sábado, 23 de março de 2013

segunda-feira, 18 de março de 2013

As Mulheres de Freud


Sobre Freud e suas mulheres
(por Marina Massi)

Obra recém-lançada, "As mulheres de Freud" propõe uma viagem histórica pelo universo feminino; o criador da psicanálise e sua teoria são apresentados sob novos ângulos.

A romancista e escritora Lisa Appignanese e o professor de história e filosofia da ciência da Universidade de Cambridge John Forrester, acadêmico que já publicou várias obras psicanalíticas, uniram-se para investigar e narrar a trajetória das mulheres que participaram da vida de Freud. Em uma obra de fôlego, a dupla revela o impacto feminino no desenvolvimento das ideias relativas à feminilidade e ao legado dessa produção intelectual para a cultura contemporânea. Em virtude das diferentes áreas de especialização, pareceu aos autores que seria lógico dividir o material de modo que Forrester tratasse das personagens que foram “descobertas” pelo olhar de Freud: parentes, figuras de sonhos, pacientes e suas ideias sobre feminilidade. Já Appignanese trataria das primeiras analistas, tradutoras e escritoras próximas ao pensador.

Os escritores reconhecem que o desafio era potencialmente infinito, uma vez que tantas mulheres tiveram importância na história da psicanálise e o debate sobre feminilidade nessa área vem se desenrolando até hoje. “Decidimos limitar nossa narrativa às personagens que tiveram contato direto e continuado com Freud. Em consequência disso, não tratamos particularmente de Karen Horney ou Melanie Klein, para citar apenas duas, embora elas figurem nas páginas do livro.”Infelizmente, a decisão de não incluir uma pensadora do porte de Klein, por exemplo, traz problemas estruturais, que implicam a sensível perda do entendimento de toda uma vertente do debate sobre a mulher. É inegável, porém, que "As mulheres de Freud" tem muitos pontos positivos. 




Entre eles, está o fato de que ajuda o leitor a rever as acusações de que o criador da psicanálise teria sido “um misógino, um patriarca conservador que via como principal função das mulheres servir à reprodução da espécie”. Os autores creem que uma das questões esclarecidas por essa pesquisa foi que “a concentração excessiva nos fracassos de Freud era, em si, uma maneira de negar às mulheres que figuram na história da psicanálise seu lugar de direito. Uma vez restituído este lugar, tanto Freud quanto a psicanálise adquiriram um aspecto sutilmente diverso”. E essa talvez seja uma das mais importantes conclusões desse imenso trabalho de pesquisa histórica, que instiga tantas discussões teóricas.

A pesquisa reúne dados anteriormente esparsos e revela de modo histórico-científico que muitas outras além de Salomé e da princesa Bonaparte eram amigas e analistas ativas. Entre elas estão Ruth Marck Brunswick, Muriel Gardiner, Eva Rosenfeld, Jeanne Lampl Groot, Hilda Doolittle e mais todo o círculo de analistas da filha Anna Freud. No início do livro são apresentadas as mulheres-chave da família de Freud: a mãe, a noiva que virou esposa e as filhas. A segunda parte trata da colaboração das pacientes histéricas no desenvolvimento da prática e teorias freudianas. Na etapa seguinte são focalizadas as mulheres que se tornaram as primeiras analistas do círculo de Freud, como Sabina Spieelrein, Lou Andreas-Salomé, Helene Deutch, Marie Bonaparte e Joan Riviere. Num livro de 16 capítulos extensos, com rigoroso levantamento bibliográfico, que revela um sério trabalho de pesquisa, alguns trechos históricos são especialmente significativos e curiosos. É o caso de “Primeiras amigas, primeiros casos, primeiras seguidoras” (cap. 6), no qual o leitor fica sabendo, por exemplo, que o divã foi presente de uma paciente agradecida, por volta de 1900. No capítulo 13, “A amizade das mulheres”, é surpreendente constatar o quanto as mulheres se desenvolveram dentro da psicanálise – o que nos convida a rever a ideia do círculo de amigos formado apenas por homens (como Carl Jung, Wilhelm Fliess, Alfred Adler, Karl Abraham) ao redor de uma mesa para discussão psicanalítica, às quartas-feiras.



O capítulo 15, “O debate sobre a mulher”, com abordagem mais teórica, evoca as figuras de Helene Deutch, Karen Horney e Melanie Klein para tratar da constituição do feminino. Os autores apontam a importância de uma discussão correlata acerca do peso atribuído aos fatores traumáticos (ambientais) ou constitutivos e de disposição (hereditários), temas atuais não somente para a feminilidade, mas também para todos os aspectos de constituição psíquica do sujeito. Para Freud, o campo da psicanálise é o acidental, o traumático por natureza.

Segundo ele, o que fica de fora, “o que permanece inexplicável, o que é temporariamente atribuído à constituição, não é o mais importante, o mais fundamental, mas sim o ponto no qual as explicações fracassam, o ponto em que a ciência emudece”. Por fim, somos surpreendidos pelo último capítulo, “Feminismo e psicanálise”, no qual feministas ultrapassam a hostilidade visceral em relação a Freud, o que torna possível evidenciar uma relação mais complexa que abarque novos desdobramentos. Uma vez que as feministas perceberam “a revolução sexual” do século XX como uma força positiva e libertadora, a associação de Freud com esse movimento garantiu-lhe um lugar de respeito entre os antecessores dos movimentos progressistas contemporâneos.






