quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

O Meu Amor - Chico Buarque



O meu amor
Tem um jeito manso que é só seu
E que me deixa louca
Quando me beija a boca
A minha pele toda fica arrepiada
E me beija com calma e fundo
Até minh'alma se sentir beijada, ai

O meu amor
Tem um jeito manso que é só seu
Que rouba os meus sentidos
Viola os meus ouvidos
Com tantos segredos lindos e indecentes
Depois brinca comigo
Ri do meu umbigo
E me crava os dentes, ai

Eu sou sua menina, viu?
E ele é o meu rapaz
Meu corpo é testemunha
Do bem que ele me faz

O meu amor
Tem um jeito manso que é só seu
De me deixar maluca
Quando me roça a nuca
E quase me machuca com a barba malfeita
E de pousar as coxas entre as minhas coxas
Quando ele se deita, ai

O meu amor
Tem um jeito manso que é só seu
De me fazer rodeios
De me beijar os seios
Me beijar o ventre
E me deixar em brasa
Desfruta do meu corpo
Como se o meu corpo fosse a sua casa, ai

Eu sou sua menina, viu?
E ele é o meu rapaz
Meu corpo é testemunha
Do bem que ele me faz

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Ausência

Esfuziante e verde, um beija-flor entrou pela janela,
pensei que a tua boca ainda estivesse aqui…




Guimarães Rosa

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Inconsciente Pessoal, Complexos e Símbolos - parte 1


Um breve histórico sobre os Complexo Afetivos

A teoria geral sobre os complexos de tonalidade afetiva tem seu início com as primeiras experiências de Jung no hospital público de Zurique valendo-se do teste de associação de palavras e é uma das descobertas iniciais mais significativas de Jung. A partir desse experimento Jung publicou diversas obras a respeito tendo sido pioneiro nessa aplicação de testes psicológicos. Em seu Volume II das Obras Completas ( Estudos Experimentais ) relata suas contribuições aos "Estudos diagnósticos de associações", cujas principais experiências foram realizadas, sob a sua direção, na clínica psiquiátrica da Universidade de Zurique, a partir de 1902 e publicados entre 1904 e 1910. Contem também outros estudos incluídos referem-se aos trabalhos de "Pesquisas Psicofísicas" (1907-1908).

Freud mais tarde apropria-se do termo “complexo” e faz uso desse na psicanálise haja visto a tão conhecida expressão “complexo de Édipo”, sendo que faz uso pela primeira vez em sua conferência “A psicanálise e a determinação dos fatos nos processos jurídicos” editada no volume IX das Obras Completas por Freud. No entanto, na nota do editor inglês podemos observar que:

"Esta conferência possui algum interesse histórico, pois é a primeira vez que num trabalho publicado de Freud se menciona o nome de Jung. Freud começara a corresponder-se com Jung há apenas dois meses quando pronunciou esta conferência, vindo a conhecê-lo pessoalmente somente em fevereiro do ano seguinte.
Neste trabalho evidencia-se o impacto imediato de Jung. O propósito desta conferência foi apresentar aos estudantes vienenses as experiências de associação e a teoria dos complexos de Zurique. Os estudos de Zurique haviam começado a aparecer em periódicos dois anos antes (Jung e Riklin, 1904), e o próprio Jung publicara dois ou três estudos sobre a aplicação de seu processo à prova legal apenas alguns meses antes de Freud pronunciar esta conferência.
Mais tarde, após o afastamento de Jung, Freud, em suas notas sobre ‘A História do Movimento Psicanalítico’ (1914), reduziu a importância tanto das experiências de associação como da teoria dos complexos. Mesmo neste trabalho, há uma certa crítica oculta sob a aprovação. Freud faz questão de mostrar que as descobertas de Zurique não passam, na verdade, de aplicações particulares de princípios básicos da psicanálise, indicando no penúltimo parágrafo o perigo de tirar conclusões apressadas dos resultados dos testes de associação.
Como esta é a primeira vez que nos trabalhos publicados de Freud aparece o termo de Zurique ‘complexo’, cabem aqui alguns comentários sobre o assunto. As primeiras experiências sistemáticas de associação foram realizadas por Wundt, e mais tarde foram introduzidas na psiquiatria por Kräpelin e particularmente por Aschaffenburg. Sob a direção de Bleuler, então diretor do hospício público Burghölzli de Zurique, e de Jung, seu primeiro assistente, foi levada a cabo uma série de experiências análogas, cujas conclusões foram publicadas a partir de 1904. Mais tarde foram reunidas em dois volumes (1906-1909) por Jung. Com exceção de uma nova classificação das formas assumidas pelas reações verbais às palavras-estímulo, o principal interesse das descobertas de Zurique residia na ênfase dada à influência de um determinado fator sobre as reações. Esse fator era descrito na primeira dessas publicações (Jung e Riklin, 1904) como um ‘complexo ideativo com colorido emocional’. Numa nota de rodapé os autores o explicam como ‘a totalidade das idéias relativas a um evento de especial colorido emocional’, acrescentando que nesse sentido passarão a usar o termo ‘complexo’.
Note-se que não há qualquer referência direta a se essas idéias são ou inconscientes ou reprimidas, e fica claro no que se segue que um ‘complexo’ pode ou não constituir-se de material reprimido.
Salvo sua conveniência como abreviatura, não parece haver mérito particular na palavra ‘complexo’ assim definida, sendo pouco provável que tenha sido esta, na verdade, a primeira vez em que foi utilizada em tal sentido."

