sábado, 6 de setembro de 2008

NARCISO E ECO


Eco era uma bela ninfa, amante dos bosques e dos montes, onde se dedicava a distrações campestres. Era favorita de Diana e acompanhava-a em suas caçadas. Tinha um defeito, porém: falava demais e, em qualquer conversa ou discussão, queria sempre dizer a última palavra.

Certo dia, Juno saiu à procura do marido, de quem desconfiava, com razão que estivesse se divertindo entre as ninfas. Eco, com sua conversa, conseguiu entreter a deusa, até as ninfas fugirem. Percebendo isto, Juno a condenou com estas palavras:


- Só conservarás o uso dessa língua com que me iludiste para uma coisa de que gostas tanto: responder. Continuarás a dizer a última palavra, mas não poderás falar em primeiro lugar.

A ninfa viu Narciso, um belo jovem, que perseguia a caça na montanha. Apaixonou-se por ele e seguiu-lhe os passos. Quanto desejava dirigir-lhe a palavra, dizer-lhe frases gentis e conquistar-lhe o afeto! Isso estava fora de seu poder, contudo. Esperou, com impaciência, que ele falasse primeiro, a fim de que pudesse responder. Certo dia, o jovem, tendo se separado dos companheiros, gritou bem alto:

- Há alguém aqui?
- Aqui - respondeu Eco.

Narciso olhou em torno e, não vendo ninguém, gritou:
- Vem!
- Vem! - respondeu Eco.
- Por que foges de mim? - perguntou Narciso

Eco respondeu com a mesma pergunta.
- Vamos nos juntar - disse o jovem.

A donzela repetiu, com todo o ardor, as mesmas palavras e correu para junto de Narciso, pronta a se lançar em seus braços.


- Afasta-te! - exclamou o jovem, recuando.

- Prefiro morrer a te deixar possuir-me.
- Possuir-me - disse Eco.


Mas foi tudo em vão. Narciso fugiu e ela foi esconder sua vergonha no recesso dos bosques. Daquele dia em diante, passou a viver nas cavernas e entre os rochedos das montanhas. De pesar, seu corpo definhou, até que as carnes desapareceram inteiramente. Os ossos transformaram-se em rochedos e nada mais dela restou além da voz. E, assim, ela ainda continua disposta a responder a quem quer que a chame e conserva o velho hábito de dizer a última palavra.

A crueldade de Narciso nesse caso não constituiu uma exceção. Ele desprezou todas as ninfas, como havia desprezado a pobre Eco. Certo dia, uma donzela que tentara em vão atraí-lo implorou aos deuses que ele viesse algum dia a saber o que é o amor e não ser correspondido. A deusa da vingança (Nêmesis) ouviu a prece e atendeu-a.

Havia uma fonte clara, cuja água parecia de prata, à qual os pastores jamais levavam os rebanhos, nem as cabras monteses freqüentavam, nem qualquer um dos animais da floresta. Também não era a água enfeada por folhas ou galhos caídos das árvores; a relva crescia viçosa em torno dela, e os rochedos a abrigavam do sol.

Ali chegou um dia Narciso, fatigado da caça, e sentindo muito calor e muita sede. Debruçou-se para desalterar-se, viu a própria imagem refletida e pensou que fosse algum belo espírito das águas que ali vivesse. Ficou olhando com admiração para os olhos brilhantes, para os cabelos anelados como os de Baco ou de Apolo, o rosto oval, o pescoço de marfim, os lábios entreabertos e o aspecto saudável e animado do conjunto. Apaixonou-se por si mesmo. Baixou os lábios, para dar um beijo e mergulhou os braços na água para abraçar a bela imagem. Esta fugiu com o contato, mas voltou um momento depois, renovando a fascinação.

Narciso não pôde mais conter-se. Esqueceu-se de todo da idéia de alimento ou repouso, enquanto se debruçava sobre a fonte, para contemplar a própria imagem.
- Por que me desprezas, belo ser? - perguntou ao suposto espírito.
- Meu rosto não pode causar-te repugnância. As ninfas me amam e tu mesmo não parece olhar-me com indiferença. Quando estendo os braços, fazes o mesmo, e sorris quando te sorrio, e respondes com acenos aos meus acenos.

Suas lágrimas cairam na água, turbando a imagem. E, ao vê-la partir, Narciso exclamou:


- Fica, peço-te! Deixa-me, pelo menos, olhar-te, já que não posso tocar-te.

