mas sob a égide da utilidade. Apenas um pequeno ajustamento seria necessário: o teólogo se descobriria vizinho e colega dos boticários...

Foi então que uma curiosa idéia me veio à mente. E se o meu interlocutor, em vez de se retrair com um sorriso enigmático ao ouvir minha resposta, prosseguisse com traqüilidade e candura:

“Então o senhor é um teólogo! Sabe, sempre me fascinei pela aura de mistério que envolve a teologia. Mas nunca pude entendê-la. Ponha-se na minha situação. Se o senhor tivesse como companheiro de viagem um matemático e lhe perguntasse: ‘Expliquei-me o que é a matemática’ – qual seria a sua reação se ele se pusesse a discorrer sobre os Princípia mathematica de Russell e Whitehead? Pois é assim que eu me sinto quando os teólogos começam a falar...Por favor, faça um esforço...”

Espantei-me então em descobrir em meu interlocutor um amigo fraterno que articulava, com voz clara, perguntas que eram muito minhas. Mais do que ele, era eu que queria entender aquilo que fazia, ao brincar com os símbolos que constituem a teologia.

Você se espanta de que alguém faça algo sem saber por quê?

Não deveria.

Na verdade são poucas, pouquíssimas, aquelas atividades que realizamos sob a luz do saber. A começar pelo uso da linguagem, que falamos sem conhecer as regras da gramática, e que nos foi ensinada pelos nossos pais sem que eles saibam como o fizeram. E andamos de bicicleta, nadamos, cantamos, fazemos amor – e se nos pedirem explicações teremos de confessar que pensamos pouco sobre o assunto e nossas conclusões são ainda insatisfatórias.

É no momento em que as coisas se tornam penosas e difíceis que o conhecimento é invocado. Pessoas que não sofrem do fígado nem mesmo sabem que o possuem. É necessário que ele doa – e com a dor surge a consciência. E é isto que acontece com os sapatos confortáveis que usamos o dia todo sem deles nos lembrar até que uma pedrinha transforma o pé no centro do mundo. Parodiando o poeta português Fernando Pessoa eu diria que “pensamento é doença do corpo”.

Digo isto para sugerir que para aqueles que amam a teologia é uma função natural como sonhar, ouvir música, beber um bom vinho, chorar, sofrer, protestar, esperar... Talvez a teologia nada mais seja que um jeito de falar sobre tais coisas dando-lhes um nome e apenas distinguindo-se da poesia porque a teologia é sempre feita como poemas e prece...Não, ela não decorre do cogito da mesma forma como poemas e preces. Ela simplesmente brota e se desdobra, como manifestação de uma maneira de ser: “suspiro da criatura oprimida” – seria possível uma definição melhor?

Mas, no momento em que surge a dor da incompreensão e as palavras são recebidas com um sorriso de escárnio, a teologia se transforma em atividades problemáticas. E acontece então aquilo que ocorre com as pessoas portadoras de uma deformação facial que, conscientes a cada minuto de sua diferença e dos olhares de espanto ou dó, se sentem obrigadas ou a se esconder ou a assumir a diferença, como um desafio.

E é isto que eu proponho: sem desculpas e sem capitulações, levantar o rosto e simplesmente explicar para os outros e para nós mesmos, especialmente para nós mesmos...

O que é a teologia?

E nos voltamos para nosso interlocutor que propôs a pergunta e espera...Compreendemos, de saída, que será necessário nos valermos das parábolas e analogias. É assim que se caminha: do conhecido para o desconhecido.

“O senhor já ouviu falar de Castália? Isto mesmo. Está lá no livro de Hermann Hesse O jogo das contas de vidro. Castália, ordem monástica de um mundo no futuro. Ordens monáticas conhecemos muitas. Mas o que distingue Castália é a curiosa maneira que ela encontrou para organizar a sua vida espiritual em torno de um jogo, um brinquedo.”
Por favor, não deixe levar pelo mal-estar causado por estas duas palavras: jogo, brinquedo. Claro que somos pessoas sérias e que preferimos fazer nossos investimentos no trabalho e nas ações graves e heróicas que podem transformar a história. Quanto aos jogos e brinquedos, estão mais próximos do ócio e do fútil, coisa de crianças, e será sempre possível questioná-los com a terrível pergunta: “Quais as suas implicações políticas?”

Que se trata de coisa infantil não há dúvidas.

Mas, lembrando-nos de que “se não nos convertermos e não nos fizermos como crianças não poderemos ver o reino dos céus”, teremos de dar um crédito de confiança a Castália, para que ela nos explique o seu jogo.

O senhor se espanta? Eu compreendo. Mas o fato é que para se fazer teologia e para se jogar o jogo das contas de vidro (era assim que se chamava o exercício espiritual de Castália) é necessário ter um pouco do espírito das crianças...

