sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Mito e Mitologia - O olhar junguiano


A Psicologia do Inconsciente ou Psicologia Profunda muito se beneficiou com as divergências entre duas de suas mais importantes e significativas expressões: a Psicanálise de Sigmund Freud e a Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung. Quer seja como disciplina, formação acadêmica ou criação do espírito humano para a compreensão de sua própria essência e origem, a psicologia não seria tão rica em forma e conteúdo se não houvesse ocorrido a aproximação, convivência e ruptura entre essas duas tão expressivas personalidades e suas respectivas obras.


Ainda que dentro de um contexto e ponto de vista fortemente influenciado pelo pensamento positivista e a moral vitoriana de fins do século XIX, o estudo, pesquisa e as formulações de Freud foram os responsáveis pela abertura de um dos mais importantes caminhos para a compreensão da fenomenologia do que hoje entendemos e denominamos por inconsciente.


Um dos passos mais importantes em direção à Psicologia Profunda foi o entendimento dos sonhos como objeto e material válido para estudo e análise das neuroses, fato documentado em duas grandes obras que versam sobre o tema : Volume IV - A interpretação dos Sonhos I ( 1900 ) e Volume V - A Interpretação dos Sonhos II ( 1900-1901 ). Podemos sentir e compreender, na leitura dessas obras, a importância que esse elemento tem na estruturação de seu pensamento e de toda sua psicologia.


Outro grande passo em igual importância, também dado por Freud, foi o de lançar mão de recursos históricos e míticos, tais como no Volume XIII - Totem e Tabu (1913-1914) e Volume XXIII - Moisés e Monoteísmo, Esboço de Psicanálise e Outros Trabalhos (1937-1939), para a compreensão dos fenômenos psíquicos. Estaria assim iniciada uma das alianças mais originais e fecundas para a compreensão do fenômeno humano, ou seja : a aliança Mitologia e Psicologia.


Mas é, particularmente, na apropriação dos mitos de Édipo e Narciso, como fundamento para a estruturação do desenvolvimento psico-sexual e da personalidade, que encontramos o grande e definitivo momento que, ao nossos olhos, inaugura a Psicologia Profunda. Se amplificamos a proposição de Freud, como o fazem alguns junguianos e pós-junguianos, podemos entender que seu grande legado, tal qual propõe James Hillman é, em essência que: "Ao escolher o mito de Édipo, Freud não nos revelou qual era o mito essencial para a psique, mas disse que a essência da psique é mito, que nosso trabalho é mítico e ritual, que psicologia é, em ultima instância, mitologia, o estudo das histórias da Alma".


Por esse ponto de vista podemos considerar Freud como o grande precursor da Psicologia Profunda não só por ter sido o pioneiro na utilização de sonhos na prática psicológica mas, propriamente, por ter se valido, ainda que de uma forma literal, do conteúdo mítico para o estudo e compreensão da fenomenologia do inconsciente.


A importância e significação da aliança Psicologia-Mitologia é novamente destacada em Hillman quando propõe que "a mitologia e a psicologia são intercambiáveis, sendo a mitologia uma psicologia da Antigüidade e a psicologia uma mitologia da modernidade".


Esta concepção traz como conseqüência imediata uma complexa amplificação sobre a fenomenologia da psique, haja visto que : se mito e psique podem ser vistos como co-extensão recíproca, da mesma forma também o serão Mitologia e Psicologia.


Outra conseqüência natural é a re-visão do conceito, limites e natureza do inconsciente, entendido como Psique, considerada nessa perspectiva como a Alma do Mundo, Anima Mundi, onde se insere o Homem e sua individualidade. Novamente buscamos em Hillman uma compreensão original para esse relacionamento Homem-Psique onde colhemos que: "O Homem existe dentro da Psique ... não ao contrário ... e muito da Psique estende-se além da natureza humana, o mundo do mito precisa ser encarado como tendo extensão idêntica ao mundo da psique. Assim, a principal tarefa da psicologia de base arquetípica é de re-mitologizar a consciência e desliteralizá-la para que possa restaurar sua conexão com modelos míticos e metafísicos".


Dessa forma podemos perceber que o conceito e modelo de Psique proposto por Jung e desenvolvido pelo seus colaboradores é dinâmico e considera o inconsciente, diferente de Freud, como um elemento vivo, inesgotável e, sobretudo, inexpugnável pela razão. Em entrevista concedida à Richard Evans denominada “Os Filmes de Houston” em agosto de 1957, Jung enfatiza que Freud haveria descoberto em Édipo apenas um dos inesgotáveis dramas arquetípicos da humanidade e que certamente haveriam muitos outros desses dramas a serem estudados bastando-se para isso que detivesse no estudo dos mitos e da mitologia para que se pudesse fazer tal analogia.


