segunda-feira, 1 de setembro de 2008

SÍMBOLO E PSIQUE


"O tão é mar sereno de puro vazio, perolado, ilimitado, imaculado. Dele nascem dois dragões gêmeos: o macho, brilhante como o sol e estriado de ouro, senhor da ação; a fêmea, radiante como a lua e entretecida de fios de prata, dada à passividade. Sua cópula dá início aos ritmos da mudança cíclica, os movimentos dos planetas, o avanço das estações, a alternância do dia e da noite".


Entre outros pontos destacáveis da Psicologia Analítica, certamente o redimensionamento a que vai ser exposto o símbolo sob a concepção junguiana é digno de nota. Ao mostrar que o pensamento simbólico é uma dádiva que permeia toda a vida humana, plasmando, desde a antiguidade, o modo como o homem compreende a si mesmo e ao mundo, Jung trouxe de volta ao mundo científico, através de sua leitura da psique, fontes que, por força de um enfoque por demais racionalista das ciências humanas, haviam sido relegadas a um plano inferior, como os mitos, os contos de fada, as fábulas, etc. Dentro desse contexto, é inegável toda a relevância dada ao símbolo, enquanto fruto da psique e cuja fonte principal é o próprio sonho.


Contudo, antes de tratarmos dessa questão sob o ponto de vista junguiano, algumas perguntas se sobressaem, como, por exemplo: o que é símbolo? O que caracteriza uma determinada imagem enquanto simbólica? O que diferencia o símbolo das demais figuras, tais como signo, emblema, etc? Cumpre, portanto, que, antes de darmos continuidade ao falar sobre o símbolo, nos debruçarmos mais a fundo sobre estes pontos, mostrando as demais figuras de representação, o que significam, e só então voltarmos ao símbolo em si, enfatizando sua origem, seu significado e aquilo a que se presta dentro do campo abrangido pela Psicologia Analítica, donde certamente ficará clara a diferença deste para com os demais. Sendo assim, adentro numa abordagem terminológica destas imagens, pois "se na prática nem sempre são claras as fronteiras entre os valores destas imagens, esta é uma razão suplementar para assinalá-las fortemente na teoria".


Uma das figuras de representação, o emblema, é uma figura visível, que dentro de um certo contexto passa a ser representação de uma certa idéia. Outra, o atributo, corresponde a uma realidade ou imagem que é escolhida para caracterizar ou distinguir um personagem ou uma coletividade: a balança, por exemplo, é um acessório que, como figuração de eqüidade, serve de atributo à Justiça.


Já a alegoria é uma figuração que pode tomar a forma humana, de um animal, de um vegetal, ou mesmo de um feito heróico, de uma virtude, etc. Um exemplo seria a mulher alada como figuração da vitória. Um outro caso, a metáfora, sugere apenas a comparação entre dois seres ou duas situações, enquanto a analogia diz respeito à relação existente entre seres e noções, que, devido ao fato de manterem entre si uma tênue semelhança, mantêm-se diferenciadas em suas essências, ou seja: a cólera de Deus pode apenas em termos de analogia ser comparada à cólera do homem.


Aquilo que de comum se apresenta em todas essas formas de expressão é o fato delas serem signos, de não ultrapassarem os limites de sua própria significação e representação. É nesse instante que o símbolo distancia-se irremediavelmente do signo, surgindo prenhe de sentido, pronto a oferecer inúmeras possibilidades à consciência que o contempla. O signo, portanto, encerra em si mesmo seu próprio significado, suas próprias potencialidades, enquanto "o que chamamos de símbolo é um termo, um nome ou mesmo uma imagem que possua conotações especiais além do seu significado evidente e convencional. Implica alguma coisa vaga, desconhecida e oculta para nós". "Os símbolos são parábolas do imperecível, apresentadas em manifestações do perecível". No dizer de Henri Cobin: "O símbolo anuncia um outro plano da consciência, que não é o da evidência racional; é a chave de um mistério, o único modo de se dizer aquilo que não pode ser apreendido de outra forma; ele jamais é explicado de modo definitivo e deve sempre ser decifrado de novo". Eliade nos diz que"o pensamento simbólico precede à linguagem e à razão discursiva" e que "o símbolo pertence à vida espiritual, podemos camuflá-lo, mutilá-lo, degradá-lo, mas jamais poderemos extirpá-lo". Cassirer chega a dizer que o homem poderia ser caracterizado como um animal simbólico, ao invés de um animal racional. Podemos ver que vários foram os autores que já renderam homenagem ao símbolo.