Com estas palavras, e muitas outras semelhantes, atiçava a chama que o consumia, e, assim, pouco a pouco, foi perdendo as cores, o vigor e a beleza que tanto encantara a ninfa Eco. Esta se mantinha perto dele, contudo, e, quando Narciso gritava: "Ai, ai", ela respondia com as mesmas palavras. O jovem, depauperado, morreu. E, quando sua sombra atravessou o Estige, debruçou-se sobre o barco, para avistar-se na água.

As ninfas o choraram, especialmente as ninfas da água. E, quando esmurravam o peito, Eco fazia o mesmo. Prepararam uma pira funerária, e teriam cremado o corpo, se o tivessem encontrado; em seu lugar, porém, só foi achada uma flor, roxa, rodeada de folhas brancas, que tem o nome e conserva a memória de Narciso.


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A DINÂMICA DA PERSONALIDADE DE ECO

O que une de forma muito profunda Jung à Mitologia é o conceito de Inconsciente Coletivo e seu principal conteúdo: o Arquétipo. Inclusive um dos fatores que levou Jung ao conceito de inconsciente coletivo foram seus anos de estudo de mitologia, pela qual ele ficou completamente fascinado:

"estudei um amontoado de materiais mitológicos e gnósticos, para enfim chegar a uma desorientação total. Senti-me tão desamparado como outrora, na clínica, quando tentava compreender o sentido dos psicóticos. Tinha a impressão de estar num asilo de alienados imaginários e comecei a "tratar" todos esses centauros, ninfas, deuses e deusas, do livro de Creuzer, a analisá-los como se fossem meus doentes..."

"passei as minhas noites imerso na história dos símbolos,i.e., na mitologia e na arqueologia aqui se encontram fontes valiosas para a fundamentação filogenética da teoria da neurose..."

A partir do estudo de Mitologia Comparada, de Religião Comparada ( mitos e religiões sendo vistos como expressões espontâneas da psique humana), da observação de pacientes psicóticos ( Jung trabalhou em hospital psiquiátrico durante nove anos e o paciente psiquiátrico se caracteriza pela substituição do mundo da realidade pelo do inconsciente), olhando para seus próprios sonhos (expressão do inconsciente) e sonhos de seus pacientes "normais", Jung conclui que as imagens produzidas espontaneamente pela psique em sonhos, fantasias e mitos, são semelhantes em sua forma e estruturação e a partir daí postula a existência de uma camada psíquica igual a todos os homens, capaz de gerar imagens semelhantes, imagens típicas de seres humanos.

"Nossas opiniões, pensamentos e convicções são produtos de uma camada psíquica na qual se produzem os mitos. Esse estrato criador de mitos funciona como nossos sonhos........As imagens produzidas pela psique podem ser altamente pessoais, mas o drama em nosso palco interior costuma ser uma encenação do drama humano geral. Os artistas e os sábios sempre souberam disso. Nossos problemas particulares - nascimento, morte, relacionamentos, conflitos e a busca de significado - são problemas humanos. Quem estiver passando por um deles tem chance de perceber que essa experiência é uma versão de imagens grandiosas que simbolizam o modo como a humanidade sempre vivenciou esse problema. Jung chamou de arquétipos essas imagens atemporais. São dinamismos que fornecem padrões de comportamento, de emoção e de experiências pessoais que transcendem a história pessoal.......Pode-se considerar os mitos como sonhos coletivos e recorrentes da humanidade."

Devido a essa ligação imensa entre a Psicologia Analítica e a Mitologia sinto ser possível traçarmos um paralelo entre a personalidade mítica de Eco e alguns conceitos básicos de Jung; ou olharmos para a dinâmica do mito através de um olhar junguiano que por natureza tende a dar espaço ao mito e ver a necessidade de compreendermos o mito até para que nos conheçamos.
"E o mito? O mito refaz a história da origens, história sagrada. Se das origens, universal. Quanto mais primitivo, mais de todos. Todos vimos nossa imagem refletida em alguma superfície lisa algum dia e ficamos perturbados. Os contornos refletidos são os nossos? Vemos outro ou vemos a nós mesmos? Por isso Narciso nos interessa, por isso é que ele é histórico. "

Poderíamos dizer o mesmo de ECO...quem não viveu um amor impossível? Um amor tão centrado no outro que justo por isso não pode ser amor? Quem não apenas ecoou palavras?Ficando sem identidade, ficando sem fala! Parafraseando Donaldo Schuler, podemos dizer que Eco nos interessa, que é historicamente psicológica.
A forma mais natural de chegarmos ao mito de ECO talvez seja através do mito de Narciso, que foi o seu grande amor.

