quinta-feira, 30 de abril de 2009

SAMHAIN - A Morte do Deus


(31 de outubro no hemisfério Norte e 1º de maio no hemisfério Sul)

Samhain (pronuncia-se Sou-ein), festejado em 31 de outubro no hemisfério Norte e em 1º de maio no hemisfério Sul, é o Ano-Novo dos Bruxos. Esse dia sagrado é conhecido por inúmeros nomes. Para muitos, talvez, o mais conhecido seja Halloween. Para nós, Bruxos, é a festa na qual honramos nossos ancestrais e aqueles que já tenham partido para o País de Verão.

Essa é a noite em que o véu que separa o mundo material do mundo espiritual encontra-se mais fino e o contato com nossos ancestrais torna-se mais fácil. É também o momento tradicional para celebrar a última das colheitas e se preparar para o Verão.

O poder de magia pode ser sentido no ar, nessa noite. O Outro Mundo se coaduna com o nosso conforme a luz do Sol baixa e o crepúsculo chega. Os espíritos daqueles que já partiram para o outro plano são mais acessíveis durante a noite de Samhain.



Samhain ocorre no pico do Outono. É o tempo do ano em que o frio cresce e a morte vaga pela Terra. O Sol está enfraquecendo cada vez mais rapidamente, a sombra cresce e as folhas das árvores estão caindo, numa preparação ao Inverno que chegará. Essa é a última colheita, o tempo em que os antigos povos da Europa sacrificavam seus gados e preservavam sua carne para o Inverno, pois esses animais não podiam sobreviver em grande escala nesse período do ano devido ao frio vindouro. Só uma pequena parte, os mais viris e fortes, era mantida para o ano seguinte.



Samhain é a noite em que o Velho Rei morre e a Deusa Anciã lamenta sua ausência nas próximas seis semanas. O Sol está em seu ponto mais baixo no horizonte, de acordo com as medições feitas através das antigas pedras da Britânia e da Irlanda, razão pela qual os Celtas escolheram esse Sabbat, em vez de Yule, para representar o Ano-Novo. Para os Antigos Celtas, esse dia sagrado dividida o ano em duas estações, Inverno e Verão. Samhain era o dia no qual começavam o Ano-Novo celta e o Inverno, por isso era um tempo ideal para términos e começos.

É o dia ideal para honrar os mortos, pois nele os véus que separam os mundos estão mais finos. Aqueles que morreram no ano passado e aqueles que estão reencarnando passam através dos véus e portais nesse dia. Os Portões das Sidhe estão abertos e nem humanos nem fadas precisam de senhas para entrar e sair.



Em Samhain, o Deus finalmente morre, mas sua alma vive na criança não-nascida, a centelha de vida no ventre da Deusa. Isto simboliza a morte das plantas e a hibernação dos animais, o Deus torna-se então o Senhor da Morte e das Sombras.

Samhain é um festival do fogo e é a entrada para a parte sombria e fria da Roda do Ano. É em Samhain que as fogueiras são acesas para que os espíritos do outro mundo possam encontrar os caminhos para partirem ao Outro Mundo (País de Verão).

Samhain é o tempo de lembrarmos com amor aqueles que partiram para o outro lado, por isso é chamado de a Festa Ancestral. Toda a família, ou grupo, se reúne para reverenciar os que já partiram. É muito comum nesse Sabbat se realizar uma ceia em silêncio, conectando-se com aqueles que já cruzaram os portais dos mundos. É tradicional também deixar um lugar à mesa para os ancestrais e lhes servir pratos como se eles estivessem presentes à ceia.

Para aqueles que não têm família para festejar e celebrar seus ancestrais, alimentos geralmente são deixados do lado de fora de casa, na porta de entrada, em homenagem aos familiares e amigos desencarnados.

É também tradicional deixar uma vela acesa na janela da casa para ajudar a guiar os espíritos ao longo de sua caminhada ao nosso mundo para que possam encontrar o caminho de volta.

De acordo com os antigos celtas, havia apenas duas divisões do ano que iam de Beltane a Samhain (Verão) e de Samhain a Beltane (Inverno).



Samhain é um dos quatro grandes Sabbats e muitas vezes é considerado o Grande Sabbat.

Por ser o maior de todos e o mais importante também, todos os Pagãos consideram Samhain como a noite mais mágica do ano. Muitas práticas adivinhatórias foram associadas a Samhain, as mais comuns eram aquelas que prenunciavam casamentos e fortunas para o próximo ano que estava se iniciando.

Uma das tradições mais comuns praticadas pelos povos antigos era a de colocar várias maçãs em um grande barril de água. Várias mulheres se reuniam em volta do barril, e a primeira que conseguisse pegar uma das maçãs seria a primeira a casar no próximo ano.

Na Escócia, colocavam-se pedras entre as cinzas da lareira, deixando-as "descansar" durante a noite. Se alguma pedra fosse descoberta durante a noite, representaria a morte iminente durante o próximo ano de um dos moradores da residência.

Sem sombra de dúvida a prática mais famosa do Samhain é o Jack O'Lantern (máscaras de abóboras), que sobrevive até hoje nas modernas celebrações do Halloween. Vários historiadores atribuem suas origens aos escoceses, enquanto outros lhe conferem origem irlandesa. As máscaras eram utilizadas por pessoas que precisavam sair durante a noite de Samhain. As sombras provocadas pela face esculpida n abóbora tinham a virtude de afastar os maus espíritos e todos os seres do outro mundo que vinham para perturbar. Máscaras de abóboras também eram colocadas nos batentes das janelas e em frente à porta de entrada para proteger toda a casa.



O costume norte-americano de vestir-se com trajes típicos e sair pelas casas dizendo Trick or treating, nas noites de Halloween, é de origem céltica. Nos tempos antigos, o costume não era relegado às crianças, mas sim aos adultos. Em tempos ancestrais, os vagantes iam cantando cânticos da época de casa em casa e eram presenteados com agrados pelo seus habitantes. O Treat (presente) também era requerido pelos espíritos ancestrais nessa noite através de oferendas.

O Deus neste período é identificado com os animais que eram sacrificados para continuidade da vida.

Samhain é um tempo para a reflexão, no qual olhamos para o ano mágico que passou e estabelecemos as metas para nossa vida no ano que entra.




(fonte: WICCA, A Religião da Deusa de Claudiney Prieto)

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Declaro-me vivo !!!


Saboreio cada momento.

Antigamente me preocupava quando os outros falavam mal de mim. Então fazia o que os outros queriam, e a minha consciência me censurava.

Entretanto, apesar do meu esforço para ser bem educado, alguém sempre me difamava.

Como agradeço a essas pessoas, que me ensinaram que a vida é apenas um cenário!
Desse momento em diante, atrevo-me a ser como sou.

A árvore anciã me ensinou
que somos todos iguais.

Sou guerreiro:
a minha espada é o amor,
o meu escudo é o humor,
o meu espaço é a coerência,
o meu texto é a liberdade.


Perdoem-me, se a minha felicidade é insuportável,
mas não escolhi o bom senso comum.
Prefiro a imaginação dos indios,
que tem embutida a inocência.

É possível que tenhamos que ser apenas humanos.

Sem Amor nada tem sentido, sem Amor estamos perdidos,
sem Amor corremos de novo o risco de estarmos
caminhando de costas para a luz.

Por esta razão é muito importante que apenas o Amor
inspire as nossas ações.

Anseio que descubras a mensagem por detrás das palavras;
não sou um sábio,
sou apenas um ser apaixonado pela vida.

A melhor forma de despertar
é deixando de questionar se nossas ações
incomodam aqueles que dormem ao nosso lado.

Quando somos maiores que aquilo que fazemos,
nada pode nos desequilibrar.
Porém, quando permitimos que as coisas sejam maiores do que
nós, o nosso desequilíbrio está garantido.

É possível que sejemos apenas água fluindo;
o caminho terá que ser feito por nós.

Porém, não permitas que o leito escravize o rio,
ou então, em vez de um caminho, terás um cárcere.

Amo a minha loucura que me vacina contra a estupidez.
Amo o amor que me imuniza contra a infelicidade
que prolifera, infectando almas
e atrofiando corações.

As pessoas estão tão acostumadas com a infelicidade,
que a sensação de felicidade
lhes parece estranha.

As pessoas estão tão reprimidas, que a ternura espontânea
as incomoda, e o amor lhes inspira desconfiança.

A vida é um cântico à beleza,
uma chamada à transparência.

Peço-lhes perdão, mas….
DECLARO-ME VIVO!




