sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

A Interpretação dos Sonhos - parte 5


O funcionamento do sonho

O inconsciente é freudiano. Antes de Freud já se falava de inconsciente, mas o conceito de inconsciente é algo inédito. Falar do inconsciente como franja da consciência, como sub-consciente ou como algo que não sabemos mas que podemos saber com algum esforço de nossa parte não é falar do inconsciente freudiano. O inconsciente tem suas leis e particularidades rigorosamente formuladas e a precisão deste conceito se faz mais necessária com sua popularização, que tende a deturpá-lo.

Aos processos que ocorrem no inconsciente Freud chama processos primários, em oposição aos secundários, do consciente. Têm por característica não levar a realidade em consideração, tolerar contradições, não conhecer a temporalidade e acima de tudo, buscar a realização de seus impulsos. Freud decifrou a gramática destes processos, descobriu os meios pelos quais atinge seus objetivos. Dois mecanismos básicos são localizados: a condensação e o deslocamento. Nos estenderemos nisto, por ser um dos mais importantes pontos de A Interpretação dos Sonhos.

É nos capítulos 6 e 7 do livro que Freud desenvolve o mecanismo de trabalho dos sonhos e o funcionamento do aparato mental. Apresenta o mecanismo de deslocamento na possibilidade que as idéias têm, no inconsciente, de 'emprestar' seu valor para outras idéias, de modo que fatos ou imagens aparentemente sem importância podem ter sido amenizadas, com o quê burlam a censura, compondo o material do sonho. De forma inversa fatos que aparecem no sonho como extremamente nítidos ou valorizados usualmente ganharam seu relevo por uma associação a outra idéia, esta sim, de grande importância.

No sonho há também em funcionamento o mecanismo da condensação. Este mecanismo permite que um pequeno detalhe possa representar uma idéia completa. Nos exemplos de Freud vemos como características isoladas de uma pessoa podem representá-la por inteiro ao se compor com outras características que representam outras pessoas. Assim, um personagem pode estar ocupando a função (que tem na realização do desejo) de toda uma multidão de personagens que não figuram no sonho senão por fragmentos.

As razões deste trabalho de montagem são explicadas pelo aparato psíquico proposto no capítulo seguinte do livro. Neste aparato o ics (inconsciente) figura em um extremo e o cs (consciente) no outro, e entre eles o pcs (pré-consciente). O ics recebe seu material do sistema perceptivo, mas não tem acesso ao sistema motor. O cs controla as ações, mas a realidade que lhe chega já passou pelos processos do ics. Como intermediário entre os dois sistemas figura a censura, ou seja, uma função que determina o que pode e o que não pode aceder à motilidade, levando a realidade em consideração. Todo o material que não pode passar pela censura está condenado a ser recalcado, a ficar relegado ao ics, sem, no entanto, ficar com isto silenciado. O trabalho do sonho é entendido, assim, como o trabalho de distorção necessário para que o material do ics possa se manifestar.

Vale dizer ainda que a distorção a que o material do sonho foi submetida nunca é casual ou caótica, e é por provar isto que o trabalho de Freud adquiriu seu valor. Uma idéia (um desejo, uma intenção ou mesmo uma percepção) está permanentemente relacionada a outras. A natureza desta relação é muito abrangente, podendo ser determinada pela contigüidade espacial ou temporal em que ocorreu, pela similaridade, pela homofonia, enfim, por toda uma gama de possibilidades. O que importa é que a idéia 'principal', uma vez que tenha sido censurada, não poderá ser reconhecida no consciente, mas as idéias com as quais se associa, uma vez que esta associação não seja óbvia, podem ser utilizadas para representá-la (deslocamento). Então, lembrando que no ics as idéias buscam sua expressão, ou nos termos de Freud: os desejos buscam sua realização, o trabalho do sonho é a maneira pela qual um desejo pode se realizar por seus substitutos.

O passo seguinte é o que permite a intervenção clínica da psicanálise. Os sintomas, Freud demonstra, são também realizações de desejo. A diferença em relação aos sonhos é que nos sintomas um compromisso se estabelece entre o desejo e a censura, fazendo com que nem o desejo se realize por completo nem a censura seja totalmente eficaz. Desta forma um desejo mais 'amenizado' é realizado.

Uma conseqüência direta desta explicação do sintoma é muita incômoda para todos nós. Se nossos desejos devem levar em consideração a realidade para que possamos aceitá-los, como saber se o que reconhecemos como nossos desejos não são amenizações de nossos 'verdadeiros' desejos, estes inconscientes? Em outras palavras, uma vez que vivemos em sociedade, tendo que considerar suas regras, somos todos neuróticos.



(Augusto Cesar Freire é psicanalista associado ao Tempo Freudiano Associação Psicanalítica e doutorando em Teoria Psicanalítica pela Universidade Federal do Rio de Janeiro)

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