quarta-feira, 16 de julho de 2008

TEÓLOGOS - RUBEM ALVES


“A minha profissão? Bem...sou teólogo. Não, o senhor não me ouviu bem. Não sou geólogo. Teólogo. Isto mesmo...Não é necessário dissimular o espanto porque eu mesmo me espanto freqüentemente. E nem esconder o sorriso. Eu compreendo. Também não é necessário pedir desculpas. Sei que sua intenção foi boa. Perguntou sobre minha profissão apenas para começar uma conversa. A viagem é longa. É fácil falar sobre profissões. Tudo teria dado certo se a minha fosse uma dessas profissões que todo mundo conhece. Se eu tivesse dito dentista, médico, mecânico, agente funerário já estaríamos em meio a um animado bate-papo. Da profissão passaríamos à crise econômica, da crise econômica saltaríamos para a política e o mundo seria nosso...”

Em outros tempos a situação teria sido outra. Vocês já notaram que há certas profissões que não podem esperar a pergunta? Elas tomam a iniciativa e andam por aí se anunciando. É o que acontece, por exemplo, com os médicos, que convidam a admiração de todos em razão das roupas brancas que usam. Ou com os militares, que abrem espaço com a cor e o brilho de suas túnicas, seus botões, suas condecorações...É sempre assim: profissões respeitadas se trombeteiam por meio de vestes apropriadas. No caso de lhes faltarem as vestes, basta-lhes falar a linguagem que testemunham das universidades que freqüentaram e das instituições que os acolhem. Ouçam o discurso inconfundível dos técnicos, especialistas, administradores...E pensar que em tempos idos era a batina!

Houve tempo em que os teólogos se anunciavam. Sua presença não pedia explicações, apenas respeito e admiração. E os colarinhos clericais, as vestes sacerdotais, a rigorosa linguagem dos que têm familiaridade com a erudição declaravam, com segurança e tranqüilidade, que um teólogo estava presente. Bons tempos aqueles em que os especialistas nos segredos divinos eram reverenciados e honrados...Era então que todos sabiam que as coisas que realmente importam são aquelas que não se vêem: a alma, o inferno, o céu, o purgatório, a Santíssima Trindade, a presença de Cristo na eucaristia. Como comparar coisas eternas e coisas efêmeras, coisas invisíveis e coisas visíveis? Que abismo de dignidade e honra as separa...Claro que existe um lugar para a ciência das coisas físicas. Mas ela estará, provavelmente, mais próxima das habilidades dos cozinheiros e da arte de ferreiros e seleiros: coisas a serem usadas para nosso conforto sem que nos esqueçamos nunca do seu caráter transitório.

E era sobre as coisas invisíveis e eternas que falavam os teólogos, coisas que a imaginação artística tornava visíveis na pintura, na escultura, na arquitetura...E os corações tremiam e choravam, sorriam e explodiam em esperança nas redes lingüísticas que os teólogos teciam.

Acontece que as coisas mudaram.

Progressivamente a imaginação se enfraqueceu. As pessoas deixaram de ter visões. E, se as tinham, tratavam de mantê-las em segredo. Porque se no passado visionários eram candidatos à santidade, agora eles se arriscavam à companhia dos loucos. Deus foi progressivamente expulso do mundo. Com a expansão da ciência os céus se esvaziaram de mistérios. Ficaram, repentinamente, desabitados. Sem amor, sem ódio, sem finalidade alguma...Apenas a beleza glacial, imóvel, das fórmulas matemáticas. Deus passou a ser uma hipótese desnecessária. Praticamente ele não fazia diferença alguma.

E aqui está o embaraço dos teólogos.

Antes eles falavam sobre Alguém que fazia toda a diferença e em quem se dependurava o destino dos homens. Agora eles falam sobre algo que não faz diferença alguma...Não admira que, aos olhos da ciência, o teólogo tenha ficado meio parecido com o alquimista, com o astrólogo...