Jogos e brinquedos são coisas muito sérias. Veja esta maravilhosa sugestão que nos vem de Schiller:

Um animal trabalha quando uma falta
é a força que o impulsiona à atividade,
mas ele brinca quando é a
abundância, um excesso de vida,
aquilo que o empurra e compele à ação...
(SCHILLER, s.d, apud KAUFANN, 1966).

Nos jogos e brinquedos a liberdade e a necessidade se encontram, e a alegria que deles deriva brota justamente da liberdade triunfante que domina a necessidade, produzindo um mundo passível de ser amado.

A vida não é ela mesma um jogo? De forma alguma estou dizendo que o jogo não é sério. Milhões são a ele sacrificados, diariamente. Militares que tomam decisões sobre construção e alocação de bombas atômicas e alocação de tropas não se comportam exatamente como jogadores de xadrez? E a economia? Os investimentos na Bolsa? Tudo não se processa num estranho paralelismo com as regras de jogos? E nós, por não podermos evitar as máscaras, desempenhamos nossos papéis no palco, como teólogos, professores, amantes, policiais, revolucionários, crentes, cientistas... Claro que em muitos dos jogos as pessoas se esquecem de que estão jogando. Seus jogos se transformam em coisa séria, os reis e os palhaços não mais riem de si mesmos e nem lavam o rosto ou vestem pijamas quando vão dormir. Perderam a memória de quem são.

Mas voltemos ao jogo das contas de vidro dos monges de Castália.

Em que consistia ele?

Em música existe uma coisa muito comum chamada “variações sobre um tema dado”. A idéia é muito simples.

O compositor toma uma série de sons e com eles constrói um tema austero, nu, desprovido, de qualquer tipo de ornamentação.

Inicia-se então o brinquedo. E o compositor pergunta a este tema:

“Quais são os limites da sua plasticidade? Até que ponto será possível alterá-lo sem destruir sua identidade?

E aceitando o tema como motivo o compositor estabelece-o como núcleo central de uma teia a ser tecida. E ele se põe a construir uma tapeçaria de sons, variando, alterando, invertendo, adornando, complicando, fazendo assim surgir, por meio de sucessivas e progressivas revelações, as possibilidades que se escondiam, adormecidas, no tema inicial.

Bach constrói as monumentais “Variações Goldberg”.

Mozart faz a mesma coisa, demonstrando grande prazer nesse brinquedo musical.

Beethoven não resiste ao fascínio do jogo, e por vezes sem conta suas composições portam o título “variações...”

E não podemos nos esquecer da belíssima peça orquestral de Britten, “Variações sobre um tema de Purcel”, para ajudar crianças e grandes a entender a orquestra...

Mas e se os sons não bastarem para a construção? O mundo está cheio de outras coisas. Ao lado dos sons musicais estão as cores, materiais sólidos como pedra e madeira, as palavras. E há jardins, poemas, danças, teorias científicas, mitos, ritos, monumentos, jóias, túmulos... Claro que não podemos manipular tais coisas como se fossem peças de xadrez. Mas podemos submetê-las à mágica transubstanciação da linguagem, que nos permite remover uma montanha inteira apenas pronunciando uma palavra. As coisas se transubstanciam em contas de vidro, tornando-se assim peças do nosso jogo.

Imaginemos agora um jogo semelhante a “Variações sobre um tema dado”, e que pode e deve ser construído com todos os materiais simbólicos possíveis, extraídos da experiência humana e de tudo aquilo que a cultura já produziu. A tarefa: construir uma arquitetura simbólica que evoque e represente a presença escondida do tema proposto, fazendo com que todos os cantos e recantos do nosso mundo entrem em reverberações harmônicas, cantando partes de uma polifonia, revelando assim um mágico encanto, onipresente... Em torno da grande conta de vidro, temática fundadora, central, as outras vão sendo agregadas, até que ao final de tudo canta, em cânon, o que foi proposto no início. Esta é a idéia básica do exercício lúdico em torno do qual girava Castália: o jogo das contas de vidro.

E se eu fizesse a insólita sugestão de que a teologia é um jogo de contas de vidro? E que Hermann Hesse talvez tenha se inspirado naquilo que os teólogos têm feito através dos séculos como modelos para os exercícios espirituais dos monges de Castália?

O que faz um teólogo?

Ele fala.

Pode ser que faça muitas coisas mais gratificantes, mais belas, mias relevantes: o que não se pode negar é que, como teólogo, ele lida com símbolos. Brinca com eles.

Em que se distingue de outros jogadores de símbolos?

É simples. Ele usa contas de vidro que os outros não usam e não usa muitas das que os outros empregam.