(Fonte:http://www2.uol.com.br/vivermente/reportagens/sobre_freud_e_suas_mulheres.html)

sexta-feira, 15 de março de 2013

O Abuso das Substâncias Químicas entre as Mulheres


Perigo para elas (por Emily Anthes)

Estudos sobre as diferenças entre os gêneros têm mostrado que mulheres podem ser mais vulneráveis à dependência e ao abuso de substâncias químicas que os homens: o fascínio por álcool, drogas e cigarros flui à mercê dos hormônios.

Por muito tempo a dependência química tem sido considerada uma doença masculina. Aspectos culturais e sociais que propiciavam o acesso dos homens ao álcool e às drogas levaram a crer que eles são muito mais propensos a usar esses produtos. Em parte por esse motivo, há décadas as pesquisas sobre o assunto excluíam mulheres. Consequentemente, sabe-se hoje bem menos sobre a drogadição feminina, e, na prática, os programas e centros de tratamento raramente são voltados para as necessidades. Bem pouco foi considerada, por exemplo, a influência da variação hormonal no sucesso (ou fracasso) do processo de recuperação. No entanto, há sinais de que a predominância de estudos com voluntários homens tenda a diminuir, já que o uso de bebidas e substâncias ilícitas se tornou socialmente mais aceitável tanto por adolescentes quanto por mulheres adultas. Segundo estudo de 2008, desenvolvido pelo psiquiatra Richard A. Grucza, da Universidade de Washington em St. Louis, nos Estados Unidos, é na população feminina que o uso de bebidas e drogas mais tem aumentado. 

Em uma inversão das tendências predominantes no passado, adolescentes estão agora experimentando maconha, álcool e cigarros em índices mais elevados que os garotos, de acordo com os recentes resultados de uma pesquisa realizada pelo National Survey on Drug Use and Health (NSDUH), nos Estados Unidos. O estudo mostra que o uso geral de drogas ilícitas entre as moças aumentou em torno de 6% em 2007 e 2008, enquanto o índice para os jovens do sexo masculino caiu cerca de 10%. 



Além disso, uma literatura cada vez mais consistente sobre a dependência do sexo feminino mostra que as mulheres apresentam características bastante específicas. De forma singular, elas podem ser particularmente vulneráveis ao uso de substâncias que criam dependência e aos seus efeitos, pois os hormônios sexuais femininos afetam diretamente os circuitos de recompensa do cérebro, influenciando a resposta a drogas. Felizmente, alguns estudos já apontam para novos tratamentos para a toxicomania, além de fornecer informações práticas para as pessoas empenhadas em abandonar o uso.
Embora os cientistas venham investigando, ainda que em pequena escala, o uso de drogas em mulheres desde a década de 70, os progressos foram relativamente lentos antes de 1994, quando os Institutos Nacionais de Saúde americanos determinaram que a maioria das pesquisas clínicas incluísse mulheres e grupos formados por minorias. Conforme o estudo sobre as diferenças entre os gêneros se acelerou, cientistas descobriram indícios de que mulheres podem realmente ser mais vulneráveis à dependência e ao abuso de substâncias que os homens. Os pesquisadores notaram que elas passam de forma mais rápida para o uso de substâncias pesadas e têm maior facilidade de sucumbir aos danos sociais e físicos. Até mesmo as fêmeas de ratos costumam buscar e autoadministrar drogas que provocam dependência de maneira mais obsessiva e mais rapidamente que os roedores machos.

Os hormônios da reprodução estão por trás dessa sensibilidade. A remoção de ovários das ratas, de modo a lhes diminuir a produção de estrogênio, reduziu a tendência de procurarem estimulantes, como a cocaína e a anfetamina. Por outro lado, o fornecimento de estrogênio para ratas cujos ovários foram retirados pode encurtar o caminho para a dependência. Em 2004, a neurocientista Jill B. Becker, da Universidade de Michigan em Ann Arbor, e seus colegas relataram que as fêmeas de camundongos sem ovário levaram seis dias para começar a se servir repetidamente de infusões de cocaína, enfiando o focinho em um buraco. Em contraste, as que receberam suplementação do hormônio sucumbiram à mesma compulsão após quatro dias apenas. 



Os pesquisadores acreditam que o estrogênio aumenta o risco de dependência por estimular as vias de recompensa do cérebro, enfatizando a sensação prazerosa produzida pela alteração dos estados de consciência. A administração de estrogênio às ratas que tiveram seus ovários removidos aumenta os níveis de dopamina, um neurotransmissor fundamental para a percepção de recompensas, como comida, sexo e drogas.

Entretanto, o estrogênio não age sozinho em mamíferos do sexo feminino. Seu parceiro hormonal, a progesterona, parece opor-se a sua capacidade de deflagrar tendências aditivas. Em 2006, a equipe de Becker relatou que a administração tanto de estrogênio quanto de progesterona para as ratas sem ovários não acelera o consumo obsessivo de cocaína nos ¬roedores, sugerindo que esse hormônio pode ser um antídoto para a influência do estrogênio na busca do prazer. 