A conexão e relação Psique e Mythos já havia sido feita mesmo de Freud e Jung na filosofia pelo filósofo Friedrich Nietzsche em sua obra O Nascimento da Tragédia ( 1888 ) e mais propriamente quando aborda o Apolíneo e o Dionisíaco. A concepção dessa aliança Mitologia e Psicologia como faces de uma mesma moeda nos remete diretamente à concepção Junguiana clássica e constitui-se como um fator singular, inerente ao modelo proposto por Jung.


Entretanto, a partir dessa concepção, é necessário discutir o que venha então a ser o mito e como compreender sua importância para a Psicologia, pois, segundo Avens: "... se for verdade que o mito e a psique são co-extensivas, então, como notou Barsfield, não podemos, de modo algum, ter certeza se foi o homem que criou o mito ou se foi o mito, bem como sua substância anímica que criaram o Homem".


Para realçar ainda mais a importância e objetivação do estudo e análise dessa relação é pertinente apontar o trabalho de alcance internacional realizado pela Drª Nise da Silveira no Centro Psiquiátrico Pedro II ( Engenho de Dentro - Rio de Janeiro (RJ) ) e na Casa das Palmeiras ( Botafogo - Rio de Janeiro (RJ) ), que encontra-se hoje documentado através de uma longa série documentários audiovisuais produzidos pela equipe do Museu de Imagens do Inconsciente e da trilogia do cineasta Leon Hirzman cujo o título é Imagens do Inconsciente, editada também em vídeo pela FUNARTE.


O estudo feito através de imagens e textos refere-se à análise e amplificação das imagens plásticas produzidas nas seções de terapia ocupacional com internos dessas instituições e testemunham, através de criteriosa análise a base mítica e imagética das estruturas arquetípicas que compõem a psique.


Antes mesmo do desenvolvimento de seu pioneiro trabalho Drª Nise teve seu primeiro contato com Jung em 14 de junho de 1957 quando foi recebida por ele em sua casa em Kusnacht. Relata o seu diálogo com Jung que:


“Sentada diante do mestre no seu gabinete de trabalho, junto à larga janela com vista sobre o lago, falei-lhe do desejo de aprofundar meu trabalho no hospital psiquiátrico, de minhas dificuldades de autodidata. Ele me ouvia muito atento. Perguntou-me de repente:
- Você estuda Mitologia ?
Não eu não estudava mitologia
- Pois se você não conhecer mitologia nunca entenderá os delírios de seus doentes, nem penetrará na significação das imagens que eles desenhem ou pintem. Os mitos são manifestações originais da estrutura básica da psique. Por isso seus estudo deveria ser matéria fundamental para a prática psiquiátrica.
De volta ao trabalho no hospital do Engenho de Dentro, para minha grande surpresa, defrontei-me logo com o caso clínico de uma mulher que estava revivendo o tema mítico da ninfa grega Dafne.”


Estamos então diante do que Jung denomina de inconsciente coletivo, ou seja a idéia de que a mente, quando do nascimento do indivíduo, já traz em si, como uma condição a priori, um conhecimento que não é transmitido entre os homens, herdado da própria espécie. Essas proposições nos remetem imediatamente aos conceitos de inconsciente coletivo e principalmente ao de arquétipo tal qual como propostos por Jung: “O inconsciente coletivo significa que a consciência individual é tudo menos uma tabula rasa, ou seja, um lençol branco, conforme cita Locke, mas é influenciado no mais alto grau por predisposições herdadas. Abrange a vida psíquica de nossos ancestrais, retroagindo até os primórdios mais remotos".


Tratamos essa dimensão como a matriz de todas as ocorrências psíquicas, uma espécie de arcabouço que determina a forma geral e as fronteiras da vida consciente. Da mesma forma que o corpo herda uma estrutura que determina sua forma geral e as fronteiras da vida consciente a mente é também estruturada por fatores herdados.


Esse conceito de estrutura básica herdada subjacente à psique humana pode ser encontrado em Platão, que sustentava que a aquisição de conhecimento representava uma espécie de “recordação”, na qual Formas ou Idéias, aprendidas antes do nascimento, eram trazidas ao palco graças ao estímulo de experiência sensorial.