(Renata Cunha Wenth -symbolon.com.br)


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NARCISO, SEU REFLEXO E SUA SOMBRA - Jung, Psicologia Analítica


Serão estes atributos que se estenderão, também ao século XXI ? Primeiro, tentemos recordar-nos do mito.

Narciso nasceu possuidor de uma beleza excepcional. Na cultura grega, assim como em tantas outras, tudo o que excede, isto é, passa dos limites da média, acaba se tornando assustador, porque pode arrastar o indivíduo para a "hýbris", que para os gregos é o descomedimento, muito distante do "métron" , - equilíbrio. Sua mãe, que era uma náiade ou ninfa que habita rios e riachos chamada Liríope, foi à procura de Tirésias , um cego adivinho que possuía a arte da "mantéia", ou seja, a capacidade de ver o futuro.

Ela perguntou se Narciso viveria até ficar velho, ao que o sábio respondeu: "Se ele não se vir..."Seu pai era o rio Cefiso (Képhisos - o que banha, inunda). Assim, embora mortal, Narciso era um ser proveniente das águas por parte de pai e de mãe. E, conforme sua mãe temera, Narciso foi assediado por todas as ninfas e mortais que o viram. Mal ele crescera e havia uma profusão de mulheres apaixonadas por ele, embasbacadas com a sua beleza deslumbrante. Mas ele não queria saber delas e, aí não se sabe bem o porquê. Ou não se sentia ainda pronto para um relacionamento ou, de tanto ouvir cantarem sua beleza ficou orgulhoso e passou a desprezar as mulheres que o procuravam.

Ora, havia uma ninfa que tinha uma história muito infeliz. Seu nome era Eco e, muito antes de vê-lo e se apaixonar por Narciso tinha sido uma moça tagarela que falava sem parar. Zeus o pai dos deuses gregos, sempre buscando um modo de enganar Hera sua esposa, para que pudesse se deitar com qualquer ninfa ou mortal que lhe chamasse a atenção, mandou que Eco fizesse companhia a Hera e assim, a distraísse.

Hera percebeu a artimanha depois de algum tempo e, como era seu costume se vingou na pobre ninfa, em vez de amaldiçoar seu marido que, afinal era o autor da malandragem.Hera fez com que Eco nunca mais conseguisse articular uma frase siquer e ela só podia repetir as últimas palavras de qualquer frase que ouvisse.Aconteceu que, quando Eco já estava apaixonada por Narciso, ela o seguiu a uma caçada onde, por infelicidade ele se perdeu dos amigos que caçavam com ele e começou a gritar à procura: " Ninguém me escuta?" Escuta, repetiu Eco, mas ele não a via porque ela estava escondida, com vergonha de tê-lo seguido.Então ele gritou aos amigos, pensando que eles que lhe responderam: "Vamos nos juntar aqui..." E Eco : Vamos nos juntar aqui... e perdendo a timidez e a vergonha, apareceu de braços abertos para ele. Mas, ele a repeliu dizendo que preferiria a morte a ficar com ela.

Eco ficou tão triste e deprimida com a recusa dele que deixou de se alimentar e foi definhando até se transformar em um rochedo. Apenas sua voz permaneceu, da mesma maneira que estava após a maldição de Hera: só repetia as últimas palavras do que era dito perto dela.Então, houve uma revolta das ninfas, que foram procurar Nêmesis, a deusa da Justiça. Esta, depois de ouvir suas queixas achou que Narciso merecia o castigo de ter um amor impossível.Ignorando o castigo a que estava submetido e com sede depois de outra caçada, Narciso se aproximou de um lago tão calmo e tão límpido que, ao curvar-se sobre as águas para beber, se deparou com sua imagem refletida e, ficou pasmo diante de tanta beleza.

O rosto que via parecia talhado em mármore e assemelhava-se à escultura de um deus. O pescoço esguio, parecia trabalhado em marfim. A princípio não se deu conta de que aquela era a sua própria imagem. Nunca tinha se visto, como poderia se "re-conhecer" de imediato? Mas tão apaixonado ficou que tentou tocar aquele rosto, fosse de quem fosse e, qual não foi sua surpresa quando percebeu que seus movimentos se repetiam também nas águas! Só então concluiu que aquele era o seu rosto, tão maravilhoso que não conseguiu mais tirar os olhos de seu reflexo e morreu ali mesmo, de inanição, sem conseguir afastar os olhos da própria imagem.

