quarta-feira, 15 de abril de 2009

GRANDES TEMAS MITOLÓGICOS - CORPO E ALMA


Espírito e vida após a morte

Em todos os lugares, a imaginação mitológica tende a ver o mundo visível da vida cotidiana como contendo, ou de alguma forma associado a, uma essência invisível que poderia ser chamada de "alma" ou "espírito". No caso de objetos poderosos como o sol, a essência da alma ou do espírito é facilmente considerada como uma divindade especialmente potente. Similarmente atribui-se alma à lua, à terra e a características espetaculares da paisagem como montanhas, lagos ou mesmo árvores grandes.

Às vezes, a contrapartida do espírito invisível do mundo cotidiano é imaginada como um lugar à parte. Mitos melanésios com freqüência apresentam eventos em um mundo especular localizado no nível subterrâneo. A tradição celta fala de um Outromundo, um local de magia, mistério e perigo no qual se pode entrar por meio de cavernas ou lagos e que às vezes se localiza no oeste. Apesar dos perigos impostos a mortais comuns que se aventurem por esse mundo oculto, ele é descrito como um lugar de felicidade infinita e juventude eterna.

A alma humana muitas vezes é imaginada como uma cópia normalmente invisível do corpo visível, sendo às vezes chamada de "sombra". O folclore germânico faz menção freqüente a esse misterioso "duplo", ou doppelgänger, que tem o hábito desconcertante de se manifestar de repente, muitas vezes distante de sua contrapartida material. Por toda a África, supõe-se que feiticeiras infligem ferimento e morte atacando invisivelmente as almas ou sombras de suas vítimas, causando dano paralelo ao corpo físico.



A jornada da alma

Inúmeras tradições descrevem a jornada da alma humana após a morte como uma descida ao mundo subterrâneo, o reino dos mortos. Em muitas partes da África, acredita-se que as almas dos que partiram passem um certo tempo nesse mundo subterrâneo antes de resolver renascer no mundo superior da vida humana. Outras tradições falam da provação de um terrível julgamento que aguarda a alma recém-partida. No mito japonês, aqueles considerados culpados de pecados graves são mandados para uma das dezesseis regiões de um domínio infernal chamado Jigoku.

Os mitos do antigo Egito pintam um quadro vivido da alma sendo examinada por 42 juízes na sala do trono de Osíris, senhor do mundo dos mortos. Aqueles que não conseguem provar que tiveram vidas virtuosas são devorados por um monstro; porém, as almas afortunadas que passam no teste quando seus corações ou consciências são pesados contra a pluma da deusa Maat, divindade da justiça e da verdade, juntam-se aos deuses em sua eterna batalha contra a serpente do caos, Apep.

A tradição grega situa o mundo subterrâneo além do grande rio denominado Oceano, que circunda o mundo, ou nas profundezas da terra. Para chegar ao domínio chamado Hades (que também era o nome de seu soberano divino, um irmão de Zeus), as almas recém-desencarnadas têm de ser transportadas de barco no rio Estígio por Caronte, o barqueiro do inferno. Lá chegando, como no Egito, as almas eram julgadas e então, conforme o caso, punidas ou recompensadas.

A jornada da alma muitas vezes é assegurada pelos vivos. Por exemplo, os mortos gregos e romanos recebiam não só dinheiro para a travessia de barco no Estígio, mas também confeitos para Cérbero, o aterrorizante cão de três cabeças que guardava a entrada de Hades.



Reencarnação

Em muitos sistemas míticos, alguma forma de rejuvenescimento seguia a estada da alma no reino dos mortos. Na África em geral, supõe-se que as almas renascem no grupo familiar ou clã ao qual pertenciam na vida pregressa. Nas civilizações orientais influenciadas pela filosofia hindu e budista, comumente se acredita que o destino na reencarnação depende da conduta da pessoa em suas vidas passadas: os bons são recompensados com a encarnação em castas ou grupos sociais mais elevados; os maus vão para grupos de baixo status ou viram animais. Inversamente, afirma-se que animais especialmente virtuosos podem reencarnar como seres humanos.