Chamalú, Indio Quechua

domingo, 26 de abril de 2009

Esquizofrenia 2


O que é?

Apesar da exata origem não estar concluída, as evidências indicam mais e mais fortemente que a esquizofrenia é um severo transtorno do funcionamento cerebral. A Dra Nancy Andreasen disse: "As atuais evidências relativas às causas da esquizofrenia são um mosaico: a única coisa clara é a constituição multifatorial da esquizofrenia. Isso inclui mudanças na química cerebral, fatores genéticos e mesmo alterações estruturais. A origem viral e traumas encefálicos não estão descartados. A esquizofrenia é provavelmente um grupo de doenças relacionadas, algumas causadas por um fator, outras, por outros fatores".

A questão sobre a existência de várias esquizofrenias e não apenas uma única doença não é um assunto novo. Primeiro, pela diversidade de manifestações como os sub-tipos paranóide, hebefrênico e catatônico além das formas atípicas, que são conhecidas há décadas. Segundo, por analogia com outras áreas médicas como o câncer. O câncer para o leigo é uma doença que pode atingir diferentes órgãos. Na verdade trata-se de várias doenças com manifestação semelhante. Para cada tipo de câncer há uma causa distinta, um tratamento específico em chances de cura distintas. São, portanto, várias doenças. Na esquizofrenia talvez seja o mesmo e o simples fato de tratá-la como uma doença só que atrapalha sua compreensão. Poucos sabemos sobre essa doença. O máximo que conseguimos foi obter controle dos sintomas com os antipsicóticos. Nem sua classificação, que é um dos aspectos fundamentais da pesquisa, foi devidamente concluída.



Como Começa?

A esquizofrenia pode desenvolver-se gradualmente, tão lentamente que nem o paciente nem as pessoas próximas percebem que algo vai errado: só quando comportamentos abertamente desviantes se manifestam. O período entre a normalidade e a doença deflagrada pode levar meses.

Por outro lado há pacientes que desenvolvem esquizofrenia rapidamente, em questão de poucas semanas ou mesmo de dias. A pessoa muda seu comportamento e entra no mundo esquizofrênico, o que geralmente alarma e assusta muito os parentes.

Não há uma regra fixa quanto ao modo de início: tanto pode começar repentinamente e eclodir numa crise exuberante, como começar lentamente sem apresentar mudanças extraordinárias, e somente depois de anos surgir uma crise característica.
Geralmente a esquizofrenia começa durante a adolescência ou quando adulto jovem. Os sintomas aparecem gradualmente ao longo de meses e a família e os amigos que mantêm contato freqüente podem não notar nada.

É mais comum que uma pessoa com contato espaçado por meses perceba melhor a esquizofrenia desenvolvendo-se. Geralmente os primeiros sintomas são a dificuldade de concentração, prejudicando o rendimento nos estudos; estados de tensão de origem desconhecida mesmo pela própria pessoa e insônia e desinteresse pelas atividades sociais com conseqüente isolamento. A partir de certo momento, mesmo antes da esquizofrenia ter deflagrado, as pessoas próximas se dão conta de que algo errado está acontecendo. Nos dias de hoje os pais pensarão que se trata de drogas, os amigos podem achar que são dúvidas quanto à sexualidade, outros julgarão ser dúvidas existenciais próprias da idade. Psicoterapia contra a vontade do próprio será indicada e muitas vezes realizada sem nenhum melhora para o paciente.



A permanência da dificuldade de concentração levará à interrupção dos estudos e perda do trabalho. Aqueles que não sabem o que está acontecendo, começam a cobrar e até hostilizar o paciente que por sua vez não entende o que está se passando, sofrendo pela doença incipiente e pelas injustiças impostas pela família. É comum nessas fases o desleixo com a aparência ou mudanças no visual em relação ao modo de ser, como a realização de tatuagens, piercing, cortes de cabelo, indumentárias estranhas e descuido com a higiene pessoal. Desde o surgimento dos hippies e dos punks essas formas estranhas de se apresentar, deixaram de ser tão estranhas, passando mesmo a se confundirem com elas. O que contribui ainda mais para o falso julgamento de que o filho é apenas um "rebelde" ou um "desviante social".

Muitas vezes não há uma fronteira clara entre a fase inicial com comportamento anormal e a esquizofrenia propriamente dita. A família pode considerar o comportamento como tendo passado dos limites, mas os mecanismos de defesa dos pais os impede muitas vezes de verem que o que está acontecendo; não é culpa ou escolha do filho, é uma doença mental, fato muito mais grave.

A fase inicial pode durar meses enquanto a família espera por uma recuperação do comportamento. Enquanto o tempo passa os sintomas se aprofundam, o paciente apresenta uma conversa estranha, irreal, passa a ter experiências diferentes e não usuais o que leva as pessoas próximas a julgarem ainda mais que o paciente está fazendo uso de drogas ilícitas. É possível que o paciente já esteja tendo sintomas psicóticos durante algum tempo antes de ser levado a um médico.

Quando um fato grave acontece não há mais meios de se negar que algo muito errado está acontecendo, seja por uma atitude fisicamente agressiva, seja por tentativa de suicídio, seja por manifestar seus sintomas claramente ao afirmar que é Jesus Cristo ou que está recebendo mensagens do além e falando com os mortos. Nesse ponto a psicose está clara, o diagnóstico de psicose é inevitável. Nessa fase os pais deixam de sentir raiva do filho e passam a se culpar, achando que se tivessem agido antes nada disso estaria acontecendo, o que não é verdade. Infelizmente o tratamento precoce não previne a esquizofrenia, que é uma doença inexorável. As medicações controlam parcialmente os sintomas: não normalizam o paciente. Quando isso acontece é por remissão espontânea da doença e por nenhum outro motivo.



O Diagnóstico

Não há um exame que diagnostique precisamente a esquizofrenia, isto depende exclusivamente dos conhecimentos e da experiência do médico, portanto é comum ver conflitos de diagnóstico. O diagnóstico é feito pelo conjunto de sintomas que o paciente apresenta e a história como esses sintomas foram surgindo e se desenvolvendo. Existem critérios estabelecidos para que o médico tenha um ponto de partida, uma base onde se sustentar, mas a maneira como o médico encara os sintomas é pessoal. Um médico pode considerar que uma insônia apresentada não tenha maior importância na composição do quadro; já outro médico pode considerá-la fundamental. Assim os quadros não muito definidos ou atípicos podem gerar conflitos de diagnóstico.



Como reconhecer a esquizofrenia ainda no começo?

O reconhecimento precoce da esquizofrenia é uma tarefa difícil porque nenhuma das alterações é exclusiva da esquizofrenia incipiente; essas alterações são comuns a outras enfermidades, e também a comportamentos socialmente desviantes mas psicologicamente normais . Diagnosticar precocemente uma insuficiência cardíaca pode salvar uma vida, já no caso da esquizofrenia a única vantagem do diagnóstico precoce é poder começar logo um tratamento, o que por si não implica em recuperação. O diagnóstico precoce é melhor do que o diagnóstico tardio, pois tardiamente muito sofrimento já foi imposto ao paciente e à sua família, coisa que talvez o tratamento precoce evite. O diagnóstico é tarefa exclusiva do psiquiatra, mas se os pais não desconfiam de que uma consulta com este especialista é necessária nada poderá ser feito até que a situação piore e a busca do profissional seja irremediável. Qualquer pessoa está sujeita a vir a ter esquizofrenia; a maioria dos casos não apresenta nenhuma história de parentes com a doença na família. Abaixo estão enumeradas algumas dicas: como dito acima, nenhuma delas são características mas servem de parâmetro para observação.