Como caracterizar as contas teológicas? Não é difícil. Seu brilho, suas cores, seu calor... Não é possível confundir. Mas voltaremos a isto em outra ocasião. Porque agora o teólogo, nosso amigo, se dirige para a arca onde se encontram guardadas as suas contas. E ele começa a retirá-las. Mitos, ritos, símbolos, visões utópicas, poemas, salmos, preces, maldições, estórias, gestos, deseros, cidades, mortes, assassínios, ressurreições, esperanças, homens e mulheres de mãos dadas, corpos colados em amor, prisões, lágrimas, dores, muitas dores, sorrisos, muitos sorrisos, rostos, muitos rostos...

E o teólogo toma as contas inertes, aquece-as em suas mãos, elas fulguram, ganham vida, e ele começa a organizá-las como se fossem tapetes, amarrando os símbolos uns nos outros até que a rede se alongue o bastante para ser pendurada nos dois lados do abismo. Lembram-se de Zaratustra?

“O homem é uma corda sobre um abismo...”

E o teólogo estende sobre o abismo a rede simbólica que ele teceu no seu jogo de contas de vidro, para aqueles que quiserem tomar o risco de nela descansar seus corpos.

Ah! Como deve parecer insólita esta proposta.

Que teólogo, no passado, teve a desfaçatez de comparar seu trabalho ao jogo e ao artesanato? Seus rostos graves revelavam a gravidade da sua tarefa: abrir as portas das coisas divinas e eternas. Sabiam que, em oposição às sombras em que os outros homens viviam, eles habitavam os lugares sagrados onde a voz de Deus se fazia ouvir e contemplavam a luz clara e direta da Revelação. Trabalhavam sob o imperativo da verdade. E da mesma forma como os cientistas da natureza, que também por amor à verdade subordinavam a imaginação à observação e se tornavam totalmente submissos ao objeto, os teólogos, cientistas das coisas divinas, desejavam que sua fala fosse conhecimento rigoroso e objetivo das coisas que têm a ver com a divindade.

Mas agora eu sugiro que a teologia é jogo, construção, artesanato: coisa humana, por demais humana: Dizer que teólogos são jogadores/tapeceiros não será o mesmo que dizer que eles são jogadores/trapaceiros.

Compreendo o espanto de todos e, para amenizar a situação, eu invoco dos mortos um contador de parábolas, Kierkegaard, que nos dirá de um dançarino curioso...

Se um dançarino desse saltos muito altos, poderíamos admirá-lo.
Mas se ele tentasse dar a impressão de poder voar o riso seria seu merecido castigo, mesmo se ele fosse capaz, na verdade, de saltar mais alto que qualquer outro dançarino. Saltos são atos de seres essencialmente terrestres que respeitam a força gravitacional da terra, pois que o salto é algo momentâneo. Mas o vôo nos faz lembrar os seres emancipados das condições telúricas, um privilégio reservado para as criaturas aladas...

A razão para a parábola? É muito simples.

Teólogos são dançarinos. E se o nosso companheiro de viagem recuou, embaraçado, quando lhe confessamos nossa profissão, talvez isto tenha se devido ao fato de já ter ele visto o espetáculo ridículo de bailarinos que se faziam passar por seres alados: teólogos que confindiam a voz dos homens com a voz de Deus, e atribuíam solidez àquilo que é fugaz e verdade ao que não passa de um palpite efêmero...

E pensar-se que a beleza do bailado pode ser recuperada... Claro que isto não se conseguirá atribuindo-se seja ao teólogo, seja à Igreja, o poder de voar como os pássaros. O fascínio renascerá justamente quando os homens puderem ver o lugar onde os pés tocam o chão...

Dizer que teólogos são pessoas que jogam o jogo das contas de vidro é confessar que eles têm os pés no chão: porque um jogo é algo que se constrói de baixo para cima com argúcia, engenhosidade e sobretudo amor. E é bem possível que algo estranho aconteça ao fim do nosso relato. Se tivéssemos dito ao nosso companheiro que somos seres alados, ele não teria podido evitar seu riso e seu desprezo. Mas nós lhe confessamos que fazemos nada mais que brincar com símbolos, fazendo improvisações em torno de temas dados. Parecemos voar? Apenas saltos, pois nossos pés só deixam o chão por curtos e fugazes momentos. E a teologia se desnudaria como coisa humana que qualquer um poderia fazer se sentisse o fascínio dos símbolos, o amor pelo tema e tivesse a imaginação sem a qual os pés não se despregam da terra. E aí o possível estranho fim de uma consversa: porque o desconhecido poderia se tornar um discípulo... Quem poderia negar a beleza do jogo das contas de vidro? E o teólogo se redescobriria não mais vestido com as cores fulgurantes dos que estão em cima, mas na tranqüila nudez daqueles que, como os demais, andam pelos caminhos comuns da existência.

