terça-feira, 7 de abril de 2009

Mitos... por Nise da Silveira


Que significação poderá ter para o homem, da era atômica a narração dos feitos de deuses nos quais ele não crê, ou das aventuras de heróis que os atuais astronautas ultrapassaram? Nenhuma, aparentemente. Entretanto os mitos continuam a fascinar. Os estudos e as pesquisas recentes no campo da mitologia multiplicam-se, conduzidos não só por psicólogos mas igualmente por antropólogos e sociólogos. Mesmo livros de qualidade duvidosa, pseudo-científicos e romanceados, desde que tratem de mitos, encontram sempre público ávido. Este interesse crescente por temas que se desenvolvem num plano tão distante da realidade pragmática de nossos dias dará alguma indicação sobre à psicologia do homem ocidental moderno? Será talvez um fenômeno de compensação ao extremado racionalismo de nossa época? O leitor poderia deter-se aqui, um instante, considerando estas perguntas.



A mais antiga das interpretações da mitologia é o evhemerismo (Evhemero, filósofo grego do IV século antes de Cristo). Os mitos seriam a transposição de acontecimentos históricos e de seus personagens para a categoria divina. Ainda no século XIX houve mitólogos que continuaram sustentando que a mitologia grega era a história de épocas remotas, elaborada pelos sacerdotes, com a íntenção deliberada de transformar heróis humanos em deuses.

Outra maneira de interpretar os mitos foi entendê-los como alegorias de fenômenos da natureza que o homem esforçava-se para compreender. É a teoria naturalista. Originária também da antigüidade grega, esta teoria foi defendida até começos do século XX e talvez conte ainda hoje partidários.



A abordagem do mito pelos especialistas modernos é muito diversa, Estes não os consideram narrações históricas reelaboradas fantasiosamente, nem tão pouco tentativas para explicar fenómenos da natureza. Os mitólogos modernos vêm no mito a expressão de formas de vida, de estruturas de existência ou seja de modelos que permitem ao homem inserir-se na realidade. São modelos exemplares de todas as atividades humanas significativas. Os mitos, nas sociedades primitivas, escreve Malinowski, «são a expressão de uma realidade original mais poderosa e mais importante através da qual a vida presente, o destino e os trabalhos da humanidade são governados.»

A interpretação que Jung faz dos mitos acrescenta aos conceitos dos especialistas modernos dimensões mais profundas. Segundo Jung «os mitos são principalmente fenômenos psíquicos que revelam a própria natureza da psique». Resultam da tendência incoersível do inconsciente para projetar as ocorrências internas, que se desdobram invisivelmente no seu íntimo, sobre os fenômenos do mundo exterior, traduzindo-as em imagens. Assim, «não basta ao primitivo ver o nascer e o por do sol; esta observação externa será ao mesmo tempo um acontecimento psíquico: o sol no seu curso representará o destino de um deus ou herói que, em última análise, habita na alma do homem.




Os mitos condensam experiências vividas repetidamente durante milênios, experiências típicas pelas quais passaram (e ainda passam) os humanos. Por isso temas idênticos são encontrados nos lugares mais distantes e mais diversos. A partir desses materiais básicos é que sacerdotes e poetas elaboram os mitos, dando-lhes roupagens diferentes, segundo as épocas e as culturas.

Tomemos para exemplo o mito do dragão-baleia. Em suas numerosíssimas versões este mito segue um curso constante. Na primeira etapa o herói, respondendo ao apelo da aventura, desvincula-se dos laços da família e das rotinas fáceis da vida cotidiana. Enfrenta perigos terríveis. Acaba sendo devorado por uma baleia monstruosa, o que significa mergulhar no inconsciente, no mundo ardente dos desejos, das emoções, dos instintos, onde coexistem toda sorte de escórias junto a valores preciosos. Ai dentro ele faz «a travessia marítima noturna». A saída do herói através da guelra da baleia simboliza sua libertação das trevas da inconsciência. Ele conseguiu escapar do redemoinho dos desejos e das emoções. Poderá tomar alguma distância dos tumultuosos acontecimentos que antes o arrastavam como a um autômato. Pensa, raciocina, renasce num nível superior de consciência. O mito encarna o ideal da todo ser humano: a conquista da própria individualidade.