Um trabalho mais recente confirma que a resposta das mulheres a drogas varia no decorrer do ciclo menstrual, conforme os níveis hormonais relativos aumentam e diminuem naturalmente. Em um estudo clínico de 2007, a neurobióloga Suzette M. Evans, da Universidade Columbia e do Instituto Psiquiatrico do Estado de Nova York, coordenou uma equipe que descobriu que os estimulantes são muito mais prazerosos para as mulheres durante a fase folicular (período de aproximadamente duas semanas, a contar do início da menstruação até próxima a ovulação, quando o organismo “se prepara” para uma possível gravidez), em comparação com a chamada fase lútea (etapa seguinte do ciclo, após a ovulação, quando o estrogênio e a progesterona estão elevados). 

A percepção da mulher quanto a outros tipos de recompensas – como dinheiro, comida e sexo – e sua relação de desejo, indiferença ou aversão a eles também pode variar durante o ciclo menstrual. Em outro estudo realizado nos Institutos Nacionais de Saúde americanos, há três anos, pesquisadores examinaram o cérebro de mulheres por meio de ressonância magnética funcional (RMf) enquanto elas faziam apostas em máquinas caça-níqueis. Os cientistas descobriram que os circuitos de recompensa das mulheres ficavam mais ativos quando ganhavam prêmios durante a fase de predomínio de estrogênio que durante a fase que se segue, dominada pela progesterona. Ou seja: o fluxo e o refluxo dos hormônios femininos podem realmente ter amplos efeitos sobre a percepção de prazeres e incentivos, influenciando a motivação feminina para se envolver em situações que, em outros momentos, não as atrairia.



Mas o aumento artificial de níveis de progesterona na mulher é capaz de inibir a sensação obtida com as drogas. Durante um estudo, a equipe de Evans forneceu progesterona a 11 usuárias de cocaína quando os níveis naturais do hormônio em seu corpo estavam baixos. As pacientes tratadas relataram uma sensação de diminuição do “barato” em comparação com o que sentiram no mesmo ponto de seus ciclos, na ausência de progesterona adicional. Em contraste, a progesterona não influenciou a experiência subjetiva de usar cocaína nos dez dependentes do sexo masculino testados, embora os pesquisadores não estejam certos do motivo do resultado. Se a progesterona diminui o prazer das drogas, ela poderá auxiliar no tratamento da dependência em mulheres – algo que Evans vem testando atualmente em dependentes de cocaína do sexo feminino. 

Mas os cientistas sabem que o desafio é complexo. Se não fosse pela compulsão pela dose da substância química, bastaria prestar atenção ao calendário para ajudar as mulheres a ter sucesso na desistência do fumo, das bebidas ou das drogas. Em um estudo publicado em 2008, a médica Sharon S. Allen, especializada em medicina familiar pela Escola Médica da Universidade de Minnesota, e seus colegas pediram a um grupo de 202 mulheres fumantes que a metade tentasse parar com o cigarro durante a segunda fase de seu ciclo menstrual, quando os níveis de progesterona são altos, e que a outra metade fizesse a tentativa em fase anterior ao ciclo. Os resultados foram impressionantes: 34% das mulheres do primeiro grupo não voltadoram a fumar 30 dias depois, em comparação com 14% das que tentaram parar quando os níveis de progesterona estavam baixos. “Quando as mulheres fumam no início de seu ciclo, obtêm mais prazer com a nicotina, por isso pode ser mais difícil enfrentar o desafio de deixar o cigarro”, observa Allen. Nessa mescla de hormônios, substâncias químicas do cérebro e compulsão – além de questões emocionais e psíquicas que nem sempre têm como ser mensuradas –, começar ou parar na hora certa pode fazer grande diferença na história de vida de alguém.



CONSCIÊNCIA ALTERADA

O consumo de algumas drogas – conhecidas como psicodélicas ou alucinógenas, como o LSD, a cocaína e o crack – altera profundamente a percepção e a consciência dos estímulos internos e ambientais. Essas substâncias podem estar em plantas, produtos de origem animal ou compostos sintéticos. Sua ação sobre o sistema nervoso central causa três efeitos principais: delírio, ilusão e alucinação. O primeiro ocorre quando a pessoa percebe corretamente um estímulo (sonoro, visual e tátil), mas o interpreta erradamente, ou seja, tem uma percepção anormal dessa fonte. Exemplo: alguém sob o efeito de uma droga ouve a sirene de uma ambulância (percepção correta). Ou ainda: o usuário, ao ver duas pessoas conversando, julga que ambas o estão caluniando ou mesmo tramando a sua morte. Esses são exemplos de delírios persecutórios: o usuário percebe corretamente o estímulo, mas o interpreta de forma equivocada quando sob influência de um psicodisléptico. No caso da ilusão, a percepção de um dado estímulo fica incorreta, e a interpretação dele também é anormal. Em última análise, na ilusão o estímulo é percebido, mas a percepção é distorcida: no caso da sirene a pessoa diz ouvir, por exemplo, uma trombeta celeste. Já a alucinação é uma percepção sem estímulo algum (no exemplo, não há sirene tocando), mas o usuário tem certeza de que a ouve. As alucinações podem ser sonoras, visuais e gustativas, entre outras. Às vezes a pessoa tem a alteração, isto é, ouve o som ou vê algo inexistente, mas sabe que essas percepções não são reais. Nesses casos, o fenômeno pode ser chamado de alucinose, diferindo daqueles em que o usuário acredita que a percepção é real (alucinação) – isto é, que ela existe mesmo.