Na referida conferência Freud cita a experiência de Jung e Bleuler da seguinte maneira:

"Todos conhecem aquele jogo de salão, também apreciado pelas crianças, em que alguém deve acrescentar a uma palavra escolhida ao acaso uma outra, sendo o resultado uma palavra composta; por exemplo ‘steam‘ (vapor) e ‘ship‘ (navio), dando ‘steam-ship‘ (navio a vapor). A ‘experiência de associação’ introduzida na psicologia pela escola de Wundt nada mais é do que uma modificação desse jogo infantil, do qual se suprime uma regra.
A experiência é a seguinte: apresenta-se uma palavra (denominada ‘palavra-estímulo’) ao indivíduo que se está submetendo à experiência e ele deverá responder com uma outra palavra (denominada ‘reação’) o mais depressa possível, não havendo nenhuma restrição em sua escolha dessa reação. Devem ser observados os seguintes detalhes: o tempo exigido para a ‘reação’ e a relação — que pode ser de diversos tipos — entre a palavra-estímulo e a palavra-reação. Como era de esperar, essas experiências não produziram inicialmente muitos frutos, tendo sido realizadas sem uma finalidade definida e sem uma diretriz pela qual se pudessem avaliar os resultados. Essas ‘experiências de associação’ só se tornaram significativas e proveitosas quando, em Zurique, Bleuler e seus discípulos, especialmente Jung, começaram a lhes dedicar atenção. O valor das experiências realizadas pelo grupo deriva-se de terem partido da hipótese de que a reação à palavra-estímulo não podia ser fruto do acaso, mas devia ser determinada pelo conteúdo ideativo presente na mente do sujeito que reagia.
Habituamo-nos a denominar de ‘complexo’ todo conteúdo ideativo que é capaz de influenciar a reação à palavra-estímulo. Essa influência ocorre quando a palavra-estímulo toca diretamente o complexo, ou quando o complexo estabelece contato com a palavra através de elos intermediários. A determinação da reação é realmente um fato muito singular, e a literatura do assunto reflete o indisfarçável assombro que a mesma tem provocado. Mas não há como duvidar de sua veracidade, pois, via de regra, perguntando ao próprio sujeito as razões de sua reação, é possível expor o complexo atuante e esclarecer relações que de outro modo não seriam inteligíveis. Exemplos como os que Jung nos apresenta (1906, 6 e 8-9) fazem-nos duvidar da incidência da casualidade nos eventos mentais ou de sua pretensa arbitrariedade.
Façamos agora um breve exame dos antecedentes dessa concepção de Bleuler e Jung de que a reação do sujeito submetido a exame é determinada pelo seu complexo. Publiquei em 1901 uma obra na qual demonstrei serem de determinação rígida toda uma série de atos que se acreditava imotivados, contribuindo assim, em certo grau, para limitar o fator arbitrário em psicologia. Usei como exemplos as pequenas falhas de memória, os lapsos de língua e de escrita, e o extrativo de objetos. Mostrei que o responsável por um lapso de língua não é o acaso, nem a semelhança no som, nem uma simples dificuldade de articulação, mas que em todos os casos podemos descobrir um conteúdo ideativo perturbador, isto é, um complexo, que alterou o sentido da fala intencionada sob a forma aparente de um lapso de língua. Além disso, examinei pequenos atos aparentemente casuais e gratuitos — por exemplo, o hábito de brincar ou de manusear um objeto, e outros semelhantes — e demonstrei que são ‘atos sintomáticos’, ligados a um sentido oculto e cuja finalidade é expressar discretamente esse sentido."


(Jorge L. de Oliveira Braga – Analista Junguiano - AJB)


segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Pessoas Intensas




Desconhecia totalmente a história e o repertório da cantora Maysa, somente seu nome e pronto. Mas ao me deparar com sua vida retratada na TV, pude imaginar como foi "ser Maysa", essa mulher bem polêmica, mas muuuuito intensa e apaixonada por tudo que fazia.

Apesar de alguns defeitos graves (mas quem não os tem que cale a minha boca então), conseguiu arrancar minha atenção por ser uma pessoa de atitude e de coragem pra dizer o que pensa e o que quer. 

Comecei a refletir sobre o que é ser assim, uma pessoa intensa, misturando pontos positivos e negativos.

Percebi que muitos na sociedade não entendem as pessoas intensas. Honestamente, penso que há níveis de desenvolvimento interior que nos diferenciam, seres humanos, uns dos outros. Não sei se há melhores ou piores.

A hipocrisia impera em alguns. No fundo desejariam elas serem iguais e não tiveram coragem de assumir?

Desejos reprimidos transformados em covardes julgamentos.

Assim defino,

Liberdade é o melhor sinônimo para pessoas intensas. Precisam ter seu espaço.

O segundo lema é: Viver um grande amor. Amam como se aquela fosse a primeira vez ou como se aquela fosse a última chance de amar.

Buscam insensantemente a felicidade, pois não se consideram felizes, apenas tem crises de felicidade.

Pessoas intensas não gostam de seguir regras.

São muito transparentes, mas por serem assim, são alvo fácil de gente com caráter duvidoso.

Deteeeeeeeestam pessoas comuns, previsíveis.

São atraídas por pessoas inteligentes, com boas e interessantes conversas. 

Choram pra valer. 

Riem pra valer.

São super críticas, exigentes, mas ao mesmo tempo calorosas nas emoções. 

São especialmente sensíveis, se apegam e lembram dos detalhes mais sutis.

Por natureza são animadas, vivazes, se desequilibram e se recuperam rapidamente.

Tem facilidade de aprendizado e uma boa imaginação, de uma criatividade incessante.

Pessoas de ações impulsivas, com mudanças bruscas de humor.

Com pensamentos rápidos, e rapidez ao falar e agir mas com tendência à dispersão. Muito comum os outros perguntarem aonde estão os pensamentos.