À primeira vista pode parecer que o problema esteja no fato de que o teólogo nada mais faz que falar. Que diferença quando o comparamos com médicos, dentistas, mecânicos, agentes funerários, soldados, cozinheiros. Quando qualquer uma dessas profissões entra em ação, as coisas ficam diferentes: operações, obturações, soldas, funerais e sepulturas, paradas e batalhas, tortas e assados: as mãos trabalham, eventos e objetos são produzidos. Mas o teólogo fala, só fala...Acontece que também advogados, generais, políticos, psicanalistas e sociólogos são profissionais da fala – para não mencionar poetas e literatos.

E o fato é que ninguém duvida de que essas falas façam diferença. Se assim não fosse os clientes de advogados e psicanalistas não pagariam seus serviços a peso de ouro. E os generais? Haverá alguém que questione o poder de suas ordens? Elas abrem portas, fecham portas, fazem homens marchar e homens se esconder. E mesmo os sociólogos, sem clientes e sem tropas, são temidos pelo poder de sua fala, que tem a estranha capacidade de virar as coisas de cabeça para baixo, descosturando roupas de reis e sacerdotes, substituindo a pompa dos uniformes pela vergonha dos ventres proeminentes e peles flácidas, o que não raro lhes custa o ostracismo e o desemprego...Essas falas fazem uma diferença.

Não, os teólogos deixaram de se anunciar por meio de uniformes e não podem esconder o embaraço quando alguém lhes pergunta sobre a sua profissão.

Teologia, esta fala sobre as coisas invisíveis.
Que diferença faz?
Quais são os seus clientes?
Quem lhe pagaria honorários?
Quem entende seu estranho discurso?

Será que nossa clientela se reduziu a uns poucos sobreviventes do mundo romântico e mágico dos cavaleiros andantes ou àqueles que, de medo, não ousam dar ouvidos à ciência? Pergunta que nos fez Bonhoeffer. Ou não passaremos de fantasmas, assustando os desavisados? Lembro-me de um personagem de Camus que se divertia visitando os cafés freqüentados pela elite intelectual de Paris só para causar escândalo. É, brincava de teólogo... Quando a conversa já ia animada deixava escapar um palavrão obsceno: “Graças a Deus!” ou simplesmente: “Meu Deus...” E era pandemônio:

Bem sabe como os nossos ateus de roda de bar são comungantes tímidos. Um momento de espanto segui-se ao enunciado desta enormidade, entreolhavam-se, estupefatos, depois estourava o tumulto, uns fugiam do bar, outros cacarejavam com indignação sem nada ouvir, todos se retorciam em convulsões, como o diabo na água benta (Camus, s.d., p. 73).
Teria sido muito mais fácil se eu tivesse dito:
“Minha profissão? Escrevo estórias de fadas para crianças”.

Qualquer um teria entendido. Provavelmente alguns me teriam amado...Haverá coisa mais fascinante que falar sobre gigantes, bruxas más, princesas adormecidas, madrastas perversas, anões travessos, palavras encantadas, príncipes valentes e puros, felicidade até o fim dos seus dias? Tudo isto é permitido no reino da fantasia.

Mas e o teólogo? Sua fala também não se constrói com materiais tirados da fantasia? Sua boca não está ligada aos olhos da fé? Ao sonho? À visão?

E vi um novo céu e uma nova terra...
E Deus enxugará dos seus olhos todas as lágrimas...
O leão comerá palha como o boi,
o lobo habitará com o cordeiro,
as espadas serão transformadas em arados,
as lanças em tesouras de podar,
e os mansos e pobres herdarão a terra
e verão a Deus...

Por favor, que me digam a diferença entre o conto de fadas, que produz ternura, e a fala do teólogo, recebida com desdém...

Talvez a diferença tenha a ver com o fato de que contos de fadas são contados para fazer dormir as crianças, enquanto a fala teológica deseja fazer os homens acordar, viver...O teólogo fala como quem acredita. Mas é isto que ficou proibido: acreditar. Daí a vergonha e o estigma. Como é possível que o levem a sério? Mais triste: como pode o teólogo levar-se a sério?

Compreende-se que ele se sinta perdido perante seus sólidos interlocutores cujas profissões todos entendem: pés firmemente colados ao cão, imaginação subordinada à observação, o desejo do corpo controlado pelas exigências da realidade. De fato, os teólogos, pássaros de asas quebradas, não podem com eles competir.