Entretanto, diz Jung, a eficácia do feito heróico tem breve duração. Os sofrimentos do herói renovam-se incessantemente pois, se de uma parte o atrai a conquista de níveis de consciência mais altos, de outra parte: também o fascina a volta ao inconsciente que tem as seduções do abraço materno. Ele sofre, dividido por forças opostas. A luta pela vitoria da consciência é o eterno combate de todo homem.

Em muitas versões deste mito, principalmente nas mais antigas, o homem que encarna o herói apresenta-se dotado de audácia e valentia extraordinárias, mas noutras versões ele é uma pessoa comum. Não aspira realizar façanhas invulgares. E quando o apelo faz-se sentir, resiste, como sucedeu no caso de Jonas. Ir pregar em Nivive, a esplendorosa e devassa capital da Assiria, conforme lhe ordenava a Grande Voz? Jamais ousaria tanto. Fugiu para Tharsis numa tentativa de escapar de si mesmo.

Mas a tempestade se levanta, Jonas é lançado ao mar. engolido pela baleia e três dias e três noites depois é depositado pelo animal exatamente nas proximidades de Nivive. Jonas não conseguiu desertar.

Outros lançam-se à aventura, porém uma vez engolidos pelo dragão-baleia não conseguem sair de seu ventre. São destroçados ou perdem-se nos labirintos escuros das entranhas do monstro (esquizofrenia).

O regresso é sempre difícil e freqüentemente só se processa com ajudas imprevistas (fio de Ariana para Teseu, assistência de Minerva para Jasão, socorro- de Jeová para Jonas).

A volta do herói, ou daquele que foi levado, por circunstâncias diversas, a viver o papel do herói, é sempre um triunfo. Símbolos solares (pássaros) freqüentemente dão ênfase ao acontecimento indicando por sua presença que a saída do herói do ventre do monstro equivale ao nascer do sol, isto é, equivale a nascer de novo.

Os temas míticos não são encontrados somente nas mitologias dos povos antigos ou entre grupos humanos primitivos. Não mitos de contexto coordenado e elaborado, mas componentes típicos de mitos continuam emergindo do inconsciente, cada noite, nos sonhos de homens, mulheres e crianças contemporâneos. Surgem reativados pelas condições atuais do sonhador que despertam ressonâncias de experiências semelhantes já vividas pela espécie humana. Outras produções do inconsciente, tais como visões, alucinações, delírios, trazem sempre de permeio componentes míticos. A constatação repetida dessas ocorrências, sem que conhecimentos anteriores os pudessem explicar, levou Jung a admitir que devem estar presentes na profundeza do inconsciente os moldes básicos para a formação dos mitos (arquétipos).

No curso da análise psicológica muitas vezes surgem sonhos e fantasias figurando personagens e situações míticas que são adequadas representações da condição psíquica atual do sonhador e mesmo de suas perspectivas futuras.



Por exemplo, não é raro que o mito do herói, citado acima, apresente-se sob aspectos vários e que típicos perigos míticos (encontro com monstros, viagens marítimas tempestuosas, etc.) sejam vivenciados em sonhos. A epifania interior do herói, assinala Jung, tem conseqüências na vida real. É acompanhada de fenômenos de inflação: o indivíduo passa a julgar-se dotado de altas qualidades, sente-se superior aos demais; ou então a impossibilidade de satisfazer pretensões excessivas demonstra ao indivíduo a própria interioridade e ele assume o papel de sofredor heróico. Estes são fatos de observação corrente. Se. através do trabalho analítico, os processos inconscientes chegarem a ser confrontados e o ego despojar-se da identificação com a imagem arquetipica do herói, «abre-se a possibilidade para a síntese de elementos de conhecimento e de ação do consciente e do inconsciente. Isso por sua vez conduz ao deslocamento do centro da personalidade do ego para o self» (Jung).