Quem aguenta e entende coisa tão complexa? Doce complexidade eu diria.

Maysa ganhou mais uma "fã".

Pessoas intensas podem morrer antes do previsto, mas nunca podem ser acusadas de não terem lutado e tentado fazer seu melhor. E quando aprendem uma lição, pode não parecer, guardam para sempre as lições ensinadas e, principalmente, QUEM as ensinou.



por Yv Luna




sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Os ciganos - parte 1



Os ciganos e a Deusa

Existe uma profunda correspondência entre o paganismo ocidental e a cultura cigana.
Apesar dos ciganos não terem uma religião propriamente dita (como povo nômade, sempre absorveu os costumes dos povos visitados...) existe toda uma tradição de Mistérios entre nossas práticas. Muito se fala sobre os ciganos e pouquíssimo se conhece...



Apesar de hoje existirem ciganos cristãos, a grande maioria ainda mantém o culto ao divino casal, Devel e Kali (respectivamente o deus e a deusa). Uma das manifestações dos deuses é Belkarrana, uma divindade andrógina, em romani significando deus bom.
Mas como as primeiras caravanas ciganas entraram na Europa por volta do século XV, muitos de nossos costumes foram também camuflado. Um exemplo disse é o culto a "Santa" Sara Kali.

Uma vez por ano, ciganos de diversas partes do mundo se dirigem até Saintes-Maries-de-la-Mer, no sul da França, para homenagear Santa Sarah. Segundo a tradição, Sarah era uma cigana que vivia em uma pequena cidade à beira-mar quando a tia de Jesus, Maria Salomé, chegou ali com outros refugiados para escapar das perseguições romanas.

Na festa, peças do esqueleto de duas mulheres que estão enterradas debaixo do altar são retiradas de um relicário e levantadas para abençoar a multidão com suas roupas coloridas, suas músicas e instrumentos. Em seguida, a imagem de Sarah, vestida com belíssimos mantos, é retirada de um local perto da igreja (já que o Vaticano jamais a canonizou) e é levada em procissão até o mar através das ruelas cobertas de rosas. Quatro ciganos, vestidos com roupas tradicionais, colocam as relíquias em um barco cheio de flores, entram na água, repetem a chegada das fugitivas e o encontro com Sarah. A partir daí, tudo é música, festa, cantos, e demonstrações de coragem diante de um touro.



É fácil identificar Sarah como mais uma das muitas virgens negras que podem ser encontradas no mundo. Sara-la-Kali, diz a tradição, vinha de uma nobre linhagem e conhecia os segredos do mundo. Seria, no meu entender, mais uma das muitas manifestações do que chamam a Grande Mãe, a Deusa da Criação.


(por Gallugh para o site paganismo.org)

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

A Interpretações dos Sonhos - parte final



A Psicanálise hoje

A transmissão da psicanálise foi garantida, a partir da década de 50, por Jacques Lacan. Em sua leitura desta obra de Freud propõe que o que é formulado é um inconsciente estruturado como uma linguagem. A condensação e o deslocamento podem ser entendidos como a metáfora e a metonímia e a estrutura associativa das idéias como a cadeia de significantes (que só podem existir entre dois outros, em associação). Partindo da clínica das psicoses (Freud partiu da neurose) Lacan amplia o campo psicanalítico e encontra a precisão necessária ao ensino e à transmissão da psicanálise.

Paralelamente, o pragmatismo americano se empolga em afirmar que a psicanálise está em crise. A descrença americana na psicanálise é equivalente à descrença freudiana nos americanos (afirmou algumas vezes que os americanos jamais compreenderiam a psicanálise - e a história o confirmou). Como a ciência atual se encontra cada vez mais marcada pelo funcionalismo e utilitarismo tão típicos do american way, a psicanálise encontra seu campo (ao contrário do que se previu) cada vez mais valorizado. A razão para isto é muito simples. Cada vez mais o homem é tratado como um objeto sem desejos; se há falta de interesse sexual pela esposa há uma pílula que o resolva, se há falta de empolgação pela vida há uma outra, e etc…Nos tempos do Viagra e do Prozac, o homem se encontra na necessidade de encontrar saídas menos mecânicas para a angústia que a vida em sociedade cobra como preço. Vemos brotarem novas crenças e novas terapias ditas alternativas a cada dia, vemos a procura de oráculos e gurus que prometem soluções prontas, vemos, enfim, os efeitos colaterais da coisificação do homem. A psicanálise, absorvendo bravamente os golpes em seu centenário, cada vez mais se mostra como a única prática fundamentada a se propor trabalhar nesta realidade em que vivemos.

(Augusto Cesar Freire é psicanalista associado ao Tempo Freudiano Associação Psicanalítica e doutorando em Teoria Psicanalítica pela Universidade Federal do Rio de Janeiro)

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Quando olho para mim...


Quando olho para mim não me percebo.

Tenho tanto a mania de sentir

Que me extravio às vezes ao sair

Das próprias sensações que eu recebo.

O ar que respiro, este licor que bebo,

Pertencem ao meu modo de existir,

E eu nunca sei como hei de concluir

As sensações que a meu pesar concebo.

Nem nunca, propriamente reparei,

Se na verdade sinto o que sinto.

Eu serei tal qual pareço em mim?

Serei tal qual me julgo verdadeiramente?

Mesmo ante as sensações sou um pouco ateu,

Nem sei bem se sou eu quem em mim sente.





Fernando Pessoa

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Deusa Kali


Kali é uma das divindades mais cultuadas do Hinduismo.