* Dificuldade para dormir, alternância do dia pela noite, ficar andando pela casa a noite, ou mais raramente dormir demais
* Isolamento social, indiferença em relação aos sentimentos dos outros
* Perda das relações sociais que mantinha
* Períodos de hiperatividade e períodos de inatividade
* Dificuldade de concentração chegando a impedir o prosseguimento nos estudos
* Dificuldade de tomar decisões e de resolver problemas comuns
* Preocupações não habituais com ocultismos, esoterismo e religião
* Hostilidade, desconfiança e medos injustificáveis
* Reações exageradas às reprovações dos parentes e amigos
* Deterioração da higiene pessoal
* Viagens ou desejo de viajar para lugares sem nenhuma ligação com a situação pessoal e sem propósitos específicos
* Envolvimento com escrita excessiva ou desenhos infantis sem um objetivo definido
* Reações emocionais não habituais ou características do indivíduo
* Falta de expressões faciais (Rosto inexpressivo)
* Diminuição marcante do piscar de olhos ou piscar incessantemente
* Sensibilidade excessiva a barulhos e luzes
* Alteração da sensação do tato e do paladar
* Uso estranho das palavras e da construção das frases
* Afirmações irracionais
* Comportamento estranho como recusa em tocar as pessoas, penteados esquisitos, ameaças de auto-mutilação e ferimentos provocados em si mesmo
* Mudanças na personalidade
* Abandono das atividades usuais
* Incapacidade de expressar prazer, de chorar ou chorar demais injustificadamente, risos imotivados
* Abuso de álcool ou drogas
* Posturas estranhas
* Recusa em tocar outras pessoas

Nenhum desses sinais por si comprovam doença mental, mas podem indicá-la. Pela faixa etária esses sinais podem sugerir envolvimento com drogas, personalidade patológica ou revolta típica da idade. Diferenciar a esquizofrenia do envolvimento com drogas pode ser feito pela observação da preocupação constante com dinheiro, no caso de envolvimento com drogas, coisa rara na esquizofrenia. A personalidade patológica não apresenta mudanças no comportamento, é sempre desviante, desde as tenras idades. Na esquizofrenia incipiente ainda que lentamente, ocorre uma mudança no curso do comportamento da pessoa, na personalidade patológica não. Na revolta típica da adolescência sempre haverá um motivo razoável que justifique o comportamento, principalmente se os pais tiverem muitos conflitos entre si.



A Família do esquizofrênico

O paciente esquizofrênico sofre intensamente com sua condição e sua família também, não há como isto ser evitado. Infelizmente os programas político-sociais de reinserção dos doentes mentais na sociedade simplesmente ignoram o sofrimento e as necessidades da família, que são enormes. Esta é vista como desestruturada, fria, indiferente ou mesmo hostil ao paciente. Da mesma forma que o paciente esquizofrênico sofre duas vezes, pela doença e pelo preconceito, a família também sofre duas vezes, com a doença do filho e com a discriminação e incompreensão sociais. Num país pobre como o Brasil, a assistência à família do esquizofrênico tem que ser um programa governamental indispensável, para que se possa preservar o desempenho social (estudo, trabalho, profissão) dos parentes dos pacientes esquizofrênicos. O nível de recuperação que se tem com o tratamento da esquizofrenia é muito baixo; os irmãos saudáveis desses pacientes devem ser amparados para não terem suas vidas impedidas de se desenvolver por causa da esquizofrenia de um irmão.

A título de reumanização do tratamento dos esquizofrênicos, pretende-se fechar os hospitais psiquiátricos alocando-os para outros serviços que não incluem atendimento às necessidades dos parentes dos esquizofrênicos. Como está, esse projeto não apenas piorará a situação do paciente, como também de sua família.

Os problemas que geralmente ocorrem na família dos esquizofrênicos são os seguintes:

* Pesar... "Sentimos como se tivéssemos perdido nosso filho"
* Ansiedade... "Temos medo de deixá-lo só ou de ferir seus sentimentos"
* Medo... "Ele poderá fazer mal a si mesmo ou a outras pessoas?"
* Vergonha e culpa... "Somos culpados disso? O que os outros pensarão?"
* Sentimento de isolamento... "Ninguém nos compreende"
* Amargura... "Por que isso aconteceu conosco?"
* Depressão... "Não consigo falar nisso sem chorar?"
* Negação da doença... "Isso não pode acontecer na nossa família"
* Negação da gravidade... "Isso daqui a pouco passa"
* Culpa recíproca... "Não fosse por aquele seu parente esquisito..."
* Incapacidade de pensar ou falar de outra coisa que não seja a doença... "Toda nossa vida gira em torno do nosso filho doente"
* Problemas conjugais... "Minha relação com meu marido tornou-se fria, sinto-me morta por dentro"
* Separação... "Não agüento mais minha mulher"
* Preocupação em mudar-se... "Talvez se nos mudarmos para outro lugar as coisas melhorem"
* Cansaço... "Envelheci duas vezes nos últimos anos"
* Esgotamento... "Sinto-me exausto, incapaz de fazer mais nada"
* Preocupação com o futuro... "O que acontecerá quando não estivermos presentes, o que será dele?"
* Uso excessivo de tranqüilizantes ou álcool... "Hoje faço coisas que nunca tinha feito antes"
* Isolamento social... "As pessoas até nos procuram, mas não temos como fazer os programas que nos propõem"
* Constante busca de explicações... "Será que isso aconteceu por algo que fizemos para ele?"
* Individualização... "Não temos mais vida familiar"
* Ambivalência... "Nós o amamos, mas para ficar assim preferíamos que se fosse..."






(fonte:www.psicosite.com.br)

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Almas Duais


Nesta metamorfose que sou
Passo pela vida
Meio borboleta
Meio mulher
Meio gente
Meio sem saber o que sou
A vida às vezes pára
E me encara
Ficamos ali
Paradas
Uma olhando para a outra
Sem nos conhecermos
Não percebi
Quando a vida se tornou tão estranha para mim
E nem o quanto nela
Quase nada cabe de mim
Parece loucura
Talvez seja
Melhor que seja
Não suportaria a normalidade
E nem a languidez da vida medíocre
Nem todos me entendem
Na verdade
Poucos me entendem
E prefiro assim
Poucos, loucos
Almas duais como eu
Espíritos sem rédeas
Soltos, absortos
Num mundo paralelo
Essa visão do puro obscuro
Selvagem natural
Encanto real
Solidão essencial










(butterfly para sitedepoesias.com.br)

terça-feira, 21 de abril de 2009

ESQUIZOFRENIA 1


Análise Junguiana

Desde seus tempos de estudante, Jung era interessado na esquizofrenia (então conhecida como dementia praecox). À medida que desenvolvia seu conceito do inconsciente coletivo e a teoria dos arquétipos, foi-se convencendo de que a psicose em geral e a esquizofrenia em particular poderiam ser explicadas como:

(a) uma dominação do EGO pelos conteúdos do inconsciente coletivo;
(b) a dominação da personalidade por um COMPLEXO ou complexos dissociados.

A implicação básica disso era que uma forma de expressão e comportamento esquizofrênicos poderiam ser significativos, desde que fosse possível descobrir aquilo que significavam. Foi onde a técnica da ASSOCIAÇÃO foi usada pela primeira vez e, posteriormente, a AMPLIFICAÇÃO como um método de ver o material clínico num contexto de motivos culturais e religiosos. Isso levou, firme e decisivamente, ao rompimento com Freud, que ocorreu com a publicação de Symbols of Transformation (Símbolos da Transformação), uma análise mediante associação e amplificação do prelúdio de um caso de esquizofrenia.



Mas, e quanto à origem da esquizofrenia? A evolução do pensamento de Jung revela sua incerteza. Ele está seguro de que a esquizofrenia é um distúrbio psicossomático, de que mudanças na química do corpo e distorções da personalidade estão de alguma forma interligadas. A questão era saber quais destas deveriam ser consideradas primárias.

O chefe de Jung, Bleuler, pensava que algum tipo de toxina ou veneno era desenvolvido pelo corpo, que então acarretava um distúrbio psicológico. A contribuição básica de Jung foi reavaliar a importância da PSIQUE o suficiente para inverter os elementos: a atividade psicológica pode levar a mudanças somáticas. Porém, Jung tentou combinar suas idéias com as de Bleuler, mediante o uso de uma engenhosa fórmula. Conquanto a misteriosa toxina pudesse existir perfeitamente em todos nós, somente teria seu efeito devastador se circunstâncias psicológicas fossem favoráveis para isso. Alternativamente, uma pessoa poderia ser geneticamente predisposta a desenvolver a toxina e este fator estaria ligado inevitavelmente a um ou mais complexos.



Afirmar que a esquizofrenia poderia ser qualquer coisa diferente de uma anormalidade neurológica inata era, em seu tempo, revolucionário. Postular uma causa psicogênica em uma estrutura psicossomática geral possibilitou-lhe propor tratamento psicológico (PSICOTERAPIA) como apropriado. A decodificação da comunicação esquizofrênica e tratamento em um milieu terapêutico formam linhas centrais na abordagem existencial-analítica desenvolvida por Binswanger (1945), Laing (1967) e, até certo ponto, são detectáveis nas tendências psiquiátricas contemporâneas.