Sem a ajuda da mitologia, nunca serão entendidos grande parte dos delírios e alucinações dos psicóticos. Inutilmente procuraremos encontrar a origem de todas as idéias fantásticas dos loucos em suas experiências individuais. Muita coisa escapará inevitavelmente às buscas nesta direção pois, nas psicoses, a inundação do campo da consciência pelo inconsciente traz de roldão conteúdos oriundos de suas camadas mais profundas, de seus fundamentos estruturais, conteúdos que são precisamente os materiais básicos dosmitos.

Do ponto de vista da psicologia analítica, portanto, o estudo da mitologia não será diletantismo de eruditos. Fará parte indispensável do equipamento de trabalho de todo psicoterapeuta.


(por Nise da Silveira)


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Nise da Silveira (1906-1999) foi uma renomada médica psiquiatra brasileira, aluna de Carl Jung.

Dedicou sua vida à psiquiatria e manifestou-se radicalmente contrária às formas agressivas de tratamento de sua época, tais como o confinamento em hospitais psiquiátricos, eletrochoque, insulinoterapia e lobotomia.


Formação

Sua formação básica realiza-se em um colégio de freiras exclusivo para meninas. Seu pai foi jornalista e diretor do "Jornal de Alagoas".

De 1921 a 1926 cursa a Faculdade de Medicina da Bahia, onde formou-se como a única mulher entre os 157 homens desta turma. Está entre as primeiras mulheres no Brasil a se formar em Medicina. Casa-se nesta época com o sanitarista Mário Magalhães da Silveira, seu colega de turma na faculdade, com quem vive até seu falecimento em 1986. Em seu trabalho ele aponta as relações entre pobreza, desigualdade, promoção da saúde e prevenção da doença no Brasil.

Em 1927, após o falecimento de seu pai, ambos mudam-se para o Rio de Janeiro, onde engajou-se nos meio artístico e literário.

Em 1933 estagia na clínica neurológica de Antônio Austregésilo.

Aprovada aos 27 anos num concurso para psiquiatra, em 1933 começou a trabalhar no Serviço de Assistência a Psicopatas e Profilaxia Mental do Hospital da Praia Vermelha.


Centro Psiquiátrico do Engenho de Dentro

Em 1944 é reintegrada ao serviço público e inicia seu trabalho no "Centro Psiquiátrico Nacional Pedro II", no Engenho de Dentro, no Rio de Janeiro, onde retoma sua luta contra as técnicas psiquiatricas que considera agressivas aos pacientes.

Por sua discordância com os métodos adotados nas enfermarias, recusando-se a aplicar eletrochoques em pacientes, Nise da Silveira é transferida para o trabalho com terapia ocupacional, atividade então menosprezada pelos médicos. Assim em 1946 funda nesta instituição a "Seção de Terapêutica Ocupacional".

No lugar das tradicionais tarefas de limpeza e manutenção que os pacientes exerciam sob o título de terapia ocupacional, ela cria ateliês de pintura e modelagem com a intenção de possibilitar aos doentes reatar seus vínculos com a realidade através da expressão simbólica e da criatividade, revolucionando a Psiquiatria então praticada no país.



O Museu de Imagens do Inconsciente

Em 1952, ela funda o Museu de Imagens do Inconsciente, no Rio de Janeiro, um centro de estudo e pesquisa destinado à preservação dos trabalhos produzidos nos estúdios de modelagem e pintura que criou na instituição, valorizando-os como documentos que abrem novas possibilidades para uma compreensão mais profunda do universo interior do esquizofrênico.

Entre outros artistas-pacientes que criaram obras incorporadas na coleção desta instituição podemos citar: Adelina Gomes; Carlos Pertuis; Emygdio de Barros, e Octávio Inácio.

Este valioso acervo alimentou a escrita de seu livro "Imagens do Inconsciente", filmes e exposições, participando de exposições significativas, como a "Mostra Brasil 500 Anos".