No entanto, no paganismo ela é a verdadeira representação da natureza e é também considerada por muitas pessoas a essência de tudo o que é realidade e a fonte da existência do ser. Deusa da morte e da sexualidade, Kali - cujo nome, em sânscrito, significa “negra” - é a esposa do deus Shiva, segundo o tântrismo, é a divina Mãe do universo, destruidora de toda a maldade. É representada como uma mulher exuberante, de pele escura, que traz um colar de crânios em volta do pescoço e uma saia de braços decepados - expressando, assim, a implacabilidade da morte.

Na mitologia hindu, Kali é uma manifestação da Deusa Durga. A lenda conta que, numa luta entre Durga e o demônio Raktabija, este fez o desespero de Durga com seu maléfico poder: cada gota de seu sangue se transformava em um demônio. Durga e Shiva, ao tentarem matar os vários demônios que surgiam a cada gota de sangue, cortavam a cabeça (e daí nasciam mais e mais demônios). Já em desespero, surge Kali, que cortava as cabeças e lambiam o sangue (daí representado pelo colar de cabeças, pela adaga e a língua de fora). Assim, dizimou os demônios-clones de Raktabija.

Logo após as batalhas, Kali iniciou sua eufórica dança da vitória sobre os corpos dos mortos. Com esta dança todos os mundos tremiam sob o tremendo impacto de seus passos. Em muitas ocasiões, seu consorte Shiva teve de se atirar entre os demônios por ela executados e deixá-la pisoteá-lo. Esse era o único modo de trazê-la de volta à consciência e evitar que o mundo desabasse.

Mas Kali não é uma deusa do mal pois, na verdade, seu papel de ceifadora de vidas é absolutamente indispensável para a manutenção do mundo. Seus devotos são recompensados com poderes paranormais e com uma morte sem sofrimentos.

A figura da deusa tem quatro braços, o corpo pintado de vermelho sombrio, os olhos ferozmente arregalados, os cabelos revoltos, a língua pendente, os lábios tintos de hena e bétele. No pescoço traz um colar de cabeças humanas, e os flancos, uma faixa de mãos decepadas. Sempre é representada em pé sobre o corpo caído de seu esposo Shiva.

Carl G. Jung nos diz que uma das imagens de descida é aquela do sacrifício de sangue. Ele diz que se o herói sobrevive a esse encontro com o arquétipo da Mãe devoradora, ele ganha energia vital renovada, imortalidade, plenitude psíquica ou alguma outra dádiva.



KALI, A DEUSA TRÍPLICE

Como Klika, ou Anciã, ela governa todas as espécies de morte, mas também todas as formas de vida. Ela representa as três divisões do ano hindu, as três fases da Lua, três segmentos do cosmo, três estágios da vida, três tipos de sacerdotisas (Yoginis, Matri e as Dakinis) e seus templos. Os hindus reverenciavam o trevo como emblema da divindade tríplice de Kali. Eles diziam que se não podemos amar a face negra de Kali, não podemos esperar por nossa evolução.

Kali comanda as gunas, ou linhas da Criação, Preservação e Destruição, e incorpora o passado, o presente e o futuro. As gunas são simbolizadas por linhas vermelhas, brancas e pretas. Ela controla o clima ao trançar ou soltar seus cabelos. Sua roda cármica devora o próprio tempo.

Ela proíbe a violência contra a mulher e rege as atividades sexuais, vingança, regeneração e reencarnação.

A Lua minguante está associada a Kali. Aqui, há o domínio dos instintos, do indiscriminado. Tudo pode se transformar no seu oposto. É o momento lunar mais negado no psiquismo da mulher e está severamente vigiado para que não venha à tona. É o feminino sombrio, mas que também pode trazer iluminação à consciência. É mais uma passagem, ligada a processos de transformação. A energia de Kali simboliza o poder destruidor/criador que está reprimido em muitas mulheres que nos séculos passados se adaptaram a um modelo socialmente determinado de comportamento dependente, sedutor e guiado pelo sentimento de culpa. Só nos últimos cem anos é que a força da mulher começou a retomar contato com seu poder pessoal.

No panteão das divindades tântricas, Kali é mencionada como a primeira das 10 Grandes Forças Cósmicas porque, de alguma forma, é ela que começa o movimento da "Roda do Tempo Universal".

Kali é equivalente à deusa grega Atena, que por muitos séculos foi honrada como deusa feroz das batalhas. O mito e adoração de Kali, reflete as forças primitivas da natureza. Estas forças estão associadas com os ciclos da mulher e estão representadas no útero feminino, o caldeirão do renascimento.

Kali é a Deusa Escura, cuja escuridão nada tem a ver com o "mal". Muitos povos vêem o mundo com a dicotomia do claro/escuro, bem/mal. Entretanto, para o hinduismo não existem estas oposições. No pensamento hindu não existe o mal, mas há o carma. O carma é uma lei física e moral de causa e efeito e, todos os resultados cármicos são resolvidos através de múltiplas reencarnações.

Kali é uma polaridade que é evidenciada no "yin" e no "yang", no homem e na mulher, no racional e no intuitivo, na sabedoria e na ignorância. É ainda a interativa passagem entre o real e o imaginário, o Oriente e o Ocidente, o campo e a cidade, a causa e o efeito. Kali é uma deusa mítica de memória ancestral, devidamente integrada à nossa Era Digital.

Kali chega às nossas vidas para dizer que é hora de perdermos o medo da morte, seja ela física, de um relacionamento, de um emprego, de um amor. Nossos medos não podem nos impedir de dançarmos a Dança da Vida, portanto o melhor é aprendermos a enfrentá-los e reconhecermos que eles fazem parte de nossa evolução. Só alcançaremos a totalidade quando resgatarmos aspectos que abrimos mão em função do medo. Quando você reconhecer seus medos e lhes der nomes, estará a um passo de superá-los. Não enfrentá-los é parar no tempo e no espaço. É morrer sem ter alcançado a esperança de um novo renascer.