Agora que já respondemos as primeiras perguntas e que caracterizamos o símbolo como uma imagem que encerra em si algo oculto e que vai muito além de sua representação imediata, cumpre-nos agora o dever de lançar novas perguntas: de onde vem o símbolo, como ele encerra em si tantos significados e por que ele tem o poder de seduzir o homem através do desejo de desvendá-lo, atraindo-o, subjugando-o por uma força que surge à consciência humana como tendo origem divina?


Para a Psicologia Analítica o símbolo nasce da própria alma, surgindo do próprio conflito psíquico inerente a esta, conjugando em si, por um lado, o arquétipo, fonte de sua numinosidade, em si mesmo irrepresentável, já que não possui forma nem norma, configurando o caos do inconsciente; e, por outro, uma imagem concreta, retirada do meio e que, ao revestir e dar forma ao arquétipo, por assim dizer, lhe dá também existência, criando-o e diferenciando-o do caos que é sua verdadeira origem, como se, deste modo, fosse realizado o próprio ato cosmológico da Criação. Por fundar-se na gênese da alma humana, o símbolo adquire a capacidade de tocar interiormente o homem: é um poder de ressonância, uma identificação entre o símbolo e a consciência que o contempla. Isto acontece porque a realidade que o símbolo expressa não está presa aos traços da imagem em si, mas, devido à profundidade de sua essência, encontra-se livre para ligar-se a um novo significado a cada instante, ressurgindo como algo novo em cada parte da alma humana.


Segundo Jung, a energia psíquica estaria vinculada a um certo número de funções, no entanto, devido ao fato do equilíbrio entre tais funções não ser satisfatório, surge um conflito interno que dá origem a um excedente de libido que, por não estar firmemente fixada a uma destas funções, já que é um excedente, desprende-se do fluxo natural, criando a possibilidade de uma transformação e, conseqüentemente, de uma nova utilização.


Contudo, em sua forma pura, a energia psíquica, que é passível de transformação, o é apenas enquanto possibilidade, visto que, nesta forma, ela não pode ser canalizada para a consciência. Assim, chegamos ao outro lado do símbolo, ou seja, à imagem que reveste e dá forma à libido. Esta é proveniente da capacidade da psique de traduzir eventos físicos em psíquicos. Nada que acontece no universo da psique acontece por acaso: assim, quando uma imagem em particular é escolhida pela psique para revestir e dar forma a um arquétipo, ela o é porque, naquela determinada constelação, representa a melhor forma de configuração para aquele conteúdo psíquico que está a ser constelado. Então, uma imagem simbólica é sempre a melhor maneira como a psique vivencia um fato físico ao nível do psíquico.


Mas está reservado a esta imagem um outro privilégio além do de revestir o arquétipo, pois é através desta fixação da imagem que esta energia se converte de possibilidade em realidade, posto que, mediante esta imagem, surge a chance de adentrar os limites da consciência, de ser por esta digerida e de lançar, por fim, como reflexo de seu objetivo final, uma nova parcela de energia ao Eu consciente, ou seja, a imagem torna possível ao arquétipo em si apresentar-se à consciência, podendo relacionar-se com ela. Ao caracterizar-se como transformador de energia, o símbolo adquire a capacidade de dissolver aglomerações psíquicas que possam surgir como prejuízo ao equilíbrio psíquico, pois redistribui a energia estagnada, sendo a produção do símbolo nos caminhos virtuais dos arquétipos que tornará possível a utilização da energia psíquica.


