quinta-feira, 7 de agosto de 2008

O Sobrevivente


“Impossível compor um poema a essa altura da evolução da humanidade.

Impossível escrever um poema - uma linha que seja - de verdadeira poesia.

O último trovador morreu em 1914.

Tinha um nome de que ninguém se lembra mais.

Há máquinas terrivelmente complicadas para as necessidades mais simples.

Se quer fumar um charuto aperte um botão.

Paletós abotoam-se por eletricidade.

Amor se faz pelo sem-fio.

Não precisa estômago para digestão.

Um sábio declarou a O Jornal que ainda falta muito para atingirmos um nível razoável de cultura.

Mas até lá, felizmente, estarei morto.

Os homens não melhoram e matam-se como percevejos.

Os percevejos heróicos renascem.

Inabitável, o mundo é cada vez mais habitado.

E se os olhos reaprendessem a chorar seria um segundo dilúvio.

(Desconfio que escrevi um poema.)”


O Sobrevivente. Carlos Drummond de Andrade, 1930

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O poema O Sobrevivente é dedicado a Cyro dos Anjos, amigo pessoal e companheiro literário de Drummond. Como em outras amizades entre autores literários, Drummond e Cyro trocam referências em suas obras. Cyro, escritor de romances, crônicas e ensaios, evoca Drummond diversas vezes em sua principal obra, O Amanuense Belmiro, de 1937. É provável que os temas abordados no poema O Sobrevivente, como a banalização da cultura humana na modernidade, tenham sido assunto de alguma conversa anterior entre os dois amigos escritores.

O poema inicia-se com um verso inusitado e contraditório: "Impossível compor um poema a essa altura da evolução da humanidade.". Essa afirmação, contraditória por tratar-se do primeiro verso de um poema, inicia um jogo, um exercício lúdico, que encerra-se somente com o último verso do poema: "(Desconfio que escrevi um poema)", retomando e finalizando o jogo que parece visar a causar impacto ao leitor, criar perplexidade. Enfim, uma brincadeira simples e inteligente, que contém dentro, uma ótima poesia. Vejamos as imagens, construções, significados e relacionamentos verso a verso:

O primeiro verso compõe figuras genuinamente paradoxais. Afirma o eu-lírico "Impossível compor um poema...", estando o poeta efetivamente a compor um. "...a essa altura da evolução da humanidade" remete a uma idéia de que a evolução da humanidade na verdade pode ser interpretada por uma involução, um retrocesso, para um eu-lírico que considera que a evolução deveria acontecer em níveis mental e comportamental, como um processo de "humanização" da humanidade.

O segundo verso chama a atenção para o ritmo. Primeiramente pela repetição da oração principal no início dos primeiro e segundo versos – "Impossível compor um poema..." e "Impossível escrever um poema..." – trocando-se apenas o núcleo verbal por outro termo de mesmo significado. Secundariamente pelo parêntese de reforço e aprofundamento da idéia – "... – uma linha que seja – ..." –, que apesar de ser uma figura que remete primordialmente à gravidade do assunto – a impossibilidade de se escrever uma poema – em razão da sua grande expressividade possui em si um importante valor rítmico dentro do verso, por elevar o volume sonoro, impondo ênfase na oralidade. Forma-se assim no verso um ciclo – que é a base do ritmo –, com uma sonoridade baixa na primeira oração, alta na segunda, e novamente baixa na terceira. "...de verdadeira poesia." encerra a estrofe com grande valor semântico, evocando a natureza da poesia, do grego poesys, que significa criação. Seria então impossível compor um poema de verdadeira criação, autenticidade.

"O último trovador morreu em 1914.". Nesse verso o poeta pode estar referindo-se à morte de algum poeta em especial, mas também pode estar referindo-se ao início da 1ª guerra mundial, que pode ser considerada o expoente máximo da vulgaridade e involução ou retrocesso da humanidade, situação que impossibilitaria o ato criativo ou uma visão mais humana e sentimental do mundo.

Em "Tinha um nome de que ninguém se lembra mais." o eu-lírico demonstra o desprezo com que a humanidade trata seus poetas no uso do pronome relativo que, no lugar de qual, despersonificando o poeta trovador, tornando-o objeto, coisa.

Assim termina a primeira estrofe, que possui versos marcando com ponto final, como ocorrerá no resto do poema. Tal marcação, aliada a versos que possuem certa independência em seus significados, remete a um ritmo enumerativo, uma "lista" de fortes versos, um eficaz artifício para a obtenção de ritmo.