Quando, depois de sua morte, amigos foram procurá-lo, só encontraram à beira do lago uma flor de pétalas brancas e miolo amarelo, muito delicada, de rara beleza e de um perfume inebriante, a que deram o nome de narciso. Ficaram depois sabendo que, até no Hades (mundo subterrâneo para onde vão as almas dos mortos), ainda hoje ele procura ver seu reflexo nas águas escuras do rio Estige.

Esta é uma história triste e tão antiga que ao lembrar dela nos parece uma bobagem qualquer, dessas que se conta às crianças, com o intuito de dizer a elas: não seja egoísta, ego-centrado, não pense que é só você que existe no mundo, nem tão presunçoso, não faça pouco das pessoas...Só que mitos não são bobagens e, por mais que tentemos passar ao largo e dizer: "Já estou cansado de saber a moral desta história ..." , não é bem assim.

Temos muitas coisas a pensar e rever neste mito de um Narciso que está vivo e atuante em cada um de nós, respeitáveis cidadãos do mundo em pleno século XXI.Parte da palavra Nárkissos que é o nome de Narciso em grego, vem de "nárke" que significa entorpecimento, torpor. É desta raiz que se origina, também, a palavra narcótico (entorpecente).

Junito Brandão em sua obra "Mitologia Grega" assim se coloca a respeito deste assunto: "...nárke como fonte de narcose (sono produzido por meio de narcótico), ajuda a compreender a relação da flor narciso com as divindades ctônias e com as cerimônias de iniciação... Narcisos plantados sobre os túmulos, o que era um hábito, simbolizavam o sorvedouro da morte, mas de uma morte que era apenas um sono... Uma vez que o narciso floresce na primavera, em lugares úmidos, ele se prende à simbólica das águas e do ritmo das estações e, por conseguinte, da fecundidade, o que caracteriza sua ambivalência morte-(sono)-renascimento."Mas, afinal qual é a simbologia deste mito, além daquelas já, exaustivamente, debatidas? Quem é Narciso? É alguém que se apaixona pela própria imagem. E nós, quem somos? Muito se tem falado a respeito do quanto devemos nos amar, até para que possamos amar ao outro...

Mas não é aí também que quero chegar. Quero antes falar das semelhanças entre os reflexos e as sombras. Para tanto, volto a recorrer a J. Brandão." O desenlace trágico... acima transcrito, é a conscientização de Narciso de que está perdidamente apaixonado por sua própria imagem; de que sua paixão é um auto-amor, um amor do 'self' e não um amor pelo 'outro'.Tal descoberta leva-o ao desespero e à morte, por uma reflexão 'patológica'. 'Reflectere', de 're', novamente e 'flectere', curvar-se, significa etimologicamente, voltar para trás, donde 'reflexus', reflexo, retorno, e 'reflexio', - 'onis' , inclinação para trás. Jung acentuou bem o que ele compreende por reflexão: 'O termo reflexão não deve ser entendido como simples ato de pensar, mas como uma atitude....

Como bem indica a palavra reflexio, isto é, inclinação para trás, (...) isto é, um deter-se, procurar lembrar-se do que foi visto, colocar-se em relação a um confronto com aquilo que acaba de ser presenciado. A reflexão, por conseguinte deve ser entendida como uma tomada de consciência.

Mas a reflexão, como a de Narciso, pode representar sério perigo... (porque sua) história fala de um desenvolvimento patológico, exatamente isto que Jung chamou de instinto de reflexão. Jung atribui a esse instinto a possibilidade da riqueza e da complexidade psicológica. Trata-se de um instinto estritamente humano e, sem ele, a cultura e a interioridade psíquica seriam inconcebíveis. Mas, como Jung frisa, cada instinto ( ele numera cinco) tem um potencial de expressão patológica. A patologia é indicada, geralmente, quando um dos cinco instintos começa a dominar o resto e a restringir sua progressão para a satisfação.

Narciso indicaria este desenvolvimento patológico no instinto de reflexão: a atividade da reflexão (voltar-se para si mesmo) domina e exclui a necessidade de alimentação, de sexualidade comum, da atividade da entrada de qualquer pensamento ou impulso novos.O que o jovem... ama é sua 'reflexão' que, como já foi visto, anteriormente, é sua 'umbra', sua alma-sombra. Sob (esta) influência 'ama-se o que se auto-reflete e, reflete-se o que se ama'...O perigo que oferece o aprofundar-se em demasia na linha narcísica de alma e amor-reflexão está não somente na auto-contenção, no solipcismo, no incesto intrapsíquico, mas também no suicídio.

