quinta-feira, 5 de março de 2009

Inconsciente Pessoal, Complexos e Símbolos - parte 4



Libido, Arquétipos e Inconsciente coletivo

O conceito de Libido na Psicologia de Jung constitui-se um dos principais elementos que, a um só tempo, diferenciam e limitam seu ponto de vista frente à Psicologia de Freud. Desde o lançamento da obra Símbolos da Transformação, evento que marcou o início de sua ruptura com a Psicanálise, Jung veio criando seus próprios caminhos e definindo mais apropriadamente o que entendia por inconsciente e, mais objetivamente por Libido.

Postulou, do ponto de vista do Psicológico, o conceito de Energia Psíquica e o distinguiu com muita exatidão do que se entende por Força Vital. Formulou então a concepção : Energia Psíquica = Libido e que esta seria sujeita à todas as leis conhecidas pela ciência contemporânea.
Considerava a Energia Sexual como uma das qualidades da Libido, ou seja, uma de suas autênticas manifestações e expressões que, como outras formas, também estaria sujeita à variação à quantitativa e obedeceriam às leis de transformação específicas.

Mesmo tendo levado em consideração as mais atuais e relevantes descobertas da Física com relação à energia e sua fenomenologia, Jung parece ter se inspirado também na abordagem filosófica de Kant, Schopenhauer e Nietzsche para uma compreensão mais aprofundada do tema. Libido, assim, poderia ser compreendida a partir de sua raiz “Libidum”, ou seja, Vontade.

O conceito de Vontade foi tratado no decorrer da história da filosofia por quatro pontos de vista específicos, ou seja : psicologicamente, moralmente, teologicamente e metafisicamente.

Schopenhauer desenvolveu uma filosofia segundo a qual a vontade é o fundo último da realidade. A Vontade não se acha limitada, segundo Schopenhauer, pelas categorias do espaço, tempo e causalidade, as quais são aplicáveis aos fenômenos, enquanto a Vontade é uma realidade em si, ou numênica. Encontra-se em Schopenhauer a noção de vontade de viver. A Vontade objetiva-se produzindo idéias. Para Nietzsche, a vontade é basicamente Vontade de poder ou Vontade de domínio e essa Vontade está ligada à transmutação de todos os valores ou transvalorização.

Partindo desse ponto de vista, podemos, objetivamente, estabelecer um fio condutor entre o pensamento de Kant, Schopenhauer e Nietzsche que chega à formulação do conceito de “Id” em Freud e o de “arquétipo” em Jung. Podemos compreender a idéia de que o conceito de “Leit motiv” do Homem, ou seja, a “força motriz cega” por vezes chamada de desejo é, na verdade, o veículo da Libido. Libido ou mesmo Vontade, é entendida como o conteúdo, a “substância” que constitui o Ser. O Ser é a Vontade e esta é uma dimensão sob o intelecto consciente ou inconsciente, uma força vital esforçada e persistente, uma atividade espontânea, uma fonte de desejo imperioso que não cessa nunca.

Pode, às vezes, parecer que o intelecto dirige a vontade, mas age apenas como um guia que dirige seu amo; a vontade é o cego robusto que carrega em seus ombros o coxo que vê. Segundo Schopenhauer:

"Não queremos uma coisa porque encontramos razões para isso, encontramos razões para isso porque a queremos; podemos até elaborar filosofias e teologias para cobrir nossos desejos ( ... ) Os homens são apenas aparentemente puxados pelo que está em frente; na realidade são empurrados por trás; imaginam que são conduzidos por aquilo que vêem, quando na verdade são impelidos pelo que sentem, - pelos instintos de cuja atuação não tem consciência, muitas vezes".

A Libido é um a priori, um conteúdo sem forma que dá ao Ser as sua respectivas “infinitas possibilidades” de existência. E é esta Libido, ou Vontade, que podemos, ainda segundo Schopenhauer, enunciar:

"Até mesmo o corpo é o produto da vontade. O sangue, impelido por aquela vontade a que vagamente chamamos vida, constrói seus próprios vasos imprimindo sulcos no corpo do embrião; os sulcos ficam mais fundos, fecham-se e passam a formar as artérias e veias (...) A vontade de enxergar cria os olhos, a vontade de saber forma o cérebro, exatamente como a vontade de agarrar forma a mão ou como a vontade de comer desenvolve o tubo digestivo (...) Na verdade essas formas de vontade e essas formas de carne - não são senão dois lados do mesmo processo e realidade".

O conceito Junguiano proposto para Vontade a coloca na base da estrutura do Homem e é o ponto de partida para a compreensão do que Jung apresenta como a natureza psicóide do arquétipo, ou seja, o aspecto duplo que se refere a ser psíquico e físico a um só tempo. Talvez possamos daí podemos compreender o que Jung quer dizer quando afirma que o arquétipo tem raízes nervosas.

Vontade é desejo, o “a priori” do Ser, a coisa-em-si de Kant, de natureza e grandeza ilimitada, que sob inumeráveis formas e aspectos se mostra como fenômeno. Propomos então que o conceito de Libido seja a representação da Vontade, é sua expressão psicológica, uma forma simbólica de representar a substância do Ser. A razão e a consciência são uma mera superfície de nossa mente, da qual, como da terra, não conhecemos o interior mas somente alguns aspectos apenas a crosta. No entanto, a Libido, ou Vontade, é um fenômeno que se estende além das fronteiras do próprio indivíduo e está presente também como fenômeno econômico e cultural. Libido também é dinheiro, o sangue que mantêm vivo a cultura e que faz girar a engrenagem construída pelas mãos humanas.