Daí o seu silêncio, a solidão, as línguas ininteligíveis do seu discurso, os guetos em que se refugiam: comportamento de pessoas amedrontadas, que se recusam a falar por saber que uma vez dita a primeira palavra eles por ela serão traídos. E a palavra dita ficará mal / dita...

Mas é possível procurar saídas por um outro lado. E é assim que os vemos freqüentemente concordando em dizer adeus ao seu jogo tal como era jogado no passado, conformando-se em vê-lo reduzido à condição inferior de um simples dialeto de uma linguagem mais nobre – tal como acontece com o caipira que tem de esquecer sua fala e sucumbir à música e à gramática do discurso urbano. E o teólogo – por derrota ou amor, não importa – se entrega a outros jogos, seja a sociologia, seja a psicanálise, seja a política. E então, e não sem um certo constrangimento, ele muda suas coisas e palavras dos espaços da metafísica e as entulha nas cavernas da ideologia ou da neurose.

O que se ganha com isto?

É muito simples.

Ninguém faz perguntas acerca da verdade de tranqüilizantes e estimulantes. A questão da verdade sucumbe perante as evidências de sua utilidade. Lembram-se do Admirável mundo novo, de Huxley? Até lá, sob o domínio de cientistas, tecnocratas e administradores, a felicidade era terapeuticamente distribuída: em pílulas. Compreende-se assim que mesmo uma sociedade totalmente secularizada e atéia possa reconhecer o valor do ópio, seja sob a forma de compostos químicos, seja sob a forma de ilusões religiosas. E, se os sacerdotes de uma ordem estabelecida preferem o sono, os iconoclastas preferirão os corpos retesados em danças guerreiras. Há soluções químicas para ambas as demandas. Há poções teológicas para ambos os casos. E assim seria possível ao teólogo ressuscitar das cinzas, agora não mais sob o patrocínio da verdade, mas sob a égide da utilidade. Apenas um pequeno ajustamento seria necessário: o teólogo se descobriria vizinho e colega dos boticários...

Foi então que uma curiosa idéia me veio à mente. E se o meu interlocutor, em vez de se retrair com um sorriso enigmático ao ouvir minha resposta, prosseguisse com traqüilidade e candura:

“Então o senhor é um teólogo! Sabe, sempre me fascinei pela aura de mistério que envolve a teologia. Mas nunca pude entendê-la. Ponha-se na minha situação. Se o senhor tivesse como companheiro de viagem um matemático e lhe perguntasse: ‘Expliquei-me o que é a matemática’ – qual seria a sua reação se ele se pusesse a discorrer sobre os Princípia mathematica de Russell e Whitehead? Pois é assim que eu me sinto quando os teólogos começam a falar...Por favor, faça um esforço...”

Espantei-me então em descobrir em meu interlocutor um amigo fraterno que articulava, com voz clara, perguntas que eram muito minhas. Mais do que ele, era eu que queria entender aquilo que fazia, ao brincar com os símbolos que constituem a teologia.

Você se espanta de que alguém faça algo sem saber por quê?

Não deveria.

Na verdade são poucas, pouquíssimas, aquelas atividades que realizamos sob a luz do saber. A começar pelo uso da linguagem, que falamos sem conhecer as regras da gramática, e que nos foi ensinada pelos nossos pais sem que eles saibam como o fizeram. E andamos de bicicleta, nadamos, cantamos, fazemos amor – e se nos pedirem explicações teremos de confessar que pensamos pouco sobre o assunto e nossas conclusões são ainda insatisfatórias.

É no momento em que as coisas se tornam penosas e difíceis que o conhecimento é invocado. Pessoas que não sofrem do fígado nem mesmo sabem que o possuem. É necessário que ele doa – e com a dor surge a consciência. E é isto que acontece com os sapatos confortáveis que usamos o dia todo sem deles nos lembrar até que uma pedrinha transforma o pé no centro do mundo. Parodiando o poeta português Fernando Pessoa eu diria que “pensamento é doença do corpo”.