Captura da alma

Entre os povos das florestas da América do Sul e das ilhas do Sudeste Asiático, acredita-se comumente que a alma reside na cabeça humana e que é possível capturar a alma de outra pessoa quando essa parte da anatomia é cortada e processada ritualmente. Daí o costume de caçar cabeças nessas regiões e a abundância de mitos sobre o assunto. O canibalismo na América do Sul pode ser similarmente agressivo, mas também pode ser usado como meio de absorver as qualidades espirituais vitais de parentes falecidos.



Os vivos e os mortos

Na crença celta, o mundo dos vivos fica mais próximo do mundo dos mortos durante as horas de escuridão. Uma pessoa nascida à noite poderia ver espectros e fantasmas. Na Irlanda rural, qualquer um que se aventure pela noite pode ver as "gentinhas" e encontrar seus próprios parentes mortos entre elas. Os mortos podem perturbar os vivos em certas épocas específicas do ano. Na Escócia, o Halloween é tradicionalmente celebrado por meninos chamados guysers, que circulam com o rosto pintado de preto, representando os espíritos dos mortos e pedindo presentes. Os budistas chineses celebram um Festival de Almas Errantes, que visa a aliviar o sofrimento dos mortos intranqüilos.




Xamãs e transformistas

Em sociedades tribais mundo afora, há especialistas reconhecidos na exploração do mundo invisível dos espíritos. Esses peritos, que geralmente usam suas descobertas para benefício de seus entes próximos, são chamados de "xamãs"- uma palavra derivada do povo tungus- da Sibéria. Muitos mitos se originam de jornadas xamanísticas pelo mundo dos espíritos, durante as quais os xamãs tipicamente encontram e conversam com seres espirituais que, com freqüência, estão em forma animal. Diz-se que o xamã sai do corpo quando está em estado de transe induzido por drogas psicotrópicas ou pelo som ritmado de um tambor ou chocalho. Xamãs no mundo todo contam histórias semelhantes sobre subir ou descer por um pilar místico ou eixo para explorar as regiões superiores e inferiores do cosmo. Muitas vezes esse pilar ou eixo é imaginado em forma de uma árvore que sai do mundo subterrâneo até o céu. Nesses reinos invisíveis acima e abaixo do mundo visível da vida diária, o xamã fica livre das limitações de tempo, espaço e identidade pessoal. Pode ainda assumir os atributos de poderosos animais: a águia ou o urso na América do Norte e no norte da Ásia, o jaguar nas Américas Central e do Sul, o leão e o leopardo na África.



Viagens oníricas

Muitos povos tribais acreditam que a alma humana sai temporariamente do corpo durante o estado onírico, vagando por outros mundos e encontrando outras almas, incluindo aquelas dos mortos. Essas viagens noturnas têm fornecido bastante material para a construção de mitos. Na América do Norte e no Sudeste Asiático, considera-se que essas viagens expõem a alma errante ao perigo da abdução por um feiticeiro ou espírito maligno; quando isso acontece, xamãs locais procuram recuperar a alma perdida.



Pós-vida

A geografia do paraíso varia muito de cultura para cultura. No mito japonês, Amer fica acima da terra, banhado por um rio calmo, que é a Via Láctea; em outros casos, o cenário lembra aquele da terra, embora numa escala ampliada. Valhala, morada celeste dos guerreiros nórdicos, era um enorme saguão com nada menos do que 540 portas. Todo dia, os guerreiros saíam do saguão armados e passavam a manhã combatendo entre si de forma prazerosa. No início da noite, voltavam para o grande saguão e se reanimavam com um banquete e taças de hidromel divino que lhes era servido pelas donzelas celestiais, as valquírias. Em algumas tradições, o reino celestial situa-se no mesmo plano que a terra. Um mito eslavo fala de uma terra bem-aventurada dos mortos localizada no leste, além do nascer do sol; já as ilhas celtas dos benditos ficavam no oeste. Com freqüência, uma perigosa viagem por água deve ser empreendida antes de o paraíso ser alcançado.




(por Roy Willis, livro: Mitologias- Deuses, heróis e xamãs nas tradições e lendas de todo mundo)

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