Rubem Alves (Teologia como 'variações sobre um tema dado' - 08/09/05)

segunda-feira, 14 de julho de 2008

O MENINO E A BORBOLETA ENCANTADA - RUBEM ALVES


Mil e uma noites haviam se passado desde que o Pássaro Encantado partira. Então ele voltou. Era madrugada. A Menina o viu tão logo a luz alegre do sol fez brilhar as suas penas. Ela o estava esperando. Os apaixonados esperam sempre... Ah! Como foi bom aquele abraço de saudade! Desta vez as suas penas estavam coloridas com as cores das florestas sobre as quais voara. O Pássaro Encantado pôs-se então a cantar os seres das matas, árvores, orquídeas, regatos, cachoeiras, elfos e gnomos... A Menina não se cansava de ouvir. Ouvia e pedia que ele contasse de novo as mesmas estórias, do mesmo jeito. E assim viviam os dois se amando por dias e dias. Mas sempre chegava o momento em que o Pássaro dizia: “Menina, o vôo me chama. Preciso partir. É preciso partir para que o nosso amor não tenha fim. O amor precisa de saudade para viver...” A Menina chorava baixinho mas compreendia. E assim o amor acontecia entre partidas e retornos.

As asas do Pássaro pareciam incansáveis. Estavam sempre à procura de lugares desconhecidos. Ele já visitara montanhas encantadas, planícies geladas, lagos, rios, abismos, castelos, uma cidade construída na divisa entre a realidade e a fantasia, um reino onde era proibido estar triste, lugares sagrados, vulcões, o país dos dragões verdes e dos gigantes amarelos, jardins, selvas verdes, mares azuis, praias brancas... Sobre todos esses lugares ele lhe contara estórias. A Menina não tinha asas. Mas ela voava nas estórias que o Pássaro lhe contava.

Mas os anos foram se passando. O Pássaro envelheceu. Suas asas já não eram as mesmas da juventude. E também os seus sonhos já não eram os sonhos da mocidade. Deseja-se partir quando é manhã. Mas quando o sol se põe o que se deseja é voltar. E assim um desejo novo surgiu no coração do Pássaro crepuscular: voltar...

O sol acabara de se pôr. Vênus brilhava no horizonte. Foi então que a Menina o viu. Suas penas pareciam incendiadas pelo sol. Depois do abraço ele disse para a Menina algo que nunca lhe dissera antes: “Menina, conte-me as estórias da minha ausência...” E foi assim que, pela primeira vez, o Pássaro se calou e a Menina lhe contou estórias.

Por muitos dias o Pássaro e a Menina gozaram do seu amor. Mas o Pássaro já não era o mesmo. Algo acontecera com os seus olhos. Já não procuravam horizontes longínquos. Eles olhavam as coisas simples que havia na sua casa, coisas que sempre estiveram lá, mas que ele nunca havia visto. Não vira porque o seu coração estava em outro lugar. É o coração que nos diz o que é para ser visto.

Aconteceu então, num dia como os outros, o Pássaro abraçou a Menina, e ele sentiu, nas costas da Menina, algo que nunca sentira.

“Menina, o que é isso?” ele perguntou. Ela enrubesceu e respondeu:

“Asas, pequenas asas... Estão crescendo nas minhas costas...”

E para que ele as visse baixou sua blusa. E ele viu. Sim, pequenas asas, delicadas asas, asas de borboleta, coloridas, diáfanas, frágeis... E ele percebeu que a Menina se preparava para voar. Sua Menina se transformara numa borboleta...

O Pássaro sorriu uma mistura de alegria e de tristeza. Sentiu um leve tremor nos lábios, aquele mesmo tremor que vira nos lábios da Menina a primeira vez que lhe dissera: “Eu quero partir...” Chegara a hora em que ela partiria e ele ficaria. Ele seria, então, aquele que esperaria. Como é dolorido ficar! A solidão de quem fica é maior que a solidão de quem parte! Quem parte vai para mundos novos, cheios de maravilhas desconhecidas. Quem fica, fica num espaço vazio, de objetos velhos, esperando, esperando, contando os dias.

O momento da despedida chegou. A Menina, flutuando com suas grandes asas de borboleta, disse ao Pássaro: “Preciso partir...”

O Pássaro teve vontade de chorar. Queria lhe dizer: “Não vá. Eu a amo tanto.” Mas não disse. Lembrou-se de que essas haviam sido as palavras que a Menina lhe dissera, quando ele partira pela primeira vez. O Pássaro temia por ela. Suas asas eram tão frágeis, asas de borboleta que quebram-se atoa. Queria estar com ela para consolá-la na solidão e no cansaço. Mas não fez gesto algum. Ele sabia que os abraços que não se abrem são mortais para o amor.

