sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Parte 2 - JUNG E AS METAMORFOSES DA LIBIDO


Em Símbolos da transformação: análise dos prelúdios de uma esquizofrenia (1911/1989), Jung se propõe a analisar as suscetibilidades às influências sugestivas de uma jovem esquizofrênica. Ele investiga o lugar de Deus e da religião na vida psíquica do homem. Faz uma análise extensiva dos símbolos nos quais a libido é passível de se transformar e propõe aquilo que põe fim, definitivamente, ao seu relacionamento com Freud: a dessexualização da libido.

Lançamos mão, mais uma vez, da terminologia lacaniana para dizer que a teoria junguiana da libido é fundamentalmente imaginária e prevalece o caráter analógico da libido. Essa constatação refere-se ao fato de que sua libido, tomada como uma energia neutra, é deslocada, sucessivamente, para formas espirituais, a ponto de transformar-se em Deus. É exatamente por não acompanhar a noção freudiana sobre o caráter paradoxal da pulsão sexual que ele provoca essa extensão da libido e, conseqüentemente, é levado a dessexualizá-la.

Tais considerações nos levaram a concluir que, não havendo um ponto que interrompa as sucessivas metamorfoses da libido, não há na teoria junguiana o mecanismo do recalque, essencial para introduzir o sujeito no universo da cultura. Ele recusa a interdição do incesto, ele recusa a função simbólica do pai. Isso explica sua insistência no movimento regressivo da libido. À medida que, para ele, o pai não possui a função de interditar a mãe e recalcá-la, o sujeito permanece absolutamente submetido ao incessante jogo da (sua) libido, que não conhece limite. Jung recusa também a noção de constância libidinal, proposta por Freud num momento bem inicial da teoria psicanalítica.

Uma outra vertente para se pensar a proposta de Jung em dessexualizar a libido pode ser buscada na noção freudiana de sublimação. O conceito de sublimação foi introduzido por Freud para indicar que, se não há atividade sexual, tampouco há recalque. A sublimação freudiana coloca o paradoxo de que é possível uma satisfação das pulsões sem atividade sexual e sem recalque. Isso leva Jung a pensar que, se a libido pode satisfazer-se sublimatoriamente, não deve ser sexual. Por isso, ele coloca o acento nas metamorfoses da libido, em suas transformações. E como essa libido é capaz de transformar-se de maneira tal que se satisfaz sem sexualidade, ela é, portanto, um elemento não sexual no homem.


por Kátia Mariás Pinto - Mestre em psicologia pelo Programa de Mestrado em Psicologia: Estudos Psicanalíticos (Fafich/UFMG); correspondente da Escola Brasileira de Psicanálise, em Minas Gerais para o site:scielo.br

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