domingo, 31 de agosto de 2008

Drummond...na voz de Drummond...


MUNDO GRANDE

Não, meu coração não é maior que o mundo.
É muito menor.
Nele não cabem nem as minhas dores.
Por isso gosto tanto de me contar.
Por isso me dispo,
por isso me grito,
por isso frequento os jornais, me exponho
cruamente nas livrarias: preciso de todos.

Sim, meu coração é muito pequeno.
Só agora vejo que nele não cabem os homens.
Os homens estão cá fora, estão na rua.
A rua é enorme. Maior, muito maior do que eu esperava.
Mas também a rua não cabe todos os homens.
A rua é menor que o mundo.
O mundo é grande.

Tu sabes como é grande o mundo.
Conheces os navios que levam petróleo e livros,
carne e algodão.
Viste as diferentes cores dos homens,
as diferentes dores dos homens,
sabes como é difícil sofrer tudo isso, amontoar tudo isso
num só peito de homem...sem que ele estale.

Fecha os olhos e esquece.
Escuta a água nos vidros,
tão calma. Não anuncia nada.
Entretanto escorre nas mãos,
tão calma! Vai inundando tudo...

Renascerão as cidades submersas?
Os homens submersos-voltarão?
Meu coração não sabe.
Estúpido, ridículo e frágil é meu coração.
Só agora descubro
como é triste ignorar certas coisas.
(Na solidão de indivíduo
desaprendi a linguagem
com que homens se comunicam).

Outrora escutei os anjos,
as sonatas, os poemas, as confissões patéticas.
Nunca escutei voz de gente.
Em verdade sou muito pobre.

Outrora viajei
países imaginários, fáceis de habitar,
ilhas sem problemas, não obstante
exaustivas e convocando ao suicídio.

Meus amigos foram às ilhas.
Ilhas perdem o homem.
Entretanto alguns se salvaram e
trouxeram a notícia
que o mundo, o grande mundo está
crescendo todos os dias,
entre o fogo e o amor.

Então, meu coração também pode crescer.
Entre o amor e o fogo,
entre a vida e o fogo,
meu coração cresce dez metros e explode.
-ó, vida futura! Nós te criaremos.

Carlos Drummond de Andrade

sábado, 30 de agosto de 2008

ONLY TIME - ENYA


Who can say where the road goes,
Where the day flows?
Only time...

And who can say if your love grows,
As your heart choose?
Only time...

Who can say why your heart sighs,
As your love flies?
Only time...

And who can say why your heart cries,
When your love lies?
Only time...

Who can say when the roads meet,
That love might be,
In your heart.

And who can say when the day sleeps,
If the night keeps all your heart?
Night keeps all your heart...

Who can say if your love grows,
As your heart choose?
Only time...

And who can say where the road goes,
Where the day flows?
Only time...

Who knows?
Only time...

Who knows?
Only time...

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Só o tempo

Quem pode dizer para onde vai a estrada?
Para onde o dia flui?
Só o tempo ...

E quem pode dizer se o seu amor cresce,
conforme seu coração escolhe?
Só o tempo...

Quem pode dizer por que seu coração suspira
conforme seu amor voa?
Só o tempo

E quem pode dizer por que seu coração chora,
quando seu amor morre?
Só o tempo...

Quem pode dizer quando os caminhos se cruzam,
que o amor deve estar em seu coração ?

E quem pode dizer quando o dia termina,
se a noite guarda todo o seu coração?
se a noite guarda todo o seu coração...

Quem sabe?
só o tempo...

Quem sabe?
Só o tempo...

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

ANACRÔNICO - PITTY


É claro que somos as mesmas pessoas
Mas pare e perceba como seu dia-a-dia mudou
Mudaram os horários, hábitos, lugares
Inclusive as pessoas ao redor
São outros rostos, outras vozes
Interagindo e modificando você
E aí surgem novos valores
Vindos de outras vontades
Alguns caindo por terra
Pra outros poderem crescer
Caem 1, 2, 3, caem 4
A terra girando não se pode parar

Outras situações em outras circunstâncias
Entre uma e outras vezes se vêem os mesmos defeitos
Todas aquelas marcas do jeito de cada um
Alguns ainda caem por terra
Pra outros poderem crescer
Caem 1,2,3 caem 4
A terra girando não se pode parar

Outro ciclo em diferentes fases
Vivendo de outra forma
Com outros interesses, outras ambições
Mais fortes, somadas com as anteriores
Mudança de prioridades
Mudança de direção
Alguns ainda caem por terra
Pra outros poderem crescer

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

27 DE AGOSTO - DIA DO PSICÓLOGO

O jeito Psicólogo de ser:

Psicólogo não Adoece, Somatiza

Psicólogo não Transa, Libera a Libido

Psicólogo não Estuda, Sublima

Psicólogo não dá Vexame, Surta

Psicólogo não Fofoca, Transfere

Psicólogo não tem Idéia, Tem Insight

Psicólogo não resolve Problemas, fecha Gestalts

Psicólogo não se Engana, tem Ato Falho

Psicólogo não muda de Interesse, Altera Figura Fundo

Psicólogo não Fala, Verbaliza

Psicólogo não Conversa, Pontua

Psicólogo não Responde, Devolve a Pergunta

Psicólogo não Desabafa, Tem Catarse

Psicólogo não pensa Nisso, Respira Nisso

Psicólogo não é Indiscreto, é Espontâneo

Psicólogo não é Gente, é um Estado de Espírito

(Desconheço a autoria)

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Hoje é comemorado no Brasil o Dia do Psicólogo. Nesta mesma data, no ano de 1964, a profissão foi regulamentada através da Lei 4.119/64.

O profissional de psicologia é, como o próprio nome da teoria sugere, um conhecedor da mente humana. A palavra deriva do grego e significa psyche (mente ou alma) e logos (estudo ou conhecimento), ou seja, "ciência da alma": sua definição mais antiga, ou melhor, citando Linda Davidoff "Ciência que estuda o comportamento e os processos mentais".


Durante toda sua história, o homem buscou respostas para questões existenciais. A filosofia sempre se ocupou desta procura por respostas. Tudo começou com os filósofos, os primeiros a fazer especulações em relação a problemas psicológicos, em busca de respostas sobre a natureza da alma e de sua relação com o corpo. Daí o costume de se dizer que a filosofia é a mãe da psicologia ou que os filósofos foram os precursores dos psicólogos. Mas estas questões, por mais humanas que fossem, diziam respeito ao conjunto da sociedade, à humanidade como um todo. Por outro lado, a psicologia buscava não uma definição do homem enquanto ser coletivo, mas sim do homem indivíduo, de suas angústias, suas inquietações.

Apesar de muitos filósofos e pensadores terem se ocupado da mente humana em seus estudos, foi apenas no século XVI que apareceu pela primeira vez o termo psicologia, quando o humanista croata Marco Marulik publica "A psicologia do pensamento humano". Ainda assim, um conceito de psicologia, tal como conhecemos hoje, só veio surgir no século XIX, através das formulações de Wilhelm Wundt que, em 1879, criou o primeiro laboratório de psicologia, em Leipzig , na Alemanha. Suas idéias, porém estavam ainda muito atreladas a conceitos fisiológicos e não avançaram muito.

Diversas escolas da psicologia foram se desenvolvendo: behaviorismo, psicanálise, Gestalt, desenvolvimentista, humanismo. Cada uma dessas escolas tem uma perspectiva diferente de estudo da psicologia: para os behavioristas é o comportamento, para os psicanalistas é a alma através do inconsciente, para os Gestaltistas, é o homem por meio de sua percepção; e, para os desenvolvimentistas, a relação desenvolvimento / aprendizagem. Cada escola aborda o “eu” conforme sua ótica, mas todas se empenham em tratar os conflitos, as angústias e o equilíbrio emocional do indivíduo.

Hoje, a definição da psicologia é outra e cabe ao psicólogo "estudar os fenômenos da mente e do comportamento do homem com o objetivo de orientar os indivíduos a enfrentar suas dificuldades emocionais e ajudá-los a encontrar o equilíbrio entre a razão e a emoção". O objeto de estudo do psicólogo é o comportamento humano e o seu principal objetivo é compreender o homem.
Apesar desse intuito de compreensão não ser uma característica somente do profissional de psicologia - temos também o antropólogo, o sociólogo e o economista procurando o mesmo -, fica visível que estes dão ênfase, sobretudo, aos grupos e sociedades, enquanto aquele se fixa no indivíduo. Isto também não significa que o psicólogo só veja o indivíduo em separado, fora do coletivo, mas sim que enxerga o homem como a unidade do grupo.



Veja algumas das divisões desse estudo:



- psicologia da personalidade - ocupa-se dos diagnósticos e desenvolvimento das personalidades.


- psicologia social - estuda o comportamento dos indivíduos dentro do grupo.


- psicologia comparativa - compara o comportamento animal com o do homem.


- psicologia do desenvolvimento - avalia as mudanças que acontecem com o indivíduo.


- psicologia experimental - analisa os fenômenos psicológicos com fenômenos naturais, em condições monitoradas em laboratório.


- psicologia clínica - tratamento das neuroses e demais problemas psíquicos.

Para quem anda pensando em seguir essa profissão, alguns conhecimentos podem ajudar a se definir na escolha. Uma delas é saber sobre o seu futuro campo de atuação, ou seja, onde e como poderá trabalhar. O psicólogo pode atuar não apenas em consultórios, mas ainda em escolas, dando orientação vocacional; em empresas, participando de processos de seleção de funcionários; em hospitais, atendendo a pacientes e seus familiares; e mesmo na área de pesquisa, avaliando perfil do consumidor. Também pode trabalhar como psicólogo esportivo, preparando os atletas emocionalmente, ou como psicólogo educacional, auxiliando pais e professores a solucionar problemas de aprendizagem.

O campo é bem amplo. A psicologia jurídica é outra área desse universo de opções. Como psicólogo jurídico, você vai acompanhar processos de adoção ou de violência a menores ou, em caso de presídios, avaliar os detentos.

Seja qual for a sua escolha, o importante é saber que você vai estar lidando com pessoas em seus sentimentos, medos e desejos. E que isto requer muito cuidado.O curso de psicologia vai dar a você, nos períodos iniciais, uma visão dos diferentes aspectos da psicologia: história, teoria e principais correntes.
Também haverá aulas enfocando matérias sobre saúde, como neurologia, por exemplo.
Mais adiante é que o aluno vai se deparar com as disciplinas profissionalizantes e optativas, como pedagogia do excepcional, problemas de aprendizagem e orientação vocacional. Nesse momento, é a hora de optar por uma área de especialização. No caso de quem pretende clinicar, o estágio é obrigatório, mas todos, uma vez formados, deverão se registrar no Conselho Regional de Psicologia.



