terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Inconsciente Pessoal, Complexos e Símbolos - parte 1


Um breve histórico sobre os Complexo Afetivos

A teoria geral sobre os complexos de tonalidade afetiva tem seu início com as primeiras experiências de Jung no hospital público de Zurique valendo-se do teste de associação de palavras e é uma das descobertas iniciais mais significativas de Jung. A partir desse experimento Jung publicou diversas obras a respeito tendo sido pioneiro nessa aplicação de testes psicológicos. Em seu Volume II das Obras Completas ( Estudos Experimentais ) relata suas contribuições aos "Estudos diagnósticos de associações", cujas principais experiências foram realizadas, sob a sua direção, na clínica psiquiátrica da Universidade de Zurique, a partir de 1902 e publicados entre 1904 e 1910. Contem também outros estudos incluídos referem-se aos trabalhos de "Pesquisas Psicofísicas" (1907-1908).

Freud mais tarde apropria-se do termo “complexo” e faz uso desse na psicanálise haja visto a tão conhecida expressão “complexo de Édipo”, sendo que faz uso pela primeira vez em sua conferência “A psicanálise e a determinação dos fatos nos processos jurídicos” editada no volume IX das Obras Completas por Freud. No entanto, na nota do editor inglês podemos observar que:

"Esta conferência possui algum interesse histórico, pois é a primeira vez que num trabalho publicado de Freud se menciona o nome de Jung. Freud começara a corresponder-se com Jung há apenas dois meses quando pronunciou esta conferência, vindo a conhecê-lo pessoalmente somente em fevereiro do ano seguinte.
Neste trabalho evidencia-se o impacto imediato de Jung. O propósito desta conferência foi apresentar aos estudantes vienenses as experiências de associação e a teoria dos complexos de Zurique. Os estudos de Zurique haviam começado a aparecer em periódicos dois anos antes (Jung e Riklin, 1904), e o próprio Jung publicara dois ou três estudos sobre a aplicação de seu processo à prova legal apenas alguns meses antes de Freud pronunciar esta conferência.
Mais tarde, após o afastamento de Jung, Freud, em suas notas sobre ‘A História do Movimento Psicanalítico’ (1914), reduziu a importância tanto das experiências de associação como da teoria dos complexos. Mesmo neste trabalho, há uma certa crítica oculta sob a aprovação. Freud faz questão de mostrar que as descobertas de Zurique não passam, na verdade, de aplicações particulares de princípios básicos da psicanálise, indicando no penúltimo parágrafo o perigo de tirar conclusões apressadas dos resultados dos testes de associação.
Como esta é a primeira vez que nos trabalhos publicados de Freud aparece o termo de Zurique ‘complexo’, cabem aqui alguns comentários sobre o assunto. As primeiras experiências sistemáticas de associação foram realizadas por Wundt, e mais tarde foram introduzidas na psiquiatria por Kräpelin e particularmente por Aschaffenburg. Sob a direção de Bleuler, então diretor do hospício público Burghölzli de Zurique, e de Jung, seu primeiro assistente, foi levada a cabo uma série de experiências análogas, cujas conclusões foram publicadas a partir de 1904. Mais tarde foram reunidas em dois volumes (1906-1909) por Jung. Com exceção de uma nova classificação das formas assumidas pelas reações verbais às palavras-estímulo, o principal interesse das descobertas de Zurique residia na ênfase dada à influência de um determinado fator sobre as reações. Esse fator era descrito na primeira dessas publicações (Jung e Riklin, 1904) como um ‘complexo ideativo com colorido emocional’. Numa nota de rodapé os autores o explicam como ‘a totalidade das idéias relativas a um evento de especial colorido emocional’, acrescentando que nesse sentido passarão a usar o termo ‘complexo’.
Note-se que não há qualquer referência direta a se essas idéias são ou inconscientes ou reprimidas, e fica claro no que se segue que um ‘complexo’ pode ou não constituir-se de material reprimido.
Salvo sua conveniência como abreviatura, não parece haver mérito particular na palavra ‘complexo’ assim definida, sendo pouco provável que tenha sido esta, na verdade, a primeira vez em que foi utilizada em tal sentido."