O conceito de arquétipo na Psicologia de Jung encontra também outros precursores filosóficos de relevante expressão. Platão fala das Idéias originais, das quais são derivadas toda a matéria e as idéias subseqüentes, Schopenhauer fala dos “protótipos” ou arquétipos como formas originais de todas as coisas, pode-se dizer, têm de per si uma existência verdadeira, porque sempre são, mas nunca mudam nem morrem.


Kant é outra notória influência; pois se o conhecimento depende da percepção, então uma noção de percepção deve preceder a aquisição de conhecimento, ou seja, a partir dessa idéia de uma “forma” perceptiva a priori onde todos os dados sensoriais poderiam ser organizados em categorias fundamentais, inatas. Essas categorias também estão situadas além do tempo e do espaço e carecem de uma conexão com as realidades corporais da experiência cotidiana.


Mas a evidência mais antiga nesse sentido surge na primeira década deste século no tratamento de pacientes psicóticos. Jung surpreendeu-se ao descobrir que muitas fantasias e imagens dos pacientes assemelhavam-se à lendas, mitos e histórias folclóricas e que, muitas vezes, tornava-se impossível relacionar o conteúdo dessas fantasias com as experiências específicas dos pacientes. Em 1912, chamou-as de imagens primordiais, um nome substituído em 1919 por “arquétipo”. Uma de suas primeiras experiências ocorreu em 1906 quando um paciente esquizofrênico lhe disse ter uma visão do Sol que mostrava um falo e que ele interpretava como sendo a origem do vento.


Em 1910, descobriu por acaso um estudo do culto Mitraico de autoria de Dieterich, no qual uma visão era descrita nas seguintes palavras: “E, de igual maneira, o chamado tubo, a origem do vento que soprava. Porque vê-se pendurado do disco do sol alguma coisa que se parece com um tubo. E na direção das regiões a oeste é como se estivesse soprando um vento infinito do leste".


Uma vez que o paciente fora internado no hospital antes da publicação do texto grego, e Jung só o descobriu em 1910, havia boa razão, como disse ele, para excluir a possibilidade de criptomnésia por parte do paciente, e de transferência de pensamento de sua parte . O paralelo óbvio entre os dois, acreditava, só podia ser explicado em termos de alguma forma de herança.


Os arquétipos, insistiu Jung, “não são idéias herdadas, mas possibilidades herdadas”, Os conteúdos reais da consciência “são todos adquiridos individualmente”.


“Arquétipos não são determinados quanto ao seu conteúdo, mas apenas quanto à sua forma, e neste caso em um grau muito limitado ... O arquétipo em si é vazio e puramente formal ... uma possibilidade de representação que é dado a priori. As próprias representações não são herdadas, mas apenas as formas, que são também determinados apenas em forma.”


Freud também admitia a possibilidade de alguns elementos no inconsciente jamais terem sido conscientes, uma idéia que, se assumida, tenderia para um conceito de arquétipo. Podemos citar alguns pontos em sua obra onde é evidente esta colocação tal qual na Conferência XIII ( Aspectos Arcaicos e Infantilismo dos sonhos ) do Volume XV - Conferências introdutórias sobre Psicanálise das obras completas ( pág. 239 ) a seguinte citação :


“(...) Os senhores podem concluir, com isto, que, se estudarmos mais a elaboração onírica, deveremos conseguir lograr valioso esclarecimento dos poucos conhecidos inícios de nosso desenvolvimento intelectual. Espero que assim seja; contudo, este trabalho até agora não foi iniciado. A pré-história à qual a elaboração onírica nos faz retroceder é de duas espécies — de um lado, à pré-história do indivíduo, sua infância; e, de outro lado, até onde cada indivíduo de alguma maneira recapitula, em forma abreviada, todo o desenvolvimento da espécie humana, também à pré-história filogenética.. Conseguiremos distinguir qual parte dos processos mentais latentes deriva do período pré-histórico do indivíduo, e qual a parte proveniente da pré-história filogenética? Penso não ser impossível consegui-lo. A mim, por exemplo, parece-me que as conexões simbólicas que o indivíduo jamais adquiriu por aprendizado, podem, com razão, exigir serem consideradas como herança filogenética".


Jung, no entanto, relacionou os arquétipos e seu funcionamento aos instintos. A princípio, em 1919, ele via o arquétipo como o equivalente psicológico do instinto, um auto-retrato do instinto (...) a percepção que o instinto tem de si”. Arquétipos e instintos desempenham funções semelhantes e ocupam posições semelhantes na Psicologia e na Biologia, respectivamente. Jung continua afirmando que o inconsciente coletivo consiste na soma dos instintos e seus correlatos, os arquétipos.