Fonte:(http://www2.uol.com.br/vivermente/reportagens/perigo_para_elas.html)


quinta-feira, 7 de março de 2013

A Filosofia do Bovarismo


Emma Bovary e a realidade paralela (por Sebastian Dieguez)

Considerada a obra mais importante do francês Gustave Flaubert, Madame Bovary não tem nada de um romance de suspense moderno. Trata-se da história banal de uma mulher mal casada que trai o marido, o arruína e acaba se suicidando, por ter se perdido, perseguindo quimeras inspiradas em romances “água com açúcar”. De onde vem, então, o fascínio exercido por essa mulher cuja única particularidade é sonhar com aventuras maravilhosas, enquanto leva uma vida comum? A descrição de seus estados de espírito é tão precisa que foi forjado um termo para designar o mal que a consome: o bovarismo.

O ensaísta Jules de Gaultier propôs esse termo em dois livros sucessivos: primeiro, em Le bovarysme, la psychologie dans l’oeuvre de Flaubert (O bovarismo, a psicologia na obra de Flaubert), de 1892, e em seguida em Le bovarysme, essai sur le pouvoir d’imaginer (O bovarismo, ensaio sobre a capacidade de imaginar), de 1902: “Emma personificou essa doença original da alma humana, para a qual seu nome pode servir de rótulo, se entendermos por ‘bovarismo’ a faculdade que faz o ser humano conceber a si mesmo de outro modo que não aquele que é na verdade”. Ou seja, o bovarismo consiste em “se imaginar diferente do que se é”. Essa capacidade remete não a uma fraqueza de caráter, mas a um funcionamento psicológico, típico da espécie humana.



Podemos pensar que há um bovarismo intelectual e um sentimental, e cada um apresenta tanto aspectos “normais” quanto patológicos. Estes últimos representam o falseamento exagerado da concepção de si mesmo e a ausência de senso crítico em relação a um erro cometido. O bovarismo clínico implica não nos darmos conta de que imaginamos a nós mesmos de maneiras muito diferentes do que realmente somos.

Mas voltemos a Emma. Qual a origem de sua patologia? Gaultier questiona inicialmente sua educação em um colégio de freiras freqüentado por garotas da alta sociedade, onde aos 13 anos ela foi submetida à influência de uma “garota mais velha”, que lhe disse para ler as “sagas sentimentais” e lhe deu alguns livros. “Aquilo tudo não passava de amores, amantes, mulheres perseguidas e desmaiando em locais solitários, bosques sombrios, males de amor, juras, soluços, lágrimas e beijos, homens fortes como leões, suaves como cordeiros, virtuosos como nunca se é, sempre bem vestidos e que choram como bebês.” O efeito teria sido imediato: “Ela teria passado a sonhar em viver em algum velho palacete, como as castelãs de longos corpetes, que sob o trevo das arcadas passam os dias com o cotovelo na pedra da janela e o queixo apoiado na mão, olhando ao fundo da paisagem, para ver se do campo chega algum cavaleiro com uma pluma branca no chapéu, galopando um corcel negro”. Essa “atraente fantasia da realidade sentimental” em uma idade precoce marcaria seu desenvolvimento e se intensificaria com o passar do tempo.



O apogeu do bovarismo na psiquiatria se deu nos anos 30, na França. Em 1906, o psiquiatra Philibert de Lastic, em sua tese La pathologie mentale dans les oeuvres de Gustave Flaubert (A patologia mental nas obras de Gustave Flaubert) fazia de Emma uma “degenerada”, provavelmente histérica. Segundo ele, “o bovarismo patológico não passa de falta de capacidade de se adaptar à realidade”. Mais tarde, seria feita uma aproximação com a paranoia, da qual o bovarismo seria uma versão mais branda, mas comportando os mesmos sintomas – superestimação de si mesmo, desconfiança, erro de julgamento e falta de habilidade no convívio social. Mais tarde, outros psiquiatras incluíram noções de mitomania, ao definir o bovarismo como “capacidade de imaginar a si mesmo melhor do que se é” (e não apenas diferente).

No momento em que a heroína do romance conhece Charles, seu marido, ainda está sob influência da nostalgia do colégio de freiras e dos sonhos e histórias com “anjinhos de asas douradas, madonas, lagos e gondoleiros”. Acredita ter encontrado o amor, mas muito rapidamente se decepciona. Pouco depois do casamento, ela é tomada por um “inefável mal-estar, que muda de aspecto como as nuvens e turbilhona como o vento”. Na verdade Charles é insípido e está a léguas de corresponder à ideia que ela fazia dos homens. A conversa dele é plana, rasa, e suas palavras desfilam sem provocar nenhuma emoção, riso ou sonho. Ele não tem talento, ambição e nada parece realmente interessá-lo.Inevitavelmente, Emma acaba por se perguntar se não haveria como conhecer outro homem. Nesse momento, a protagonista já vive em um mundo paralelo à morna realidade que a cerca. Esses devaneios se tornarão exacerbados quando ela tiver ocasião de participar de um baile da alta sociedade.