Ele estendeu a sua mão num gesto de despedida. A Borboleta voou e nela pousou. Ele se aproximou dela, como se fosse beijá-la. Mas não beijou. Apenas soprou suas asas suavemente. “Voa, minha linda Borboleta”, ele disse, se despedindo. A Borboleta bateu suas asas, voou e desapareceu na distância.

Então, ao olhar de novo para si mesmo ele não se reconheceu. Já não era o Pássaro Encantado de penas coloridas. Transformara-se num Menino... Um Menino que não sabia voar. Um Menino que esperava a volta da Borboleta Encantada. Então ele voaria nas asas das estórias que ela haveria de lhe contar...

*********************************
Esta “estória” tem uma “história”. Trata-se da continuação da estória “A Menina e o Pássaro Encantado” (Edições Loyola) que escrevi para minha filha pequena, Raquel. Devia ser o ano de 1980. Eu iria fazer uma viagem longa para o exterior e ela chorava. Eu devia ter 46 anos, bastante cabelo preto e energia para conquistar o mundo. Os anos se passaram, minhas asas se cansaram e agora nem tenho energia e nem vontade de conquistar o mundo. Ainda tenho prazer em viajar mas as viagens freqüentemente me cansam. Não é cansaço físico. É um cansaço na alma, com aquele descrito no primeiro capítulo do livro de Eclesiastes. Quando todo mundo está viajando eu quero mesmo é ficar. Karl Jaspers dizia que não viajava porque na casa dele estavam todas as coisas dignas de serem conhecidas. Minha loucura ainda não chegou perto da dele. Mas o fato é que há, na minha casa, uma infinidade de coisas interessantíssimas que eu deveria gastar tempo em conhecer. Tantos poemas e contos que não li, tantos livros de arte, tantos CDs que ainda não ouvi... E há também Pocinhos do Rio Verde, meu mosteiro... Esse é o destino dos pais. Há um momento em que os filhos batem as asas e se vão. Os pássaros sabem disso e não reclamam. Muitos pais e muitos avós tratam de fazer lugares deliciosos para seus filhos e netos passarem os fins de semana! Na viagem para Pocinhos do Rio Verde passo sempre defronte a um “Sítio do Vovô”. Imagino o Vovô e a Vovó sozinhos na varanda do sítio, esperando os filhos e os netos que não vêm. Eles estarão provavelmente em algum clube ou praia... Há um momento na vida em que o destino dos pais é esperar...Os apaixonados são aqueles que esperam...

RUBEM ALVES - Publicado no Correio Popular 13/02/2005

sexta-feira, 4 de julho de 2008

Recomendo o filme: PS I LOVE YOU


(Tema do filme "P.S.: I love you")

Love you 'till the end - The Pogues

I just want to see you
when your all alone
I just want to catch you if I can
I just want to be there
When the morning light explodes
On your face it radiates
I cant escape
I love you till the end

I just want to tell you nothing
You dont want to hear
All I want is for you to say
Why dont you just take me
Where I've never been before
I know you want to hear me
Catch my breath
I love you till the end

I just want to be there
When were caught in the rain
I just want to see you laugh not cry
I just want to feel you
When the night puts on its cloak
I'm lost for words dont tell me
'Cause all I can say
I love you till the end


Tradução:

Eu amo vc até o fim

Eu só quero ver você
Quando você estiver totalmente sozinha
Gostaria apenas de agarrar você se puder
Só quero estar lá
Quando a luz da manhã explode
Em seu rosto se irradia
Eu não posso escapar
Eu amo você até o fim

Eu só quero apenas dizer nada
Que você não queira ouvir
Tudo o que eu quero é que você diga
Porque você não me leva
Aonde eu nunca estive antes?
Eu sei que você quer me ouvir
Tome minha respiração
Eu amo você até o fim

Só quero estar lá
Quando formos capturados na chuva
Eu só quero ver você rir não chorar
Só quero sentir você
Quando a noite se coloca sobre o seu casaco
Estou perdido por palavras que você não me disse
Porque tudo o que posso dizer
Eu amo você até o fim

Grafologia


"...preferiria ver meus escritos fotografados a ve-los impressos, porque a tipografia destrói a escrita, que é encantadora, viva e cheia de caráter" (Nijinsk)


Grafologia

O que é?
Um instrumento gráfico que projeta através da letra escrita a personalidade humana. É um instrumento de análise do comportamento, revelando a forma de ser, pensar e agir de quem escreve. Um instrumento valioso de apoio técnico de profissionais que trabalham com o comportamento humano.


Para que serve?