Fonte: IBGE Teen

terça-feira, 26 de agosto de 2008

Abordagem Junguiana dos Contos de Fada


Considerações Gerais

Inúmeros pesquisadores têm procurado descobrir a origem dos contos de fadas. Noemi Paz (1989) comenta que os contos maravilhosos já eram registrados há 4.000 anos em pedaços de argila cozida, como, por exemplo, entre os babilônios e assírios, onde o tema central “é o da renovação da vida e do restabelecimento da ordem que triunfa sobre o caos”.


Von Franz (1981) nos conta que remontam à antigüidade os relatos de histórias simbólicas, como em Platão, que menciona histórias que as velhas contavam às crianças, ou os egípcios que as descreviam em suas colunas e papiros, ou Apuleio, que no século II d.C. escreve “O Asno de Ouro” e “Eros e Psique”. Na Europa, nos séculos 17 e 18, no inverno, os contos eram o principal entretenimento de adultos e crianças.


No século 18 o interesse científico é despertado após a publicação, com grande sucesso, pelos irmãos Joukos e Wilhelm Grimm, de uma coleção de contos que eram contados pelas pessoas. Várias escolas começam, então, a buscar as suas origens. Entre as hipóteses cogitadas está, por exemplo, a da escola finlandesa, que sugere que as histórias tiveram sua origem em diferentes países e que se deve buscar a forma primordial de um conto, a versão original, pois esta seria a melhor e as outras apenas suas derivações.


Outra hipótese é a de que os contos teriam surgido no Mediterrâneo oriental, durante a época neolítica, ou no Oriente próximo, ou ainda na Índia migrando posteriormente para a Europa, ou que seus temas derivaram de sonhos ou como necessidade de explicação dos fenômenos naturais.
Há ainda a hipótese de que os contos de fadas provêem de formas mais originais, como as sagas locais e histórias ou experiências parapsicológicas ou miraculosas, “que acontecem devido a invasões do inconsciente coletivo sob a forma de alucinações em estado de vigília, dando origem aos contos folclóricos e daí aos contos de fadas” (VON FRANZ, 1981). Na verdade, parece que nenhuma destas versões consegue, de fato, explicar de onde vêem os contos.


Estés (1995) considera ainda que “no transcorrer do séculos, várias conquistas de nações por outras nações e conversões religiosas, tanto pacíficas quanto impostas pela força, encobriram ou alteraram a essência original das antigas histórias”.


De qualquer lugar que venham, seja dos sonhos, das sagas, das histórias parapsicológicas, segundo von Franz (1981), Jung coloca, na origem dos contos, o arquétipo e a imagem arquetípica, considerando o primeiro como “a disposição estrutural básica para produzir uma certa narrativa mítica” e a última como a “imagem específica sob a qual o arquétipo toma forma”.
Assim, os temas básicos brotam de um pensamento padrão, “interligado com todos os outros pensamentos”, comum à espécie humana, aparecendo com diferentes variações em diferentes países. Porém, tais fenômenos só possuem significação quando se leva em conta a reação individual, o valor emocional e afetivo que têm para cada indivíduo.


Portanto, Jung “considera como fator mais importante a base humana à partir da qual os fenômenos florescem”. Tal explicação é, até certo ponto, aceita por etnólogos, arqueólogos, especialistas em religiões e em história das religiões, que se utilizam dos arquétipos mas ignoram “o indivíduo e todo o contexto onde a experiência se dá” (VON FRANZ, 1981).



O que são contos de fada ?


“Mas, então, O que conta o conto?” Para Bonaventure (1992), os contos são os instrumentos mais simples, concisos e precisos que nos permitem perceber como o homem processa os conflitos da vida desde a infância e como a sabedoria popular encontra a solução para esses conflitos.


Dieckmann (1986) assim descreve o conto de fada: “Era uma vez” - assim começam geralmente para nós a maioria dos contos de fada, e então eles nos levam de volta a tempo distante e desde muito passado, no qual acontecem coisas extraordinárias - impossíveis para o pensamento racional - e aí existem monstros, bruxas, fadas e mágicos ou animais falantes.


É um mundo cheio de milagres, pelos quais um pastor de porcos se transforma em rei, uma Cinderela em princesa, descobre-se um lugar onde se pode encontrar a água da vida, certa lâmpada que atrai milagrosamente todos os tesouros do mundo, um anel com que se reina sobre o mundo, ou um cavalo com o qual se pode voar”.


Para este autor, “Freud já tinha percebido que contos de fada e mitos não são fundamentalmente distintos dos sonhos, e que falam uma linguagem simbólica idêntica” (DIECKMANN, 1986). Nossos sonhos estão repletos de conteúdos mitológicos, enquanto que nos contos com freqüência nos deparamos com imagens somente encontradas nos sonhos. Jung, por sua vez, compreendeu que este simbolismo estava presente tanto nas pessoas sadias, quanto nas “mentalmente enfermas”, o que significa que esta é uma linguagem universal, própria do inconsciente humano. É a sua forma mais elementar de manifestação, a sua linguagem mais simples. É tão simples quanto infantil e por isto destituída de cultura, moral ou qualquer outro elemento intelectivo que possa dificultar sua assimilação.Todos temos, pois, os mesmos problemas e dificuldades e diferimos apenas no fato de conseguirmos ou não resolvê-los sozinhos. O mito grego ou o conto de Grimm têm repercussão análoga porque o homem é, em essência, o mesmo do início dos tempos, ou seja um ser mítico. Temos as mesmas inquietações, as mesmas buscas, as mesmas dificuldades e a linguagem simbólica primordial esquecida, capaz de exprimir estes conteúdos, nós a encontramos nos sonhos, nos mitos e nos contos de fadas: “Por toda parte onde o homem alcança algo de novo, nunca até então conseguido ou adquirido, acontece coisa igual à transição do herói do conto de fada, do mundo do dia-a-dia para um reino mágico, desconhecido, encantado, que deve ser libertado, ou onde se pode buscar um valor que nos eleva acima da existência trivial. As bruxas e monstros são então nossos próprios temores e incapacidades personificados, contra os quais temos que lutar; os animais solícitos e as fadas são as nossas capacidades e possibilidades ainda desconhecidas, que nestas situações podemos obter. Desta maneira se realiza, em outro plano, aquilo que no conto é imagem ou fantasia” (DIECKMANN, 1986).


Em outras palavras, quando enfrentamos situações de conflitos, onde a nossa capacidade de superá-los parece ameaçada, as imagens coletivas podem servir de tochas para iluminar a estrada e apontar o melhor caminho. E se heroicamente triunfamos, apesar de todos os temores e adversidades, uma transformação se dá: nosso ponto de vista se modifica, nossa visão se alarga e nos tornamos mais sábios, nos aproximando a cada novo passo da sabedoria do Senex.


Bonaventure (1992) compara o conto de fadas com as obras de arte, onde ambos, através de suas imagens, expressam realidades humanas que sempre existiram: “Em poucas imagens, condensa rapidamente o essencial de anos de experiência e conflitos”. No entanto, para Estés (1995), as histórias, não importa quanto tempo passe, serão sempre mais antigas do que a arte e a psicologia.



O que revelam os contos de fada ?


Por ser o arquétipo um núcleo psíquico de natureza insondável não seria possível esgotar o seu conteúdo em termos intelectivos e racionais, mas somente de forma simbólica e representativa. Os contos, assim como os mitos, são as representações mais simples e completas dos arquétipos e, por isso mesmo, revelam com maior clareza as estruturas básicas da psique, constituindo-se em elementos estruturantes da maior importância.


Os contos, tais como os sonhos e muitas outras manifestações imaginais, revelam “as vivências de nosso mundo interior [que] podem ser expressas com simplicidade, por meio, sobretudo, das imagens usadas pelos contos e pelos sonhos” (BONAVENTURE, 1992).


Para von Franz (1981), “o conto oferece um modelo para a vida, um modelo vivificador e encorajador que permanece no inconsciente contendo todas as possibilidades positivas da vida”. É interessante observar o Patinho Feio que se transforma em Cisne, a Gata Borralheira que se torna princesa, Joãozinho e Maria que, perdidos, acabam encontrando a segurança, e verificar qual foi a trajetória que estes personagens fizeram até chegar ao “final feliz”. Eles nos apresentam um modelo de caminho, nos apontam uma direção, nos mostram onde podemos chegar se seguirmos seus passos. Ou, nos dizeres de Estés (1995), “As histórias nos permitem entender a necessidade de reerguer um arquétipo submerso e os meios para realizar essa tarefa”.


O conto não precisa, necessariamente, de explicações. A história, por si só, nos dá a melhor explicação. Um observador sensível e atento é capaz de apreender o seu significado, sem se utilizar de um conhecimento intelectual ou acadêmico específico. O requisito imprescindível, no entanto, é a capacidade especial de perceber a familiaridade do tema com o humano que existe em nós; de observar, por exemplo, o quanto tem de nós mesmos na trajetória de Pinocchio, o boneco de pau que vira menino de verdade, ou de Peter Pan, a eterna criança, ou de Rapunzel, a linda prisioneira da torre, contos que nos dizem de maneira simples algo que sentíamos mas que não sabíamos formular.


Esta identificação é possível porque, nas palavras de Bonaventure (1992), “a psique é algo familiar a todos”. No entanto, von Franz considera que a descrição de um fato psíquico é sempre difícil de se representar devido à sua complexidade. Assim, para possibilitar a penetração deste fato na consciência, há necessidade de repetição e de variações dos contos. A autora acredita que este fato desconhecido é o próprio self e o conto de fadas seria então a sua representação, sem ser ele próprio. Estés (1995) considera que as histórias têm uma enorme força porque contém ensinamentos e instruções sobre as complexidades da vida. “As histórias, nos diz a autora: “conferem movimento à nossa vida interior, e isso tem especial importância nos casos em que a vida interior está assustada, presa ou encurralada. As histórias lubrificam as engrenagens, fazem correr a adrenalina, mostram-nos a saída e, apesar das dificuldades, abrem para nós portas amplas em paredes anteriormente fechadas, aberturas que nos levam à terra dos sonhos, que conduzem ao amor e ao aprendizado, que nos devolvem à nossa verdadeira vida ...”


Em uma perspectiva diferente destas vamos enfocar neste trabalho que os Contos de fada nos revelam e abrangem alguns dos mais relevantes aspectos da fenomenologia do espírito.



A versão animada dos contos em Walt Disney


A opção por Disney é especialmente em função do inquestionável valor artístico e cinematográfico de seus trabalhos, cuja irrefutável repercussão e alcance se faz presente através das gerações. Walt Disney continua sendo o mago que consubstancializou e tridimensionalizou o reino imaginal, fantástico e, sobretudo, mágico, chamado infância. Tornou visível esta inescrutável dimensão da Alma através de seus desenhos animados onde milhões de pessoas vem podendo compartilhar imagens, sentimentos, afetos e encantos até então irrepresentáveis através do discurso literário.