Ali ela sente “o roçar da riqueza”. Ao ver os aristocratas, ela deseja conhecer a vida deles, penetrar nela, misturar-se a ela. De volta à tristonha casa de campo, lembranças da festa assumem a forma de ações inocentes, no início: “Ela comprou um mapa de Paris, e com a ponta do dedo deslizando sobre ele, fazia compras na capital”. Passou, então, a devorar todas as notícias sobre peças teatrais, lançamentos de produtos, festas e inaugurações. Sabia o que estava na moda e qual o endereço dos bons costureiros. 

Mais tarde ela conhece dois homens que considera maravilhosos. A verdadeira natureza de ambos, porém, se revela aquém de suas expectativas. O tímido Leon se parece bastante com o homem de seus sonhos, pois também vive em um mundo imaginário. Já Rodolphe conhece em suas amantes a tendência para o bovarismo e as explora sem o menor escrúpulo: “Emma se parecia com todas as outras amantes e o encanto da novidade, que foi caindo por terra, como uma peça de roupa, deu lugar à monotonia da paixão, que sempre tem as mesmas formas e a mesma linguagem.”



A cada desilusão, Emma é tomada de uma estranha “doença nervosa”. E para se curar ela se volta primeiramente para o marido, busca leituras mais sérias, e por fim abraça a religião. Mas sempre tem recaídas e, confundindo faltas, choraminga pelo veludo que não tem, pela felicidade que lhe falta, pelos sonhos impossíveis, pela casa pequena demais.

Flaubert sofreu a primeira crise epilética em 1844, aos 22 anos. E seguiram- se outras. Sem motivos consideráveis, o escritor erguia a cabeça e empalidecia ao sentir o sopro misterioso que parecia tocar sua face, e seu olhar se enchia de angústia. Então soltava um gemido, e sobrevinha a convulsão: todo o seu ser entrava em trepidação, que sucedia inevitavelmente um sono profundo. Pierre- Marc de Biasi, especialista em Flaubert, sugeriu um paralelo entre Madame Bovary e as crises de seu criador. Estas se assemelham à sofrida por Emma pouco antes de decidir-se pelo suicídio. “Ela mergulhou no estupor. Só o que doía nela era seu amor, e ela sentia sua alma abandoná-la junto com as recordações. De repente, ela teve a impressão de que glóbulos cor de fogo explodiam no ar, como esferas fulminantes que se achatavam e rodopiavam até derreter na neve. Até que tudo desapareceu.”

A intensidade imaginativa constitui a face produtiva do bovarismo – a protagonista aspira a algo, tenta escapar de sua condição. Todos os demais personagens do romance são prodigiosamente desinteressantes. Mas a heroína não contém o excesso de romantismo e desenvolve uma série de sintomas. Podemos dizer que esses são os sinais negativos do bovarismo e eles são numerosos, pois Flaubert oferece ao leitor um verdadeiro catálogo clínico das doenças da modernidade. Cada vez que vê suas esperanças destruídas, seus projetos contrafeitos e seus devaneios remetidos à realidade, Madame Bovary mergulha em uma estranha doença: sofre de torpores, calores, palpitações, sufocamentos, fica pálida, emagrece a olhos vistos, treme, chora, desmaia. Fica deprimida, irritadiça, exaltada, mente, mostra-se descontrolada e até má. Perde completamente o interesse pela filha e às vezes a detesta abertamente. E ainda manifesta uma “febre cerebral”, além de insônia e enxaqueca. 



Emma talvez seja a primeira personagem que se encaixa na descrição clínica da compulsão por fazer compras, a ponto de pôr a família em grave risco financeiro. Como não consegue estancar sua sede de romantismo, ela se volta para bens materiais, que ficam praticamente de imediato esquecidos no fundo do armário. Por fim ela terá alucinações, em especial em sua fase pseudomística, e manifestará sintomas semelhantes aos das histéricas atendidas no Hospital da Salpêtrière. 

A descrição de Emma leva inevitavelmente à conclusão de que Flaubert pesquisou sobre a histeria. É verdade que na época em que o romance foi escrito havia grande interesse por fenômenos como histeria, hipnose, neurose e dupla personalidade. Em 1880, durante uma discussão sobre a dupla personalidade de mulheres possuídas, demonizadas e sonâmbulas, o ganhador do Nobel de Medicina Charles Richet, praticante do exorcismo, disse: “Emma Bovary é uma histérica branda”. Ainda hoje a histeria é muitas vezes utilizada como expediente sexista, para desqualificar comportamentos femininos considerados inadequados. E Madame Bovary continua presente nessa discussão.



