sexta-feira, 17 de abril de 2009

A Paternidade


Muito se tem escrito sobre a importância psicológica de uma boa maternagem: aceitação da gravidez, amamentação, cuidados, atenção, receptividade... Enfim, amor, para o desenvolvimento emocional sadio da criança e para a própria formação do caráter do adulto. Constituindo-se também, em medida de higiene mental, no campo da prevenção primária, às futuras desordens psíquicas. O expoente máximo das pesquisas nesta área foi a psicanalista inglesa, Melanie Klein que mostrou a importância fundamental para o psiquismo humano, das primeiras relações do bebê com o seio materno. Com a obra de Klein, os conhecimentos psicanalíticos, sobre a mente humana, recuaram a um período mais primitivo e obscuro do desenvolvimento mental que pareciam inatingíveis, pela pesquisa psicanalítica. Mas, se por um lado, isto foi positivo e representou de fato um avanço para psicanálise, no conhecimento da vida mental do bebê, que habita em cada um de nós. No entanto, por outro, parece estar relegando a um segundo plano, a descoberta fundamental de Freud - o complexo de Édipo, pivô de toda neurose. Pois, embora, na concepção de M. Klein a criança vive um Édipo precocemente (pré-Édipo) nas suas primeiras relações objetais com o seio, e por volta de um a três anos de idade, a estrutura da personalidade e os principais núcleos do caráter do adulto já estejam formados, e que, a entrada no “drama do Édipo”, (entre os quatro e seis anos de idade) não seja mais uma “AVANTE PREMIÉRE”.
Tendo em vista que este se fará não mais em primeira mão, mas de acordo com algo já vivido, ou seja, de acordo com o registro simbólico das primeiras relações com o seio materno. Porém, esse conhecimento não deve ser usado para encobrir e renegar a importância da problemática do complexo de Édipo (quando não resolvida) e sua relação com a paternidade; como fator causador de neurose. Pois, enquanto a figura da mãe é pré-concebida, simbolicamente como um pólo acolhedor, refúgio, continência e espaço, a do pai, além de ser pólo social, é tão somente concebida na experiência relacional.



Alguém já disse que o caminhar errante dos andarilhos simboliza o anseio de encontrar este objeto que se perdeu, a mãe, já a do pai, apesar de quase sempre, possuir um registro simbólico de pólo-censor na dinâmica familiar, pelo menos nas sociedades, onde o patriarcado é dominante - seja como introdutor de leis, na família e na sociedade, seja como fundante e fomentador de cultura; representa também contato com a realidade externa e com o desempenho social. O pai é simbolizado em todas as culturas como guia, protetor e comunicador social. Nas religiões representa o estruturador das leis como também das proibições, enquanto a mãe é a igreja, o templo, o sagrado - o imaculado. De forma que, na dinâmica de uma família, a mãe deve ter o cuidado para não se tornar uma intermediária nas relações dos filhos com o pai e vice-versa. Deve deixar que estas se façam diretamente. Deve deixar que os filhos e o pai se comuniquem diretamente. Pois, neste campo não há necessidade de intermediários. Isto porque, qualquer intermediação cria quase sempre inibição e dificuldade no desempenho social. Ainda; a figura paterna ao irromper na relação dual e simbiótica (mãe-filho), rompe com esta e cria a relação triangular - berço de toda concepção de família, e a possibilidade de independência e liberdade, em oposição, a relação com a mãe que representa refúgio e acolhimento, mas também dependência.



Não é sem sentido que as mães quase sempre, quando vão admoestar seus filhos, faz alusão a figura paterna: não façam isso se não eu conto para seu pai, ou então: quando seu pai chegar eu contarei para ele o que você fez... Desta forma e inconscientemente, o pai vai penetrando na mente da criança como um introdutor de leis, de proibições, mas também entra como um elo de ligação com a realidade externa e com o social. Muitas mães, no entanto, são mães fálicas, castradoras e dominadoras na relação com o marido e, em razão disso se tornam elas próprias as introdutoras das leis. Algumas chegam até a fazer inconscientemente um conluio com o filho, outras fazem isto até conscientemente, o superprotegendo e destruindo a autoridade paterna. Mas, o produto que resulta deste conluio é quase sempre: perversão, psicopatia, sociopatia, doença mental...



Contudo, quando a figura do pai é fraca e desvalorizada, no seio da família; ou porque é um alcoólatra, um irresponsável, um pusilânime, ou porque é um pai ausente da relação emocional com o próprio filho, a criança encontra dificuldade de fazer identificação com o mesmo e conseqüentemente não consegue estabelecê-lo dentro de si, como modelo ou como guia... Como um superego adequado ao seu desenvolvimento emocional e como representante de um código de ética e de moralidade necessários ao estabelecimento de sua personalidade individual sadia. Quando, ao contrário, predomina uma grande severidade na introdução das leis, através de uma figura paterna autoritária e muitas vezes cruel, isto repercute negativamente na mente da criança e posteriormente na do adulto, tornando-o inibido e frágil diante de figuras que representam autoridade ou poder. Por outro lado à indulgência excessiva leva o indivíduo ao egoísmo.


Dr. Pedro Carlos Primo - Médico Psiquiatra e Psicanalista



*Membro Titular da Associação Brasileira de Psiquiatria e da Associação Brasileira de Medicina Psicossomática.

*Membro Associado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP)

*Membro Titular da International Psychoanlytical Association (IPA), mestrando, em saúde mental pela Universidade de León, Espanha.

*Diretor Fundador do Instituto Persona: Psicoterapias, Orientação Social e Psiquiatria Dinâmica/Presidente Prudente – SP.

*Presidente do Departamento de Neurologia e Psiquiatria da Sociedade de Medicina de Presidente Prudente, de agosto de 1979 a agosto de 1981.

*Primeiro Secretário da Sociedade de Medicina de Presidente Prudente, de outubro de 1979 a outubro de 1981.

*Organizador e Presidente da Primeira Jornada de Medicina Psicossomática, realizada em Presidente Prudente/1979. Organizador e Presidente do Primeiro fórum Brasileiro de Medicina da Pessoa, realizado em Presidente Prudente/1981.

*Coordenador do Simpósio sobre Mitologia e Psicanálise, promovido pelo Centro de Estudos Psicanalíticos (CEP) de Presidente Prudente/1989.

*Fundador e Presidente do Núcleo de Psicanálise de Presidente Prudente e Região (NUPSI-PPR).

*Fundador da Associação Brasileira de Medicina Psicossomática, Secção Regional de Presidente Prudente e seu Primeiro Presidente, nos períodos de julho/1979 a julho/1981 e de julho /1981 a julho/1983.

*Organizador e Presidente da Primeira Jornada sobre Sexualidade Feminina, realizada em Presidente Prudente/1983.

*Conselheiro da Associação Brasileira de Medicina Psicossomática, de abril de 1984 a abril de 1986.





(a imagem e o artigo do autor foram retirados do site: http://www.institutotelepsi.med.br/)

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