Ainda que possamos considerar o discurso literário ou poético como a representação das representações e o ápice da razão e do espírito humano, será preciso nos tornar sensíveis ao poder das imagens enquanto autêntica representação da linguagem da Alma. Assim, a magia, o encanto e a tecnologia do cinema nos transportam e nos fazem penetrar neste mundo, antes reservado exclusivamente às experiências interiores.


Consideramos que buscar nas imagens dos desenhos animados a fonte de estudo dos contos de fada, constitui uma atitude necessária nos nossos dias, na medida em que a figura e o papel do contador de histórias parece ter sido transferido à grande tela, ou seja, a TV e o cinema. Entendemos que a Alma encontrou aí seu lugar, podendo se expressar mais adequadamente através da linguagem da sétima arte - a imaginação ( imagens em ação = IMAGEM + AÇÃO ).


A experiência com a grande tela nos coloca frente a frente com a linguagem universal perdida - a imagem. Desta forma foi possibilitado dizer e representar o indizível. O cinema, no uso de sua peculiar magia, fez da imagem em ação uma experiência coletiva e, através de suas expressões, sensibiliza multidões e mobiliza um número cada vez maior de espectadores.


As imagens da Anima Mundi parecem ter invadido as telas e é assim que, nos dias atuais, a imaginação se faz realidade, ainda que virtual ( IMAGEM + AÇÃO ), sendo a sétima arte, a um só tempo, o seu veículo e o seu conteúdo mais significativo. O Homem contemporâneo pode desfrutar deste inestimável produto e criação de seu próprio tempo. Se tomarmos a Criatividade como atributo essencialmente Masculino e como a capacidade de dar forma, podemos encontrar o grande momento que o espírito humano, à procura de sua alma, consegue, pela arte, tocá-la.
Acreditamos que vivemos o momento da imagem. A imagem em ação, a realidade virtual, é o grande evento deste final de século e a mais expressiva linguagem suprapessoal da atualidade ( imaginação ). O vídeo, quer seja através da TV, dos computadores ( CD-Rom ), dos video-clips, video-games ou do cinema, faz da imagem ao mesmo tempo veículo de circulação e conteúdo circulante da mídia, o grande momento da cultura.


É necessário analisar o significado deste momento em que a palavra parece transformar sua função e ceder lugar à imagem, enquanto elemento fundamental da linguagem e do fenômeno da comunicação. A cada dia mais pessoas vão às salas de cinema ou passam horas a fio frente à telas de TV, de computadores ou de video-games, assistindo a cenas de filmes, jogos de desafio, clips, todos com imagens míticas veiculadas pelos mais diferentes recursos. Os filmes dos estúdios Disney têm sido sucesso desde 1931, com Steamboat Willie, até os nossos dias, com O Rei Leão ( The Lion King - 1994), este último um recorde de bilheteria. Compreender qual a motivação que leva milhares e milhares de homens, mulheres e crianças, em diversos países, a ver e rever um desenho animado que conta a história de um pequeno leãozinho é um dos desafios a que nos propomos discutir. Qual será o segredo escondido nestas imagens? Qual será o conteúdo arquetípico presente que mobilizou pessoas de todas as idades a assistir a estes dramas?



Branca de Neve e os sete anões


O filme : Snow white and the seven dwarfs
Edição em 1937

O Tema central


O tema central do conto é o processo de individuação feminino e a elaboração das relações com os arquétipos parentais no que diz respeito às dimensões SENEX x PUER apresentados forma RAINHA X PRINCESA e, particularmente, expressos no conflito MÃE X FILHA. Podemos articular e estruturar o tema do conflito da seguinte forma :



SENEX - Rainha - Mãe

PUER - Princesa - Filha


Encontramos conflito análogo em vários outros elementos míticos tanto no mito de Édipo quanto no conto de Lucio Apuleio, Eros e Psique, que nos falam de Reis e Rainhas que tentam de alguma forma perpetuar-se no poder, mantendo a posse definitiva do Phallos a qualquer preço.
Agem promovendo o infanticídio, a castração e são, na verdade, uma autêntica expressão da petrificação da vida e do Phallos sem Eros, sem compromisso com a renovação da existência. É a autêntica dimensão do Poder sem a experiência do Amor.


Em Branca de Neve temos situação análoga quando a Madrasta-Rainha manda matar a princesa logo ao tomar conhecimento de que a beleza da jovem supera a sua própria. Após a revelação feita pelo espelho mágico a Rainha tomada de inveja cruelmente desfecha toda sua ira e maldade em Branca de Neve com receio de perder o trono.


A madrasta-Rainha, tal qual Laio no mito de Édipo ou Afrodite em Eros e Psique solicita que sua concorrente e sucessora na ordem natural de renovação da vida seja morta, tentando assim por intermédio de seu criado elimina-la através do infanticídio. Sua crueldade chega à requintes extremos quando pede que lhe seja extirpado e entregue o coração como prova de sua eliminação, fato que nos leva a imaginar que simbolicamente possa representar mais uma face da castração, ou seja, torna-la incapaz de amar. Tal qual em Édipo, o caçador trai a Rainha e manda que Branca de Neve fuja para a floresta.


Como já apontamos anteriormente as formas de poder, ou seja, os diferentes aspectos do Phallos, difere quanto à sua expressão simbólica seja nos aspectos femininos e masculinos. Na dimensão matriarcal é expresso e vivenciado através do poder da beleza e da sedução feminina, o que na dimensão patriarcal se dá pela força e a capacidade de luta.


Vemos que a madrasta-Rainha impõe à princesa trabalhos forçados, fato que, como em outros contos, lhe dá condições de vida humana da mesma forma que Afrodite o faz com a bela Psique nas conhecidas quatro provas. Essas são formas arquetípicas de humanização que inclui a “queda” em uma na dimensão profana do cotidiano e, conseqüentemente “no mundo”.
Branca de Neve vai ao poço dos desejos, expressão simbólica da comunicação com o inconsciente profundo e os arquétipos e cantando fala de sua esperança em encontrar um grande amor.
A jovem brinca com o som do eco no poço junto aos pombos e acaba por deparar-se com a imagem refletida do príncipe ao seu lado sem ter percebido sua chegada. É uma cena que nos remete às imagens míticas do encontro final entre Narciso e Eco onde Narciso, ainda que diante de Eco, fita indefinidamente sua própria imagem refletida no lago sem perceber quem está à sua frente.


Branca de Neve, ao contrário de Narciso e Eco, se vê no reflexo do poço com o príncipe ao seu lado em uma imagem que nos traz intuitivamente o significado da imagem de sua própria Alma refletida, o masculino e o feminino. Mas ainda parece ser cedo demais e foge dele como uma verdadeira Ninfa. As pombas representam nesse contexto a presença feminina do espírito masculino e a condição de possibilidade de realização dos desejos.


Branca de Neve vai colher flores e foge para a floresta quando o caçador desiste de mata-la. Na fuga realiza o movimento de catábase, ou descida aos infernos, lembrando Korè ( Perséfone ) no mito grego de Deméter e Perséfone quando é raptada por Hades. Cai em um outro mundo, um sub-mundo, um inferno subterrâneo onde entra em contato com as forças ctônicas da natureza representadas pelos animais roedores e todos os demais elementos. Seus novos amigos a conduzem à casa dos 7 anões : Mestre, Feliz, Atchim, Dunga, Zangado, Soneca e Dengoso, aspectos do elemento masculino plural não desenvolvido que Branca deveria entrar em contato e com esses relacionar-se. Trabalham falicamente nos interiores, nas minas, e por isso possibilitavam a busca da interioridade e da integração do poder fálico masculino.


O espelho da Madastra, elemento mítico que sempre traduz a verdade e representa uma janela aberta para o mundo, mostra onde se esconde a jovem Branca de Neve. A Rainha, ao perceber que tinha sido traída pelo caçador quando percebe que o coração que pensava ser da jovem é, na verdade, de um animal, é tomada de ira e crueldade e exerce sua magia transformando-se em uma velha Bruxa para que com suas próprias mãos possa matá-la com a maçã envenenada.
Prepara então seu feitiço, uma maçã que a sufocará e fará cair no sono da morte, para poder levar até Branca de Neve. A maçã faria com que a jovem princesa caísse em um sono profundo só podendo ser ressuscitada se recebesse um primeiro beijo de amor.


A maçã é um elemento freqüente que surge em vários contos e mitos ( no casamento de Zeus ~ Hera, Géia dá de presente as maçãs de ouro ) e é visto como o fruto do conhecimento dos mistérios de renovação da vida, da imortalidade da Alma e o fruto predileto de Eros. Podemos observá-la como um símbolo de iniciação e de conhecimento da vida, do bem e do mal sendo o seu veneno visto como um atributo natural de criação de uma consciência madura que leva à individuação.


O sono eterno corresponde também ao encontro de uma dimensão de regeneração e daquilo que os mitos gregos sugerem como apokastásis, recuperação, regeneração. Ser tomada por HIPNOS ( Sono ), irmão gêmeo de TANATOS ( Morte ), ambos filhos de NIX ( Noite ) é se entregar à regeneração e recuperação da Alma. O sono e a morte são os responsáveis simbólicos por essa tarefa na perspectiva mítica da individuação.Branca de neve morre e é colocada em um caixão de cristal para tristeza profunda de seus amigos, os anões e os animais da floresta. Os anões não enterram Branca e a mantêm viva pela vigília eterna. Em termos alquímicos mantêm a matéria fecundada em gestação até que lhe seja possível a chegada do elemento masculino que faltava à sua própria individuação, a Luz do espírito, o Príncipe para que possa acontecer o segundo nascimento, o nascimento do que é do espírito rumo ao castelo interior, uma mandala áurea iluminada pela conjunção dos opostos. A cena final é a coroação dos desejos expressos no poço dos desejos quando viu sua imagem e a do príncipe refletida no fundo da água. E Então foram felizes para sempre.


Os Personagens principais :

· Branca de Neve
· A Rainha ( Madastra )

Os Personagens secundários :

· Os sete anões
· O príncipe
· O Espelho
· O caçador
· O corvo

Os Personagens auxiliares :

· Os animais da floresta

Lugares significativos :

· O Castelo
· O poço
· A Floresta
. A casa dos anões



Paralelos com Mitos e outros contos :

· O Conto de Eros e Psique
· O Mito de Édipo
· A gata borralheira
· Narciso e Eco
· Demeter e Perséfone


(Autor: Jorge L. de Oliveira Braga – Analista Junguiano - AJB)



segunda-feira, 25 de agosto de 2008

MEMÓRIAS - PITTY


Eu fui matando os meus heróis aos poucos,
como se já não tivesse nenhuma lição pra aprender

Eu sou uma contradição
E foge da minha mão fazer com que tudo o que eu digo
Faça algum sentido
Eu quis me perder por aí
Fingindo muito bem que eu nunca precisei de um lugar só meu

Memórias
Não são só memórias
São fantasmas que me sopram aos ouvidos
Coisas que eu...