Libido, na perspectiva Freudiana, pode ter se limitado a uma determinada qualidade de energia e foi reduzida à sexualidade. Não que essa não exista e assim também o seja como uma autêntica expressão deste elemento, mas o entendimento a que nos propomos a fazer a coloca em dimensões de magnitude de ordem mais abrangentes, intensa e extensa do que poderia ser a sexualidade.

A idéia de que a mente, quando do nascimento do indivíduo, já traz, em si, como uma condição a priori, um conhecimento herdado da própria espécie parece uma afirmação da ordem da metafísica ou até mesmo do misticismo. Ao abordar estas proposições nos remetemos imediatamente aos conceitos de inconsciente coletivo e arquétipos propostos por Jung quando afirma que:

"O inconsciente coletivo significa que a consciência individual é tudo menos uma tábula rasa, ou seja, um lençol branco mas é influenciado no mais alto grau por predisposições herdadas. Abrange a vida psíquica de nossos ancestrais, retroagindo até os primórdios mais remotos".

Por isso trata esta dimensão como a matriz de todas as ocorrências psíquicas, uma espécie de arcabouço que determina a forma geral e as fronteiras da vida consciente. Entende-se que da mesma forma que o corpo herda uma estrutura que determina a forma geral e as fronteiras da vida consciente a mente é também estruturada por fatores herdados.

Esse conceito de estrutura básica herdada subjacente à psique humana pode ser buscado em Platão, que sustentava que a aquisição de conhecimento representava uma espécie de “recordação”, na qual Formas ou Idéias, aprendidas antes do nascimento, eram trazidas ao palco graças ao estímulo de experiência sensorial.

O conceito de arquétipo na Psicologia de Jung encontra alguns precursores filosóficos de relevante expressão. Platão fala das Idéias originais, das quais são derivadas toda a matéria e as idéias subseqüentes. Schopenhauer fala os “protótipos” ou arquétipos como formas originais de todas as coisas [que], pode-se dizer, têm de per si uma existência verdadeira, porque sempre são, mas nunca mudam nem morrem. Kant foi outra influência; se o conhecimento depende da percepção, então uma noção de percepção deve preceder a aquisição de conhecimento.

A partir dessa idéia de uma “forma” perceptiva a priori onde todos os dados sensoriais poderiam ser organizados em categorias fundamentais e inatas. Estas categorias também estão situadas além do tempo e do espaço e carecem de uma conexão com as realidades corporais da experiência cotidiana.

Mas a prova mais antiga nesse sentido surge na primeira década deste século no tratamento de pacientes psicóticos. Jung surpreendeu-se ao descobrir que muitas fantasias e imagens dos pacientes assemelhavam-se à lendas, mitos e histórias folclóricas e que, muitas vezes, tornava-se impossível relacionar o conteúdo dessas fantasias com as experiências específicas dos pacientes. Em 1912, chamou-as de imagens primordiais, um nome substituído em 1919 por “arquétipo”. Uma de suas primeiras experiências ocorreu em 1906 quando um paciente esquizofrênico lhe disse ter uma visão do sol que mostrava um falo e que ele interpretava como sendo a origem do vento.




Uma vez que o paciente fora internado no hospital antes da publicação do texto grego, e Jung só o descobriu em 1910, havia boa razão, como disse ele para excluir a possibilidade de criptomnésia por parte do paciente, e de transferência de pensamento de minha parte . O paralelo óbvio entre os dois, acreditava, só podia ser explicado em termos de alguma forma de herança.
Os arquétipos, insistiu Jung, “não são idéias herdadas, mas possibilidades herdadas”, Os conteúdos reais da consciência “são todos adquiridos individualmente”.

"Arquétipos não são determinados quanto ao seu conteúdo, mas apenas quanto à sua forma, e neste caso em um grau muito limitado ... O arquétipo em si é vazio e puramente formal ... uma possibilidade de representação que é dado a priori. As próprias representações não são herdadas, mas apenas as formas, que são também determinados apenas em forma".

Jung relacionou os arquétipos e seu funcionamento aos instintos. A princípio, em 1919, via o arquétipo como o equivalente psicológico do instinto, um auto-retrato do instinto (...) a percepção que o instinto tem de si”. Arquétipos e instintos desempenham funções semelhantes e ocupam posições semelhantes na Psicologia e na Biologia, respectivamente. Jung continua afirmando que o inconsciente coletivo consiste na soma dos instintos e seus correlatos, os arquétipos.

Enfim, há muito o que se dizer e estudar à respeito de arquétipos e inconsciente coletivo que são elementos centrais na Psicologia de Jung e, sem dúvida, constituem os pilares centrais desta abordagem psicológica. No entanto, a compreensão destas dimensões, assim como das imagens e instintos correlatos transcendem ao pensamento e linguagem e só poderão encontrar uma expressão mais adequada a partir do estudo dos mitos, contos de fada e da expressão não-verbal.



(Jorge L. de Oliveira Braga – Analista Junguiano - AJB)









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