(Fontes:textos retirados de, pt.wikipedia.org e por Rosane Volpatto)

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

A Interpretação dos Sonhos - parte 5


O funcionamento do sonho

O inconsciente é freudiano. Antes de Freud já se falava de inconsciente, mas o conceito de inconsciente é algo inédito. Falar do inconsciente como franja da consciência, como sub-consciente ou como algo que não sabemos mas que podemos saber com algum esforço de nossa parte não é falar do inconsciente freudiano. O inconsciente tem suas leis e particularidades rigorosamente formuladas e a precisão deste conceito se faz mais necessária com sua popularização, que tende a deturpá-lo.

Aos processos que ocorrem no inconsciente Freud chama processos primários, em oposição aos secundários, do consciente. Têm por característica não levar a realidade em consideração, tolerar contradições, não conhecer a temporalidade e acima de tudo, buscar a realização de seus impulsos. Freud decifrou a gramática destes processos, descobriu os meios pelos quais atinge seus objetivos. Dois mecanismos básicos são localizados: a condensação e o deslocamento. Nos estenderemos nisto, por ser um dos mais importantes pontos de A Interpretação dos Sonhos.

É nos capítulos 6 e 7 do livro que Freud desenvolve o mecanismo de trabalho dos sonhos e o funcionamento do aparato mental. Apresenta o mecanismo de deslocamento na possibilidade que as idéias têm, no inconsciente, de 'emprestar' seu valor para outras idéias, de modo que fatos ou imagens aparentemente sem importância podem ter sido amenizadas, com o quê burlam a censura, compondo o material do sonho. De forma inversa fatos que aparecem no sonho como extremamente nítidos ou valorizados usualmente ganharam seu relevo por uma associação a outra idéia, esta sim, de grande importância.

No sonho há também em funcionamento o mecanismo da condensação. Este mecanismo permite que um pequeno detalhe possa representar uma idéia completa. Nos exemplos de Freud vemos como características isoladas de uma pessoa podem representá-la por inteiro ao se compor com outras características que representam outras pessoas. Assim, um personagem pode estar ocupando a função (que tem na realização do desejo) de toda uma multidão de personagens que não figuram no sonho senão por fragmentos.

As razões deste trabalho de montagem são explicadas pelo aparato psíquico proposto no capítulo seguinte do livro. Neste aparato o ics (inconsciente) figura em um extremo e o cs (consciente) no outro, e entre eles o pcs (pré-consciente). O ics recebe seu material do sistema perceptivo, mas não tem acesso ao sistema motor. O cs controla as ações, mas a realidade que lhe chega já passou pelos processos do ics. Como intermediário entre os dois sistemas figura a censura, ou seja, uma função que determina o que pode e o que não pode aceder à motilidade, levando a realidade em consideração. Todo o material que não pode passar pela censura está condenado a ser recalcado, a ficar relegado ao ics, sem, no entanto, ficar com isto silenciado. O trabalho do sonho é entendido, assim, como o trabalho de distorção necessário para que o material do ics possa se manifestar.

Vale dizer ainda que a distorção a que o material do sonho foi submetida nunca é casual ou caótica, e é por provar isto que o trabalho de Freud adquiriu seu valor. Uma idéia (um desejo, uma intenção ou mesmo uma percepção) está permanentemente relacionada a outras. A natureza desta relação é muito abrangente, podendo ser determinada pela contigüidade espacial ou temporal em que ocorreu, pela similaridade, pela homofonia, enfim, por toda uma gama de possibilidades. O que importa é que a idéia 'principal', uma vez que tenha sido censurada, não poderá ser reconhecida no consciente, mas as idéias com as quais se associa, uma vez que esta associação não seja óbvia, podem ser utilizadas para representá-la (deslocamento). Então, lembrando que no ics as idéias buscam sua expressão, ou nos termos de Freud: os desejos buscam sua realização, o trabalho do sonho é a maneira pela qual um desejo pode se realizar por seus substitutos.

O passo seguinte é o que permite a intervenção clínica da psicanálise. Os sintomas, Freud demonstra, são também realizações de desejo. A diferença em relação aos sonhos é que nos sintomas um compromisso se estabelece entre o desejo e a censura, fazendo com que nem o desejo se realize por completo nem a censura seja totalmente eficaz. Desta forma um desejo mais 'amenizado' é realizado.

Uma conseqüência direta desta explicação do sintoma é muita incômoda para todos nós. Se nossos desejos devem levar em consideração a realidade para que possamos aceitá-los, como saber se o que reconhecemos como nossos desejos não são amenizações de nossos 'verdadeiros' desejos, estes inconscientes? Em outras palavras, uma vez que vivemos em sociedade, tendo que considerar suas regras, somos todos neuróticos.



(Augusto Cesar Freire é psicanalista associado ao Tempo Freudiano Associação Psicanalítica e doutorando em Teoria Psicanalítica pela Universidade Federal do Rio de Janeiro)

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Poeminha do Contra


Todos estes que aí estão
Atravancando o meu caminho,
Eles passarão.
Eu passarinho!
Mario Quintana

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Deusa Hera


O arquétipo de Hera perdura em cada mulher que se casa acreditando que o matrimônio é a consumação da satisfação feminina. Fiel, apesar dos maus-tratos de Zeus, ciumenta infatigável que vaga pelos recantos a fim de coletar evidências da lascívia de seu marido, Hera é a deusa privada de todos os seus atributos, exceto do dom da profecia, que exerce através da boca de humanos e de animais para se vingar dos filhos e das muitas amantes de Zeus, muito particularmente de Héracles, o mais odiado de todos. À primeira vista, seu vínculo matrimonial parece uma relação de amor e ódio; porém, na realidade, cultiva a posse com a argúcia das mulheres que, escudadas em seus direitos, espiam, humilham, vigiam, perseguem e chantageiam os homens mediante pressões que começam com prantos sutis e vão-se transformando em ciclos de fúria e recriminações, até coroar com o rancor uma suposta debilidade atribuída à traição.