Para todas as situações em que o entendimento do funcionamento humano se faça necessário, uma vez que a Grafologia, em sua simplicidade, nos revela com clareza ações, reações, interações, potencialidades e caracteres da personalidade de quem escreve. Na empresa revela as potencialidades básicas da personalidade e seu funcionamento geral. Na Clínica, serve como apoio técnico para avaliar o processo evolutivo do cliente e/ou dar informações valiosas para os terapeutas que dela necessitam para linear seu trabalho terapêutico.


Qual seu diferencial?

Ela nos revela como funcionamos quando estamos sob stress ou tensão. Mostrando as nuances de variação reais do ser humano e nos orientando de como nossas potencialidades ficam ou não alteradas e nos mostrando desta forma os cuidados que devemos ter nestes momentos, em nossas interações, ou situações vivenciais.


História

A grafologia tem origem curiosa. Ela nasceu no confessionário de uma igreja na Espanha, no século XIV. O rabino Samuel Hangid costumava aconselhar os fiéis depois de analisar o modo como eles escreviam bilhetes. Dois séculos depois, médicos espanhóis e italianos começaram a fazer uma comparação entre a grafia e o caráter. Surgiram as primeiras tentativas de estabelecer regras de análise da escrita. A história começou a ficar séria mesmo quando surgiu a primeira escola de grafologia, em Paris, no século XIX. Depois disso, os grafólogos incorporaram conceitos de Freud e Jung para interpretar o inconsciente por meio da análise da grafia.


Aspectos psicológicos da Grafologia

A Grafologia hoje é amplamente utilizada como um recurso de conhecimento da personalidade humana no mundo todo. É holística e universal, pois a análise da letra pode ocorrer em todos os alfabetos do planeta.

A Psicologia Transpessoal e a Grafologia andam lado a lado na percepção mais abrangente do Homem, onde dentro de uma visão transpessoal a Grafologia facilita o entendimento da mente emocional humana, revelando suas nuances mais íntimas de funcionamento, inclusive como somos quando estamos sob stress ou tensão. Para a Psicologia Transpessoal o indivíduo é inicialmente a integração de 4 corpos básicos, um que pensa, um emocional que sente, um corpo físico que sustentam os demais, e um corpo energético, que estabelece o fluxo interativo entre todos.

Na Psicologia de base transpessoal o cliente recebe orientação e é trabalhado em todos os aspectos para que este equilíbrio se estabeleça o mais rápido possível. O Psicoterapeuta de base Transpessoal tem amplo conhecimento da "existência humana", entende profundamente o funcionamento da psique e acopla a este conhecimento todo um embasamento teórico e técnico do funcionamento bio-fisiológico e energético, com estudos fundamentado na física quântica e na medicina oriental.

Todo trabalho é cientificamente comprovado e já reconhecido nos dias de hoje. Com o diferencial de ser de rápida eficácia; pois eficiente todos os métodos terapêuticos o são, a Psicoterapia Transpessoal é apenas mais rápida e objetiva na sua eficácia. A Grafologia acompanha o fluxo da psicologia Transpessoal, fazendo uma leitura do corpo mental e emocional, fluídica, respeitando o momento real do ser que escreve e validando seus potenciais mesmo quando ele, que escreve, não está em seu melhor estado de equilíbrio.

A Grafologia clareia nossa percepção à cerca de nós mesmos e nos propicia desenvolver caracteres natos ou inertes, não antes validados. Elas associadas, Psicologia Transpessoal e Grafologia, nos auxiliam a reconhecer "como somos" e a fazer a "aceitação" do que somos. Respeitando nossas individualidades e tirando delas o máximo de qualidades para nossas vidas no dia-a-dia.

São comportamentos cotidianos que distinguem os indivíduos uns dos outros. A escrita é um desses comportamentos que todos os dias é exercitado. São as formas e o tamanho do que é desenhado que descreve projectivamente o que o indivíduo pensa.

A Grafologia é uma ciencia que estuda e analisa a caligrafia tendo como objetivo principal determinar estados físicos, mentais e emocionais do escritor. Torna assim possível o conhecimento de características da personalidade e do caráter do indivíduo.

Como instrumento de análise fornece informações preciosas sobre componentes do comportamento do autor, o potencial, as emoções, os sentimentos, as aptidões e a energia vital. Através da escrita, expressamos vivamente o nosso psiquismo. Uma prova que o ato de escrever é resultado de um comando cerebral.

O ato de escrever reúne o uso de habilidades de discurso, de leitura, de composição e de cordenação motora. Torna-se assim complicado executar paralelamente outras tarefas como exercitação motora coordenada, continuação de um diálogo e desenvolver atividades num computador. A percepção, o movimento e cognição dinamicamente integrada são tarefas desenvolvidas que requerem a concentração total da atenção.

O ato de manuscrever cumpre excepcionalmente as exigencias de um teste projetivo de personalidade. A escrita projeta uma descrição da personalidade. O gráfico é um sinal ou um símbolo, vísivel de uma atributo comportamental e/ou cognitivo. Por tal razão o ritmo da escrita de uma pessoa não pode ser duplicado por um outro indivíduo.