A segunda estrofe é uma enumeração das peculiaridades do mundo moderno. Descrições cheias de figuras irônicas, obtidas através do exagero e bom humor, que parecem querer ridicularizar a situação do ser humano dentro de um estilo de vida banal que ele mesmo criou. Como em todo o poema, o gauche nesta estrofe deita toda sua indignação em versos muito críticos para com a estrutura social de seu tempo, chegando a níveis em que poderia ser considerado cruel, mas que são, enfim, verdades desconcertantes.

"Há máquinas terrivelmente complicadas para as necessidades mais simples.

Se quer fumar um charuto aperte um botão.

Paletós abotoam-se por eletricidade.

Amor se faz pelo sem-fio.

Não precisa estômago para digestão."

Drummond parece querer alertar seu leitor para a busca da simplicidade, característica presente em toda a obra Alguma Poesia, demonstrando a desnecessidade e banalidade de muitos dos novos dispositivos de automação da vida cotidiana. Como já comentado em linhas anteriores, muitos dos versos de Alguma Poesia, sobretudo os de O Sobrevivente, assumem um tom profético para leitores do século XXI, que observam em seu cotidiano atual as "previsões" de Drummond.

Como todo grande artista, Drummond consegue captar a essência da realidade de seu tempo, e de tempos futuros: uma grande corrida industrial, comercial e tecnológica, aliada a um gigantesco crescimento populacional, que, na opinião do eu-lírico, consolida um estilo de vida que não permite uma verdadeira evolução comportamental humana, mas exatamente o contrário, uma involução, como explicitado na estrofe seguinte:

"Um sábio declarou a O Jornal que ainda falta muito para atingirmos um nível razoável de cultura. Mas até lá, felizmente, estarei morto."

Essa estrofe utiliza-se de uma inusitada forma poética. Uma espécie de parêntese explicativo, que contém elementos de aproximação e intimidade entre o autor e o leitor, como em algumas digressões de Machado de Assis, mas que também possui elementos de uma notícia jornalística, forma que relaciona-se com e intensifica o tema principal da estrofe, que é a notícia da declaração do sábio a O Jornal. A forma em itálico denota ao termo o significado de um jornal de grande circulação e poder de direcionamento de opiniões, como hoje a Folha de São Paulo ou o Estado do São Paulo.

"Os homens não melhoram

e matam-se como percevejos."

Esses são os versos que iniciam a última e conclusiva estrofe de O Sobrevivente. Como já comentado anteriormente, Drummond percebe que a humanidade não está evoluindo comportamentalmente, mas regredindo, o que evidenciaria-se, por exemplo, numa guerra mundial "...e matam-se como percevejos."

"Os percevejos heróicos renascem.

Inabitável, o mundo é cada vez mais habitado."

No aspecto formal, rítmico, observa-se a repetição da palavra "percevejos", e um interessante dispositivo enumerativo e cíclico: "...matam-se como percevejos. / Os percevejos heróicos renascem.". No plano dos significados, tais versos remetem ao gigantesco crescimento populacional do mundo. Drummond parece realmente preocupar-se com o assunto, parecendo colocá-lo como um dos principais pontos a serem observados para uma boa evolução da humanidade.

"E se os olhos reaprendessem a chorar seria um dilúvio."

Com este verso cheio de lirismo Drummond encerra O Sobrevivente (considerando-se que o verso final, formalmente falando-se, "(Desconfio que escrevi um poema.)", faça parte do jogo lúdico em que o poema principal está inserido). O autor novamente demonstra captar com fidelidade a realidade de seu mundo, ao sugerir nesse verso que a humanidade encontra-se em um estado de frieza, prostração e mecanização, impossibilitada de demonstrar sentimentos genuinamente humanos, como chorar.

Fonte:caminhosescritos.hpg.com.br

2 comentários:

Luciano Ribeiro da Silva Oliveira disse...

Obra-prima poética enriquecida com comentários sensíveis e inteligentes. A foto enriquece o conjunto da obra. O texto escrito há tanto tempo mas com uma atualidade profética assustadora.
Saudades.
Um abração.
Luciano

Kamilla disse...

Achei muito bom o site.Me ajudou bastante em meu trabalho sobre Carlos Drummond. A analise da poesia ficou 10!!!