quarta-feira, 1 de agosto de 2012

A PSICANALISE DOS CONTOS DE FADAS.


As histórias de contos de fadas são muito mais importantes para o desenvolvimento das crianças do que se pode supor por mera intuição. Ao mesmo tempo em que as divertem, os contos também as esclarecem sobre si próprias e favorecem o desenvolvimento de sua personalidade. Longe de serem apenas histórias "inocentes", elas são autênticas obras de arte, com profundos significados psicológicos. 

Muitos desses contos são analisados na obra "A psicanálise dos contos de fadas", de Bruno Bettelheim. Nesta obra o autor demonstra que para dominar problemas psicológicos do crescimento, tais como decepções narcisistas, dilemas edipianos, rivalidades fraternas, etc., a criança precisa entender o que está se passando dentro de seu eu consciente para que também possa enfrentar o que se passa em seu inconsciente. Isso, no entanto, não é alcançado através de uma compreensão racional, mas sim através de devaneios, de fantasias.


Tanto na criança quanto no adulto, se o inconsciente é recalcado e nega-lhe passagem à consciência, a mente consciente da pessoa sofrerá intervenções de derivativos desses elementos inconscientes, que tentarão a todo custo se tornar conscientes. Mas quando esse material tem, até certo ponto, permissão de emergir ao nível de consciência e ser trabalhado pela imaginação, seus danos potenciais ficam muito reduzidos, e podem até ser colocados a serviço de propósitos positivos (sublimação). 

Por mostrarem também o lado perigoso da vida, os contos de fadas são muito mais realistas do que determinadas histórias modernas para crianças. Alguns pais pensam que apenas imagens positivas devem ser mostradas às crianças, como se a vida fosse apenas flores. Mas a criança já sabe que as coisas não são assim. A criança sente seus impulsos agressivos, seus desejos de destruição dos pais ou dos irmãos, por exemplo. Elas sabem que não são sempre boas, e se os pais insistem em não lhes revelar como as coisas realmente são, isso "torna a criança um monstro a seus próprios olhos."


As histórias chamadas "seguras" procuram evitar problemas existenciais e não mencionam nem a morte e nem o envelhecimento. O conto de fadas, ao contrário, "conforta a criança honestamente com as dificuldades humanas básicas." Muitas histórias começam com a morte da mãe ou do pai, o que cria problemas angustiantes para os personagens, da mesma forma que o simples temor de perder seus genitores angustia a criança na vida real. Outras importantes características dos contos de fadas é que neles o mal é sedutor, atraente (como a rainha em "Branca de neve" ou o lobo em "Chapeuzinho vermelho"), e que as personagens não são ambivalentes, isso é, boas e más ao mesmo tempo. 

Nos contos o que predomina é a polarização, assim como acontece na mente da criança. A polarização significa que não existem personagens que sejam bons e maus ao mesmo tempo, mas sim que eles são ou bons ou maus. A criança não teria maturidade ou capacidade suficiente para discernir o caráter de um personagem que fosse ambivalente. Além disso, ela vê dessa forma (polarizada) os seus próprios pais. Ela não pensa que aquela mãe que sempre satisfez os seus desejos quase que imediatamente através do efeito mágico do seu choro, quando mais nova, seja a mesma que agora está lhe fazendo exigências e não lhe atende em todos os seus pedidos, à medida que cresce. Nos contos essa polarização da mãe, por exemplo, aparece representada no par bruxa (madrasta)\mãe boa. A bruxa é a parte da mãe que lhe faz exigências ou representa uma ameaça, e a mãe boa é aquela que satisfaz os seus desejos a todo instante e lhe oferece conforto e proteção.


Uma das mais importantes características dos contos de fadas é que eles oferecem esperança às crianças. Contos morais, como fábulas, por exemplo, são mais adequados aos adultos do que aos pequeninos. Apesar de seu inegável valor pedagógico, contos como "A cigarra e a formiga", por exemplo, ensinam o que é correto, mas não oferecem esperança de que se possa reparar os próprios erros. Nesta fábula a cigarra simplesmente fica do lado de fora da casa das formigas como punição por sua atitude inconseqüente no inverno. 

Os contos de fadas, por outro lado, sempre mostram que é possível tentar novamente e acertar da próxima vez. Cada história é apropriada a uma fase de desenvolvimento específico da criança, e ela irá se identificar com aquela que naquele momento lhe fala diretamente ao inconsciente e lhe auxilia a solucionar os problemas de crescimento pelos quais está passando. Contos como "João e Maria", por exemplo, retratam o empenho das crianças em se agarrar aos pais, quando chegou o momento de encararem o mundo por si mesmas, e de como lidar com a voracidade oral (eles comem a casa de broa da bruxa). "Chapeuzinho vermelho" já apresenta alguns problemas de "João e Maria" como solucionados (Chapeuzinho leva a cesta de comida para sua avó e não se sente tentada a devorá-la, o que aconteceria com João e Maria), mas apresenta outros problemas peculiares a uma fase posterior de desenvolvimento, como a curiosidade sexual representada pela cena dela na cama com o lobo.

A história dos Três Porquinhos trata principalmente da questão “princípio de prazer versus princípio de realidade”. Ele ensina às crianças que elas não devem ser preguiçosas e fazer as coisas de qualquer maneira, pois isso pode levá-las a perecer. As casas dos três porquinhos e suas ações simbolizam o progresso do homem na história (palha, madeira e tijolos) e, psicanaliticamente, o progresso da personalidade dominada pelo id (princípio de prazer) para a personalidade influenciada pelo superego (mas essencialmente controlada pelo ego). O primeiro porquinho faz sua casa rapidamente porque quer mais tempo para brincar, quer prazer imediato (id, princípio de prazer). O segundo constrói uma casa mais elaborada, mas também de forma imprudente, porque não consegue dominar completamente o princípio de prazer. Somente o terceiro porquinho, já suficientemente maduro e regido pelo princípio de realidade, sabe adiar o momento de satisfação e despende um tempo maior para a construção de uma casa mais resistente e que lhe salvará a vida.


Em "Cinderela" temos representações de problemas da rivalidade fraterna (sendo Cinderela sempre maltratada e humilhada pelas irmãs mais velhas) e também de problemas edipianos. A situação de Cinderela de cair nas mãos da madrasta e passar por tudo que passou não é bem explicada nas versões da história que temos hoje, mas outras versões antigas difundidas pela Europa, África e Ásia sugerem que o que lhe sobreveio é decorrência de uma situação edipiana. Algumas versões relatam que ela fugia de um pai que queria se casar com ela. 

Outras contam que ela é exilada por um pai que a pune porque ela não lhe ama da forma que ele exige, apesar de amá-lo muito. Mas um outro tema muito importante dessa história é a angústia de castração, representado pela auto-mutilação das irmãs que tentam calçar o sapato de Cinderela e enganar o príncipe, cortando uma parte do próprio pé para isso (pois o sapatinho não cabe em seus pés, e a madrasta ordena a cada uma delas que corte ou o calcanhar ou o dedinho para tal). O sapatinho de Cinderela é um símbolo inconsciente da vagina, e a cena que representa o príncipe calçando o sapatinho em seu pé é um símbolo inconsciente do ato sexual, assim como o ato dos noivos que trocam alianças no altar numa cerimônia de casamento (o anel representando a vagina, o dedo representando o pênis. Maiores informações sobre esse simbolismo se encontram na obra de Bettelheim.). 

 (postado por Glauber Ataide in Marcadores: Psicanálise)

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