Digo isto para sugerir que para aqueles que amam a teologia é uma função natural como sonhar, ouvir música, beber um bom vinho, chorar, sofrer, protestar, esperar... Talvez a teologia nada mais seja que um jeito de falar sobre tais coisas dando-lhes um nome e apenas distinguindo-se da poesia porque a teologia é sempre feita como poemas e prece...Não, ela não decorre do cogito da mesma forma como poemas e preces. Ela simplesmente brota e se desdobra, como manifestação de uma maneira de ser: “suspiro da criatura oprimida” – seria possível uma definição melhor?

Mas, no momento em que surge a dor da incompreensão e as palavras são recebidas com um sorriso de escárnio, a teologia se transforma em atividades problemáticas. E acontece então aquilo que ocorre com as pessoas portadoras de uma deformação facial que, conscientes a cada minuto de sua diferença e dos olhares de espanto ou dó, se sentem obrigadas ou a se esconder ou a assumir a diferença, como um desafio.

E é isto que eu proponho: sem desculpas e sem capitulações, levantar o rosto e simplesmente explicar para os outros e para nós mesmos, especialmente para nós mesmos...

O que é a teologia?

E nos voltamos para nosso interlocutor que propôs a pergunta e espera...Compreendemos, de saída, que será necessário nos valermos das parábolas e analogias. É assim que se caminha: do conhecido para o desconhecido.

“O senhor já ouviu falar de Castália? Isto mesmo. Está lá no livro de Hermann Hesse O jogo das contas de vidro. Castália, ordem monástica de um mundo no futuro. Ordens monáticas conhecemos muitas. Mas o que distingue Castália é a curiosa maneira que ela encontrou para organizar a sua vida espiritual em torno de um jogo, um brinquedo.”
Por favor, não deixe levar pelo mal-estar causado por estas duas palavras: jogo, brinquedo. Claro que somos pessoas sérias e que preferimos fazer nossos investimentos no trabalho e nas ações graves e heróicas que podem transformar a história. Quanto aos jogos e brinquedos, estão mais próximos do ócio e do fútil, coisa de crianças, e será sempre possível questioná-los com a terrível pergunta: “Quais as suas implicações políticas?”

Que se trata de coisa infantil não há dúvidas.

Mas, lembrando-nos de que “se não nos convertermos e não nos fizermos como crianças não poderemos ver o reino dos céus”, teremos de dar um crédito de confiança a Castália, para que ela nos explique o seu jogo.

O senhor se espanta? Eu compreendo. Mas o fato é que para se fazer teologia e para se jogar o jogo das contas de vidro (era assim que se chamava o exercício espiritual de Castália) é necessário ter um pouco do espírito das crianças...

Jogos e brinquedos são coisas muito sérias. Veja esta maravilhosa sugestão que nos vem de Schiller:

Um animal trabalha quando uma falta
é a força que o impulsiona à atividade,
mas ele brinca quando é a
abundância, um excesso de vida,
aquilo que o empurra e compele à ação...
(SCHILLER, s.d, apud KAUFANN, 1966).

Nos jogos e brinquedos a liberdade e a necessidade se encontram, e a alegria que deles deriva brota justamente da liberdade triunfante que domina a necessidade, produzindo um mundo passível de ser amado.

A vida não é ela mesma um jogo? De forma alguma estou dizendo que o jogo não é sério. Milhões são a ele sacrificados, diariamente. Militares que tomam decisões sobre construção e alocação de bombas atômicas e alocação de tropas não se comportam exatamente como jogadores de xadrez? E a economia? Os investimentos na Bolsa? Tudo não se processa num estranho paralelismo com as regras de jogos? E nós, por não podermos evitar as máscaras, desempenhamos nossos papéis no palco, como teólogos, professores, amantes, policiais, revolucionários, crentes, cientistas... Claro que em muitos dos jogos as pessoas se esquecem de que estão jogando. Seus jogos se transformam em coisa séria, os reis e os palhaços não mais riem de si mesmos e nem lavam o rosto ou vestem pijamas quando vão dormir. Perderam a memória de quem são.