Pequenos atos, comportamentos, tom de voz, maneira de encarar os fatos e até mesmo a meneira como dispõe as idéias no papel podem expressar a personalidade de qualquer pessoa. Não há como disfarçar, pois até o disfarce é revelador. O raciocínio lógico cuida do conteúdo da mensagem escrita e o inconsciente deixa sua marca em cada linha, cada curva e letra desenhada no papel.

Para a grafologia não existe escrita bonita ou feia, mas sim o nível positivo ou negativo que expressa o equilíbrio e a harmonia do ser humano. Usada como forma de auto conhecimento, em tratamentos psicoterapeuticos e na área criminalista (embora não possa apontar um criminoso), a grafologia acusa tendencias agressivas, traços de falta de sinceridade ou possíveis distúrbios emocionais.

Para uma análise grafológica geralmente é solicitado um texto de 20 linhas no mínimo, em papel branco não pautado. Nesse pequeno texto é possível estudar aproximadamente 200 sinais e o cruzamento dessas informações é que reflete a personalidade do autor, não importando se é um poema, uma carta ou um simples recado manuscrito.

Como as pessoas estão em constante mudança e o estado de espírito sofre alterações, o mesmo acontece com a forma de colocar as idéias no papel, os traços da escrita podem variar durante a vida, o ano, uma dia ou até mesmo em uma mesma carta.

Entre os psicanalistas, a grafologia é vista com restrições. "A fala é muito mais importante porque revela atos falhos. A grafia mostra apenas o temperamento, não a personalidade", analisa a psicanalista carioca Regina Taccola. "A grafologia funciona apenas como ponto de partida. Definir a personalidade humana pela grafia é pretensioso demais", reforça Marlene Dias da Silva, da Sociedade Brasileira de Psicanálise.

De fato, nada é tão simples como parece. Uma letra ascendente que, para o grafologista, sinaliza ambição desmedida, por exemplo, pode representar um disfarce para um complexo de inferioridade, segundo a interpretação do psicanalista.

De acordo com João Bosco, autor do livro Grafologia: a ciência da escrita, "Da mesma forma que uma impressão digital jamais se repete, não existe no mundo uma grafia igual a outra. Também não se pode alterá-la de propósito, mesmo que mudem alguns detalhes". Quando crianças, aprendemos a escrever com um caderno de caligrafia um determinado estilo de escrita. O caderno de caligrafia em que baseamos nossa escrita vai depender de quando e onde crescemos. Então, a princípio, provavelmente escrevíamos de uma maneira parecida com a das crianças de mesma idade e local. Com o passar do tempo, aquelas características de escrita que aprendemos na escola, nossas características de estilo, ficam apenas subjacentes em nossa caligrafia. Desenvolvemos características individuais, que nos são peculiares e diferenciam nossa caligrafia daquela de outra pessoa. A maioria de nós não escreve da mesma maneira que escrevia na primeira ou segunda série. Enquanto duas ou mais pessoas podem ter certas características individuais semelhantes, a chance de elas terem 20 ou 30 características iguais é tão improvável que muitos analistas consideram isso impossível.

Primeiramente, os grafologistas devem ser capazes de distinguir com precisão as características de estilo e as individuais, o que requer muita prática. Eles podem ignorar as características de estilo, que são úteis apenas para determinar com um bom grau de exatidão que caderno de caligrafia a pessoa usou. As características individuais são as mais importantes para determinar a autoria dos documentos.


O grafólogo avalia a escrita de forma simultânea em três dimensões:

Projetivo - Ao escrever, circunscrevemos a grafia dentro de um espaço que tem inúmeras convenções: margens, distância entrelinhas, espaços entre as letras, entre as palavras, acentos, pontos, parágrafos. Dentro destas convenções a pessoas instala-se com maior ou menor liberdade em função de seus próprios medos, anseios, desejos, convicções etc. O ponto de partida é o modelo escolar, contudo é nem sempre toma ele como base e o transforma. É óbvio que isto tem ligação íntima com sua experiência com o meio em que vive, que transita, com os seus condicionamentos. Isto nos permite observar quais são suas preferências; aversões etc.; ou muito mais características, a partir de símbolos universais. Nesta parte a grafologia tem como ponto de partida Max Pulver, ao longo do tempo foi acrescentado todo o conteúdo do desenvolvimento do sujeito (teorias de Freud, Jung, Klein, Eric Bern; Winnicott, etc.).