Uma abordagem contemporânea e controvertida da esquizofrenia é a idéia de que a esquizofrenia não é realmente uma doença, mas, antes, uma medida daquilo que nossa sociedade considera normal e tolerável. Daí, como sugerem psiquiatras que se opõem à psiquiatria convencional, não é nada mais que uma classificação psiquiátrica: o mapa não é o território. O pensamento de Jung não vai tão longe assim, porém ele sublinhava que a “psicose latente” era muito mais prevalente do que em geral se admite e que o “normal” jamais é um termo suficientemente descritivo de um indivíduo. Uma nova discriminação, também sintônica com a opinião contemporânea, é que uma aparente falência nervosa de fato poderia ser uma forma de falência das defesas, um prelúdio iniciatório necessário para um novo desenvolvimento.

A experiência clínica de Jung com a esquizofrenia parece ter sido, principalmente, com sua forma “produtiva” (delírios, graves perturbações de pensamento, idéias de referência, etc.). Ele não escreve muita coisa sobre o característico “embotamento afetivo” esquizofrênico, tão marcante, hoje, em hospitais psiquiátricos. Sabe-se que as doenças mentais mudam de características de acordo com as transformações culturais – é uma razão por que sua existência é contestada. Por exemplo, o predomínio de paralisias histéricas na Alemanha e na Áustria durante os anos de 1890 podia ter algo a ver com a introdução de esquemas de seguro para acidentes ferroviários naquela época.



Uma fuga esquizofrênica pode ser considerada uma reação à ausência de significado e alienação da sociedade industrial moderna e, em particular, à experiência de uma extrema privação psicológica conseqüente à pobreza. Em circunstâncias socialmente empobrecidas, o esforço exigido para se manter vigilância sobre o inconsciente, por assim dizer, significa que qualquer espécie de emoção é reprimida ou dissociada da personalidade. O elemento de depressão em tal “psicose situacional aguda” também é algo não explorado por Jung. Aqui, precisamos lê-lo como um homem de seu tempo.

Diversos psicólogos analíticos (por exemplo, Perry, 1962; Redfearn, 1978) aplicaram referencial teórico desenvolvimentista à esquizofrenia. Os conteúdos da mente esquizofrênica permanecem arquetípicos em virtude da falha da mãe em ser mediadora deles para seu bebê – isto é, em reduzi-lo de algum modo a uma escala humana de modo que possam ser integrados. Eis por que o “embotamento” aparece como uma forma inconsciente de autocontrole. Trabalhar com pacientes esquizofrênicos ou gravemente perturbados requer do analista fazer uso considerável de sua contratransferência.




(Fonte: retirado do site sobre Análise Junguiana www.rubedo.psc.br)

domingo, 19 de abril de 2009

APOLO


Apolo, filho de Zeus e Leto, e irmão gémeo de Ártemis, deusa da caça, era um dos mais importantes e multifacetados deuses do Olimpo. Nas mitologias grega, romana e etrusca, Apolo foi identificado como o deus da luz e do sol, da verdade e da profecia, do pastoreio, do tiro com arco, da beleza, da medicina e da cura, da música, da poesia e das artes. Apolo representa a harmonia, a moderação, a ordem e a razão.

Apolo nasceu de um dos amores adulterinos de Zeus. Quando Hera descobriu a gravidez da rival Leto, proibiu-lhe que desse à luz em terra firme, fosse no continente fosse em qualquer ilha, e colocou em seu encalço a serpente Píton. Perambulando sem destino, Leto acabou por chegar a Delos, uma ilha flutuante criada por Poseidon, compadecido dos seus sofrimentos, e ali deu à luz aos seus gêmeos Apolo e Ártemis. Depois do nascimento, Zeus fixou a ilha no fundo do mar, e mais tarde ela foi consagrada a Apolo.



Amantes


Boa parte dos mitos que dizem respeito a Apolo falam dos seus inúmeros amores, sendo os mais famosos Dafne, uma ninfa que rejeitou seu amor e foi transformada em loureiro (daí a sacralidade da árvore para Apolo), Jacinto, que se transformou na flor com o mesmo nome, e Ciparisso, o qual se transformou em cipreste. Nestes mitos amorosos Apolo nunca tem sorte, e conta-se que isto se deve ao facto de ele se gabar de ser o melhor arqueiro entre os deuses, o que fez com que Eros, deus do amor, sentisse inveja. Apolo também amou Leucotéia, Castália, Sínope, Marpessa, Cassandra e Acanta.


Ele é o deus da palestra, onde os jovens se reuniam para praticar atletismo. Apolo representava para eles o educador ideal, o erastes. Todos os seus amantes masculinos eram mais jovens que ele, como era o hábito entre os gregos. Muitos destes jovens "morreram", significando que estes mitos simbolizavam ritos de passagem, quando o jovem deveria morrer para renascer como adulto.




Vitória sobre a serpente Píton


O lodo com que as águas do dilúvio recobriram a Terra acarretou uma excessiva fertilidade, que produziu enorme variedade de coisas, boas e más. Entre elas, surgiu Píton, uma serpente enorme, terror do povo, que se refugiou nas cavernas do Monte Parnaso. Apolo matou-a com suas setas — armas que não usara antes senão contra fracos animais, como lebres, cabras monteses e outras semelhantes. Para comemorar essa grande vitória, ele instituiu os jogos píticos, nos quais o vencedor nas provas de força, rapidez na carreira ou nas corridas de carro era coroado com uma grinalda de folhas de faia, pois o loureiro ainda não fora escolhido por Apolo como sua planta predileta.


A famosa estátua de Apolo do Belvedere representa o deus depois de sua vitória sobre a serpente Píton.




APOLO E DAFNE


Dafne foi o primeiro amor de Apolo. Não surgiu por acaso, mas pela malícia de Cupido. Apolo viu o menino brincando com seu arco e suas setas e, estando ele próprio muito envaidecido com sua recente vitória sobre Píton, disse-lhe:
— Que tens a fazer com armas mortíferas, menino insolente? Deixe-as para as mãos de quem delas sejam dignos. Vê a vitória que com elas alcancei, contra a vasta serpente que estendia o corpo venenoso por grande extensão da planície! Contenta-te com tua tocha, criança, e atiça tua chama, como costumas dizer, mas não te atrevas a intrometer-te com minhas armas.


O filho de Vênus ouviu essas palavras e retrucou:
— Tuas setas podem ferir todas as outras coisas, Apolo, mas as minhas podem ferir-te.
Assim dizendo, pôs-se de pé numa rocha do Parnaso e tirou da aljava duas setas diferentes, uma feita para atrair o amor; outra, para afastá-lo. A primeira era de ouro e tinha a ponta aguçada, a segunda, de ponta rombuda, era de chumbo. Com a seta de ponta de chumbo, feriu a ninfa Dafne, filha do rio-deus Peneu, e com a de ouro feriu Apolo no coração.


Sem demora, o deus foi tomado de amor pela donzela e esta sentiu horror à idéia de amar. Seu prazer consistia nas caminhadas pelos bosques e na caça. Muitos amantes a buscavam, mas ela recusava a todos, passeando pelos bosques, sem pensar em Cupido nem em Himeneu. Seu pai muitas vezes lhe dizia: "Filha, deves dar-me um genro, dar-me netos." Temendo o casamento como a um crime, com as belas faces coradas, ela se abraçou ao pai, implorando: "Concede esta graça, pai querido! Faze com que eu não me case jamais!"


A contragosto, ele consentiu, observando, ao mesmo tempo, porém:
— O teu próprio rosto é contrário a este voto.
Apolo amou-a e lutou para obtê-la; ele, que era o oráculo de todo o mundo, não foi bastante sábio para prever o seu próprio destino. Vendo os cabelos caírem desordenados pelos ombros da ninfa, imaginou: "Se são tão belos em desordem, como deverão ser quando arranjados?" Viu seus olhos brilharem como estrelas; viu seus lábios, e não se deu por satisfeito só em vê-los. Admirou suas mãos e os braços, nus até os ombros, e tudo que estava escondido da vista imaginou mais belo ainda. Seguiu-a; ela fugiu, mais rápida que o vento, e não se retardou um momento ante suas súplicas.

— Pára, filha de Peneu! — ele exclamou. Não sou um inimigo. Não fujas de mim, como a ovelha foge do lobo, ou a pomba do milhafre. É por amor que te persigo. Sofro de medo que, por minha culpa, caias e te machuques nestas pedras. Não corras tão depressa, peço-te, e correrei também mais devagar. Não sou um homem rude, um campônio boçal. Júpiter é meu pai, sou senhor de Delfos e Tenedos e conheço todas as coisas, presentes e futuras. Sou o deus do canto e da lira. Minhas setas voam certeiras para o alvo. Mas, ah!, uma seta mais fatal que as minhas atravessou-me o coração! Sou o deus da medicina e conheço a virtude de todas as plantas medicinais. Ah! Sofro de uma enfermidade que bálsamo algum pode curar!