Padroeira das mulheres casadas, seu mundo adquire sentido em função do esposo. Sobre Hera recaem as virtudes e superstições do protótipo que sustenta o lar com o ideal do marido bem-sucedido, reconhecido por seu poder e notável em seu trabalho. Convencida de que a união matrimonial é sagrada, Hera vive em cada mulher que permanece à sombra do marido, rendida a seus laços indivisíveis, obcecada, magoada e furiosa. Manipuladora, exerce seu mando como adversária na cama, mas ao sofrer a aspereza moral frente a paisagem devastadora provocada por seus ciúmes, suporta o castigo muito mais além do que exigiria o respeito, ainda quando Zeus reconhece sua astúcia para cegá-lo diante de um erro evidente, como ocorre com relação aos heróis homéricos na Ilíada. Sagaz e espertíssima, lança palavras furiosas, jura, promete, ameaça ou afronta com altivez sem par; os outros deuses julgam-na ou intervém em seu relacionamento, seja a favor, seja contra, e sempre acaba rendida à poderosa vontade de seu marido. Contra sua natureza impulsiva, inferior à do belicoso Ares ou à da batalhadora Atena, inferior inclusive à natureza do vigoroso Héracles, Hera opõe uma atitude compreensiva, em conformidade à sua hierarquia, e não é raro encontrá-la representando um papel de intermediadora social, até mesmo quando adota as piores monstruosidades de Equidna ou Tífon, que no momento apropriado seriam utilizadas contra Héracles.



Hesíodo lhe atribui a criação do Leão de Neméia, um monstro invulnerável, nascido dos mesmos Equidna e Tífon, assim como da perversa Hidra, a venenosa serpente aquática de muitas cabeças que vivia nos pântanos de Lema, perto de Argos, a qual, por sua vez daria à luz a Quimera, uma criatura tricéfala de pés ágeis, violenta e tão enorme quanto terrível. Cada vez que uma cabeça da Hidra era cortada, brotava do coto outra ainda pior. Tanto ela como o leão seriam vencidos por Héracles e Iolau, seu companheiro de armas, como parte dos Doze Trabalhos. Iolau queimava em vão os cotos da Hidra com tições ardentes, enquanto Héracles, longe de se dar por vencido, molhava suas flechas no próprio sangue da inimiga a fim de tomar incuráveis suas feridas e derrotá-la junto com o caranguejo que a auxiliava por ordem da deusa. Esmagado pelos pés do herói, o caranguejo acabaria sendo transformado na constelação de Câncer. Quimera, por sua vez, seria mais tarde abatida por Pégaso, colaborando com o valente Belerofonte.

Diferentemente da criminosa Medéia, que assassinou sua rival e a seus próprios filhos antes de abandonar para sempre o marido, Hera se confinava na obscuridade a ruminar seus fracassos ou empreendia longas viagens a fim de recuperar a confiança perdida em conseqüência de suas torpezas. De volta a seu assento mítico, ali ficava outra vez, entronizada, ciumenta de seus domínios, cuidadosa e furibunda, governando disfarçadamente o marido, conjeturando para confirmar suspeitas, endurecendo as regras de um jogo doméstico astucioso, ofuscada em sua posição e guiada pelos preconceitos da vida em comum, ainda que os fatos provassem que suas atitudes eram a rota mais segura para sua própria infelicidade.

Filha mais velha de Cronos e Réia, Hera nasceu na ilha de Samos, onde Cronos devorava vivos a seus filhos assim que saíam do ventre sagrado, para que nenhum deles pudesse obter a dignidade real que ele ostentava sobre os imortais. Seu pai, o estrelado Urano, e sua mãe, a Terra, haviam profetizado que um de seus descendentes o destronaria. Em seu destino já estava pré-traçada a condenação de sucumbir pelas mãos de Zeus e, sempre ã espreita e com a mente astuta, o Tempo devorava um após o outro seus filhos assim que Réia os dava à luz, até que, antes de parir o último deles, o grande Zeus, a deusa buscou a proteção de seus pais para salvá-lo. Abrigada pelo cair da noite, Réia foi enviada por Urano e Gaia à terra de Licto, onde nenhuma criatura projeta sombras, para que pudesse parir e ocultar o recém-nascido em uma caverna escarpada rodeada por árvores, nas faldas do monte Egeu, de onde se atingiam as entranhas da Terra.

Ali, depois de ser banhado no rio Neda, o pequeno Zeus permaneceu em Creta, vigiado pela avó, onde foi criado com leite e mel em um berço de ouro pela ninfa-cabra e pela ninfa-freixo, ao lado do cabrito Pan, seu aliado e irmão adotivo. Sua infância transcorreu em meio a hábeis artimanhas para que seu pai não o encontrasse, e dali só saiu quando finalmente se achava preparado para vencê-lo.