Mas voltemos ao jogo das contas de vidro dos monges de Castália.

Em que consistia ele?

Em música existe uma coisa muito comum chamada “variações sobre um tema dado”. A idéia é muito simples.

O compositor toma uma série de sons e com eles constrói um tema austero, nu, desprovido, de qualquer tipo de ornamentação.

Inicia-se então o brinquedo. E o compositor pergunta a este tema:

“Quais são os limites da sua plasticidade? Até que ponto será possível alterá-lo sem destruir sua identidade?

E aceitando o tema como motivo o compositor estabelece-o como núcleo central de uma teia a ser tecida. E ele se põe a construir uma tapeçaria de sons, variando, alterando, invertendo, adornando, complicando, fazendo assim surgir, por meio de sucessivas e progressivas revelações, as possibilidades que se escondiam, adormecidas, no tema inicial.

Bach constrói as monumentais “Variações Goldberg”.

Mozart faz a mesma coisa, demonstrando grande prazer nesse brinquedo musical.

Beethoven não resiste ao fascínio do jogo, e por vezes sem conta suas composições portam o título “variações...”

E não podemos nos esquecer da belíssima peça orquestral de Britten, “Variações sobre um tema de Purcel”, para ajudar crianças e grandes a entender a orquestra...

Mas e se os sons não bastarem para a construção? O mundo está cheio de outras coisas. Ao lado dos sons musicais estão as cores, materiais sólidos como pedra e madeira, as palavras. E há jardins, poemas, danças, teorias científicas, mitos, ritos, monumentos, jóias, túmulos... Claro que não podemos manipular tais coisas como se fossem peças de xadrez. Mas podemos submetê-las à mágica transubstanciação da linguagem, que nos permite remover uma montanha inteira apenas pronunciando uma palavra. As coisas se transubstanciam em contas de vidro, tornando-se assim peças do nosso jogo.

Imaginemos agora um jogo semelhante a “Variações sobre um tema dado”, e que pode e deve ser construído com todos os materiais simbólicos possíveis, extraídos da experiência humana e de tudo aquilo que a cultura já produziu. A tarefa: construir uma arquitetura simbólica que evoque e represente a presença escondida do tema proposto, fazendo com que todos os cantos e recantos do nosso mundo entrem em reverberações harmônicas, cantando partes de uma polifonia, revelando assim um mágico encanto, onipresente... Em torno da grande conta de vidro, temática fundadora, central, as outras vão sendo agregadas, até que ao final de tudo canta, em cânon, o que foi proposto no início. Esta é a idéia básica do exercício lúdico em torno do qual girava Castália: o jogo das contas de vidro.

E se eu fizesse a insólita sugestão de que a teologia é um jogo de contas de vidro? E que Hermann Hesse talvez tenha se inspirado naquilo que os teólogos têm feito através dos séculos como modelos para os exercícios espirituais dos monges de Castália?

O que faz um teólogo?

Ele fala.

Pode ser que faça muitas coisas mais gratificantes, mais belas, mias relevantes: o que não se pode negar é que, como teólogo, ele lida com símbolos. Brinca com eles.

Em que se distingue de outros jogadores de símbolos?

É simples. Ele usa contas de vidro que os outros não usam e não usa muitas das que os outros empregam.

Como caracterizar as contas teológicas? Não é difícil. Seu brilho, suas cores, seu calor... Não é possível confundir. Mas voltaremos a isto em outra ocasião. Porque agora o teólogo, nosso amigo, se dirige para a arca onde se encontram guardadas as suas contas. E ele começa a retirá-las. Mitos, ritos, símbolos, visões utópicas, poemas, salmos, preces, maldições, estórias, gestos, deseros, cidades, mortes, assassínios, ressurreições, esperanças, homens e mulheres de mãos dadas, corpos colados em amor, prisões, lágrimas, dores, muitas dores, sorrisos, muitos sorrisos, rostos, muitos rostos...

E o teólogo toma as contas inertes, aquece-as em suas mãos, elas fulguram, ganham vida, e ele começa a organizá-las como se fossem tapetes, amarrando os símbolos uns nos outros até que a rede se alongue o bastante para ser pendurada nos dois lados do abismo. Lembram-se de Zaratustra?