Na referida conferência Freud cita a experiência de Jung e Bleuler da seguinte maneira:

"Todos conhecem aquele jogo de salão, também apreciado pelas crianças, em que alguém deve acrescentar a uma palavra escolhida ao acaso uma outra, sendo o resultado uma palavra composta; por exemplo ‘steam‘ (vapor) e ‘ship‘ (navio), dando ‘steam-ship‘ (navio a vapor). A ‘experiência de associação’ introduzida na psicologia pela escola de Wundt nada mais é do que uma modificação desse jogo infantil, do qual se suprime uma regra.
A experiência é a seguinte: apresenta-se uma palavra (denominada ‘palavra-estímulo’) ao indivíduo que se está submetendo à experiência e ele deverá responder com uma outra palavra (denominada ‘reação’) o mais depressa possível, não havendo nenhuma restrição em sua escolha dessa reação. Devem ser observados os seguintes detalhes: o tempo exigido para a ‘reação’ e a relação — que pode ser de diversos tipos — entre a palavra-estímulo e a palavra-reação. Como era de esperar, essas experiências não produziram inicialmente muitos frutos, tendo sido realizadas sem uma finalidade definida e sem uma diretriz pela qual se pudessem avaliar os resultados. Essas ‘experiências de associação’ só se tornaram significativas e proveitosas quando, em Zurique, Bleuler e seus discípulos, especialmente Jung, começaram a lhes dedicar atenção. O valor das experiências realizadas pelo grupo deriva-se de terem partido da hipótese de que a reação à palavra-estímulo não podia ser fruto do acaso, mas devia ser determinada pelo conteúdo ideativo presente na mente do sujeito que reagia.
Habituamo-nos a denominar de ‘complexo’ todo conteúdo ideativo que é capaz de influenciar a reação à palavra-estímulo. Essa influência ocorre quando a palavra-estímulo toca diretamente o complexo, ou quando o complexo estabelece contato com a palavra através de elos intermediários. A determinação da reação é realmente um fato muito singular, e a literatura do assunto reflete o indisfarçável assombro que a mesma tem provocado. Mas não há como duvidar de sua veracidade, pois, via de regra, perguntando ao próprio sujeito as razões de sua reação, é possível expor o complexo atuante e esclarecer relações que de outro modo não seriam inteligíveis. Exemplos como os que Jung nos apresenta (1906, 6 e 8-9) fazem-nos duvidar da incidência da casualidade nos eventos mentais ou de sua pretensa arbitrariedade.
Façamos agora um breve exame dos antecedentes dessa concepção de Bleuler e Jung de que a reação do sujeito submetido a exame é determinada pelo seu complexo. Publiquei em 1901 uma obra na qual demonstrei serem de determinação rígida toda uma série de atos que se acreditava imotivados, contribuindo assim, em certo grau, para limitar o fator arbitrário em psicologia. Usei como exemplos as pequenas falhas de memória, os lapsos de língua e de escrita, e o extrativo de objetos. Mostrei que o responsável por um lapso de língua não é o acaso, nem a semelhança no som, nem uma simples dificuldade de articulação, mas que em todos os casos podemos descobrir um conteúdo ideativo perturbador, isto é, um complexo, que alterou o sentido da fala intencionada sob a forma aparente de um lapso de língua. Além disso, examinei pequenos atos aparentemente casuais e gratuitos — por exemplo, o hábito de brincar ou de manusear um objeto, e outros semelhantes — e demonstrei que são ‘atos sintomáticos’, ligados a um sentido oculto e cuja finalidade é expressar discretamente esse sentido."


(Jorge L. de Oliveira Braga – Analista Junguiano - AJB)


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