Iniciamos falando na aliança mito e psique e já estamos diante da realidade que nos parece a mais importante que é a relação mito e arquétipo. Parece ser, a princípio, óbvia, já que a psique ou o que denominamos inconsciente coletivo é, em ultima análise, os arquétipos em sua totalidade, o Self.


Porém acreditamos ser necessário esclarecer onde e como se ela se dá. Não há uma correspondência direta, de natureza bi-unívoca, entre um e outro, porém, há detalhes que merecem ser salientados. Os arquétipos, a princípio são entendidos como núcleos dinâmicos inconscientes, pontos de energia psíquica condensada que compõem o inconsciente coletivo no homem e que influenciam grande parte do comportamento significativo humano. Para os primeiros passos em direção a uma visão holista, será preciso compreender que, a partir do momento em que tomamos a Psique como a criadora do homem e do mundo que o contém, devemos estar dispostos a entender o mito e os arquétipos como elementos que transcendem a dimensão humana e que constituem a grande matriz presente não só na dimensão humana mas em todo e qualquer processo da natureza.


Os mitos são, na dimensão humana, as matrizes arquetípicas do comportamento humano, representando como e através de que o mundus imaginalis acontece o mundo profano. Os arquétipos, insondáveis e inexpugnáveis por sua própria natureza, se permitem conhecer através de suas infinitas variantes míticas e, por isto, são considerados como os seus mais fiéis representantes.


O estudo dos mitos e da mitologia nos conduz invariavelmente a uma pergunta cuja resposta é, por vezes, pouco precisa, isto é : O que é mito ? De acordo com Santo Agostinho "se me perguntarem se sei o que é, eu sei; quando me pedem para dizer o que é, não sou capaz de fazer".


Se é difícil definir o que é mito temos a certeza de que a definição de Mitologia ( Mythos + logos ) é da mesma ordem. Na Grécia antiga a palavra mythos tinha o sentido de narrativa, história e algo transmitido através da palavra. Mythos é considerado como a palavra da poesia e da imaginação por oposição à logos, que é a palavra da razão, pensamento e filosofia. Teríamos, deste modo, um paradoxo entre mythos ( imaginação, invenção, poesia ) e logos ( razão, raciocínio, lógica ). Assim sendo a palavra Mitologia parece conter, em si, uma raiz incompreensível ao nosso entendimento pois contem simultaneamente mythos e logos.


Podemos entender então que a Mitologia é a racionalização dos mitos, sua expressão lógica. Mas caberia indagar se na Antigüidade existiria esta total oposição entre mythos e logos, poesia e racionalismo e se não seria essa antinomia uma questão contemporânea ?


Mas enfim o que são os mitos e qual a sua finalidade é a questão que temos em mãos. Existem diferentes enfoques acerca do que venha a ser o mito e, sem dúvida, não encontraríamos uma definição que conseguisse satisfazer todas as tendências. Por esta razão, não as discutiremos e optaremos por tomar as definições e os conceitos alinhados com a visão arquetípica dos mitos. Em Mircea Eliade encontramos :


"o mito conta uma história sagrada, relata um acontecimento que teve lugar no tempo primordial, o tempo fabuloso dos começos. Noutros termos, o mito conta como, graças aos feitos dos seres sobrenaturais, uma realidade passou a existir, quer seja como realidade total, o Cosmos, quer apenas um fragmento: uma ilha, uma espécie vegetal, um comportamento humano, uma instituição. É sempre, portanto, a narração de uma criação : descreve-se como uma coisa foi produzida e como começou a existir. O mito só fala daquilo que realmente aconteceu, daquilo que se manifestou plenamente".


Nesta mesma abordagem, Mircea Eliade esclarece sobre a natureza dos personagens do mito, os chamados seres sobrenaturais, conhecidos sobretudo por aquilo que fizeram no tempo dos primórdios. Os mitos, segundo esta fonte, revelam a sua atividade criadora e mostram a sacralidade ( ou, simplesmente, a sobrenaturalidade ) das suas obras. Eliade comenta:


"os mitos descrevem as diversas e freqüentemente dramáticas eclosões do sagrado ( ou do sobrenatural ) no Mundo. É esta irrupção do sagrado que funda realmente o mundo e o que faz tal como é hoje. Mais ainda : é graças a intervenções dos Seres Sobrenaturais que o homem é o que é hoje, um ser mortal, sexuado e cultural (...) O mito é considerado com uma história sagrada, e portanto uma história verdadeira, porque se refere sempre a realidades ... a função soberana do mito é revelar os modelos exemplares de todos os ritos e de todas as atividades humanas significativas : tanto a alimentação como o casamento, o trabalho, a educação, a arte ou a sabedoria".