Por meio de sua personagem, o autor faz críticas a dois aspectos que considera os mais destacados de sua época – o tédio e a estupidez. A respeito do primeiro ele chegou a esboçar uma teoria. Segundo Flaubert, existem dois tipos de tédio: o comum, do qual todos sofremos em algum momento, e o tédio moderno, típico de uma geração, que caracteriza um mundo de progresso que oferece distrações fictícias e uma vida baseada no senso comum, desprovida de surpresas. Emma é uma desocupada, essa é a verdade. Seus sonhos são inacessíveis e a remetem a um mundo que simplesmente não existe. A monotonia lhe é insuportável: “Seu coração ficou vazio mais uma vez, e então recomeçava a mesma sequência de dias. E eles se seguiriam assim, um depois do outro, sempre iguais, incontáveis, e não trazendo nada! O futuro era um corredor escuro, no fim do qual havia uma porta bem fechada”. E de alguma forma todos os personagens do romance são vítimas dessa monotonia. No momento em que Flaubert escreve, pode-se dizer que o romantismo está morto e enterrado, e só sobrevive como objeto de zombaria. O que realmente desespera Emma é a imensa defasagem entre o que vive e aquilo a que aspira, assim como o fato de estar convencida de que, mais do que ninguém, tem o direito de realizar seus sonhos. Ou seja, Flaubert consegue a proeza de fazer um romance de sucesso cujo tema principal é o tédio. 


O segundo assunto, que também permeia toda a obra do autor, é a estupidez, característica da qual nem Emma nem nenhum outro personagem do romance escapam. Parece ser com imenso prazer que Flaubert escreve diálogos insípidos e cheios de clichês. A protagonista não se dá conta do absurdo de seus desejos, não consegue olhar a realidade de frente, não faz nada de efetivo para melhorar a própria sorte ou tentar compreender seu comportamento – e não tem o menor interesse pelas preocupações alheias. Ela simplesmente não tem os recursos que lhe permitiriam compreender o mundo que a cerca e analisar seus limites. Mas Flaubert consegue poupá-la, mostrando outros personagens tão estúpidos quanto ela, se não mais, por exemplo, o político que faz um ruidoso discurso em uma reunião agrícola, ou o farmacêutico Homais, que despeja uma coleção de ideias feitas sobre todos os assuntos possíveis. 

Podemos considerar que o bovarismo consiste em um desdobramento da vida consciente, entre imaginário e realidade. Por ocasião de suas crises epiléticas (ver quadro na pág. 69), enquanto alucinava e se via invadido por diversas sensações, Flaubert parecia manter a razão, ao menos enquanto não desmaiava. Ele fala disso em suas cartas: “Havia dentro de meu pobre cérebro um turbilhão de ideias e imagens nas quais eu tinha a sensação que minha consciência, que meu ser afundava, como uma nau sob a tempestade. Mas eu me agarrava à razão. Ela dominava tudo, apesar de sitiada e atacada”.



Em seguida, em outra carta: “Eis o que eu sentia quando tinha alucinações: primeiro, uma angústia indeterminada, um mal-estar vago, um sentimento de espera sem dor, como acontece na inspiração poética, quando sentimos ‘que alguma coisa vai chegar’. Depois, de repente, como um raio, a invasão, ou melhor, a irrupção instantânea da memória, pois a alucinação propriamente dita é só isso – ao menos para mim. É uma doença da memória, um afrouxamento daquilo que ela contém. Sinto ver as coisas falsas – saber que é uma ilusão, ter certeza disso, e no entanto vê-las com uma clareza tal, como elas fossem reais. Na alucinação pura e simples podemos perfeitamente ver uma imagem falsa com um olho, e os objetos verdadeiros com o outro. “Aliás, é justamente esse o suplício”. 

Flaubert estava, portanto, familiarizado com a ideia de que existem dois caminhos no pensamento humano: o das sensações ordinárias, da realidade, e o de um universo produzido como se fosse um paralelo do outro. O escritor tinha consciência do risco de se perder no mundo das alucinações e da importância de distingui-lo da inspiração criadora, voltada para o real. 
Em 1883, o escritor Paul Bourget descrevia assim sua versão do bovarismo, antes mesmo que Jules de Gaultier criasse o termo: Emma é vítima “de ter conhecido a imagem da realidade antes da realidade, a imagem das sensações e dos sentimentos antes das sensações e dos sentimentos”. Bourget via nessa tendência o reflexo do constante “processo de antecipação literária”, em Flaubert. Também é possível ver aí o reflexo da sintomatologia epilética e das alucinações que o acometiam. 



Emma nunca teve consciência do único talento que compartilhava com Flaubert – sua sensibilidade exacerbada. “Mas, então, o que é que a tornava infeliz? Onde estava a catástrofe extraordinária que a perturbava? E ela ergueu a cabeça, olhando em volta de si, como que à procura da causa do que a fazia sofrer.” Flaubert, ao contrário, tinha profunda consciência dessa dor – conseguiu catalisá-la em sua obra.




(Fonte:http://www2.uol.com.br/vivermente/reportagens/emma_bovary_e_a_realidade_paralela.html) 

quarta-feira, 6 de março de 2013

LUTO CHORÃO !



"Você deixou saudades..." 
Posto aqui minha música favorita... 
R.I.P. Chorão...