A ninfa continuou sua fuga, nem ouvindo de todo a súplica do deus. E, mesmo ao fugir, ela o encantava. O vento agitava-lhe as vestes e os cabelos desatados lhe caíam pelas costas. O deus sentiu-se impaciente ao ver desprezados os seus rogos e, excitado por Cupido, diminuiu a distância que o separava da jovem. Era como um cão perseguindo uma lebre, com a boca aberta, pronto para apanhá-la, enquanto o débil animal avança, escapando no último momento. Assim voavam o deus e a virgem: ela com as asas do medo; ele com as do amor. O perseguidor é mais rápido, porém, e adianta-se na carreira: sua respiração ofegante, já atinge os cabelos da ninfa. As forças de Dafne começam a fraquejar e, prestes a cair, ela invoca seu pai, o rio-deus:
— Ajuda-me, Peneu! Abre a terra para envolver-me, ou muda minhas formas, que me têm sido tão fatais!

Mal pronunciara estas palavras, um torpor lhe ganha todos os membros; seu peito começou a revestir-se de uma leve casca; seus cabelos transformaram-se em folhas; seus braços mudam-se em galhos; os pés cravam-se no chão, como raízes; seu rosto tornou-se o cimo do arbusto, nada conservando do que fora, a não ser a beleza.
Apolo abraçou-se aos ramos da árvore e beijou ardentemente a madeira. Os ramos afastaram-se de seus lábios.
— Já que não podes ser minha esposa — exclamou o deus — serás a minha planta preferida. Usarei tuas folhas como coroa; com elas enfeitarei minha lira e minha aljava; e quando os grandes conquistadores romanos caminharem para o Capitólio, à frente dos cortejos triunfais, serás usada como coroas para suas frontes. E, tão eternamente jovem quanto eu próprio, também hás de ser sempre verde e tuas folhas não envelhecerão.
Não parecerá estranho, sem dúvida, que Apolo fosse o deus tanto da música quanto da poesia.






fontes:
- pt.wikipedia.org
- Thomas Bulfinch - O livro de Ouro da Mitologia - História de Deuses e Heróis

sexta-feira, 17 de abril de 2009

A Paternidade


Muito se tem escrito sobre a importância psicológica de uma boa maternagem: aceitação da gravidez, amamentação, cuidados, atenção, receptividade... Enfim, amor, para o desenvolvimento emocional sadio da criança e para a própria formação do caráter do adulto. Constituindo-se também, em medida de higiene mental, no campo da prevenção primária, às futuras desordens psíquicas. O expoente máximo das pesquisas nesta área foi a psicanalista inglesa, Melanie Klein que mostrou a importância fundamental para o psiquismo humano, das primeiras relações do bebê com o seio materno. Com a obra de Klein, os conhecimentos psicanalíticos, sobre a mente humana, recuaram a um período mais primitivo e obscuro do desenvolvimento mental que pareciam inatingíveis, pela pesquisa psicanalítica. Mas, se por um lado, isto foi positivo e representou de fato um avanço para psicanálise, no conhecimento da vida mental do bebê, que habita em cada um de nós. No entanto, por outro, parece estar relegando a um segundo plano, a descoberta fundamental de Freud - o complexo de Édipo, pivô de toda neurose. Pois, embora, na concepção de M. Klein a criança vive um Édipo precocemente (pré-Édipo) nas suas primeiras relações objetais com o seio, e por volta de um a três anos de idade, a estrutura da personalidade e os principais núcleos do caráter do adulto já estejam formados, e que, a entrada no “drama do Édipo”, (entre os quatro e seis anos de idade) não seja mais uma “AVANTE PREMIÉRE”.
Tendo em vista que este se fará não mais em primeira mão, mas de acordo com algo já vivido, ou seja, de acordo com o registro simbólico das primeiras relações com o seio materno. Porém, esse conhecimento não deve ser usado para encobrir e renegar a importância da problemática do complexo de Édipo (quando não resolvida) e sua relação com a paternidade; como fator causador de neurose. Pois, enquanto a figura da mãe é pré-concebida, simbolicamente como um pólo acolhedor, refúgio, continência e espaço, a do pai, além de ser pólo social, é tão somente concebida na experiência relacional.



Alguém já disse que o caminhar errante dos andarilhos simboliza o anseio de encontrar este objeto que se perdeu, a mãe, já a do pai, apesar de quase sempre, possuir um registro simbólico de pólo-censor na dinâmica familiar, pelo menos nas sociedades, onde o patriarcado é dominante - seja como introdutor de leis, na família e na sociedade, seja como fundante e fomentador de cultura; representa também contato com a realidade externa e com o desempenho social. O pai é simbolizado em todas as culturas como guia, protetor e comunicador social. Nas religiões representa o estruturador das leis como também das proibições, enquanto a mãe é a igreja, o templo, o sagrado - o imaculado. De forma que, na dinâmica de uma família, a mãe deve ter o cuidado para não se tornar uma intermediária nas relações dos filhos com o pai e vice-versa. Deve deixar que estas se façam diretamente. Deve deixar que os filhos e o pai se comuniquem diretamente. Pois, neste campo não há necessidade de intermediários. Isto porque, qualquer intermediação cria quase sempre inibição e dificuldade no desempenho social. Ainda; a figura paterna ao irromper na relação dual e simbiótica (mãe-filho), rompe com esta e cria a relação triangular - berço de toda concepção de família, e a possibilidade de independência e liberdade, em oposição, a relação com a mãe que representa refúgio e acolhimento, mas também dependência.



Não é sem sentido que as mães quase sempre, quando vão admoestar seus filhos, faz alusão a figura paterna: não façam isso se não eu conto para seu pai, ou então: quando seu pai chegar eu contarei para ele o que você fez... Desta forma e inconscientemente, o pai vai penetrando na mente da criança como um introdutor de leis, de proibições, mas também entra como um elo de ligação com a realidade externa e com o social. Muitas mães, no entanto, são mães fálicas, castradoras e dominadoras na relação com o marido e, em razão disso se tornam elas próprias as introdutoras das leis. Algumas chegam até a fazer inconscientemente um conluio com o filho, outras fazem isto até conscientemente, o superprotegendo e destruindo a autoridade paterna. Mas, o produto que resulta deste conluio é quase sempre: perversão, psicopatia, sociopatia, doença mental...



Contudo, quando a figura do pai é fraca e desvalorizada, no seio da família; ou porque é um alcoólatra, um irresponsável, um pusilânime, ou porque é um pai ausente da relação emocional com o próprio filho, a criança encontra dificuldade de fazer identificação com o mesmo e conseqüentemente não consegue estabelecê-lo dentro de si, como modelo ou como guia... Como um superego adequado ao seu desenvolvimento emocional e como representante de um código de ética e de moralidade necessários ao estabelecimento de sua personalidade individual sadia. Quando, ao contrário, predomina uma grande severidade na introdução das leis, através de uma figura paterna autoritária e muitas vezes cruel, isto repercute negativamente na mente da criança e posteriormente na do adulto, tornando-o inibido e frágil diante de figuras que representam autoridade ou poder. Por outro lado à indulgência excessiva leva o indivíduo ao egoísmo.


Dr. Pedro Carlos Primo - Médico Psiquiatra e Psicanalista



*Membro Titular da Associação Brasileira de Psiquiatria e da Associação Brasileira de Medicina Psicossomática.

*Membro Associado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP)

*Membro Titular da International Psychoanlytical Association (IPA), mestrando, em saúde mental pela Universidade de León, Espanha.

*Diretor Fundador do Instituto Persona: Psicoterapias, Orientação Social e Psiquiatria Dinâmica/Presidente Prudente – SP.

*Presidente do Departamento de Neurologia e Psiquiatria da Sociedade de Medicina de Presidente Prudente, de agosto de 1979 a agosto de 1981.

*Primeiro Secretário da Sociedade de Medicina de Presidente Prudente, de outubro de 1979 a outubro de 1981.

*Organizador e Presidente da Primeira Jornada de Medicina Psicossomática, realizada em Presidente Prudente/1979. Organizador e Presidente do Primeiro fórum Brasileiro de Medicina da Pessoa, realizado em Presidente Prudente/1981.

*Coordenador do Simpósio sobre Mitologia e Psicanálise, promovido pelo Centro de Estudos Psicanalíticos (CEP) de Presidente Prudente/1989.

*Fundador e Presidente do Núcleo de Psicanálise de Presidente Prudente e Região (NUPSI-PPR).

