quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Abordagem junguiana dos sonhos


“ A vida e os sonhos são folhas de um livro único : a leitura seguida destas páginas é aquilo a que se chama vida real ; mas quando o tempo habitual da leitura ( o dia ) passou e chegou a hora do repouso, continuamos a folhear negligentemente o livro, abrindo-o ao acaso em tal e tal local e caindo tanto numa página já lida como sobre uma que não conhecíamos; mas é sempre o mesmo livro que lemos.” (Arthur Schopenhauer)


Considerações Gerais


Este estudo é produto de algumas reflexões e pesquisas sobre o eterno e grandioso mistério dos sonhos. Dentro dos temas escolhidos para as atividades do Grupo de Estudos C. G. Jung, palestras e demais atividades afins este é, sem dúvida, um dos mais importantes e difíceis haja visto a extensão, conhecimento e profundidade que o tema exige.
O presente estudo sobre os sonhos, sob o ponto de vista que aqui está sendo enfocado e desenvolvido, já vem de alguma forma sendo apresentado em cursos anteriores e em algumas palestras específicas. Não houve a preocupação em criar um estudo crítico ou comparativo entre as várias escolas que estudam o fenômeno e nem muito menos examinar os aspectos neuro-fisiológicos do sonho e do sono. A idéia central é discutir e abordar o sonho como imagens da Alma, fato este que coloca à uma certa distância a idéia de inconsciente, seja pessoal ou coletivo, e de seus complexos afetivos. A compreensão desta idéia e abordagem implica em tratar objetivamente de tres conceitos da maior importância, isto é : o que venha a ser o sonho, imagem e sobretudo Alma. Estes temas serão desenvolvidos no decorrer do curso e constituem a temática central do mesmo. A opção pela Psicologia Arquetípica como respaldo desta abordagem implica em que trabalhemos na maior parte do tempo com conceitos e palavras que deverão ser compreendidos como metáforas que encerram significados de diversas ordens. Assim sendo, o entendimento de Alma, imagem, simbolo, sinal,etc precisa sem simbólica para que possa atender àquilo que entendemos ser sua real natureza. Segundo Hillman : “ Alma-como-metáfora também descreve a forma como a Alma atua. Ela atua como metáfora, transpondo sentidos e liberando significados interiores enterrados.” ( Tudo que é escutado com o ouvido da alma reverbera em meios-tons (Moore 1978 ).



Premissas básicas


É prudente definir algumas premissas antes da discussão e exposição geral do tema tendo em vista que o mesmo toca em muitas convicções pessoais, algumas de natureza religiosa, que freqüentemente geram reações impróprias aos objetivos do curso.
Estas reações, que vão desde a rejeição total das idéias até à aceitação total e incondicional, por muitas vezes carreiam longas discussões, na maior parte das vezes carregadas de muita emoção e convicção, tomam um espaço e um tempo não planejado dentro da estrutura do curso. Visto que tal fato não reflete o programa proposto é óbvio que comprometeria expressivamente com o desenvolvimento do mesmo.
A idéia que estamos propondo se restringe simplesmente à discussão de um modelo psicológico que seja a mais adequado à representação do fenômeno do sonho e como poderíamos considerar o sonho como um autêntico elemento da Psiquè.



Simbolo, sinal e significado


Segundo Ernst Cassirer deveríamos definir o homem como um animal symbolicum e não como um animal racional. Segundo este grande filósofo judeu-alemão, nossa experiência do mundo não nos dá acesso direto à realidade e, na verdade, em um sentido especial, não experimentamos diretamente o mundo, porque a realidade é amortalhada, por assim dizer, por um véu de linguagem, símbolo e mito, e só através da mediação deles é que o conhecimento se torna absolutamente possível. Os símbolos, mitos, contos e outros elementos afins são fatores de mediação entre o Homem e o mundo e formas naturais de expressão e de interlocução com este. Símbolo é um elemento da expressão da Alma que apresenta uma grande variedade de definições, interpretações e abordagens. Seguindo sua raiz grega symballo, que significa agrupar, representa a um mesmo tempo o subjetivo presente no objetivo e vice-versa. Jung em toda sua obra enfoca largamente a importância dos símbolos na vida cotidiana do Homem contemporâneo. Segundo Bachofen : “ Os símbolos evocam a intuição; a linguagem sabe apenas explicar... os símbolos entendem suas raízes até o fundo mais recôndito da alma; a linguagem roça, como uma brisa leve, a superfície da compreensão”.