Portanto, o mito é uma expressão do mundo e da realidade humana, não sendo por isto lógico e racional. Ao contrário, abre-se como uma janela para todos os ventos; presta-se a todas as interpretações. Para Junito S. Brandão "decifrar o mito é decifrar-se e, de acordo com Roland Barthes, não há de se definir o mito pelo objeto de sua mensagem, mas pelo modo como a profere".


Dentro do espírito da Psicologia de Jung podemos definir o mito como um drama impessoal arquetípico do mundus imaginalis que revela as matrizes fundamentais do comportamento no-mundo. Os mitos trazem a história da alma e sua manifestação é a manifestação do sagrado na existência do humano. O mito é o elo de ligação entre os mundos e como afirma Joseph Campbell, “é a passagem secreta por onde fluem as energias inexauríveis do cosmo e se transformam em manifestações culturais humanas”.


O estudo dos mitos nos revela, do ponto de vista psicológico e, mais particularmente, da psicologia junguiana, as histórias da alma e a extensão-interação desta psique nos diferentes domínios de sua expressão. Numa perspectiva cartesiana, os mitos revelam a encarnação da Psique em uma realidade que a consciência ocidental considerou como objetiva.


A realidade psíquica do mundus imaginalis é revelada na medida em que a consideramos distinta da realidade do mundus não-imaginalis. Se entendemos que o Homem está contido na Psique e é uma de suas criações, podemos afirmar que os mitos revelam não só o psíquico, a substância arquetípica presente no Humano, mas também a substância básica constitutiva do mundo.


Os mitos são dramas impessoais, matrizes fundamentais do comportamento humano observável e significativo. A mitologia é, assim, uma coleção de famílias de histórias profundamente inter-relacionadas, com detalhes muito precisos, porém, sem sistematização esquemática, seja nas histórias avulsas, seja entre as histórias enquanto conjunto. As histórias contadas pelos mitos são verdadeiras e, novamente, segundo Eliade :


"relatam não só a origem do mundo, dos animais, das plantas e do homem, mas também todos os acontecimentos primordiais em conseqüência dos quais o homem se transformou naquilo que é hoje, ou seja um ser mortal, sexuado, organizado em sociedade, obrigado a trabalhar para viver, e trabalhando segundo determinadas regras".


Em outras palavras, podemos afirmar: “se o mundo existe, se o homem existe, foi apenas porque os Seres Sobrenaturais desenvolveram uma atividade criadora nas origens, mas é certo de que outros acontecimentos tiveram lugar depois da cosmogonia e da antropogonia e o homem, tal como é hoje, é o resultado direto desses acontecimentos míticos, é constituído por esses acontecimentos”.


Portanto, conhecer os mitos, segundo Mircea Eliade, é aprender o segredo da origem das coisas. Aprende-se não só como as coisas passaram a existir, mas também onde as encontrar e como fazê-las ressurgir quando elas desaparecem.Os mitos, de maneira geral, têm uma estruturação básica que pode ser assim descrita:


· Os mitos são as Histórias dos Seres Sobrenaturais
· As Histórias míticas são consideradas absolutamente verdadeiras e sagradas, pois se referem às obras dos Seres Sobrenaturais
· O mito, em grande parte, narra uma criação, contando como algo começou a existir, como um determinado comportamento ou uma instituição se originou
· Conhecendo os mitos, conhece-se a origem das coisas e, deste modo, é possível dominá-las e manipulá-las à vontade; não se trata de um conhecimento exterior, abstrato, mas de um conhecimento vivido e atualizado ritualisticamente.
· Vive-se o mito quando se fica imbuído da força sagrada e exultante dos acontecimentos evocados re-atualizados.


Viver os mitos constitui-se, então, numa experiência ritualística e, sobretudo, religiosa, onde os feitos dos Seres Sobrenaturais são revividos. Através deste encontro poder-se-á voltar a aprender a lição criadora presente nas práticas rituais.


Citando Malinowski, vemos que o mito não é uma explicação destinada a satisfazer uma questão com uma resposta científica, mas uma narrativa que faz reviver uma realidade original e que responde a uma profunda necessidade religiosa, a aspirações morais, a constrangimentos e a imperativos de ordem social e até a exigências práticas.