Expressivo - A escritura é um gesto fossilizado (o termo é do grafólogo europeu Michel de Grave). Isto é, é o resultado de um gesto psicomotor que pode ser interpretado com paralelos da linguagem não verbal (paradoxalmente, pois é uma forma de linguagem). É a expressão da psicomotricidade da pessoa escreve e se interpreta com umas teorias diferentes às da linguagem projetiva (Ludwig Klages, Luria, Vigotsky, etc.).

Representativo - As formas da escrita representam uma escolha, um elemento de representação social da pessoa, que se mostra de forma inconsciente com elas para causar uma impressão no outro, que lê sua escrita. As teorias destas interpretações são oriundas de símbolos universais: a curva, a reta, etc. E isto certamente se conecta com o projetivo, mas com outra dimensão. (Esta forma de estudar a escritura (observação / interpretação) faz que o programa deva incluir matérias como Psicologia diferencial.


Alguns princípios básicos da grafologia

A escrita é uma manifestação motriz e ao mesmo tempo intelectual: A mão escreve, o cérebro comanda.(isto só foi demonstrado cientificamente pelo médico alemão Dr. Preyer no final do século XIX).

A avaliação da escrita fixa-se em duas funções essenciais: MOTRICIDADE e INTELIGÊNCIA

A escrita é um gesto essencialmente humano; sem os critérios acima é impossível escrever. A criança com um ou dois anos não consegue escrever pois não desenvolveu motricidade para tal.
As alterações no estado de espírito influem na execução material da escrita. Assim depressão, delírios, excitação, etc, revelam sintomas que se traduzem em gesto gráfico. É óbvio que em algumas doenças necessita-se de mais pesquisas científicas visando uma validação confiável.


Análise Grafológica

» Auto-conhecimento: Para você que deseja saber mais a respeito de você mesmo, como, por exemplo, suas potencialidades de realização, interativas e intelectivas, e também como você é quando está sofrendo stress ou tensão. É uma foto da sua personalidade. É uma forma de você olhar para dentro de você mesmo.

»Recursos Humanos (Seleção de Pessoal): Adaptar o perfil do candidato, suas potencialidades, à função na empresa e à empresa.» Orientação Vocacional: Orientar na escolha de uma profissão de acordo com as suas características básicas de personalidade.

» Análise de Potencial: Para empresas promoverem e/ou reorganizarem seu staff gerencial e/ou produtivo, analisando caracteres e potencialidades para a nova função.

» Casos Clínicos (Diagnósticos médicos): Para terapeutas e médicos obterem informações acerca do funcionamento geral de seus clientes, otimizando a eficácia da terapêutica, acompanhando o processo evolutivo dos casos, quer na terapia psicológica, como fisiológica, pois existem sinais claros da transformação na letra.

»Orientação Vocacional

»Orientação Matrimonial e pré-matrimonial

» Homeopatia: Revela o "modus vivendis", traços mais evidentes, comportamentos característicos, ações e reações, funcionamento em estado não OK, sob stress ou tensão.

» Terapia Floral: informa o funcionamento da personalidade clareando aspectos básicos que facilitam a orientação terapêutica.
Fonte:www.grafologia.com.br/curricular.com.br/pessoas.hsw.uol.com.br/pt.wikipedia.org

quinta-feira, 3 de julho de 2008

Carlos Drummond de Andrade


Amar

Que pode uma criatura senão,
senão entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?

Que pode, pergunto, o ser amoroso
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?

Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o áspero,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina.

Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.

Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.

Carlos Drummond de Andrade

terça-feira, 1 de julho de 2008

Mulheres de Atenas - Chico Buarque



Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas
Vivem pros seus maridos, orgulho e raça de Atenas
Quando amadas, se perfumam
Se banham com leite, se arrumam
Suas melenas
Quando fustigadas não choram
Se ajoelham, pedem, imploram
Mais duras penas
Cadenas

Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas
Sofrem pros seus maridos, poder e força de Atenas
Quandos eles embarcam, soldados
Elas tecem longos bordados
Mil quarentenas
E quando eles voltam sedentos
Querem arrancar violentos
Carícias plenas
Obscenas

Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas
Despem-se pros maridos, bravos guerreiros de Atenas
Quando eles se entopem de vinho
Costumam buscar o carinho
De outras falenas
Mas no fim da noite, aos pedaços
Quase sempre voltam pros braços
De suas pequenas
Helenas

Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas
Geram pros seus maridos os novos filhos de Atenas
Elas não têm gosto ou vontade
Nem defeito nem qualidade
Têm medo apenas
Não têm sonhos, só têm presságios
O seu homem, mares, naufrágios
Lindas sirenas
Morenas

Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas
Temem por seus maridos, heróis e amantes de Atenas
As jovens viúvas marcadas
E as gestantes abandonadas
Não fazem cenas
Vestem-se de negro, se encolhem
Se conformam e se recolhem
Às suas novenas
Serenas

Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas
Secam por seus maridos, orgulho e raça de Atenas