Assim, podemos compreender que para a Psicologia Junguiana o Símbolo é um elemento chave para compreensão da natureza da Psique e que, a princípio, não pode ter seu significado esgotado em termos racionais. O símbolo é um produto natural da e para a psique e por isto traz em si o contexto objetivo-subjetivo do que representa. Quanto ao sinal podemos entender que é o significado pessoal, no tempo e no espaço, de um símbolo. O sinal refere-se ao que há de pessoal no símbolo. Seja por exemplo a cruz como um símbolo universal que ocorre de forma atemporal pela história. Para nossa cultura judaico-cristã representa ( traz o sinal ) de Jesus e seu calvário. Desta forma a cruz enquanto símbolo permanece um inescrutável mistério mas representa o sinal maior do Cristianismo.



Imagem, linguagem da alma


Da mesma forma que o pensamento e a linguagem são a expressão do espírito humano podemos afirmar que a imagem é a autêntica expressão da Alma. Olhando para o desenvolvimento do homem percebemos que esta antecede ao desenvolvimento do espírito e está na base de todo o pensamento racional.Imagem é a representação fiel da natureza dos conteúdos psíquicos. Segundo Jung tudo o que existe a priori são imagens. Em suas Memórias diz : "Tudo o que experimento é psíquico ... Minhas impressões sensoriais são imagens psíquicas e só estas constituem meus objetos imediatos de experiência. ... Somos, na verdade, tão isolados pelas imagens psíquicas que não podemos penetrar até a essência de coisas externas a nós mesmos. Todo o nosso conhecimento é condicionado pela Psique, que, por ser a única imediata, é superlativamente real."


Para Jung vivemos imediatamente apenas o mundo das imagens e por imagens referia-se ele não apenas aos nossos quadros mentais, mas a qualquer tipo de conteúdo consciente, a tudo o que a mente tem consciência. Para todos os fins e objetivos, nosso mundo é constituído destas imagens e “na medida em que o mundo não assume a forma de imagens psíquicas, é, virtualmente, não-existente. E torna-se óbvio que toda linguagem onde o conteúdo e a forma são imagéticos que estão incluídos de ambiguidade. Daí podemos imaginar o que significa a imagem como linguagem da Alma e as metáforas como sua manifestação mais autêntica.



Sonhos - O que é e o que não é


O que são os sonhos ? Talvez esta seja uma pergunta que desde o momento em que o primeiro Homem dormiu e sonhou venha tentando ser respondida. Os sonhos, à luz da ciência contemporânea, passaram a ser abordados como uma autêntica expressão do Homem e após Freud, usados para estudar e compreender a dimensão.
Sobre os sonhos então podemos entender que :


* A experiência dos sonhos nos leva a entrar em contato com uma vida “interior” secreta, a qual damos o nome de psíquica, e diretamente experienciar-nos como imagem dentro da imagem. Tal fato abre as portas para a subjetividade, a imaginação e conseqüentemente para a experiência da Alma.


* Os sonhos nos possibilitam entrar em contato com a ordem implícita da ordem explícita e experimentar o fenômeno da totalidade, o “holos”.


* Os sonhos não podem ser tidos somente com imagens noturnas tal qual uma emissora de TV que funciona das 00:00 h de um dia até às 7:00 h do outro dia. Os sonhos nos traz as imagens enquanto conteúdos psíquicos que estão na base de nosso comportamento consciente observável. Segundo Schopenhauer : “ a consciência é uma mera superfície de nossa mente, da qual, como da terra, não conhecemos o interior, mas apenas a crosta. Sob o intelecto consciente está a vontade consciente ou inconsciente, uma força vital esforçada e persistente, uma atividade espontânea.... a vontade é o cego robusto que carrega em seus ombros o coxo que vê... não queremos uma coisa porque encontramos razões para isso, encontramos razões para isso porque a queremos; podemos até elaborar filosofias e teologias para cobrir nossos desejos.”