 

terça-feira, 5 de março de 2013

É hora de procurar ajuda? (por Robert Epstein)



Grande parte das pessoas enfrenta, em algum momento da vida, transtornos de saúde mental que podem ser tratados; é o caso da depressão e do estresse, mas a falta de informação e o preconceito ainda fazem com que adultos e crianças sofram sozinhos em vez de procurar um profissional qualificado.

Vinte e três milhões. Este é o número de brasileiros que necessitam de acompanhamento na área da saúde mental. Desse total, pelo menos 5 milhões sofrem com transtornos graves e persistentes, segundo estimativas da Organização Mundial da Saúde (OMS). Nesse universo encontram-se crianças e adultos que sofrem de patologias como depressão, transtornos de ansiedade, distúrbios de atenção e hiperatividade e dependência de álcool e drogas. Aproximadamente 80% das pessoas que sofrem com esses transtornos não recebem nenhum tipo de tratamento. Mas a situação não é prerrogativa do Brasil. Ainda de acordo com a OMS, um em cada quatro americanos passa por um transtorno psiquiátrico diagnosticável em algum momento da vida. Exageros à parte, no decorrer de nossa existência muitas vezes nos perguntamos se somos mentalmente saudáveis e se não estaria na hora de buscar ajuda profissional. A preocupação faz sentido: de fato, quase metade da população do planeta apresenta algum tipo de transtorno durante a vida. Infelizmente, porém, em cerca de dois terços dos casos os problemas comportamentais e emocionais jamais são diagnosticados e acompanhados, embora muitos deles possam ser tratados de maneira eficaz. Mais de 80% das pessoas com depressão grave, por exemplo, são capazes de se beneficiar significativamente da combinação de medicação e terapia. 

O preconceito, porém, ainda é um empecilho para a busca de auxílio especializado. Não raro, ouve-se até mesmo de pessoas razoavelmente bem informadas que “psicoterapia é coisa para louco”. A postura defensiva pode se mostrar de várias maneiras, como pela desqualificação dos profissionais ou de si próprio. Para muitos prevalece, por exemplo, a ameaça de que “o psicoterapeuta saberá mais sobre mim do que eu mesmo; descobrirá segredos dos quais nem suspeito”. Pode também surgir a fantasia onipotente de que “ninguém pode me ajudar”. Ou ainda o pensamento persecutório referenciado na opinião alheia: “O que os outros vão pensar se souberem que vou a um psicólogo?”. Qualquer que seja a forma como se apresente, a resistência não aparece por acaso: em geral, é inerente à própria patologia e tem a ver com o funcionamento psíquico da pessoa. E, infelizmente, às vezes persiste por muito tempo, até que o paciente decida buscar ajuda.


 


O QUE É NORMAL? 

Quando trabalhei como editor-chefe da Psychology Today, com frequência os leitores me pediam que sugerisse testes de triagem para pessoas com problemas de saúde mental. Procurei por esse material no intuito de ajudar homens e mulheres a encontrar respostas às perguntas como “Será que este meu sentimento de desânimo é normal?”, “Por que eu grito com a minha mulher e meus filhos o tempo todo, mesmo não querendo fazer isso?”, “Será que perdi o controle da bebida?”. Encontrei milhares de testes “caseiros” na internet, mas nenhum havia sido validado cientificamente. Pior ainda, muitos serviam como veículos de marketing para vídeos, livros ou serviços, encaminhando o leitor que respondesse às questões direto para um setor de vendas. Não parecia existir nenhum teste amplo, confiável, favorável ao consumidor, que ajudasse alguém a refletir melhor sobre si mesmo.

Assim, desenvolvi o teste Triagem Epstein em Saúde Mental (Epstein Mental Health Inventory) (EMHI), baseado na quarta edição do Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais (DSM-IV), compêndio no qual médicos americanos se baseiam para fazer diagnósticos. O teste cobre 18 problemas psiquiátricos comuns nos Estados Unidos, como depressão maior, fobias, transtorno bipolar e abuso de substâncias, que selecionei usando dados preponderantes do Instituto Nacional de Saúde Mental (NIMH) dos Estados Unidos, entre outras fontes. 

Para cada distúrbio são considerados três critérios do DSM-IV, que reescrevi em linguagem para leigos.
A ferramenta, porém, não tem o papel de diagnosticar ninguém. Seu objetivo é alertar para possíveis riscos de um transtorno, estimulando a busca por ajuda psicológica. O mais importante é ajudar as pessoas a se sentir e viver melhor, pois minha experiência tem mostrado que qualquer meio legítimo de levá-las a consultar um psicoterapeuta é válido. No ano passado, Laura Muzzatti, aluna da Universidade da Califórnia em San Diego, e eu apresentamos uma avaliação da EMHI usando uma amostragem de 3.403 pessoas que fizeram o teste depois de ele ter sido colocado na internet, em 2007. Verificamos que os resultados previram sete fatores importantes relacionados à saúde mental. A avaliação incluía o grau de felicidade declarado; o quanto se sentiam ativamente responsáveis por seu sucesso pessoal e profissional; se estavam empregados; se fizeram terapia em alguma ocasião, se alguma vez já haviam sido hospitalizados por problemas comportamentais ou emocionais e se, na época do teste, estavam em terapia. A pontuação não diferia de acordo com etnia, mas variava segundo o gênero: a pontuação das mulheres foi 17% mais elevada que a dos homens, parecendo apresentar mais problemas de saúde mental, um resultado consistente com os de outros estudos. Ou, pelo menos, foram mais sinceras e analíticas ao responder o questionário.