Eu dou sempre o melhor de mim
E sei que só assim
É que talvez se mova alguma coisa ao meu redor
Eu vou despedaçar você
Todas as vezes que eu lembrar por onde você já andou sem mim

Memórias
Não são só memórias
São fantasmas que me sopram aos ouvidos
Coisas que eu...

Memórias
Não são só memórias
São fantasmas que me sopram aos ouvidos
Coisas que eu
Nem quero saber

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Por que as pessoas entram na sua vida?


Pessoas entram na sua vida por uma "Razão", uma "Estação" ou uma "Vida Inteira".



Quando você percebe qual deles é, você vai saber o que fazer por cada pessoa.



Quando alguém está em sua vida por uma "Razão"... é, geralmente, para suprir uma necessidade que você demonstrou. Elas vêm para auxiliá-lo numa dificuldade, te fornecer orientação e apoio, ajudá-lo física, emocional ou espiritualmente. Elas estão lá pela razão que você precisa que eles estejam lá. Então, sem nenhuma atitude errada de sua parte, ou em uma hora inconveniente, esta pessoa vai dizer ou fazer alguma coisa para levar essa relação a um fim. Ás vezes, essas pessoas morrem. Ás vezes, eles simplesmente se vão. Ás vezes, eles agem e te forçam a tomar uma posição. O que devemos entender é que nossas necessidades foram atendidas, nossos desejos preenchidos e o trabalho delas, feito. E agora é tempo de ir.



Quando pessoas entram em nossas vidas por uma "Estação", é porque chegou sua vez de dividir, crescer e aprender. Elas trazem para você a experiência da paz, ou fazem você rir. Elas poderão ensiná-lo algo que você nunca fez. Elas, geralmente, te dão uma quantidade enorme de prazer... Acredite! É real! Mas somente por uma "Estação".



Relacionamentos de uma "Vida Inteira" te ensinam lições para a vida inteira: coisas que você deve construir para ter uma formação emocional sólida. Sua tarefa é aceitar a lição, amar a pessoa, e colocar o que você aprendeu em uso em todos os outros relacionamentos e áreas de sua vida.
(Infelizmente desconheço o autor)

Todos são sempre bem vindos...


Não posso deixar de agradecer sempre às pessoas que visitam frequentemente meu blog e os e-mails que venho recebendo com muitas idéias novas, elogios, depoimentos, etc...

Na verdade esse trabalho ainda nem passa perto do que desejo, mas faço dele sempre algo que pretendo transformar cada vez mais e para melhor...

Algumas pessoas me enviaram e-mails com dúvidas sobre interpretação de letra de música, ou sobre poesias, espero que tenho conseguido tirar todas elas, mas sempre que tiverem alguma dúvida, o que eu puder pesquisar e responder, estarei aqui...à disposição...

Obrigada ao Rafa "Trovador", pelo gentil comentário na última postagem, seu blog tbm é muito show!!! E obrigada Isabelle, pelo interesse, ainda vamos conversar muito sobre Zé Ramalho, se assim desejar...

Luciano, meu querido, saudades e obrigada pela força sempre!


Abraços a todos,


Yv Luna

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Saia antes que a cortina se feche...


"A vida é uma peça de teatro que não permite ensaios.


Por isso, cante, chore, dance, ria e viva intensamente,


antes que a cortina se feche e a peça termine sem


aplausos."



(Charles Chaplin)

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Abordagem junguiana dos sonhos


“ A vida e os sonhos são folhas de um livro único : a leitura seguida destas páginas é aquilo a que se chama vida real ; mas quando o tempo habitual da leitura ( o dia ) passou e chegou a hora do repouso, continuamos a folhear negligentemente o livro, abrindo-o ao acaso em tal e tal local e caindo tanto numa página já lida como sobre uma que não conhecíamos; mas é sempre o mesmo livro que lemos.” (Arthur Schopenhauer)


Considerações Gerais


Este estudo é produto de algumas reflexões e pesquisas sobre o eterno e grandioso mistério dos sonhos. Dentro dos temas escolhidos para as atividades do Grupo de Estudos C. G. Jung, palestras e demais atividades afins este é, sem dúvida, um dos mais importantes e difíceis haja visto a extensão, conhecimento e profundidade que o tema exige.
O presente estudo sobre os sonhos, sob o ponto de vista que aqui está sendo enfocado e desenvolvido, já vem de alguma forma sendo apresentado em cursos anteriores e em algumas palestras específicas. Não houve a preocupação em criar um estudo crítico ou comparativo entre as várias escolas que estudam o fenômeno e nem muito menos examinar os aspectos neuro-fisiológicos do sonho e do sono. A idéia central é discutir e abordar o sonho como imagens da Alma, fato este que coloca à uma certa distância a idéia de inconsciente, seja pessoal ou coletivo, e de seus complexos afetivos. A compreensão desta idéia e abordagem implica em tratar objetivamente de tres conceitos da maior importância, isto é : o que venha a ser o sonho, imagem e sobretudo Alma. Estes temas serão desenvolvidos no decorrer do curso e constituem a temática central do mesmo. A opção pela Psicologia Arquetípica como respaldo desta abordagem implica em que trabalhemos na maior parte do tempo com conceitos e palavras que deverão ser compreendidos como metáforas que encerram significados de diversas ordens. Assim sendo, o entendimento de Alma, imagem, simbolo, sinal,etc precisa sem simbólica para que possa atender àquilo que entendemos ser sua real natureza. Segundo Hillman : “ Alma-como-metáfora também descreve a forma como a Alma atua. Ela atua como metáfora, transpondo sentidos e liberando significados interiores enterrados.” ( Tudo que é escutado com o ouvido da alma reverbera em meios-tons (Moore 1978 ).



Premissas básicas


É prudente definir algumas premissas antes da discussão e exposição geral do tema tendo em vista que o mesmo toca em muitas convicções pessoais, algumas de natureza religiosa, que freqüentemente geram reações impróprias aos objetivos do curso.
Estas reações, que vão desde a rejeição total das idéias até à aceitação total e incondicional, por muitas vezes carreiam longas discussões, na maior parte das vezes carregadas de muita emoção e convicção, tomam um espaço e um tempo não planejado dentro da estrutura do curso. Visto que tal fato não reflete o programa proposto é óbvio que comprometeria expressivamente com o desenvolvimento do mesmo.
A idéia que estamos propondo se restringe simplesmente à discussão de um modelo psicológico que seja a mais adequado à representação do fenômeno do sonho e como poderíamos considerar o sonho como um autêntico elemento da Psiquè.



Simbolo, sinal e significado


Segundo Ernst Cassirer deveríamos definir o homem como um animal symbolicum e não como um animal racional. Segundo este grande filósofo judeu-alemão, nossa experiência do mundo não nos dá acesso direto à realidade e, na verdade, em um sentido especial, não experimentamos diretamente o mundo, porque a realidade é amortalhada, por assim dizer, por um véu de linguagem, símbolo e mito, e só através da mediação deles é que o conhecimento se torna absolutamente possível. Os símbolos, mitos, contos e outros elementos afins são fatores de mediação entre o Homem e o mundo e formas naturais de expressão e de interlocução com este. Símbolo é um elemento da expressão da Alma que apresenta uma grande variedade de definições, interpretações e abordagens. Seguindo sua raiz grega symballo, que significa agrupar, representa a um mesmo tempo o subjetivo presente no objetivo e vice-versa. Jung em toda sua obra enfoca largamente a importância dos símbolos na vida cotidiana do Homem contemporâneo. Segundo Bachofen : “ Os símbolos evocam a intuição; a linguagem sabe apenas explicar... os símbolos entendem suas raízes até o fundo mais recôndito da alma; a linguagem roça, como uma brisa leve, a superfície da compreensão”.


Assim, podemos compreender que para a Psicologia Junguiana o Símbolo é um elemento chave para compreensão da natureza da Psique e que, a princípio, não pode ter seu significado esgotado em termos racionais. O símbolo é um produto natural da e para a psique e por isto traz em si o contexto objetivo-subjetivo do que representa. Quanto ao sinal podemos entender que é o significado pessoal, no tempo e no espaço, de um símbolo. O sinal refere-se ao que há de pessoal no símbolo. Seja por exemplo a cruz como um símbolo universal que ocorre de forma atemporal pela história. Para nossa cultura judaico-cristã representa ( traz o sinal ) de Jesus e seu calvário. Desta forma a cruz enquanto símbolo permanece um inescrutável mistério mas representa o sinal maior do Cristianismo.



Imagem, linguagem da alma


Da mesma forma que o pensamento e a linguagem são a expressão do espírito humano podemos afirmar que a imagem é a autêntica expressão da Alma. Olhando para o desenvolvimento do homem percebemos que esta antecede ao desenvolvimento do espírito e está na base de todo o pensamento racional.Imagem é a representação fiel da natureza dos conteúdos psíquicos. Segundo Jung tudo o que existe a priori são imagens. Em suas Memórias diz : "Tudo o que experimento é psíquico ... Minhas impressões sensoriais são imagens psíquicas e só estas constituem meus objetos imediatos de experiência. ... Somos, na verdade, tão isolados pelas imagens psíquicas que não podemos penetrar até a essência de coisas externas a nós mesmos. Todo o nosso conhecimento é condicionado pela Psique, que, por ser a única imediata, é superlativamente real."


Para Jung vivemos imediatamente apenas o mundo das imagens e por imagens referia-se ele não apenas aos nossos quadros mentais, mas a qualquer tipo de conteúdo consciente, a tudo o que a mente tem consciência. Para todos os fins e objetivos, nosso mundo é constituído destas imagens e “na medida em que o mundo não assume a forma de imagens psíquicas, é, virtualmente, não-existente. E torna-se óbvio que toda linguagem onde o conteúdo e a forma são imagéticos que estão incluídos de ambiguidade. Daí podemos imaginar o que significa a imagem como linguagem da Alma e as metáforas como sua manifestação mais autêntica.



Sonhos - O que é e o que não é


O que são os sonhos ? Talvez esta seja uma pergunta que desde o momento em que o primeiro Homem dormiu e sonhou venha tentando ser respondida. Os sonhos, à luz da ciência contemporânea, passaram a ser abordados como uma autêntica expressão do Homem e após Freud, usados para estudar e compreender a dimensão.
Sobre os sonhos então podemos entender que :


* A experiência dos sonhos nos leva a entrar em contato com uma vida “interior” secreta, a qual damos o nome de psíquica, e diretamente experienciar-nos como imagem dentro da imagem. Tal fato abre as portas para a subjetividade, a imaginação e conseqüentemente para a experiência da Alma.


* Os sonhos nos possibilitam entrar em contato com a ordem implícita da ordem explícita e experimentar o fenômeno da totalidade, o “holos”.