*Fundador da Associação Brasileira de Medicina Psicossomática, Secção Regional de Presidente Prudente e seu Primeiro Presidente, nos períodos de julho/1979 a julho/1981 e de julho /1981 a julho/1983.

*Organizador e Presidente da Primeira Jornada sobre Sexualidade Feminina, realizada em Presidente Prudente/1983.

*Conselheiro da Associação Brasileira de Medicina Psicossomática, de abril de 1984 a abril de 1986.





(a imagem e o artigo do autor foram retirados do site: http://www.institutotelepsi.med.br/)

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Tenho fases...


Tenho fases (tantas fases...)
Em que fazendo o que faço,
Me esqueço de ser quem sou,
Me dou toda num abraço...
Tenho fases (outras fases...)
Em que me ponho a pensar,
Me esqueço de que me dou,
Fico em "molho de luar".

Tenho fases de saber
E fases de duvidar.
Sou, numas fases, mulher,
Noutras sou o que inventar...

Na maioria das vezes
A fase que me domina
É a fase dos revezes
Em que volto a ser menina.

Faço dos quartos da lua
O meu quarto-de-sonhar,
A minha sala é a rua
Em pura ascese lunar.

Tenho fases de saber
E fases de duvidar.
Sou, numas fases, mulher,
Noutras sou o que inventar...

Mas por mais que me divida
Em quartos lunares, marés,
Por mais que percorra a vida
E o mundo de lés-a-lés,
Só na lua é que descanso,
Só na lua é que me encontro...

Aspiro, neste remanso,
A deixar no mundo um ponto:
Partir sabendo quem és...

Tenho fases de saber
E fases de duvidar.
Sou, numas fases, mulher,
Noutras sou o que inventar...




(FASES DA LUA II por Maria João Brito de Sousa)

quarta-feira, 15 de abril de 2009

GRANDES TEMAS MITOLÓGICOS - CORPO E ALMA


Espírito e vida após a morte

Em todos os lugares, a imaginação mitológica tende a ver o mundo visível da vida cotidiana como contendo, ou de alguma forma associado a, uma essência invisível que poderia ser chamada de "alma" ou "espírito". No caso de objetos poderosos como o sol, a essência da alma ou do espírito é facilmente considerada como uma divindade especialmente potente. Similarmente atribui-se alma à lua, à terra e a características espetaculares da paisagem como montanhas, lagos ou mesmo árvores grandes.

Às vezes, a contrapartida do espírito invisível do mundo cotidiano é imaginada como um lugar à parte. Mitos melanésios com freqüência apresentam eventos em um mundo especular localizado no nível subterrâneo. A tradição celta fala de um Outromundo, um local de magia, mistério e perigo no qual se pode entrar por meio de cavernas ou lagos e que às vezes se localiza no oeste. Apesar dos perigos impostos a mortais comuns que se aventurem por esse mundo oculto, ele é descrito como um lugar de felicidade infinita e juventude eterna.

A alma humana muitas vezes é imaginada como uma cópia normalmente invisível do corpo visível, sendo às vezes chamada de "sombra". O folclore germânico faz menção freqüente a esse misterioso "duplo", ou doppelgänger, que tem o hábito desconcertante de se manifestar de repente, muitas vezes distante de sua contrapartida material. Por toda a África, supõe-se que feiticeiras infligem ferimento e morte atacando invisivelmente as almas ou sombras de suas vítimas, causando dano paralelo ao corpo físico.



A jornada da alma

Inúmeras tradições descrevem a jornada da alma humana após a morte como uma descida ao mundo subterrâneo, o reino dos mortos. Em muitas partes da África, acredita-se que as almas dos que partiram passem um certo tempo nesse mundo subterrâneo antes de resolver renascer no mundo superior da vida humana. Outras tradições falam da provação de um terrível julgamento que aguarda a alma recém-partida. No mito japonês, aqueles considerados culpados de pecados graves são mandados para uma das dezesseis regiões de um domínio infernal chamado Jigoku.

Os mitos do antigo Egito pintam um quadro vivido da alma sendo examinada por 42 juízes na sala do trono de Osíris, senhor do mundo dos mortos. Aqueles que não conseguem provar que tiveram vidas virtuosas são devorados por um monstro; porém, as almas afortunadas que passam no teste quando seus corações ou consciências são pesados contra a pluma da deusa Maat, divindade da justiça e da verdade, juntam-se aos deuses em sua eterna batalha contra a serpente do caos, Apep.

A tradição grega situa o mundo subterrâneo além do grande rio denominado Oceano, que circunda o mundo, ou nas profundezas da terra. Para chegar ao domínio chamado Hades (que também era o nome de seu soberano divino, um irmão de Zeus), as almas recém-desencarnadas têm de ser transportadas de barco no rio Estígio por Caronte, o barqueiro do inferno. Lá chegando, como no Egito, as almas eram julgadas e então, conforme o caso, punidas ou recompensadas.

A jornada da alma muitas vezes é assegurada pelos vivos. Por exemplo, os mortos gregos e romanos recebiam não só dinheiro para a travessia de barco no Estígio, mas também confeitos para Cérbero, o aterrorizante cão de três cabeças que guardava a entrada de Hades.



Reencarnação

Em muitos sistemas míticos, alguma forma de rejuvenescimento seguia a estada da alma no reino dos mortos. Na África em geral, supõe-se que as almas renascem no grupo familiar ou clã ao qual pertenciam na vida pregressa. Nas civilizações orientais influenciadas pela filosofia hindu e budista, comumente se acredita que o destino na reencarnação depende da conduta da pessoa em suas vidas passadas: os bons são recompensados com a encarnação em castas ou grupos sociais mais elevados; os maus vão para grupos de baixo status ou viram animais. Inversamente, afirma-se que animais especialmente virtuosos podem reencarnar como seres humanos.



Captura da alma

Entre os povos das florestas da América do Sul e das ilhas do Sudeste Asiático, acredita-se comumente que a alma reside na cabeça humana e que é possível capturar a alma de outra pessoa quando essa parte da anatomia é cortada e processada ritualmente. Daí o costume de caçar cabeças nessas regiões e a abundância de mitos sobre o assunto. O canibalismo na América do Sul pode ser similarmente agressivo, mas também pode ser usado como meio de absorver as qualidades espirituais vitais de parentes falecidos.



Os vivos e os mortos

Na crença celta, o mundo dos vivos fica mais próximo do mundo dos mortos durante as horas de escuridão. Uma pessoa nascida à noite poderia ver espectros e fantasmas. Na Irlanda rural, qualquer um que se aventure pela noite pode ver as "gentinhas" e encontrar seus próprios parentes mortos entre elas. Os mortos podem perturbar os vivos em certas épocas específicas do ano. Na Escócia, o Halloween é tradicionalmente celebrado por meninos chamados guysers, que circulam com o rosto pintado de preto, representando os espíritos dos mortos e pedindo presentes. Os budistas chineses celebram um Festival de Almas Errantes, que visa a aliviar o sofrimento dos mortos intranqüilos.




Xamãs e transformistas

Em sociedades tribais mundo afora, há especialistas reconhecidos na exploração do mundo invisível dos espíritos. Esses peritos, que geralmente usam suas descobertas para benefício de seus entes próximos, são chamados de "xamãs"- uma palavra derivada do povo tungus- da Sibéria. Muitos mitos se originam de jornadas xamanísticas pelo mundo dos espíritos, durante as quais os xamãs tipicamente encontram e conversam com seres espirituais que, com freqüência, estão em forma animal. Diz-se que o xamã sai do corpo quando está em estado de transe induzido por drogas psicotrópicas ou pelo som ritmado de um tambor ou chocalho. Xamãs no mundo todo contam histórias semelhantes sobre subir ou descer por um pilar místico ou eixo para explorar as regiões superiores e inferiores do cosmo. Muitas vezes esse pilar ou eixo é imaginado em forma de uma árvore que sai do mundo subterrâneo até o céu. Nesses reinos invisíveis acima e abaixo do mundo visível da vida diária, o xamã fica livre das limitações de tempo, espaço e identidade pessoal. Pode ainda assumir os atributos de poderosos animais: a águia ou o urso na América do Norte e no norte da Ásia, o jaguar nas Américas Central e do Sul, o leão e o leopardo na África.



Viagens oníricas

Muitos povos tribais acreditam que a alma humana sai temporariamente do corpo durante o estado onírico, vagando por outros mundos e encontrando outras almas, incluindo aquelas dos mortos. Essas viagens noturnas têm fornecido bastante material para a construção de mitos. Na América do Norte e no Sudeste Asiático, considera-se que essas viagens expõem a alma errante ao perigo da abdução por um feiticeiro ou espírito maligno; quando isso acontece, xamãs locais procuram recuperar a alma perdida.



