quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

O debate entre Freud e Jung sobre a Teoria da Libido - parte 1


O conceito de libido foi, certamente, um ponto crucial que definiu os rumos da psicanálise em relação à sua concepção do mecanismo causal das psicoses. Essa pesquisa buscou, no encontro entre Freud e Jung ou, mais especificamente, na controvérsia estabelecida sobre a teoria da libido, a nova etapa da psicanálise. A partir deste ponto, Freud pôde reorientar sua primeira teoria do dualismo pulsional, referindo-se ao auto-erotismo e introduzindo o eu como uma instância de investimento libidinal e não mais apenas os objetos da pulsão.

Ficou evidente, portanto, que o debate sobre a libido freudiana acarretou conseqüências cruciais para a concepção psicanalítica das psicoses, tanto que Freud reporta em "Sobre o narcisismo: uma introdução", que o conceito de narcisismo oferece uma alternativa à libido não sexual de Jung, presente nesses casos. Nesse mesmo texto, encontra-se a crítica de Freud à concepção monista da libido presente em Jung, o que permitiu a Freud lançar as bases para uma futura dualidade pulsional necessária à sua concepção de que o conflito é estruturante do funcionamento psíquico. Nesse momento da obra de Freud, a bipolaridade é explicada pela existência de duas libidos — libido do eu e libido do objeto —, cada uma implicando uma escolha de objeto, segundo o tipo narcísico ou o tipo de ligação. Essa reformulação da teoria psicanalítica se deu imediatamente após a ruptura com Jung. Mais tarde, estabeleceu outras modificações que culminaram numa reelaboração total de sua concepção dualista das pulsões, em que sobressai a pulsão de morte.



A parceria de Freud e Jung já anunciava a discordância desde o seu início. As cartas trocadas revelam que o interesse pela psicose estava colocado tanto do lado de Jung quanto do lado de Freud, bem como a dificuldade do suíço em captar a essência da noção de sexualidade proposta por Freud. Jung fez numerosas tentativas de neutralizar o papel da sexualidade, acreditando que a comunidade científica não seria capaz de alcançar a abrangência dessa noção.

A noção de sexualidade, na teoria freudiana, escapa à noção restrita de genitalidade e a posição de Jung permanecia divergente daquela de Freud no essencial sobre a libido: para ele a libido não poderia ser apenas a energia da pulsão sexual. Ele a eleva a uma proporção tal que ela sofre muitas transformações, alcançando formas espirituais. Esse é, aliás, o tema do seu livro Metamorfose e símbolos da libido, sobre o qual Freud decide-se por cortar definitivamente as relações com Jung, acusando-o de deturpar a teoria psicanalítica e de não ter entendido nada sobre o inconsciente.



Em "Os três ensaios sobre a teoria da sexualidade" (FREUD, 1905/1990), Freud apresenta o que vem a ser o sexual em seus escritos. Nesse trabalho, ele parte do estudo das "perversões" para afirmar que todas as atividades que constituem a vida sexual dos perversos desempenham o mesmo papel que a satisfação sexual normal desempenha em nossas vidas. Lacan oferece uma chave para a leitura do texto freudiano: existe na satisfação libidinal um caráter paradoxal.

Esse caráter já está presente em suas elaborações nesse período, mas só vai ser formalizada em 1920, com a publicação de "Além do princípio do prazer". É exatamente esse caráter paradoxal da satisfação libidinal que escapa a Jung. E aqui, Lacan nos ajuda a perceber que a perspectiva de Jung da libido permanece cativa do imaginário. Para ele, a libido permanece num movimento infinito de investir e desinvestir o eu e dos objetos, transformando-se em figuras variadas, próprias da mitologia. Na teoria junguiana, a libido é essencialmente simbólica, daí sua conclusão da existência de um inconsciente coletivo. Como essa libido é uma energia que se transmite às gerações, ela é o inconsciente arquetípico que possui estruturas fixas transmitidas universalmente.



O problema da sexualidade, na teoria freudiana, está colocado inclusive nos casos de psicose. Em "As neuropsicoses de defesa", um texto de 1894, Freud afirma que "é precisamente a vida sexual que traz as oportunidades para o surgimento de representações intoleráveis" (FREUD, 1894a/1990, p.59) e "o eu rejeita a representação intolerável através de uma fuga para a psicose" (FREUD, 1894a/1990, p.63). Haveria para Freud, nesse momento, um tipo específico de "recalque" que ele chama de "projeção": uma idéia originada no íntimo é projetada para fora, reaparecendo como se viesse do exterior, como uma realidade percebida.

Dessa maneira, o recalque manifesta-se em oposição a tal idéia. O afeto correspondente é retido no eu, ocorrendo a inversão em desprazer. Temos, nesse caso, a paranóia, quando, na tentativa de reencontrar o objeto, a libido transforma as representações em alucinações, com inversão do afeto em desprazer. A libido recalcada é, gradativamente, transformada em convicção, em crença, dando ao delírio toda a sua força.


por Kátia Mariás Pinto - Mestre em psicologia pelo Programa de Mestrado em Psicologia: Estudos Psicanalíticos (Fafich/UFMG); correspondente da Escola Brasileira de Psicanálise, em Minas Gerais - Para o site: scielo.br

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