* Os sonhos não podem ser tidos somente com imagens noturnas tal qual uma emissora de TV que funciona das 00:00 h de um dia até às 7:00 h do outro dia. Os sonhos nos traz as imagens enquanto conteúdos psíquicos que estão na base de nosso comportamento consciente observável. Segundo Schopenhauer : “ a consciência é uma mera superfície de nossa mente, da qual, como da terra, não conhecemos o interior, mas apenas a crosta. Sob o intelecto consciente está a vontade consciente ou inconsciente, uma força vital esforçada e persistente, uma atividade espontânea.... a vontade é o cego robusto que carrega em seus ombros o coxo que vê... não queremos uma coisa porque encontramos razões para isso, encontramos razões para isso porque a queremos; podemos até elaborar filosofias e teologias para cobrir nossos desejos.”


* Os sonhos nos mostram que 24 h por dia estamos sendo influenciados e tocados diretamente por imagens e emoções que, de alguma forma, governam e ditam nosso comportamento.


* Os sonhos nos trazem a possibilidade de experienciar a subjetividade presente na objetividade e assim criar as dimensões do espaço interior distinto e permeável ao exterior. Este é o primeiro passo para a consciência do Eu se fortalecer para o fenômeno da Individualidade.



Sonhos - Princípios Básicos e divergências


O trabalho com os sonhos ocupa um papel importante da Psicologia de Jung apesar deste nunca ter sistematizado uma teoria geral ou método de trabalho sobre a análise dos sonhos. Inevitavelmente, alguns dos principais conceitos são postulados sob a forma de críticas e divergência com relação ao método proposto por Freud, fato este que reflete o caminho deixado pelo pioneiro como as limitações que encontrou ao experimentar se método.A principal divergência com Freud foi com relação ao que denomina de conteúdo manifesto e latente no sonho. Para Jung o sonho era o que era, não enganava, mas é uma mensagem complexa que exige um cuidadoso tratamento. Assim escreve : “ Eu aceito o sonho pelo que ele é. O sonho é uma coisa tão difícil e complicada que não ouso fazer quaisquer suposições sobre sua possibilidade de simulação ou sua tendência a enganar. O sonho é uma ocorrência natural e não existe nenhuma razão pela qual deveríamos supor que seja um astuto dispositivo para nos desorientar”.


Jung considerava os sonhos e o conteúdo como autênticos fatos psíquicos e não os interpretava partindo da condição a priori de que representavam conflitos de ordem sexual, com um significado relativamente fixo. Para Jung, Freud não trabalhava com símbolos mas simplesmente com sinais, que não são prospectivos como os símbolos, nem expressam um situação complexa de um modo único, mas se referem a algo já conhecido ( falo, castração, etc ).


O sinal é sempre menos do que o conceito que representa, ao passo que o símbolo sempre representa mais do que o seu significado imediato.
Outra divergência é quanto ao método de abordagem onde em Freud temos a associação livre temos em Jung a associação dirigida, onde chama-se a atenção do cliente para elementos do sonho que este poderia não estar percebendo. Jung escreve que : “ O sonho é uma pequena porta oculta nos mais recônditos e secretos recessos da Alma. Abrindo-se para aquela noite cósmica que era a Psique muito antes de existir qualquer consciência do Ego, e que continuará sendo Psique, não importa até que ponto se estenda nossa consciência do Ego”.


Ainda em oposição ao conceito de Freud dos sonhos como realização do desejo, Jung postulou sua própria teoria da compensação para explicar a função dos sonhos. Em dois momentos distintos afirma que : “O sonho é um auto-retrato espontâneo, em forma simbólica, da situação presente no inconsciente."


Ou mesmo que : “O sonho retifica a situação. Contribui com o material que estava faltando e, com ele, melhora atitude do paciente. Por isso precisamos da análise do sonho em nossa terapia. Todo processo que vai longe demais, imediata e inevitavelmente, suscita compensações. (...) A teoria da compensação é uma lei básica do comportamento psíquico. (...) Quando começamos a interpretar um sonho é sempre útil perguntar: que atitude consciente ele está compensando ? "


A última área de divergência com Freud diz respeito à consideração se os sonhos devem ser considerados do ponto de vista subjetivo ou objetivo. Assim sendo, se considerado o primeiro todos os elementos do sonho seriam considerados como partes da personalidade do próprio sujeito e, ao contrário, seriam pessoas reais ou aspectos delas na vida de quem sonhou ou a partir de uma situação de vida com a qual ele é confrontado. Jung não opta absolutamente por apenas uma destas considerações mas acusa Freud de considerar apenas a objetiva.


(Autor: Jorge L. de Oliveira Braga – Analista Junguiano – AJB)







terça-feira, 19 de agosto de 2008

SONETO DA FIDELIDADE - VINICIUS DE MORAES


(Soneto da fidelidade declamado de toda sua alma e emoção por nada mais, nada menos que o próprio e tudo de bom "Poetinha" acompanhado do piano de Tom Jobim, simplesmente show!!!)

De tudo, meu amor serei atento antes

E com tal zelo, e sempre, e tanto

Que mesmo em face do maior encanto

Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento

E em seu louvor hei de espalhar meu canto

E rir meu riso e derramar meu pranto

Ao seu pesar ou seu contentamento.

E assim, quando mais tarde me procure

Quem sabe a morte, angústia de quem vive

Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor que tive:

Que não seja imortal, posto que é chama

Mas que seja infinito enquanto dure.


(Vinicius de Moraes)

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

O AMOR - JOHN LENNON


Fizeram a gente acreditar que amor mesmo, amor
pra valer, só acontece uma vez, geralmente antes dos 30 anos.
Não contaram pra nós que amor não é
acionado, nem chega com hora marcada.

Fizeram a gente acreditar que cada um de nós é
a metade de uma laranja, e que a vida só ganha sentido quando encontramos a outra metade.
Não contaram que já nascemos inteiros, que ninguém em nossa vida merece carregar nas
costas a responsabilidade de completar o que nos
falta: nós crescemos através de nós mesmos.
Se estivermos em boa companhia, é só mais agradável.

Fizeram a gente acreditar numa fórmula
chamada "dois em um", duas pessoas pensando igual, agindo igual, que era isso que funcionava. Não nos contaram que isso tem nome: anulação. Que só sendo indivíduos com personalidade
própria é que poderemos ter uma relação saudável.

Fizeram a gente acreditar que casamento é
obrigatório e que desejos fora de hora devem ser reprimidos.

Fizeram a gente acreditar que os bonitos e
magros são mais amados, que os que transam pouco são caretas, que os que transam muito não são confiáveis, e que sempre haverá um chinelo velho para um pé torto.
Só não disseram que existe muito mais cabeça torta do que pé torto.

Fizeram a gente acreditar que só há uma fórmula
de ser feliz, a mesma para todos, e os que escapam dela estão condenados à marginalidade. Não nos contaram que estas fórmulas dão errado, frustram as pessoas, são alienantes, e que podemos tentar outras alternativas.

Ah, também não contaram que ninguém vai contar isso tudo pra gente.
Cada um vai ter que descobrir sozinho.

E aí, quando você estiver muito apaixonado por
você mesmo...
vai poder ser muito feliz e se apaixonar por alguém.

(John Lennon)

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

MITO, RITO E RELIGIÃO


É necessário deixar bem claro, nesta tentativa de conceituar o mito, que o mesmo não tem aqui a conotação usual de fábula, lenda, invenção, ficção, mas a acepção que lhe atribuíam e ainda atribuem as sociedades arcaicas, as impropriamente denominadas culturas primitivas, onde mito é o relato de um acontecimento ocorrido no tempo primordial, mediante a intervenção de entes sobrenaturais. Em outros termos, mito, é o relato de uma história verdadeira, ocorrida nos tempos dos princípios, quando com a interferência de entes sobrenaturais, uma realidade passou a existir, seja uma realidade total, o cosmo, ou tão-somente um fragmento, um monte, uma pedra, uma ilha, uma espécie animal ou vegetal, um comportamento humano. Mito é, pois, a narrativa de uma criação: conta-nos de que modo algo, que não era, começou a ser.

De outro lado, o mito é sempre uma representação coletiva, transmitida através de várias gerações e que relata uma explicação do mundo. Mito é, por conseguinte, a parole, a palavra "revelada", o dito. E, desse modo, se o mito pode se exprimir ao nível da linguagem, "ele é, antes de tudo, uma palavra que circunscreve e fixa um acontecimento". "O mito é sentido e vivido antes de ser inteligido e formulado. Mito é a palavra, a imagem, o gesto, que circunscreve o acontecimento no coração do homem, emotivo como uma criança, antes de fixar-se como narrativa".

O mito expressa o mundo e a realidade humana, mas cuja essência é efetivamente uma representação coletiva, que chegou até nós através de várias gerações. E, na medida em que pretende explicar o mundo e o homem, isto é, a complexidade do real, o mito não pode ser lógico: ao revés, é ilógico e irracional. Abre-se como uma janela a todos os ventos; presta-se a todas as interpretações. Decifrar o mito é, pois, decifrar-se. E, como afirma Roland Barthes, o mito não pode, conseqüentemente, "ser um objeto, um conceito ou uma idéia: ele é um modo de significação, uma forma". Assim, não se há de definir o mito "pelo objeto de sua mensagem, mas pelo modo como a profere".

É bem verdade que a sociedade industrial usa o mito como expressão de fantasia, de mentiras, daí mitomania, mas não é este o sentido que hodiernamente se lhe atribui.

O mesmo Roland Barthes, aliás, procurou reduzir, embora significativamente, o conceito de mito, apresentando-o como qualquer forma substituível de uma verdade. Uma verdade que esconde outra verdade. Talvez fosse mais exato defini-lo como uma verdade profunda de nossa mente. É que poucos se dão ao trabalho de verificar a verdade que existe no mito, buscando apenas a ilusão que o mesmo contém. Muitos vêem no mito tão-somente os significantes, isto é, a parte concreta do signo. É mister ir além das aparências e buscar-lhe os significados, quer dizer, a parte abstrata, o sentido profundo.

Talvez se pudesse definir mito, dentro do conceito de Carl Gustav Jung, como a conscientização de arquétipos do inconsciente coletivo, quer dizer, um elo entre o consciente e o inconsciente coletivo, bem como as formas através das quais o inconsciente se manifesta.

Compreende-se por inconsciente coletivo a herança das vivências das gerações anteriores. Desse modo, o inconsciente coletivo expressaria a identidade de todos os homens, seja qual for a época e o lugar onde tenham vivido.

