terça-feira, 21 de abril de 2009

ESQUIZOFRENIA 1


Análise Junguiana

Desde seus tempos de estudante, Jung era interessado na esquizofrenia (então conhecida como dementia praecox). À medida que desenvolvia seu conceito do inconsciente coletivo e a teoria dos arquétipos, foi-se convencendo de que a psicose em geral e a esquizofrenia em particular poderiam ser explicadas como:

(a) uma dominação do EGO pelos conteúdos do inconsciente coletivo;
(b) a dominação da personalidade por um COMPLEXO ou complexos dissociados.

A implicação básica disso era que uma forma de expressão e comportamento esquizofrênicos poderiam ser significativos, desde que fosse possível descobrir aquilo que significavam. Foi onde a técnica da ASSOCIAÇÃO foi usada pela primeira vez e, posteriormente, a AMPLIFICAÇÃO como um método de ver o material clínico num contexto de motivos culturais e religiosos. Isso levou, firme e decisivamente, ao rompimento com Freud, que ocorreu com a publicação de Symbols of Transformation (Símbolos da Transformação), uma análise mediante associação e amplificação do prelúdio de um caso de esquizofrenia.



Mas, e quanto à origem da esquizofrenia? A evolução do pensamento de Jung revela sua incerteza. Ele está seguro de que a esquizofrenia é um distúrbio psicossomático, de que mudanças na química do corpo e distorções da personalidade estão de alguma forma interligadas. A questão era saber quais destas deveriam ser consideradas primárias.

O chefe de Jung, Bleuler, pensava que algum tipo de toxina ou veneno era desenvolvido pelo corpo, que então acarretava um distúrbio psicológico. A contribuição básica de Jung foi reavaliar a importância da PSIQUE o suficiente para inverter os elementos: a atividade psicológica pode levar a mudanças somáticas. Porém, Jung tentou combinar suas idéias com as de Bleuler, mediante o uso de uma engenhosa fórmula. Conquanto a misteriosa toxina pudesse existir perfeitamente em todos nós, somente teria seu efeito devastador se circunstâncias psicológicas fossem favoráveis para isso. Alternativamente, uma pessoa poderia ser geneticamente predisposta a desenvolver a toxina e este fator estaria ligado inevitavelmente a um ou mais complexos.



Afirmar que a esquizofrenia poderia ser qualquer coisa diferente de uma anormalidade neurológica inata era, em seu tempo, revolucionário. Postular uma causa psicogênica em uma estrutura psicossomática geral possibilitou-lhe propor tratamento psicológico (PSICOTERAPIA) como apropriado. A decodificação da comunicação esquizofrênica e tratamento em um milieu terapêutico formam linhas centrais na abordagem existencial-analítica desenvolvida por Binswanger (1945), Laing (1967) e, até certo ponto, são detectáveis nas tendências psiquiátricas contemporâneas.

Uma abordagem contemporânea e controvertida da esquizofrenia é a idéia de que a esquizofrenia não é realmente uma doença, mas, antes, uma medida daquilo que nossa sociedade considera normal e tolerável. Daí, como sugerem psiquiatras que se opõem à psiquiatria convencional, não é nada mais que uma classificação psiquiátrica: o mapa não é o território. O pensamento de Jung não vai tão longe assim, porém ele sublinhava que a “psicose latente” era muito mais prevalente do que em geral se admite e que o “normal” jamais é um termo suficientemente descritivo de um indivíduo. Uma nova discriminação, também sintônica com a opinião contemporânea, é que uma aparente falência nervosa de fato poderia ser uma forma de falência das defesas, um prelúdio iniciatório necessário para um novo desenvolvimento.

A experiência clínica de Jung com a esquizofrenia parece ter sido, principalmente, com sua forma “produtiva” (delírios, graves perturbações de pensamento, idéias de referência, etc.). Ele não escreve muita coisa sobre o característico “embotamento afetivo” esquizofrênico, tão marcante, hoje, em hospitais psiquiátricos. Sabe-se que as doenças mentais mudam de características de acordo com as transformações culturais – é uma razão por que sua existência é contestada. Por exemplo, o predomínio de paralisias histéricas na Alemanha e na Áustria durante os anos de 1890 podia ter algo a ver com a introdução de esquemas de seguro para acidentes ferroviários naquela época.



Uma fuga esquizofrênica pode ser considerada uma reação à ausência de significado e alienação da sociedade industrial moderna e, em particular, à experiência de uma extrema privação psicológica conseqüente à pobreza. Em circunstâncias socialmente empobrecidas, o esforço exigido para se manter vigilância sobre o inconsciente, por assim dizer, significa que qualquer espécie de emoção é reprimida ou dissociada da personalidade. O elemento de depressão em tal “psicose situacional aguda” também é algo não explorado por Jung. Aqui, precisamos lê-lo como um homem de seu tempo.

Diversos psicólogos analíticos (por exemplo, Perry, 1962; Redfearn, 1978) aplicaram referencial teórico desenvolvimentista à esquizofrenia. Os conteúdos da mente esquizofrênica permanecem arquetípicos em virtude da falha da mãe em ser mediadora deles para seu bebê – isto é, em reduzi-lo de algum modo a uma escala humana de modo que possam ser integrados. Eis por que o “embotamento” aparece como uma forma inconsciente de autocontrole. Trabalhar com pacientes esquizofrênicos ou gravemente perturbados requer do analista fazer uso considerável de sua contratransferência.




(Fonte: retirado do site sobre Análise Junguiana www.rubedo.psc.br)

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