Nas civilizações primitivas o mito exerce uma função indispensável : ele exprime, realça e codifica as crenças, salvaguarda os princípios morais e os impõe, garante as cerimônias rituais e fornece regras práticas para uso do homem.


O mito é, pois, um elemento essencial na civilização humana; longe de ser uma vã fabulação, é, pelo contrário, uma realidade viva, à qual constantemente se recorre; não é uma teoria abstrata nem uma ostentação de imagens, mas uma verdadeira codificação da religião primitiva e da sabedoria prática O conhecimento que o homem tem desta realidade revela-lhe o sentido dos ritos e das tarefas de ordem moral e, ao mesmo tempo, o modo segundo o qual ele deve realizá-las.


No mundo contemporâneo e ocidental esta função tem sido exercida pelo racionalismo científico, que, a serviço da moral e de seus ideais ascéticos, julga-se detentor das verdades que orientam e revelam os segredos das coisas.


Temos entregado à ciência o poder de guiar nossas vidas e de governar nossos instintos. A estatística tornou-se o instrumento formal básico para tal e com isto perdemos a capacidade inata de nos atualizar pelos ritos naturais.


Em nossos passos em direção à concepção junguiana da psique mítica, torna-se necessário, à princípio, retificar a suposição difundida de que o homem primitivo projetava na natureza suas próprias idéias de almas, fantasmas e espíritos ancestrais, a qual tinha elaborado a partir de seus sonhos, alucinações ou estados catalépticos.


Rumo a uma nova concepção de mito, conforme aponta Avens, podemos imaginar que : “É necessário enterrar esta visão intelectualista do século XIX à respeito da origem do mito, quanto mais não seja, porque é facilmente confundida com a noção romântica do imaginal, como o reino da confluência entre matéria e espírito”.


Desta confusão surge a metamorfose deste reino imaginal naquilo em que Lévy-Bruhl chama de “participação mística”, ou seja, uma caracterização da natureza sobrenatural da mente primitiva que, de acordo com ele, é derivada de representações coletivas. Sabemos, no entanto, que : “Estas representações são pré-lógicas e envolvem “objetos e coisas ... numa rede de participações e exclusões místicas”. A expressão pré-lógica não significa que os primitivos sejam incapazes de pensar corretamente, mas meramente que a maioria de suas crenças é incompatível com os princípios da lógica científica e aristotélica.Lévy-Bruhl não afirma que “os princípios lógicos são alheios às mentes dos primitivos ... Pré-lógico não significa alógico ou anti-lógico. Pré-lógico, aplicado à mentalidade primitiva, significa, simplesmente, que ela não faz um esforço como fazemos, para evitar a contradição”.


A linguagem mítica admite o paradoxo e as contradições e a negação e a sentença em uma mesma expressão. O que podemos defender é a tese de que não somente há um substrato de mentalidade mítica em toda pessoa, mas que as imagens míticas ou arquetípicas constituem a própria essência da vida psíquica, que elas são a psique.


Lévy-Bruhl aproximou-se desta conclusão, porém não pode avaliá-la totalmente, por estar dominado, como estavam quase todos os autores da época, pelas noções de evolução e progresso inevitável. Ainda seguindo com Avéns:


“Opondo-se à idéia evolucionista do século XIX o filósofo Barfield sugere que a concepção do homem primitivo como aquele que “ sempre projeta seu interior sobre algo qualquer”, isto é, o que anima um mundo morto com formas arbitrariamente forjadas de seres monstruosos ou benevolentes, precisa ser invertida, dizendo-se que : “ não foi o homem que criou os mitos, mas os mitos, ou a substância arquetípica que revelam, que criaram o Homem” . É muito provável que o homem primitivo nunca tenha tido um interior e é muito provável que a natureza também tenha um interior, porém o tipo de sabedoria supra-individual que opera na natureza possa não ser acessível ao modo de raciocínio cartesiano ou semântico”.


O homem começou sua trajetória no planeta, não como um observador passivo, encarando um mundo separado, ininteligível, sobre o qual ele subseqüentemente inventou toda a espécie de mitos, mas que teve de desembaraçar, extrair do mundo da experiência sua auto-consciência; ele descobriu-se através do intercâmbio com o não-self.