Entre 1983 e 1985 o cineasta Leon Hirszman realizou o filme "Imagens do Inconsciente", trilogia mostrando obras realizadas pelos internos a partir de um roteiro criado por Nise da Silveira.

A Casa das Palmeiras Poucos anos depois da fundação do museu, em 1956, Nise desenvolve outro projeto também revolucionário para sua época: cria a Casa das Palmeiras, uma clínica voltada à reabilitação de antigos pacientes de instituições psiquiátricas.

Neste local podem diariamente expressar sua criatividade, sendo tratados como pacientes externos numa etapa intermediária entre a rotina hospitalar e sua reintegração à vida em sociedade.



Pioneira da psicologia junguiana no Brasil

Através do conjunto de seu trabalho, Nise da Silveira introduziu e divulgou no Brasil a psicologia junguiana.

Interessada em seu estudo sobre os mandalas, tema recorrente nas pinturas de seus pacientes, ela escreveu em 1954 a Carl Gustav Jung, iniciando uma proveitosa troca de correspondência.

Jung a estimulou a apresentar uma mostra das obras de seus pacientes que recebeu o nome "A Arte e a Esquizofrenia", ocupando cinco salas no "II Congresso Internacional de Psiquiatria", realizado em 1957, em Zurique. Ao visitar com ela a exposição, a orientou a estudar mitologia como uma chave para a compreensão dos trabalhos criados pelos internos.

Nise da Silveira estudou no "Instituto Carl Gustav Jung" em dois períodos: de 1957 a 1958; e de 1961 a 1962. Lá recebeu supervisão em psicanálise da assistente de Jung, Marie-Louise von Franz.

Retornando ao Brasil após seu primeiro período de estudos jungianos, formou em sua residência o "Grupo de Estudos Carl Jung", que presidiu até 1968.

Escreveu, dentre outros, o livro “Jung: vida e obra”, publicado em primeira edição em 1968.



Reconhecimento internacional

Foi membro fundadora da Sociedade Internacional de Expressão Psicopatológica ("Societé Internationale de Psychopathologie de l'Expression"), sediada em Paris.

Sua pesquisa em terapia ocupacional e o entendimento do processo psiquiátrico através das imagens do inconsciente deram origem a diversas exibições, filmes, documentários, audiovisuais, cursos, simpósios, publicações e conferências.

Em reconhecimento a seu trabalho, Nise foi agraciada com diversas condecorações, títulos e prêmios em diferentes áreas do conhecimento, entre outras:

- "Ordem do Rio Branco" no Grau de Oficial, pelo Ministério das Relações Exteriores (1987)
- "Prêmio Personalidade do Ano de 1992", da Associação Brasileira de Críticos de Arte
- "Medalha Chico Mendes", do grupo Tortura Nunca Mais (1993)
- "Ordem Nacional do Mérito Educativo", pelo Ministério da Educação e do Desporto (1993)

Seu trabalho e idéias inspiraram a criação de museus, centros culturais e instituições terapêuticas similares às que criou em diversos estados do Brasil e no exterior, por exemplo:

* "Museu Bispo do Rosário", da Colônia Juliano Moreira (Rio de Janeiro)
* "Centro de Estudos Nise da Silveira" (Juiz de Fora, Minas Gerais)
* "Espaço Nise da Silveira" do Núcleo de Atenção Psico-Social (Recife)
* "Núcleo de Atividades Expressivas Nise da Silveira", do Hospital Psiquiátrico São Pedro (Porto Alegre, Rio Grande do Sul)
* a "Associação de Convivência Estudo e Pesquisa Nise da Silveira" (Salvador, Bahia)
* "Centro de Estudos Imagens do Inconsciente", da Universidade do Porto (Portugal)
* a "Association Nise da Silveira - Images de L'Inconscient" (Paris, França)
* "Museo Attivo delle Forme Inconsapevoli" (Genova, Itália)

O antigo "Centro Psiquiátrico Nacional" do Rio de Janeiro recebeu um sua homenagem o nome de "Instituto Municipal Nise da Silveira".







(pt.wikipedia.org)

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