Arquétipo, do grego "arkhétypos", etimologicamente, significa modelo primitivo, idéias inatas. Como conteúdo do inconsciente coletivo foi empregado pela primeira vez por Yung. No mito, esses conteúdos remontam a uma tradição, cuja idade é impossível determinar. Pertencem a um mundo do passado, primitivo, cujas exigências espirituais são semelhantes às que se observam entre culturas primitivas ainda existentes. Normalmente, ou didaticamente, se distinguem dois tipos de imagens:

a) imagens (incluídos os sonhos) de caráter pessoal, que remontam a experiências pessoais esquecidas ou reprimidas, que podem ser explicadas pela anamnese individual;

b) imagens (incluídos os sonhos) de caráter impessoal, que não podem ser incorporados à história individual. Correspondem a certos elementos coletivos: são hereditárias.

A palavra textual de Jung ilustra melhor o que expôs: "Os conteúdos do inconsciente pessoal são aquisições da existência individual, ao passo que os conteúdos do inconsciente coletivo são arquétipos que existem sempre a priori.

Embora se tenha que admitir a importância da tradição e da dispersão por migrações, casos há e muito numerosos em que essas imagens pressupõem uma camada psíquica coletiva: é o inconsciente coletivo. Mas, como este não é verbal, quer dizer, não podendo o inconsciente se manifestar de forma conceitual, verbal, ele o faz através de símbolos. Atente-se para a etimologia de símbolo, do grego "sýmbolon", do verbo "symbállein", "lançar com", arremessar ao mesmo tempo, "com-jogar". De início, símbolo era um sinal de reconhecimento: um objeto dividido em duas partes, cujo ajuste e confronto permitiam aos portadores de cada uma das partes se reconhecerem. O símbolo é, pois, a expressão de um conceito de eqüivalência. Assim, para se atingir o mito, que se expressa por símbolos, é preciso fazer uma eqüivalência, uma "con-jugação", uma "re-união", porque, se o signo é sempre menor do que o conceito que representa, o símbolo representa sempre mais do que seu significado evidente e imediato.

Em síntese, os mitos são a linguagem imagística dos princípios. "Traduzem" a origem de uma instituição, de um hábito, a lógica de uma gesta, a economia de um encontro.

Na expressão de Goethe, os mitos são as relações permanentes da vida.

Se mito é, pois, uma representação coletiva, transmitida através de várias gerações e que relata uma explicação do mundo, então o que é mitologia?

Se mitologema é a soma dos elementos antigos transmitidos pela tradição e mitema as unidades constitutivas desses elementos, mitologia é o "movimento" desse material: algo de estável e mutável simultaneamente, sujeito, portanto, a transformações. Do ponto de vista etimológico, mitologia é o estufo dos mitos, concebidos como história verdadeira.

Quanto à religião, do latim "religione", a palavra possivelmente se prende ao verbo "religare", ação de ligar.

Religião pode, assim, ser definida como o conjunto das atitudes e atos pelos quais o homem se prende, se liga ao divino ou manifesta sua dependência em relação a seres invisíveis tidos como sobrenaturais. Tomando-se o vocábulo num sentido mais estrito, pode-se dizer que a religião para os antigos é a reatualização e a ritualização do mito. O rito possui, "o poder de suscitar ou, ao menos, de reafirmar o mito".

Através do rito, o homem se incorpora ao mito, beneficiando-se de todas as forças e energias que jorraram nas origens. A ação ritual realiza no imediato uma transcendência vivida. O rito toma, nesse caso, "o sentido de uma ação essencial e primordial através da referência que se estabelece do profano ao sagrado". Em resumo: o rito é a praxis do mito. É o mito em ação. O mito rememora, o rito comemora.

Rememorando os mitos, reatualizando-os, renovando-os por meio de certos rituais, o homem torna-se apto a repetir o que os deuses e os heróis fizeram "nas origens", porque conhecer os mitos é aprender o segredo da origem das coisas. "E o rito pelo qual se exprime (o mito) reatualiza aquilo que é ritualizado: re-criação, queda, redenção". E conhecer a origem das coisas - de um objeto, de um nome, de um animal ou planta - "eqüivale a adquirir sobre as mesmas um poder mágico, graças ao qual é possível dominá-las, multiplicá-las ou reproduzí-las à vontade". Esse retorno às origens, por meio do rito, é de suma importância, porque "voltar às origens é readquirir as forças que jorraram nessas mesmas origens". Não é em vão que na Idade Média muitos cronistas começavam suas histórias com a origem do mundo. A finalidade era recuperar o tempo forte, o tempo primordial e as bênçãos que jorraram illo tempore.

Além do mais, o rito, reiterando o mito, aponta o caminho, oferece um modelo exemplar, colocando o homem na contemporaneidade do sagrado. É o que nos diz, com sua autoridade, Mircea Eliade: "Um objeto ou um ato não se tornam reais, a não ser na medida em que repetem um arquétipo. Assim a realidade se adquire exclusivamente pela repetição ou participação; tudo que não possui um modelo exemplar é vazio de sentido, isto é, carece de realidade".

O rito, que é o aspecto litúrgico do mito, transforma a palavra em verbo, sem o que ela é apenas lenda, "legenda", o que deve ser lido e não mais proferido.

À idéia de reiteração prende-se a idéia de tempo. O mundo transcendente dos deuses e heróis é religiosamente acessível e reatualizável, exatamente porque o homem das culturas primitivas não aceita a irreversibilidade do tempo: o rito abole o tempo profano, cronológico, é linear e, por isso mesmo, irreversível (pode-se "comemorar" uma data histórica, mas não fazê-la voltar no tempo), o tempo mítico, ritualizado, é circular, voltando sempre sobre si mesmo. É precisamente essa reversibilidade que liberta o homem do peso do tempo morto, dando-lhe a segurança de que ele é capaz de abolir o passado, de recomeçar sua vida e recriar seu mundo. O profano é tempo da vida; o sagrado, o "tempo" da eternidade.

A "consciência mítica", embora rejeitada no mundo moderno, ainda está viva e atuante nas civilizações denominadas primitivas: "O mito, quando estudado ao vivo, não é uma explicação destinada a satisfazer a uma curiosidade científica, mas uma narrativa que faz reviver uma realidade primeva, que satisfaz as profundas necessidades religiosas, aspirações morais, a pressões e a imperativos de ordem social e mesmo a exigências práticas. Nas civilizações primitivas, o mito desempenha uma função indispensável: ele exprime, exalta e codifica a crença; salvaguarda e impõe os princípios morais; garante a eficácia do ritual e oferece regras práticas para a orientação do homem. O mito é um ingrediente vital da civilização humana; longe de ser uma fabulação vã, ele é, ao contrário, uma realidade viva, à qual se recorre incessantemente; não é, absolutamente, uma teoria abstrata ou uma fantasia artística, mas uma verdadeira codificação da religião primitiva e da sabedoria prática".
(Fonte:mundodosfilosofos.com.br)

terça-feira, 12 de agosto de 2008

TEORIA DA PERSONALIDADE

Máscara - Pitty



Diga, quem você é me diga
Me fale sobre a sua estrada
Me conte sobre a sua vida

Tira, a máscara que cobre o seu rosto
Se mostre e eu descubro se eu gosto
Do seu verdadeiro jeito de ser

Ninguém merece ser só mais um bonitinho
Nem transparecer consciente inconsequente
Sem se preocupar em ser, adulto ou criança

O importante é ser você, mesmo que seja, estranho
Seja você, mesmo que seja bizarro bizarro bizarro
Mesmo que seja, estranho, seja você, mesmo que seja

Meu cabelo não é igual
A sua roupa não é igual
Ao meu tamanho não é igual
Ao seu caráter não é igual
Não é igual, não é igual
Não é igual

I had enough of it but I don't care
I had enough of it but I don't care
I had enough of it but I don't care
I had enough of it but I don't care

**********************************

As teorias, discussões e controvérsias sobre a Personalidade foram temas sempre presentes em toda história da filosofia, psicologia, sociologia, antropologia e medicina geral. Entre tantas tendências destaca-se um tronco ideológico segundo o qual os seres humanos foram criados iguais quanto sua capacidade potencial. Neste caso, a ocorrência das diferenças individuais seria interpretada como uma decisiva influência ambiental sobre o desenvolvimento da Personalidade.

De acordo com tal enfoque, havendo no mundo uma hipotética igualdade de oportunidades, seríamos todos iguais quanto as nossas realizações, já que, potencialmente seríamos iguais. Assim pensando, se a todos fossem dadas oportunidades iguais, como por exemplo, oportunidade musical ou artística, seria impossível destacar-se um Chopin, Mozart, Monet, Rembrandt, porque a potencialidade de todos seus colegas de classe seria a mesma. A única diferença entre Einstein e os demais teria sido uma simples questão de oportunidade e circunstâncias ambientais. Neste caso a Personalidade, a inteligência, a vocação e a própria doença mental seriam questões exclusivamente ambientais.

A idéia de buscar fora da pessoa os elementos que explicassem seu comportamento a sua desenvoltura vivencial teve ênfase com as teorias de Rousseau, segundo o qual era a sociedade quem corrompia o homem. Subestimou-se a possibilidade da sociedade refletir, exatamente, a totalidade das tendências humanas. Seres humanos que trazem em si um potencial corruptor o qual, agindo sobre outros indivíduos sujeito à corrupção, produzem um efeito corruptível. Ou seja, trata-se de um demérito tipicamente humano.

Outra concepção acerca da Personalidade foi baseada na constituição biotipológica, segundo a qual a genética não estaria limitada exclusivamente à cor dos olhos, dos cabelos, da pele, à estatura, aos distúrbios metabólicos e, às vezes, às malformações físicas, mas também, determinaria às peculiares maneiras do indivíduo relacionar-se com o mundo: seu temperamento, seus traços afetivos, etc.

As considerações extremadas neste sentido descartam qualquer possibilidade de influência do meio sobre o desenvolvimento e desempenho da Personalidade e atribui aos arranjos sinápticos e genéticos a explicação de todas as características da Personalidade.

Buscando um meio termo, como apelo ao bom senso, pode-se considerar a totalidade do ser humano como sendo um balanço entre duas porções que se conjugam de forma a produzir a pessoa tal como é:

1- uma natureza biológica, tendo por base nossa natural submissão ao reino animal e às leis da biologia, da genética e dos instintos. Assim sendo, os genes herdados se apresentam como possibilidades variáveis de desenvolvimento em contacto com o meio (e não como certeza inexorável de desenvolvimento);

2- uma natureza existencial, suprabiológica conferindo à Personalidade elementos que transcendem o animal que repousa em nós. A pessoa, ser único e individual, distinto de todos outros indivíduos de sua espécie, traduz a essência de uma peculiar combinação bio-psico-social.

Desta forma, a definição de Personalidade poderia ser esboçada da seguinte maneira:

"PERSONALIDADE É A ORGANIZAÇÃO DINÂMICA DOS TRAÇOS NO INTERIOR DO EU, FORMADOS A PARTIR DOS GENES PARTICULARES QUE HERDAMOS, DAS EXISTÊNCIAS SINGULARES QUE EXPERIMENTAMOS E DAS PERCEPÇÕES INDIVIDUAIS QUE TEMOS DO MUNDO, CAPAZES DE TORNAR CADA INDIVÍDUO ÚNICO EM SUA MANEIRA DE SER, DE SENTIR E DE DESEMPENHAR O SEU PAPEL SOCIAL".