Do ponto de vista da psicologia arquetípica, o mito tem sua origem numa dimensão, numa realidade, em um estado de coisas que não é totalmente humano, isto é, na dimensão psíquica; pois a psique, numa versão aprofundada do pensamento junguiano, é uma noção maior, mais abrangente do que o homem. O mundo do mito precisa ser encarado como tendo extensão igual ao mundo da psique.


É pouco provável que consigamos falar de mitos sem que seja mencionado o papel e a importância dos ritos. É íntima e profunda a relação entre esses elementos e por isso podemos entendê-los fazendo parte de uma mesma dimensão, a Psique. Segundo Campbell : “os mitos são os suportes mentais dos ritos; e os ritos, a ratificação física dos mitos. Os ritos dão forma à vida humana, não à maneira de um mero arranjo superficial, mas em sua profundidade”.


Os ritos atualizam e mantêm vivas as energias cósmicas que fluem dos mitos e, dessa forma, eternizam o potencial intrínseco de estruturação da psique. Os ritos lançam mão de elementos simbólicos que agrupam em torno de si uma variedade inescrutável de qualidades e quantidades de energia psíquica.


A cada situação mítica, ou arquetípica, podemos associar um conjunto de procedimentos “a priori” ao qual chamamos de rito. O rito, assim como o mito, estão diretamente ligados ao sagrado e à comunicação com a realidade transpessoal e subjetiva que compõem as representações humanas.


Os ritos podem também ser vistos como a base intrínseca das cerimônias e por que não dizer de muitos costumes e hábitos da cultura. Os ritos evocam, perpetuam e atualizam o sagrado no mundo fenomênico criando condições de possibilidade às hierofanias e epifanias. Veiculam a energia do mito e são, em conjunto com estes, o binômio ( mito-rito ) primordial para a revelação dos elementos fundamentais da Psique.


Os ritos revelam os mitos e a Psique através de expressões dotadas de grande simbolismo e magia, colocando o Homem frente aos seus mais desafiadores mistérios e por isso desvendando-os com a linguagem apropriada. Podemos da mesma forma entender que os ritos façam parte desse conjunto de procedimentos arcaicos que tem como finalidade última ordenar e estruturar os insondáveis movimentos da energia e substância arquetípica.


Os ritos, quer sejam esses : de passagens, cura, consagração, exorcismos, etc são conjuntos complexos de procedimentos simples que possibilitam o movimento e atualização das energias cósmicas e, conseqüentemente, o cumprimento de suas finalidades última.


Propriamente, vimos até então enfocando a relação mito, rito e psique como um dos elementos mais significativos da Psicologia do Inconsciente e prosseguimos, em conseqüência natural dessa proposição, na re-visão do que entendemos por inconsciente e mais detidamente no conceito de Psique. Os arquétipos e o inconsciente coletivo também estiveram sempre no pano de fundo dessa reflexão cabendo ao Homem na sua individualidade ocupar sempre no centro e a finalidade maior de todo estudo.


Mas como falar de todos esses elementos humanos sem tocar na sua imprescindível expressão : o corpo. O corpo, essa estrutura ímpar que ao longo dos tempos tem se mostrado fenomenologicamente como a mais próxima expressão do Self, da individualidade e, por que não dizer, da Alma é, por esse ponto de vista, o território do sagrado que segundo Evaristo E. de Miranda : “O corpo humano possui uma estrutura e uma unidade que vão além da própria matéria, realidade essencial da pessoa. É um santuário onde a sabedoria divina se torna visível. A Sabedoria judeu-cristã ajuda a viver o corpo com um templo, em que pesem todos os equívocos castradores e abomináveis que a história ocidental e oriental proferiu e ainda profere sobre o corpo".


Corpo, matéria e psique podem ser tratados e entendidos por uma mesma e única visão de mundo tal qual formula Jung :


“Mais cedo ou mais tarde, a física nuclear e a psicologia do inconsciente se aproximarão cada vez mais, já que ambas, independentemente uma da outra e a partir de direções opostas, avançam para o território do transcendente. ( ... ) A psique não pode ser totalmente diferente da matéria, pois como poderia de outro modo movimentar a matéria ? . E a matéria não pode ser alheia à psique, pois de que modo poderia a matéria produzir psique ? Psique e matéria existem no mesmo mundo, e cada uma compartilha da outra, pois do contrário qualquer ação recíproca seria impossível. Portanto, se a pesquisa pudesse avançar o suficiente, chegaríamos a um acordo final entre os conceitos físicos e psicológicos. Nossas tentativas atuais podem ser arrojadas, mas acredito que estejam no rumo certo”.