“O homem é uma corda sobre um abismo...”

E o teólogo estende sobre o abismo a rede simbólica que ele teceu no seu jogo de contas de vidro, para aqueles que quiserem tomar o risco de nela descansar seus corpos.

Ah! Como deve parecer insólita esta proposta.

Que teólogo, no passado, teve a desfaçatez de comparar seu trabalho ao jogo e ao artesanato? Seus rostos graves revelavam a gravidade da sua tarefa: abrir as portas das coisas divinas e eternas. Sabiam que, em oposição às sombras em que os outros homens viviam, eles habitavam os lugares sagrados onde a voz de Deus se fazia ouvir e contemplavam a luz clara e direta da Revelação. Trabalhavam sob o imperativo da verdade. E da mesma forma como os cientistas da natureza, que também por amor à verdade subordinavam a imaginação à observação e se tornavam totalmente submissos ao objeto, os teólogos, cientistas das coisas divinas, desejavam que sua fala fosse conhecimento rigoroso e objetivo das coisas que têm a ver com a divindade.

Mas agora eu sugiro que a teologia é jogo, construção, artesanato: coisa humana, por demais humana: Dizer que teólogos são jogadores/tapeceiros não será o mesmo que dizer que eles são jogadores/trapaceiros.

Compreendo o espanto de todos e, para amenizar a situação, eu invoco dos mortos um contador de parábolas, Kierkegaard, que nos dirá de um dançarino curioso...

Se um dançarino desse saltos muito altos, poderíamos admirá-lo.
Mas se ele tentasse dar a impressão de poder voar o riso seria seu merecido castigo, mesmo se ele fosse capaz, na verdade, de saltar mais alto que qualquer outro dançarino. Saltos são atos de seres essencialmente terrestres que respeitam a força gravitacional da terra, pois que o salto é algo momentâneo. Mas o vôo nos faz lembrar os seres emancipados das condições telúricas, um privilégio reservado para as criaturas aladas...

A razão para a parábola? É muito simples.

Teólogos são dançarinos. E se o nosso companheiro de viagem recuou, embaraçado, quando lhe confessamos nossa profissão, talvez isto tenha se devido ao fato de já ter ele visto o espetáculo ridículo de bailarinos que se faziam passar por seres alados: teólogos que confindiam a voz dos homens com a voz de Deus, e atribuíam solidez àquilo que é fugaz e verdade ao que não passa de um palpite efêmero...

E pensar-se que a beleza do bailado pode ser recuperada... Claro que isto não se conseguirá atribuindo-se seja ao teólogo, seja à Igreja, o poder de voar como os pássaros. O fascínio renascerá justamente quando os homens puderem ver o lugar onde os pés tocam o chão...

Dizer que teólogos são pessoas que jogam o jogo das contas de vidro é confessar que eles têm os pés no chão: porque um jogo é algo que se constrói de baixo para cima com argúcia, engenhosidade e sobretudo amor. E é bem possível que algo estranho aconteça ao fim do nosso relato. Se tivéssemos dito ao nosso companheiro que somos seres alados, ele não teria podido evitar seu riso e seu desprezo. Mas nós lhe confessamos que fazemos nada mais que brincar com símbolos, fazendo improvisações em torno de temas dados. Parecemos voar? Apenas saltos, pois nossos pés só deixam o chão por curtos e fugazes momentos. E a teologia se desnudaria como coisa humana que qualquer um poderia fazer se sentisse o fascínio dos símbolos, o amor pelo tema e tivesse a imaginação sem a qual os pés não se despregam da terra. E aí o possível estranho fim de uma consversa: porque o desconhecido poderia se tornar um discípulo... Quem poderia negar a beleza do jogo das contas de vidro? E o teólogo se redescobriria não mais vestido com as cores fulgurantes dos que estão em cima, mas na tranqüila nudez daqueles que, como os demais, andam pelos caminhos comuns da existência.

Rubem Alves (Teologia como 'variações sobre um tema dado' - 08/09/05)

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