Dessa forma, o ser humano não pode ser considerado como um produto exclusivo de seu meio, tal como um aglomerado dos reflexos condicionados pela cultura que o rodeia e despido de qualquer elã mais nobre de sentimentos e vontade própria. Não pode, tampouco, ser considerado um punhado de genes, resultando numa máquina programada a agir desta ou daquela maneira, conforme teriam agido exatamente os seus ascendentes biológicos.

Se assim fosse, o ser humano passaria pela vida incólume aos diversos efeitos e conseqüências de suas vivências pessoais. Sensatamente, o ser humano não deve ser considerado nem exclusivamente ambiente, nem exclusivamente herança, antes disso, uma combinação destes dois elementos em proporções completamente insuspeitadas.

Todas as vezes que colocamos lado a lado duas pessoas estabelecendo comparações entre elas, qualquer que seja o aspecto a ser medido e comparado, verificamos sempre a existência de diferenças entre ambas. Constatamos assim, as diferenças entre os indivíduos, as peculiaridades que os tornam únicos e inimitáveis.

Por outro lado, podemos verificar também e paradoxalmente, outras características comuns a todos os seres humanos, tal como uma espécie de marca registrada de nossa espécie. Desta feita, há elementos comuns e capazes de nos identificar todos como pertencentes a uma mesma espécie, portanto, característicos da natureza humana e, a par destes elementos humanos próprios, outros atributos capazes de diferenciar um ser humano de todos os demais.

Para demonstrar didaticamente este duplo aspecto da constituição humana imaginemos, por exemplo, um enorme canteiro de rosas amarelas. Embora todos os indivíduos do canteiro tenham características comuns e suficiente para ser considerados e identificados como rosas amarelas, será praticamente impossível encontrar, entre eles, dois exemplares exatamente iguais. Portanto, apesar de todos esses indivíduos possuírem traços individuais, tais como, perfume, pétalas e espinhos, cada um deles tem suas características individuais, mais perfume, pétalas de tonalidade diferente e espinhos mais realçados...

No ser humano normal também pode se encontrar características universais, como por exemplo, a angústia, a ambição, o amor, o ódio, o ciúme, etc. Entretanto, em cada um de nós estes traços combinar-se-ão de maneira completamente singular.

Podemos afirmar que os seres humanos são essencialmente iguais e funcionalmente diferentes, ou seja, podemos nos considerar iguais uns aos outros quanto à nossa essência humana (ontologicamente), entretanto, funcionamos diferentemente uns dos outros. Todas as tendências ideológicas que enfatizam a igualdade dos seres humanos, num total descaso para com as diferenças funcionais, ecoam aos ouvidos despreparados com eloqüente beleza retórica, romântica, ética e moral, porém, falsas.

As teorias sobre igualdade plena entre seres humanos, sem que se reconheçam as diferenças funcionais sucumbem diante de incontáveis evidências em contrário: não resistem à constatação das flagrantes e involuntárias diferenças entre os indivíduos, bem como não explicam a indomável característica humana que é a perene vocação das pessoas em querer destacarem-se dos demais.

Semelhanças Essenciais

A data do aparecimento do ser humano na face da Terra vai recuando no tempo na medida em que avançam os métodos das descobertas da arqueologia. A idéia de que o homem de Neanderthal tenha sido um ancestral do Homo sapiens tem sido cada vez mais contestada por antropólogos e palenteólogos, cogitando-se a tese de que há mais de cinco milhões de anos existiam homens capazes de fabricar utensílios e cultuar seus mortos. Contudo, apesar do ser humano ter conseguido modificar suas possibilidades de ação e seus modos de existência em poucos e recentes séculos de sua história, muitas atitudes e sentimentos do homem pré-histórico continuam presentes no ser humano moderno.

É incontestável, sem dúvida, o grande salto dado por nosso desempenho mental, ainda que, desacompanhado de mudanças substanciais em nossa biologia. Fomos capazes de saltar da pedra lascada ao micro-circuito integrado, do fogo à fusão nuclear e, sabe-se lá, até onde chegaremos mais. Apesar disso, muita coisa ficou indelevelmente impressa na maneira de ser do indivíduo moderno que remonta aos nossos irmãos das cavernas.

A atividade mental do ser humano contemporâneo é totalmente diferente daquela de nossos ancestrais, principalmente no que diz respeito à aquisição do conhecimento. Trata-se de uma espécie de destino biológico da espécie em sua jornada dirigida ao conhecimento, a qual se promove através da utilização progressiva dos ilimitados recursos do sistema nervoso humano.

Entretanto, voltando à questão das coisas que temos em comum com nossos irmãos trogloditas. Se há cinqüenta mil anos o homem ia à luta com sua clava, hoje ele se empenha no combate com sua arma automática. A motivação ou o sentimento (e muitas vezes o objetivo) desta desavença com o próximo são os mesmos, tanto na pré-história quanto hoje. Se em nossa pré-história nossos irmãos cultuavam seus mortos, julgando que se transformavam em deuses, hoje consola-nos a idéia de que eles vão a Deus depois de mortos.

De acordo com Jung, nenhum biólogo pensaria em admitir que todo indivíduo adquira de novo seu modo geral de comportamento com o nascimento. Bem mais provável é que o jovem pardal teça seu ninho característico porque é um pássaro e não um coelho. Assim também, é mais provável que o homem nasça com sua maneira de comportar-se especificamente humana e não com a do hipopótamo.

Há então, elementos de notável semelhança na essência do ser humano, expressões e modos característicos da espécie. Podemos encontrar formas psíquicas no indivíduo que ocorrem não somente em seus ascendentes mais próximos, mas em outras épocas distantes de nós milhares de anos e às quais estamos ligados apenas pela arqueologia. Jung coloca estas Semelhanças Essenciais do ser humano como sendo certas formas típicas de comportamento característico, os quais, ao se tornarem conscientes, assumem o aspecto de representações do mundo.

Poderíamos ilustrar um pouco mais esta questão das Semelhanças Essenciais lembrando os Instintos. Estes aparecem como formas típicas de comportamento da espécie, podendo, estar ou não associadas a um motivo consciente. Freud chama atenção para estas características universais da pessoa: os Instintos Básicos. Enfatiza notadamente o instinto para a preservação da vida, tanto da vida individual, sob a forma de afastamento da dor (ou busca do prazer), quanto da vida da espécie, através da sexualidade. Ele cita ainda o instinto da morte, o qual, apesar de contestado por muitos autores, quando voltado para o exterior conduz à agressão. Pela teoria dos instintos, serão inúteis as tentativas do ser humano em livrar-se totalmente das inclinações agressivas, já que indispensáveis para a execução dos instintos.

Didaticamente poderíamos considerar os Arquétipos e os Instintos como duas faces de uma mesma moeda; enquanto os Instintos trazem em seu bojo uma conotação biológica e que nos remete às sombras de nosso passado mais animalesco, os Arquétipos distinguem o ser humano num patamar mais elevado e diferenciado, ou seja, mais espiritualizado.

Na filosofia, a busca de uma característica humana marcante foi vislumbrada por Schopenhauer como sendo a Vontade. O fato de sentir e querer é a atitude mais básica que o ser humano conhece, portanto, comum a todos nós. Desta forma, o intelecto se coloca a serviço desta forma irracional, ou supra-racional, chamada Vontade. Posteriormente Nietzsche acrescentou à Vontade de Shopenhauer o Poder: motivação básica e universal entre os homens.

A vontade do Poder serviu de orientação aos estudos de Alfred Adler para a compreensão psicodinâmica deste impulso natural, retirando do termo qualquer conotação pejorativa. Para Adler, o Poder atendia as mesmas exigências dos instintos básicos de Freud e a motivação da atitude humana estava firmemente atrelada à sua vontade do poder: poder sobre os demais semelhantes.

Adler compara fenomenologicamente o poder aspirado pelo bandido que deseja ser o mais pérfido entre seus pares, com a aspiração de poder do indivíduo caridoso, manifestando sua pulsão de supremacia caridosa entre seus companheiros de altruísmo. Evidentemente não cabe aqui uma preocupação valorativa ou ética, mas apenas a constatação do fenômeno.

De qualquer forma, seja a necessidade íntima de um deus que conforta, seja nossa perene tendência em preservar a vida ou garantir a espécie, seja nossa constante busca do prazer, seja uma vontade que motiva ou um poder que estimula, podemos pensar sempre num elemento da Personalidade humana que tenha se perpetuado ao longo de nossa história. Trata-se de determinadas posturas existenciais diante da vida que acompanham nossa espécie através de infindáveis gerações. São elas, verdadeiras Tendências Naturais do ser humano.

Embora a essência destas Tendências Naturais pareça emancipada da situação temporal e ambiental atuais pelo fato de terem existido, de existirem e de continuarem existindo em qualquer momento de nossa história, suas manifestações comportamentais e emocionais deverão, em nome da normalidade psíquica, estar sempre vinculadas e adequadas ao modelo sócio-cultural e às possibilidades de ação de cada um.

Portanto, não será a Tendência Natural pura e primitiva quem se manifestará na maneira de ser da pessoa, mas sim, estas mesmas tendências domesticadas e aculturadas. Uma conduta instintiva pura é praticamente impossível manifestar-se em condições psíquicas normais. Tais impulsos primitivos se diluem pelas pressões das circunstâncias e pelas peculiaridades afetivas de cada um e, se mascaram de tal forma, que acabam ficando dissimuladas pelo caráter do indivíduo.

Durante toda sua existência o indivíduo é compelido a atender estas Tendências Naturais, basicamente as mesmas em todos nós. As maneiras pelas quais tais tendências serão atendidas mostrarão as diferenças entre as pessoas, entre as gerações e entre os povos. O instinto do Poder, por exemplo, pode se manifestar de diversas maneiras nas diferentes pessoas; prazer em ter poder, em sentir-se superior aos demais nos mais variados aspectos existenciais. Um monge poderia manifestar esta tendência buscando o prazer em sentir-se o mais humilde entre seus pares, superior a todos os demais em termos de humildade e abnegação. Sentiria uma satisfação suprema, perante Deus, ao saber-se o mais humilde entre os mortais. O intelectual conquistaria seu prazer percebendo-se o mais erudito em sua área, o poder do saber. O amante, através do poder de cativar, ou o poder material do rico, a autoridade do político, a coragem do soldado, o qual teme mais a opinião de seus camaradas que a arma do inimigo, e assim por diante.

Enfim, a busca do prazer deve atender certos anseios pessoais em concordância com determinadas circunstâncias sócio-culturais, mas, de qualquer modo, o fenômeno da busca do prazer com suas mais variadas apresentações é observado universalmente entre os homens.