Pode-se ver quanto é importante a discussão do Eu com os símbolos, discussão esta que advém principalmente da tentativa do homem de interpretar seus sonhos; para citar um exemplo, entre muitos, os índios Naskapi da América do Norte, acreditam que Mistapeo, o emissor dos sonhos, habita o coração de cada homem e lhes dá a tarefa de prestar atenção a estes sonhos, interpretando-os e retirando destes um significado.


Assim, o símbolo canaliza a energia psíquica para a consciência, dá-lhe uma forma utilizável, visto que, enquanto imagem exterior concreta, pode ser reconhecida e apreendida pelo Eu e, enquanto conteúdo interior arquetípico, faz com que a consciência receba, como fruto desta apreensão, uma nova parcela de libido que alarga-lhe as fronteiras e estabelece uma ponte para o inconsciente, ponte esta que representa o próprio fluxo contínuo da vida, que liga o homem aos recônditos mais profundos de sua alma e o coloca frente à frente com possibilidades de existência diante das quais qualquer compreensão racional empalidece ao primeiro contato.


Como nota-se facilmente, o símbolo tem o poder de exprimir o mundo percebido e vivido pelo homem em função de todo o seu psiquismo e não apenas da consciência. Assim, o símbolo funciona como um substituto de relações, atuando como um comunicador entre o inconsciente, a consciência e o meio. Disto cria-se um enigmático paradoxo, pois o arquétipo que representa o conteúdo do símbolo é coletivo, visto que, aprioristicamente, existe na psique de cada um de nós e, mesmo assim, é através dele, desta coletividade, que o homem alcança a individuação, tornando-se único entre os demais. Isto se dá porque os arquétipos que se manifestam nessa relação são singulares para a consciência que entra em seu campo de contato. Estes podem ser constelados ou não, das mais variadas formas e nos mais diferentes momentos da vida, dependendo da vivência pessoal de cada sujeito. No fim, a consciência, com seu caráter individual, irá determinar a realidade e o significado da imagem simbólica. Enquanto um observador qualquer pode ver numa cruz simplesmente o cruzamento de dois pedaços de madeira, um cristão pode vislumbrar na mesma figura todo o mistério referente à ressurreição de Cristo. Embora cada arquétipo tenha um caráter coletivo, é na dimensão da individualidade que eles serão constelados, representados e vividos.


Esta é a característica do símbolo. De sua origem obscura, ele traz a característica do insondável; em suas potencialidades, ele convida a consciência a participar ativamente da vida inconsciente, gerando vida e estimulando o próprio desenvolvimento humano. Em seu jogo, ele nos faz entrar em contato com algo que não é conhecido, mas pressentido, seduzindo-nos e lançando-nos numa busca de tentar desvendar-lhe o significado e a origem, ao mesmo tempo formadora e destruidora, pois o símbolo se revela naquilo que é, simultaneamente, rompimento e união de suas partes separadas, como o princípio incessante da tensão dos contrários unidos numa síntese para, logo depois, serem separados novamente e, a seguir, reunidos, constituindo, enfim, o próprio fluxo de nossa vida psíquica.


(Farley Rebouças Valentim - psicólogo junguiano e membro do Círculo Junguiano de Fortaleza)

4 comentários:

Farley disse...

Olá,

Legal ter um texto meu em seu blog. Embora seja um texto bem antigo. Seu espaço é muito bem trabalhado. Parabéns

Farley

Farley disse...

Olá,

Legal ver um texto meu no seu blog, embora seja um texto bem antigo.
Seu espaço é muito bem trabalhado. Parabéns

Matheus disse...

Adorei Tudo Que Vi E Escutei...Estre Em Contato...
manommg@hotmail.com

fafi disse...

fascinanante, profundo, e muito criativo. Parabéns