Pós-vida

A geografia do paraíso varia muito de cultura para cultura. No mito japonês, Amer fica acima da terra, banhado por um rio calmo, que é a Via Láctea; em outros casos, o cenário lembra aquele da terra, embora numa escala ampliada. Valhala, morada celeste dos guerreiros nórdicos, era um enorme saguão com nada menos do que 540 portas. Todo dia, os guerreiros saíam do saguão armados e passavam a manhã combatendo entre si de forma prazerosa. No início da noite, voltavam para o grande saguão e se reanimavam com um banquete e taças de hidromel divino que lhes era servido pelas donzelas celestiais, as valquírias. Em algumas tradições, o reino celestial situa-se no mesmo plano que a terra. Um mito eslavo fala de uma terra bem-aventurada dos mortos localizada no leste, além do nascer do sol; já as ilhas celtas dos benditos ficavam no oeste. Com freqüência, uma perigosa viagem por água deve ser empreendida antes de o paraíso ser alcançado.




(por Roy Willis, livro: Mitologias- Deuses, heróis e xamãs nas tradições e lendas de todo mundo)

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Sê inteiro...


Para ser grande, sê inteiro:
nada teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa.
Põe quanto és no mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.


Fernando Pessoa

terça-feira, 7 de abril de 2009

Mitos... por Nise da Silveira


Que significação poderá ter para o homem, da era atômica a narração dos feitos de deuses nos quais ele não crê, ou das aventuras de heróis que os atuais astronautas ultrapassaram? Nenhuma, aparentemente. Entretanto os mitos continuam a fascinar. Os estudos e as pesquisas recentes no campo da mitologia multiplicam-se, conduzidos não só por psicólogos mas igualmente por antropólogos e sociólogos. Mesmo livros de qualidade duvidosa, pseudo-científicos e romanceados, desde que tratem de mitos, encontram sempre público ávido. Este interesse crescente por temas que se desenvolvem num plano tão distante da realidade pragmática de nossos dias dará alguma indicação sobre à psicologia do homem ocidental moderno? Será talvez um fenômeno de compensação ao extremado racionalismo de nossa época? O leitor poderia deter-se aqui, um instante, considerando estas perguntas.



A mais antiga das interpretações da mitologia é o evhemerismo (Evhemero, filósofo grego do IV século antes de Cristo). Os mitos seriam a transposição de acontecimentos históricos e de seus personagens para a categoria divina. Ainda no século XIX houve mitólogos que continuaram sustentando que a mitologia grega era a história de épocas remotas, elaborada pelos sacerdotes, com a íntenção deliberada de transformar heróis humanos em deuses.

Outra maneira de interpretar os mitos foi entendê-los como alegorias de fenômenos da natureza que o homem esforçava-se para compreender. É a teoria naturalista. Originária também da antigüidade grega, esta teoria foi defendida até começos do século XX e talvez conte ainda hoje partidários.



A abordagem do mito pelos especialistas modernos é muito diversa, Estes não os consideram narrações históricas reelaboradas fantasiosamente, nem tão pouco tentativas para explicar fenómenos da natureza. Os mitólogos modernos vêm no mito a expressão de formas de vida, de estruturas de existência ou seja de modelos que permitem ao homem inserir-se na realidade. São modelos exemplares de todas as atividades humanas significativas. Os mitos, nas sociedades primitivas, escreve Malinowski, «são a expressão de uma realidade original mais poderosa e mais importante através da qual a vida presente, o destino e os trabalhos da humanidade são governados.»

A interpretação que Jung faz dos mitos acrescenta aos conceitos dos especialistas modernos dimensões mais profundas. Segundo Jung «os mitos são principalmente fenômenos psíquicos que revelam a própria natureza da psique». Resultam da tendência incoersível do inconsciente para projetar as ocorrências internas, que se desdobram invisivelmente no seu íntimo, sobre os fenômenos do mundo exterior, traduzindo-as em imagens. Assim, «não basta ao primitivo ver o nascer e o por do sol; esta observação externa será ao mesmo tempo um acontecimento psíquico: o sol no seu curso representará o destino de um deus ou herói que, em última análise, habita na alma do homem.




Os mitos condensam experiências vividas repetidamente durante milênios, experiências típicas pelas quais passaram (e ainda passam) os humanos. Por isso temas idênticos são encontrados nos lugares mais distantes e mais diversos. A partir desses materiais básicos é que sacerdotes e poetas elaboram os mitos, dando-lhes roupagens diferentes, segundo as épocas e as culturas.

Tomemos para exemplo o mito do dragão-baleia. Em suas numerosíssimas versões este mito segue um curso constante. Na primeira etapa o herói, respondendo ao apelo da aventura, desvincula-se dos laços da família e das rotinas fáceis da vida cotidiana. Enfrenta perigos terríveis. Acaba sendo devorado por uma baleia monstruosa, o que significa mergulhar no inconsciente, no mundo ardente dos desejos, das emoções, dos instintos, onde coexistem toda sorte de escórias junto a valores preciosos. Ai dentro ele faz «a travessia marítima noturna». A saída do herói através da guelra da baleia simboliza sua libertação das trevas da inconsciência. Ele conseguiu escapar do redemoinho dos desejos e das emoções. Poderá tomar alguma distância dos tumultuosos acontecimentos que antes o arrastavam como a um autômato. Pensa, raciocina, renasce num nível superior de consciência. O mito encarna o ideal da todo ser humano: a conquista da própria individualidade.



Entretanto, diz Jung, a eficácia do feito heróico tem breve duração. Os sofrimentos do herói renovam-se incessantemente pois, se de uma parte o atrai a conquista de níveis de consciência mais altos, de outra parte: também o fascina a volta ao inconsciente que tem as seduções do abraço materno. Ele sofre, dividido por forças opostas. A luta pela vitoria da consciência é o eterno combate de todo homem.

Em muitas versões deste mito, principalmente nas mais antigas, o homem que encarna o herói apresenta-se dotado de audácia e valentia extraordinárias, mas noutras versões ele é uma pessoa comum. Não aspira realizar façanhas invulgares. E quando o apelo faz-se sentir, resiste, como sucedeu no caso de Jonas. Ir pregar em Nivive, a esplendorosa e devassa capital da Assiria, conforme lhe ordenava a Grande Voz? Jamais ousaria tanto. Fugiu para Tharsis numa tentativa de escapar de si mesmo.

Mas a tempestade se levanta, Jonas é lançado ao mar. engolido pela baleia e três dias e três noites depois é depositado pelo animal exatamente nas proximidades de Nivive. Jonas não conseguiu desertar.

Outros lançam-se à aventura, porém uma vez engolidos pelo dragão-baleia não conseguem sair de seu ventre. São destroçados ou perdem-se nos labirintos escuros das entranhas do monstro (esquizofrenia).

O regresso é sempre difícil e freqüentemente só se processa com ajudas imprevistas (fio de Ariana para Teseu, assistência de Minerva para Jasão, socorro- de Jeová para Jonas).

A volta do herói, ou daquele que foi levado, por circunstâncias diversas, a viver o papel do herói, é sempre um triunfo. Símbolos solares (pássaros) freqüentemente dão ênfase ao acontecimento indicando por sua presença que a saída do herói do ventre do monstro equivale ao nascer do sol, isto é, equivale a nascer de novo.

Os temas míticos não são encontrados somente nas mitologias dos povos antigos ou entre grupos humanos primitivos. Não mitos de contexto coordenado e elaborado, mas componentes típicos de mitos continuam emergindo do inconsciente, cada noite, nos sonhos de homens, mulheres e crianças contemporâneos. Surgem reativados pelas condições atuais do sonhador que despertam ressonâncias de experiências semelhantes já vividas pela espécie humana. Outras produções do inconsciente, tais como visões, alucinações, delírios, trazem sempre de permeio componentes míticos. A constatação repetida dessas ocorrências, sem que conhecimentos anteriores os pudessem explicar, levou Jung a admitir que devem estar presentes na profundeza do inconsciente os moldes básicos para a formação dos mitos (arquétipos).

No curso da análise psicológica muitas vezes surgem sonhos e fantasias figurando personagens e situações míticas que são adequadas representações da condição psíquica atual do sonhador e mesmo de suas perspectivas futuras.