Para a manutenção de uma situação de equilíbrio entre o indivíduo e seu meio ou entre ele e si próprio é necessário um relacionamento harmônico entre o peso de suas tendências, as possibilidades de seu espírito e as exigências de seu ambiente. Há um ditado que diz: quando a miséria entra pela porta da frente a virtude sai pela janela. Isso ilustra bem que o que poder acontecer quando o ambiente passa a significar uma ameaça à sobrevivência ou passa a favorecer uma perspectiva de dor e sofrimento.

As situações de emergência são capazes de determinar atitudes primitivas, as quais convocam o indivíduo a desempenhar uma postura vivencial em direção à sobrevivência, emancipada de considerações mais éticas. Há, pois, uma tendência ao aparecimento dos ditos comportamentos primordiais sempre que houver uma flagrante ameaça aos instintos básicos do indivíduo, como se procedesse a uma regressão ao estado biológico natural (predominantemente instintivo) ou uma espécie de desempenho vivencial comandado por um nível mais inferior de psiquismo e onde as considerações mais sublimes, do tipo moral e ético, ficassem proteladas em benefício de considerações mais pragmáticas.

Outro provérbio que ajuda uma análise mais didática é aquele que se diz: pau que nasce torto, não tem jeito: morre torto. Isso diz respeito ao componente constitucional da pessoa. Neste caso, havendo um peso exagerado das tendências naturais, ou seja, não se conseguindo domesticar bem tais tendências, mesmo em situações onde não haja uma exigência importante, o indivíduo passa a conduzir-se pelos ditames de seus impulsos naturais e por suas paixões mais primitivas. Nosso espírito, ou nossos sentimentos mais sublimes, ou aquele nosso algo mais humano é quem exerce a atividade harmonizadora no relacionamento dito civilizado do homem com o ambiente em que vive.

Os instintos aparecem sempre idênticos entre os indivíduos de uma mesma espécie, porém, apenas enquanto funcionam instintivamente. As tendências naturais compreendem instintos em sua essência, mas o aparelho psíquico do ser humano tem por função a transformação da imagem instintiva original, de acordo com as imposições de sua cultura e de suas emoções. Desta forma, cada manifestação instintiva é peculiar a cada indivíduo, por causa da peculiaridade de seu padrão emocional, e será dissimulada pelas características de Personalidade de cada um. Mas nem por isso pode-se anular o instinto básico original, ele é apenas transformado e adequado ao indivíduo e às exigências do sistema sócio-cultural.

Diferenças Funcionais

Ao lado das Tendências Naturais, capazes de identificar todos nós como pertencentes à mesma espécie, vamos encontrar as peculiaridades próprias e particulares com as quais cada um se apresentará e se relacionará com o mundo. Allport ilustra estas diferenças funcionais de cada um através de suas considerações sobre os Traços Pessoais; verdadeiros arranjos pessoais e constitucionais determinados por fatores genéticos, os quais, interagindo com o meio em maior ou menor intensidade, resultariam numa característica psíquica capaz de particularizar um indivíduo entre todos os demais de sua espécie.

Entendem-se os traços herdados como possibilidades de vir a ser e não como uma certeza de que será. Há uma quantidade enorme, ainda pouco delimitada pela genética, de traços possíveis de transmissão hereditária, porém, apenas parte desses traços se manifestará no indivíduo. Esta maneira singular da pessoa interagir com seu mundo, decorrente de seus traços pessoais, pode ser chamada de Disposição Pessoal.

Assim, conhece-se por Disposição Pessoal, a tradução no indivíduo da combinação particular de traços que se manifestam em sua Personalidade, combinação esta só possível nele próprio. Desta feita, a Disposição Pessoal de um indivíduo confunde-se com sua própria Personalidade, sua maneira particular de lidar com a vida, com o mundo e com suas próprias emoções.

É possível, como mostraram inúmeros autores, agrupar indivíduos de acordo com determinadas características psíquicas mais ou menos comuns aos diversos grupos. Temos assim classificações que reconhecem os introvertidos, extrovertidos, sensitivos, pensativos, intuitivos, sentimentais ou, de outra forma, os explosivos, melancólicos, obsessivos, e assim por diante.

Trata-se do reconhecimento de traços predominantes na Personalidade ou na maneira de ser, de tal forma que permitem uma classificação. Isso não quer dizer, de forma alguma, que a Personalidade total dos indivíduos classificados desta ou daquela maneira seja idêntica em todos do mesmo grupo: entre todos introvertidos, cada qual dispõe de uma Personalidade peculiar e apenas manifestam em comum uma tonalidade afetiva depressiva com sua conseqüente apresentação social introvertida.

Para abordar o problema das diferenças funcionais dos indivíduos, mais precisamente das Personalidades peculiares de cada um, podemos considerar três critérios de observação:

1- os Traços como Personalidade;

2- o "eu" como Personalidade e;

3- os Papéis Sociais como Personalidade.

Os Traços como Personalidade

Nenhum ser humano mostrará Traços que já não existam em todos outros indivíduos, como uma espécie de patrimônio do ser humano, ou seja, à todos indivíduos de uma mesma espécie são atribuídos os traços característicos dessa espécie. Vimos isso no item anterior sobre as Semelhanças Essenciais. Entretanto, a combinação individual desses Traços em proporções variadas numa determinada pessoa caracterizará sua Personalidade ou sua maneira de ser (Diferenças Funcionais).

O senso comum de um sistema sócio-cultural costuma elaborar uma relação muito extensa de adjetivos utilizados para a argüição dos indivíduos deste sistema: sincero, honesto, compreensivo, inteligente, cálido, amigável, ambiciosos, pontual, tolerante, irritável, responsável, calmo, artístico, científico, ordeiro, religiosos, falador, excitado, moderado, calado, corajosos, cauteloso, impulsivo, oportunista, radical, pessimista, e por aí afora. Podemos considerar Traço Predominante da pessoa em apreço a característica que melhor à define, como se, entre tantos traços tipicamente e caracteristicamente humanos, este traço específico predominasse sobre os demais.

Pois bem. É exatamente a predominância de alguns traços e a atenuação de outros que acaba por constituir a Personalidade de cada um. Enfim, é como se o artista conseguisse extrair uma cor única e muito pessoal misturando uma série de cores básicas encontradas em todas as lojas de tintas. Como os traços básicos do ser humano são infinitamente mais numerosos que as cores básicas do exemplo, as combinações entre esses traços será infinita, fazendo desse fato a infinita diversidade de Personalidades.

A combinação dos Traços resultará uma unidade funcional humana completamente distinta de todas as demais. É difícil pensar nestes Traços de outra forma, senão como certa inclinação inata submetida à influência agravante ou atenuante do meio, inclinação esta, responsável pela maneira como a pessoa se apresentará ao mundo ou ao convívio gregário.

O "EU" Como Personalidade

O "eu" é o ser total, essencial e particular de uma pessoa. Freqüentemente usado como sinônimo de Personalidade, diz respeito à consciência que o indivíduo tem do mundo e de si próprio. A compreensão da pessoa através do seu "eu" como Personalidade propõe a distinção entre aquilo que o indivíduo faz daquilo que ele pensa.

Na abordagem do "eu" importa o elemento dinâmico da Personalidade, portanto, serão de inestimável valor as considerações sobre as Representações Internas que o indivíduo tem acerca da Realidade Externa. Importa aqui as relações entre o sujeito e o objeto ou entre a pessoa e o mundo. Enquanto a observação dos Traços é uma tarefa mais objetiva e prática, as considerações sobre o "eu" são avaliações mais subjetivas. As características da Personalidade assim avaliada dizem respeito não apenas ao modo como a pessoa se apresenta no mundo, conforme vimos em relação aos Traços, mas à maneira como a pessoa sente o mundo e se relaciona com ele.

Muitos autores discorrem sobre esta forma de avaliação da Personalidade. Entre eles, Jung vê dois tipos de Disposição Pessoal pelas quais os indivíduos se caracterizarão no contacto com a realidade ou com o mundo objetivo:

1- a maneira introvertida e;

2- a maneira extrovertida.

Além destas duas disposições básicas, reconhece ainda quatro funções associadas à elas: função pensamento, sentimento, sensação e intuição. Desta forma, o indivíduo pode ser considerado do tipo introvertido pensativo, ou sensitivo extrovertido e assim por diante. Pela tipologia psicológica de Jung são possíveis oito tipo psicológicos puros mas, normalmente, cada pessoa dispõe de duas funções predominantes, como por exemplo, o tipo extrovertido intuitivo-sentimental. Em sua obra Tipos Psicológicos este assunto é abordado detalhadamente e apresentado de maneira mais fácil do possa parecer nesse exemplo sumário.

Outros autores consideram a Personalidade baseada no "eu" de maneira diferente. Entendem os indivíduos que contactam a realidade de maneira introvertida através de uma descrição mais diversificada e atribuindo-lhes outros predicados: tristes, inseguros, melancólicos, de tonalidade afetiva depressiva, e assim por diante. Na realidade, depois de compreender os conceitos da psicopatologia e psiquiatria de forma globalizada, veremos que as diferentes abordagem são mais semânticas que ideológicas.

O Papel Social Como Personalidade

Este tipo de consideração sobre a Personalidade ressalta o papel constituído pelos sentimentos, atitudes e comportamentos que a sociedade espera do ocupante de uma posição em algum lugar da estrutura social. As pessoas tendem adaptar-se ao papel a elas designado. As pessoas que encontram um padre pela frente têm expectativas comuns sobre como ele dever se comportar, da mesma forma que o doente tem expectativas diante de seu médico, este de seus clientes e assim por diante.

Todos desempenham muitos papeis sociais, cada um a seu tempo. Papel de criança pré-escolar, de criança escolar, de universitário, de enamorado, de profissional, de traído, de cúmplice, etc. Há papeis de pai, de filho, de chefe, de subalterno, enfim, estamos sempre a desempenhar algum papel social. Jung chama de Persona esta nossa apresentação social.

A palavra Persona, de origem grega, significa máscara, ou seja, caracteriza a maneira pela qual o indivíduo vai se apresentar no palco da vida em sociedade. Portanto, diante do palco existencial cada um de nós ostenta sua Persona, mas há, porém, uma respeitável distância entre o papel do indivíduo e aquilo que ele realmente é, ou entre aquilo que ele pensa ou pensam que é e aquilo que ele é de fato.

Na realidade, considerar a Personalidade através do papel social pode não refletir a verdade dos fatos. Mais apropriado seria argüirmos, pelos papeis sociais, a Persona de cada um. A abordagem mais adequada seria através dos Traços, de uma forma mais superficial e objetiva e/ou através do "eu", de maneira mais subjetiva e profunda.

(Fonte:Psiqweb-portal de Psiquiatria)