Vítima da argúcia de Réia, Cronos engoliu uma pedra envolta em lençóis crendo, assim, que triunfaria sobre os ditames do Destino. Porém, descobriu o logro e pôs-se a perseguir o menino durante o mítico rastreio que não chegou a um término até que Zeus, disfarçado de seu copeiro e seguindo os conselhos de Métis, misturou sal e mostarda à sua bebida doce para que vomitasse, ilesa, a multidão de filhos que o Tempo conservava em seu estômago. Foi essa pedra emblemática, antes mesmo que seus irmãos e irmãs mais velhos, a primeira coisa a ser expelida por Cronos durante sua legendária náusea, e a que definiu a posterior batalha contra os Titãs, que entronizou os olímpicos, a segunda e mais perdurável geração de deuses.
Logo a seguir, por haver libertado os ciclopes que Cronos havia confinado no Tártaro, estes recompensaram a Zeus com o trovão, o relâmpago e o raio, até então ocultos entre as "rugas da Terra", ou de Gaia. Hades deu-lhe o elmo da invisibilidade e Poseidon ofereceu um tridente àquele que viria a ser o Pai do Céu. Os gigantes de cem braços, no mais aceso da batalha, lançaram pedras contra os demais titãs, e os gritos do cabrito Pan puseram-nos em fuga para selar a vitória.





Desterrados para uma ilha longínqua, os titãs nunca mais vieram perturbar a Hélade, porque Atlas, seu general, foi condenado a carregar o firmamento nas costas, um castigo exemplar. Zeus, por sua parte, apoiou-se em seus dons supremos a fim de governar sobre mortais e deuses, e fez venerar a pedra sagrada no santuário de Delfos, onde se afirma que permanece até o dia de hoje.

Onde termina o mito de Cronos - que eleva o de Zeus -, começa o de uma Hera que não era ninguém até que se casasse com o Pai dos Céus. Dela se diz que suas amas foram as estações do ano e que, na Arcádia, foi educada por Temeno, o filho da terra Pelasgo, ou Antigüidade. Talvez tenha sido em Cnossos, ou no cume do Thornax, na Argólida, que Zeus a tenha cortejado, disfarçado de cuco, uma ave trepadora que costuma colocar seus ovos nos ninhos de outros pássaros. Ardiloso e matreiro, tal como perdiz arrastava-se graciosamente sobre o solo, ocasião em que ela acalentava-o em seu seio. Hera conversava com ele e lhe confiava seus sonhos até que, de repente, Zeus assumiu sua verdadeira forma para violá-la, enchendo-a de vergonha e desespero.

No caso típico da jovem que, em meio a atrozes conflitos sentimentais tem de se casar para compensar a perda de sua virgindade, Hera, uma donzela idealista, se converte em esposa e mãe por excelência. Apesar da fúria de Réia, que previa muito bem a luxúria de seu futuro genro e que, por opor-se à união, foi também violentada por Zeus - desta vez sob a forma de uma serpente -, todos os deuses vieram com presentes para participar dos esponsais. De Gaia, recebeu a célebre árvore das maçãs de ouro, que Hera plantou em seu jardim, no monte Atlas, para ser vigiada pelas Hespérides. Foi devido a uma dessas maçãs, atirada com raiva por Éris entre as deusas rivais, que surgiu a expressão "pomo da discórdia", citada pela primeira vez nos cantos de Homero, em um dos episódios centrais da Guerra de Tróia.

Hera e Zeus passaram sua noite de núpcias na ilha de Samos. Foi uma longa noite de trezentos anos, semeada de altercações, intrigas e humilhações recíprocas, da qual Hera saiu para se banhar, buscando recuperar a virgindade na fonte de Canatos, que ficava nas proximidades de Argos, onde foi erguida uma estátua em que aparecia sentada em um trono de ouro e de marfim. Em meio a certas dúvidas sobre a origem verdadeira da gravidez de Hera, o mito a atribui ao fato de a deusa ter tocado em uma determinada flor; dela nasceram Ares, o deus da guerra, e talvez também sua irmã gêmea, Éris, a Discórdia. Daí também nasceu Hefestos, o padroeiro dos ferreiros, caldeireiros e oleiros, que mais tarde aprisionou sua mãe Hera em um engenhoso trono, com braços que se fechavam a seu redor, porque não acreditou que ela o houvesse gerado sozinha, sem a intervenção direta de Zeus. A deusa permaneceu em cativeiro até que Dionísio embriagasse o coxo Hefestos e o levasse de volta ao Olimpo para que libertasse Hera e se tornasse seu aliado a partir de então. E nasceu ainda Hebe, a mais moça e associada, por sua concepção peculiar, a uma alface, que foi copeira dos olímpicos até casar-se justamente com Héracles.

Cansada dos petulantes excessos de Zeus, Hera conspirou contra ele com Poseidon, Apolo e os demais olímpicos, com exceção de Héstia, acreditando-se superior ao Pai dos Céus tanto em argúcia como em autoridade. Surpreendendo Zeus adormecido em seu leito, os rebeldes imobilizaram-no amarrando-o cem vezes com cordas de couro cru, pretendendo dar um golpe de Estado. Tendo dominado e escondido o raio, celebraram seu triunfo com insultos e troças, sem dar escuta às ameaças do Pai dos Céus. Mas enquanto deliberavam sobre o nome de quem deveria tornar-se seu sucessor, a discussão foi ficando cada vez mais acalorada, os ânimos da família divina foram-se exaltando e sobrevieram contendas tão ferozes que chegaram a fazer tremer o Olimpo. A prudente Tétis previu o estourar de uma guerra civil e, para evitar a catástrofe, correu em busca de Briareu, um dos gigantes, para que viesse em seu socorro e empregasse simultaneamente seus cem braços a fim de desamarrar o cativo antes que os demais deuses pudessem acorrer para impedi-lo.