Por exemplo, não é raro que o mito do herói, citado acima, apresente-se sob aspectos vários e que típicos perigos míticos (encontro com monstros, viagens marítimas tempestuosas, etc.) sejam vivenciados em sonhos. A epifania interior do herói, assinala Jung, tem conseqüências na vida real. É acompanhada de fenômenos de inflação: o indivíduo passa a julgar-se dotado de altas qualidades, sente-se superior aos demais; ou então a impossibilidade de satisfazer pretensões excessivas demonstra ao indivíduo a própria interioridade e ele assume o papel de sofredor heróico. Estes são fatos de observação corrente. Se. através do trabalho analítico, os processos inconscientes chegarem a ser confrontados e o ego despojar-se da identificação com a imagem arquetipica do herói, «abre-se a possibilidade para a síntese de elementos de conhecimento e de ação do consciente e do inconsciente. Isso por sua vez conduz ao deslocamento do centro da personalidade do ego para o self» (Jung).

Sem a ajuda da mitologia, nunca serão entendidos grande parte dos delírios e alucinações dos psicóticos. Inutilmente procuraremos encontrar a origem de todas as idéias fantásticas dos loucos em suas experiências individuais. Muita coisa escapará inevitavelmente às buscas nesta direção pois, nas psicoses, a inundação do campo da consciência pelo inconsciente traz de roldão conteúdos oriundos de suas camadas mais profundas, de seus fundamentos estruturais, conteúdos que são precisamente os materiais básicos dosmitos.

Do ponto de vista da psicologia analítica, portanto, o estudo da mitologia não será diletantismo de eruditos. Fará parte indispensável do equipamento de trabalho de todo psicoterapeuta.


(por Nise da Silveira)


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Nise da Silveira (1906-1999) foi uma renomada médica psiquiatra brasileira, aluna de Carl Jung.

Dedicou sua vida à psiquiatria e manifestou-se radicalmente contrária às formas agressivas de tratamento de sua época, tais como o confinamento em hospitais psiquiátricos, eletrochoque, insulinoterapia e lobotomia.


Formação

Sua formação básica realiza-se em um colégio de freiras exclusivo para meninas. Seu pai foi jornalista e diretor do "Jornal de Alagoas".

De 1921 a 1926 cursa a Faculdade de Medicina da Bahia, onde formou-se como a única mulher entre os 157 homens desta turma. Está entre as primeiras mulheres no Brasil a se formar em Medicina. Casa-se nesta época com o sanitarista Mário Magalhães da Silveira, seu colega de turma na faculdade, com quem vive até seu falecimento em 1986. Em seu trabalho ele aponta as relações entre pobreza, desigualdade, promoção da saúde e prevenção da doença no Brasil.

Em 1927, após o falecimento de seu pai, ambos mudam-se para o Rio de Janeiro, onde engajou-se nos meio artístico e literário.

Em 1933 estagia na clínica neurológica de Antônio Austregésilo.

Aprovada aos 27 anos num concurso para psiquiatra, em 1933 começou a trabalhar no Serviço de Assistência a Psicopatas e Profilaxia Mental do Hospital da Praia Vermelha.


Centro Psiquiátrico do Engenho de Dentro

Em 1944 é reintegrada ao serviço público e inicia seu trabalho no "Centro Psiquiátrico Nacional Pedro II", no Engenho de Dentro, no Rio de Janeiro, onde retoma sua luta contra as técnicas psiquiatricas que considera agressivas aos pacientes.

Por sua discordância com os métodos adotados nas enfermarias, recusando-se a aplicar eletrochoques em pacientes, Nise da Silveira é transferida para o trabalho com terapia ocupacional, atividade então menosprezada pelos médicos. Assim em 1946 funda nesta instituição a "Seção de Terapêutica Ocupacional".

No lugar das tradicionais tarefas de limpeza e manutenção que os pacientes exerciam sob o título de terapia ocupacional, ela cria ateliês de pintura e modelagem com a intenção de possibilitar aos doentes reatar seus vínculos com a realidade através da expressão simbólica e da criatividade, revolucionando a Psiquiatria então praticada no país.



O Museu de Imagens do Inconsciente

Em 1952, ela funda o Museu de Imagens do Inconsciente, no Rio de Janeiro, um centro de estudo e pesquisa destinado à preservação dos trabalhos produzidos nos estúdios de modelagem e pintura que criou na instituição, valorizando-os como documentos que abrem novas possibilidades para uma compreensão mais profunda do universo interior do esquizofrênico.

Entre outros artistas-pacientes que criaram obras incorporadas na coleção desta instituição podemos citar: Adelina Gomes; Carlos Pertuis; Emygdio de Barros, e Octávio Inácio.

Este valioso acervo alimentou a escrita de seu livro "Imagens do Inconsciente", filmes e exposições, participando de exposições significativas, como a "Mostra Brasil 500 Anos".

Entre 1983 e 1985 o cineasta Leon Hirszman realizou o filme "Imagens do Inconsciente", trilogia mostrando obras realizadas pelos internos a partir de um roteiro criado por Nise da Silveira.

A Casa das Palmeiras Poucos anos depois da fundação do museu, em 1956, Nise desenvolve outro projeto também revolucionário para sua época: cria a Casa das Palmeiras, uma clínica voltada à reabilitação de antigos pacientes de instituições psiquiátricas.

Neste local podem diariamente expressar sua criatividade, sendo tratados como pacientes externos numa etapa intermediária entre a rotina hospitalar e sua reintegração à vida em sociedade.



Pioneira da psicologia junguiana no Brasil

Através do conjunto de seu trabalho, Nise da Silveira introduziu e divulgou no Brasil a psicologia junguiana.

Interessada em seu estudo sobre os mandalas, tema recorrente nas pinturas de seus pacientes, ela escreveu em 1954 a Carl Gustav Jung, iniciando uma proveitosa troca de correspondência.

Jung a estimulou a apresentar uma mostra das obras de seus pacientes que recebeu o nome "A Arte e a Esquizofrenia", ocupando cinco salas no "II Congresso Internacional de Psiquiatria", realizado em 1957, em Zurique. Ao visitar com ela a exposição, a orientou a estudar mitologia como uma chave para a compreensão dos trabalhos criados pelos internos.

Nise da Silveira estudou no "Instituto Carl Gustav Jung" em dois períodos: de 1957 a 1958; e de 1961 a 1962. Lá recebeu supervisão em psicanálise da assistente de Jung, Marie-Louise von Franz.

Retornando ao Brasil após seu primeiro período de estudos jungianos, formou em sua residência o "Grupo de Estudos Carl Jung", que presidiu até 1968.

Escreveu, dentre outros, o livro “Jung: vida e obra”, publicado em primeira edição em 1968.



Reconhecimento internacional

Foi membro fundadora da Sociedade Internacional de Expressão Psicopatológica ("Societé Internationale de Psychopathologie de l'Expression"), sediada em Paris.

Sua pesquisa em terapia ocupacional e o entendimento do processo psiquiátrico através das imagens do inconsciente deram origem a diversas exibições, filmes, documentários, audiovisuais, cursos, simpósios, publicações e conferências.

Em reconhecimento a seu trabalho, Nise foi agraciada com diversas condecorações, títulos e prêmios em diferentes áreas do conhecimento, entre outras:

- "Ordem do Rio Branco" no Grau de Oficial, pelo Ministério das Relações Exteriores (1987)
- "Prêmio Personalidade do Ano de 1992", da Associação Brasileira de Críticos de Arte
- "Medalha Chico Mendes", do grupo Tortura Nunca Mais (1993)
- "Ordem Nacional do Mérito Educativo", pelo Ministério da Educação e do Desporto (1993)

Seu trabalho e idéias inspiraram a criação de museus, centros culturais e instituições terapêuticas similares às que criou em diversos estados do Brasil e no exterior, por exemplo:

* "Museu Bispo do Rosário", da Colônia Juliano Moreira (Rio de Janeiro)
* "Centro de Estudos Nise da Silveira" (Juiz de Fora, Minas Gerais)
* "Espaço Nise da Silveira" do Núcleo de Atenção Psico-Social (Recife)
* "Núcleo de Atividades Expressivas Nise da Silveira", do Hospital Psiquiátrico São Pedro (Porto Alegre, Rio Grande do Sul)
* a "Associação de Convivência Estudo e Pesquisa Nise da Silveira" (Salvador, Bahia)
* "Centro de Estudos Imagens do Inconsciente", da Universidade do Porto (Portugal)
* a "Association Nise da Silveira - Images de L'Inconscient" (Paris, França)
* "Museo Attivo delle Forme Inconsapevoli" (Genova, Itália)

O antigo "Centro Psiquiátrico Nacional" do Rio de Janeiro recebeu um sua homenagem o nome de "Instituto Municipal Nise da Silveira".







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