De modo explícito, ao se recusar comer, Narciso se suicidou." Agora que J. Brandão nos esclareceu a respeito dos reflexos eu gostaria que "refletíssemos" juntos a respeito do que têm em comum os reflexos e as sombras.Ambos nos espelham de alguma maneira. Ambos acompanham nossos movimentos, definem nossos contornos e nossos limites. Ambos para se apresentarem dependem da luz. Só que os reflexos nos dão uma aparência mais nítida, por isso, talvez gostemos mais deles. Além do que, em todas as culturas, desde os tempos mais remotos, existem várias associações não muito agradáveis no que diz respeito à sombra...Até mesmo as "assombrações" têm a ver com ela.

Assombrações com vários sentidos, conforme veremos...Na teoria Junguiana, a sombra representa tudo aquilo que não conhecemos de nós, mas que podemos ainda vir a conhecer, tais como potencialidades das quais ainda não tivemos consciência ou, se tivemos pode não ter havido oportunidade para desenvolve-las e, desta forma, elas ainda se encontram lá, na obscuridade da nossa sombra. Fazem parte de nossa Sombra também, tudo aquilo que mais detestamos em nós e que, conhecemos sim, mas desejaríamos não ter conhecido jamais e, procuramos esquecer e reprimir da maneira mais eficiente possível. Então, para negar que aquilo nos pertence o projetamos no outro.

Assim, ao refletirmos no Narciso que vive em nós, nos confrontamos com uma situação um tanto sombria.O século XX foi considerado o século das migrações. Em todo o planeta, via-se massas incalculáveis de pessoas caminhando a esmo de fronteira em fronteira, buscando asilo, fugindo de guerras étnicas. E, o que vem a ser uma guerra étnica? O quê, precisamente, mobiliza parte de uma nação a querer massacrar a outra parte dessa mesma nação, seus vizinhos com quem, em muitos casos conviveram por anos a fio? A busca do reflexo e o medo da sombra, do diferente, do desconhecido, do que nos incomoda e não queremos ver nem mesmo no "outro".

Quando estou no aconchego de família, em que todos falam a minha língua, é tão reconfortante...Sinto-me compreendido e amado, até mesmo admirado, reconhecido pelo que sou, pelo que estou me tornando, pelos projetos que tenho... E, eu preciso desta "re-validação", deste "re-conhecimento" de que valho alguma coisa, de que sou importante para alguém...E me sinto muito orgulhoso com a sensação de "pertencer"...de fazer parte de algo que prezo tanto.

É. Continuamos como Narcisos procurando e nos apaixonando por nossos reflexos, por nossos "semelhantes", por nossos iguais, e assim nos encontramos em pleno século XXI, no novo milênio, apedrejando, escorraçando e matando aqueles que não tem a nossa cor, os nossos costumes, a nossa raça, que não possuem nosso sangue ou, quem sabe, nosso nível cultural ou ainda, nosso poder econômico e principalmente, nossas convicções políticas e religiosas, isto é, nossos valores.Indo atrás de nossos "reflexos" , tais como Narciso, nos suicidamos em guerras e ampliamos cada vez mais a nossa Sombra .

Entorpecemos nossos sentidos e perpetuamos a "hamartía" de Narciso ( erro fatal que leva à tragédia, sempre por ignorância).Mas, será que é mesmo um pecado tão grande querer estar em comunhão com nossos pares, nossos iguais? Não, quando o olhar não se enrijece. Não, quando há uma abertura dos cinco sentidos que se amplia no espaço, quando há lugar na minha casa e no mundo para o diferente, o oposto, o não-eu .

Talvez nem tudo esteja perdido porque o mito de Narciso falava que ele era proveniente das águas e estas simbolizam a fecundidade, a morte simbólica do sono que sonha com um "re-nascimento". A simbologia das águas fala do Eterno Retorno Cíclico. Então, se mais uma vez recorrermos à teoria Junguiana, ela nos fala da evolução em espirais, onde o retorno pode ser em uma oitava acima.

Quem sabe possamos renascer para a evolução de um mundo melhor? Mas para haver evolução é preciso que haja reflexão, tomada de consciência no plano individual, familiar, social, humano, planetário.Narciso sempre viverá em cada um de nós, mas podemos vivenciá-lo sem a patologia da "hýbris". Poderemos, (quem sabe?), neste novo milênio que com tanta alegria acabamos de entrar, trazer à luz da consciência mais um bocado da nossa Sombra, tentando lidar com as diferenças e nossos conflitos e ambivalências em relação a elas.


(Zidnah Debieux, Psicóloga clínica de linha Junguiana)

Um comentário:

Poderoso disse...

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