Por haver encabeçado a conspiração, Zeus pendurou Hera no firmamento com um bracelete de ouro em cada pulso e uma bigorna pendente de cada tornozelo. Apesar de seus gritos lancinantes, ninguém se atreveu a intervir para não exacerbar a cólera de seu chefe que, com raio ou sem ele, era perfeitamente capaz de distribuir castigos aqui e acolá. Condenados a construir a cidade de Tróia, Poseidon e Apolo foram enviados a servir ao rei Laomedonte, e Hera só pôde ser libertada quando os demais olímpicos, a contragosto e entre as habituais pendengas da família divina, juraram fidelidade e obediência a Zeus.

A história de Hera se dissipou, desde então, nos pequenos assuntos com os quais cada mulher repete na intimidade os ciclos de vingança e revolta marital que, finalmente, dariam margem ao estabelecimento do patriarcado característico de nossa cultura.


(Martha Robles - Livro "Mulheres, Mitos e Deusas")

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

A Interpretação dos Sonhos - parte 4


Os sonhos e a neurose

Em A Interpretação dos Sonhos, Freud formula as leis e as características do inconsciente. Com este conceito consegue juntar fenômenos distintos como o sonho e os sintomas histéricos. Vejamos rapidamente alguns pontos.

A tese central do texto é a de que "O sonho é a realização de um desejo". Este desejo, entendamos, não é necessariamente um desejo que possamos aceitar em nossa vida vigil. Quando não se trata de um desejo aceitável, nos diz Freud, preferimos esquecê-lo. Este esquecimento será descrito como conseqüência de um mecanismo chamado 'recalque'. O desejo recalcado, no entanto, permanece em algum lugar exercendo seus efeitos. Os sonhos são apenas um exemplo destes efeitos.

Mas os sonhos têm por característica sua falta de senso, sua não obediência às leis que nos regem na vigília. O que Freud formula é que os sonhos seguem uma lei própria, seguem uma lógica que não é a lógica cotidiana. É levado assim a demonstrar que nosso aparato mental é formado pela consciência, cujas regras reconhecemos, e pelo inconsciente, cujos efeitos nos surpreendem por seguir uma lógica diferente e desconhecida (ainda que sempre familiar).

Desta forma, um desejo que não condiz com nossa posição social, nosso sexo, nossa situação civil etc…é 'jogado' naquele campo que não segue as mesmas regras de nossa consciência. No inconsciente, nos diz Freud, este desejo vai procurar sua expressão a qualquer custo. Se não é possível que ele se expresse conscientemente (por que no consciente atua aquela resistência que mencionamos acima, provocando o recalque), ele vai buscar alguma expressão substitutiva que consiga escapar à censura. O sonho pode ser entendido como a expressão de uma série de desejos, que encontram nele a única via para a consciência. É por isto também que o sonho será entendido por Freud como a via régia para o inconsciente, uma vez que é sua manifestação mais direta.

Mas dissemos que o sonho e os sintomas possuem uma estrutura comum. Isto ficará mais claro no próximo ítem, mas digamos desde já que o sintoma neurótico é também uma manifestação de um desejo. A principal diferença é que no sintoma uma solução é encontrada para que o desejo se apresente na consciência. Também neste caso, contudo, este desejo se manifestará com as distorções necessárias para que possa ser aceito pelo consciente.
(Augusto Cesar Freire é psicanalista associado ao Tempo Freudiano Associação Psicanalítica e doutorando em Teoria Psicanalítica pela Universidade Federal do Rio de Janeiro)

domingo, 4 de janeiro de 2009

Um Vôo de Renovação...

Como primeira postagem de 2009, escolhi esse texto da águia. Contar sobre a escolha que a águia precisa fazer e quão dolorosa é seu processo de renovação sempre foi a forma escolhida por meu pai para me ajudar a entender situações difíceis !
Posso pensar na águia como símbolo de superação de limites, de encorajamento, de desejo de viver. Ela representa o ilimitado, o sonho, o imprevisível, a coragem e a criatividade.
Espero que muitas pessoas possam refletir e tirar tanto ou mais proveito que sempre tirei deste exemplo em vários momentos de minha vida!

Yvanna Saraiva

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A águia é uma ave que chega a viver até 70 anos. Mas, para chegar a essa idade, ela tem de tomar uma séria e difícil decisão por volta dos 40 anos. Nessa idade, ela está com as unhas cumpridas e flexíveis, não conseguindo mais caçar suas presas para se alimentar; seu bico alongado e pontiagudo já está curvo; suas asas estão apontando contra o peito, envelhecidas e pesadas em função da grossura das penas; voar já está se tornando uma tarefa difícil! Então, a águia só tem duas alternativas: morrer...ou enfrentar um dolorido processo de renovação que irá durar 150 dias. Esse processo consiste em voar para o alto de uma montanha e recolher-se em um ninho próximo a um paredão, onde ela não necessite voar. Após encontrar esse lugar, a águia começa a bater com o bico contra a rocha até conseguir arrancá-lo. Após arrancá-lo, espera nascer um novo bico, com o qual vai depois arrancar suas unhas. Quando as novas unhas começam a nascer, ela passa a arrancar as velhas penas. E somente depois de 5 meses ela sai para seu famoso vôo de renovação. E poderá viver, então, por mais 30 anos.

Em nossa vida, muitas vezes, temos que nos resguardar por algum tempo e começar um processo de renovação. Para que continuemos a voar um vôo de vitória, devemos nos desprender de lembranças, costumes e outras tradições que nos causaram dor. Somente quando nos livramos do peso do passado é que podemos aproveitar o resultado valioso que uma auto-renovação sempre traz.

(Infelizmente desconheço o autor)