* Os sonhos nos mostram que 24 h por dia estamos sendo influenciados e tocados diretamente por imagens e emoções que, de alguma forma, governam e ditam nosso comportamento.


* Os sonhos nos trazem a possibilidade de experienciar a subjetividade presente na objetividade e assim criar as dimensões do espaço interior distinto e permeável ao exterior. Este é o primeiro passo para a consciência do Eu se fortalecer para o fenômeno da Individualidade.



Sonhos - Princípios Básicos e divergências


O trabalho com os sonhos ocupa um papel importante da Psicologia de Jung apesar deste nunca ter sistematizado uma teoria geral ou método de trabalho sobre a análise dos sonhos. Inevitavelmente, alguns dos principais conceitos são postulados sob a forma de críticas e divergência com relação ao método proposto por Freud, fato este que reflete o caminho deixado pelo pioneiro como as limitações que encontrou ao experimentar se método.A principal divergência com Freud foi com relação ao que denomina de conteúdo manifesto e latente no sonho. Para Jung o sonho era o que era, não enganava, mas é uma mensagem complexa que exige um cuidadoso tratamento. Assim escreve : “ Eu aceito o sonho pelo que ele é. O sonho é uma coisa tão difícil e complicada que não ouso fazer quaisquer suposições sobre sua possibilidade de simulação ou sua tendência a enganar. O sonho é uma ocorrência natural e não existe nenhuma razão pela qual deveríamos supor que seja um astuto dispositivo para nos desorientar”.


Jung considerava os sonhos e o conteúdo como autênticos fatos psíquicos e não os interpretava partindo da condição a priori de que representavam conflitos de ordem sexual, com um significado relativamente fixo. Para Jung, Freud não trabalhava com símbolos mas simplesmente com sinais, que não são prospectivos como os símbolos, nem expressam um situação complexa de um modo único, mas se referem a algo já conhecido ( falo, castração, etc ).


O sinal é sempre menos do que o conceito que representa, ao passo que o símbolo sempre representa mais do que o seu significado imediato.
Outra divergência é quanto ao método de abordagem onde em Freud temos a associação livre temos em Jung a associação dirigida, onde chama-se a atenção do cliente para elementos do sonho que este poderia não estar percebendo. Jung escreve que : “ O sonho é uma pequena porta oculta nos mais recônditos e secretos recessos da Alma. Abrindo-se para aquela noite cósmica que era a Psique muito antes de existir qualquer consciência do Ego, e que continuará sendo Psique, não importa até que ponto se estenda nossa consciência do Ego”.


Ainda em oposição ao conceito de Freud dos sonhos como realização do desejo, Jung postulou sua própria teoria da compensação para explicar a função dos sonhos. Em dois momentos distintos afirma que : “O sonho é um auto-retrato espontâneo, em forma simbólica, da situação presente no inconsciente."


Ou mesmo que : “O sonho retifica a situação. Contribui com o material que estava faltando e, com ele, melhora atitude do paciente. Por isso precisamos da análise do sonho em nossa terapia. Todo processo que vai longe demais, imediata e inevitavelmente, suscita compensações. (...) A teoria da compensação é uma lei básica do comportamento psíquico. (...) Quando começamos a interpretar um sonho é sempre útil perguntar: que atitude consciente ele está compensando ? "


A última área de divergência com Freud diz respeito à consideração se os sonhos devem ser considerados do ponto de vista subjetivo ou objetivo. Assim sendo, se considerado o primeiro todos os elementos do sonho seriam considerados como partes da personalidade do próprio sujeito e, ao contrário, seriam pessoas reais ou aspectos delas na vida de quem sonhou ou a partir de uma situação de vida com a qual ele é confrontado. Jung não opta absolutamente por apenas uma destas considerações mas acusa Freud de considerar apenas a objetiva.


(Autor: Jorge L. de Oliveira Braga – Analista Junguiano – AJB)







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