O que procuraremos apreender, a partir dos novos paradigmas da ciência, é que toda a articulação anteriormente relacionada à psique pode e deve ser estendida também como em relação ao corpo. Psique também é corpo, substância, matéria ponderável e sujeita objetivamente ao mitos, ritos e imagens coletivas. É através desse Self, na condição corporal, é que se dão as primeiras manifestações dos mitos, ritos e símbolos. É nas imagens psíquicas, emoções, afetos e principalmente nos instintos que percebemos os mitos e arquétipos em sua forma mais arcaica.


Muito antes de se tornar uma narrativa racional o mito é vivido e ritualizado na dimensão do corpo através de movimentos, impulsos, instintos e muitas outras manifestações psíco-somáticas para depois vir a ser uma narrativa. Nossos corpos são o primeiro palco da eclosão desse sagrado e cada órgão, cada sistema orgânico traz, em si, sua fala oracular própria que enseja toda a sabedoria condensada.


Tanto o corpo quanto a psique tem sua história, uma história comum que se desenvolve concomitante uma à outra e que vai do caos ao cosmos, rumo ao sagrado. Em Jung temos no processo de individuação esse caminho que é sempre orientado em direção ao centro, ao Self, um caminho vivido em todas essas dimensões humanas.


O que sentimos historicamente é que ao longo do tempo o corpo perdeu sua sacralidade e foi condenado como fonte de pecado, riqueza e esquecido como uma espécie de resíduo. Ainda citando Evaristo Miranda : “ No mundo contemporâneo, o corpo sofreu uma violenta dessacralização, profanado por mecanismos sociais avassaladores. Num processo secular, a laicização do espaço sagrado no Ocidente cristão atingiu níveis inimagináveis. Progrediu-se da laicização dos estados – em particular da sacralidade das monarquias para as republicas jacobinas – para as cidades".


Enfim, para falarmos em mito e mitologia com olhar junguiano ou mesmo em psique, arquétipos e inconsciente coletivo haveremos de entender que esses fenômenos são primeiramente vividas na dimensão e expressão do corpo para depois serem narrados na concepção espaço-temporal de cada um.


Entendemos então que os mitos, ritos e símbolos não foram inventados por uma mente superdotada ou por algum ser primordial que não se dando conta de representar o mundo em que vivia deformou as imagens com intuito de compreender o mundo.


Esses elementos são a própria psique viva, plena em imagens, emoções, afetos e todas as formas estruturantes de viver. Por mais que não saibamos ou queiramos re-conhecer somos regidos por leis ontológicas primais e nada melhor do que os mitos, ritos e símbolos eternos para nos atestar sobre a ordem arquetípica subjacente a todo comportamento significativo do Homem. A anarquia corporal que tanto vemos hoje apresenta-se, segundo Evaristo Miranda :


“ Privado da força e da energia de seus arquétipos, o Homem vive na confusão, na desordem, na negação dos princípios fundadores, na separação do divino, na anarquia ( an archè ), sem arquétipo. Cortar o Homem de seus arquétipos é condena-lo a uma crônica enfermidade física e metafísica. Nossa vida é regida por leis ontológicas e todo o ser vivo é a encarnação de seus arquétipos. Todos são chamados a conhecer e a reconhecer essas leis, inscritas na tábua de nossos corações e na linguagem sutil de nossos corpos. Nisso reside a verdadeira sabedoria : descobrir a riqueza do que vem de dentro para fora, ao contrário do conhecimento exterior penoso, que vem de fora pra dentro”.


Enfim, olhando os mitos, ritos e símbolos tendo ao centro o Homem e sua Alma para podermos entender que :


“O homem é por natureza, ontologicamente, imagem divina e cosmológica e as verdadeiras tradições religiosas são caminhos para chegar à plenitude dessa revelação. Os mitos e ritos religiosos da humanidade, os textos sagrados do taoísmo, os Vedas, a Bíblia .... há milhares de anos descrevem essas realidades do humano ( ... ) Os mitos bíblicos da criação, do dilúvio, da torre de Babel, de Jonas, de Jô ... nos trazem realidades arquetípicas permanentes. Para certos autores, sobretudo no campo da psicologia e da antropologia, os mitos traduzem episódios ocorridos na proto-história, na aurora da humanidade. Nisso, eles manifestam sua incapacidade de libertar-se da prisão do espaço e do tempo. Como indica A de Souzenelle, os mitos são na realidade uma meta-história, sempre atual”.


(Autor: Jorge Luiz de Oliveira Braga -Analista Junguiano – AJB)


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