Em busca de um diagnóstico

Muitas pessoas chegam aos consultórios de psicologia e psicanálise ansiosas para encontrar um nome que 
abarque aquilo que sentem, uma palavra que encerre a dor, a angústia e, às vezes, a culpa ou as dúvidas que as afligem. Isso, porém, nem sempre é fácil, e de pouco adianta se o paciente não puder compreender o que se passa com ele e se responsabilizar pelo próprio tratamento, atribuindo sentidos a sua patologia. A atração que os testes exercem sobre muitos leigos (haja vista quantos questionários são respondidos nas revistas e na internet) pode ser explicada pelo desejo de quantificar e medir características pessoais e comportamentos. E em alguns casos eles têm sua função. Mas ainda que tenham validação científica e possam ser usados para ajudar a entender o quadro clínico, os testes não são definitivos, seja para medir inteligência, seja para determinar a presença de um transtorno mental. 

Sem dúvida, em algumas abordagens (e em determinados casos) eles são úteis na tarefa de oferecer informações que favoreçam a compreensão da situação clínica de forma mais ampla. Mas não sempre – e raramente de maneira perene. Há ocasiões em que as palavras impressas em um prontuário ou ditas por um profissional acerca de determinado quadro psíquico podem soar como uma espécie de sentença, promovendo a desastrosa rotulação do paciente. No Brasil, muitos psicólogos evitam recorrer a essa ferramenta, pelo menos no primeiro momento. Em vez de apostar em um diagnóstico único, pleno e “definitivo”, acreditam que, em muitos casos, mais importante que reduzir a situação a um único termo é ouvir o paciente, entender sua lógica e seus sintomas. Afinal, é na possibilidade de elaboração, ampliação do espaço psíquico e transformação que se embasa o ofício do psicoterapeuta.


Teste – Sentir, pensar e agir:


 


Para conhecer o teste completo basta acessar o site http://DoYouNeedTherapy.com. A seguir, a versão abreviada que abrange dez transtornos. Para fazê-lo, marque todas as afirmações que se aplicam a você:

1- TRANSTORNOS DO CONTROLE DE IMPULSOS

(a) Às vezes não sou capaz de controlar a minha raiva
(b) Frequentemente ajo por impulso, o que, às vezes, traz grandes problemas
(c) Estou preocupado com as apostas, parece que tenho dificuldades em controlar meu comportamento quanto ao jogo


2- ABUSO DE SUBSTÂNCIAS

(a) Durante o ano passado, tive de ingerir mais bebidas alcoólicas ou usar mais drogas para satisfazer
minhas necessidades
(b) No ano passado tentei, mas não consegui, diminuir a quantidade de bebidas alcoólicas, de drogas ou de
cigarros
(c) Durante o ano passado tive de ingerir quantidades cada vez maiores de bebidas alcoólicas ou drogas para me satisfazer ou lidar com meus problemas


3- DEPRESSÃO MAIOR

(a) Nas últimas duas semanas venho tendo dificuldade em sentir qualquer prazer nas atividades diárias de que costumava gostar
(b) Há cerca de 15 dias venho pensando com frequência que quero morrer
(c) Pelo menos durante as duas últimas semanas, venho me sentindo deprimido quase todos os dias


4- FOBIAS ESPECÍFICAS

(a) Tenho medo excessivo ou irracional de algum objeto ou situação
(b) Estou com muito medo de algo, e meu medo interfere em minha capacidade de desenvolver o meu trabalho ou em conduzir a minha vida de maneira normal
(c) Tenho muito medo de um objeto ou uma situação, e quando me exponho a esse estímulo entro em pânico


5- FOBIAS SOCIAIS

(a) Sinto medo de ficar perto de outras pessoas em determinadas situações e percebo que meus medos podem ser irracionais ou excessivos
(b) Em determinadas situações sociais, sinto extrema ansiedade
(c) Sinto grande temor em uma ou mais situações em que eu precise interagir com outras pessoas


6- TRANSTORNOS DA ALIMENTAÇÃO

(a) Costumo comer muito e, em seguida, vomitar ou usar laxantes, ou outros meios radicais, para evitar ganho de peso
(b) Estou preocupado com meu peso ou com a forma do meu corpo e, consequentemente, como ou me exercito de uma forma que algumas pessoas poderiam considerar incomum
(c) Não estou disposto ou não sou capaz de comer ou digerir o alimento em quantidade suficiente para manter o peso saudável


7- TRANSTORNO DE ESTRESSE PÓS-TRAUMÁTICO

(a) Tenho lembranças perturbadoras relacionadas a um acontecimento traumático que experimentei no passado
(b) Costumo ter sonhos perturbadores sobre uma experiência terrível ocorrida no passado
(c) Às vezes me vejo revivendo o horror de um fato traumático que experimentei no passado


8- TRANSTORNO DE ANSIEDADE GENERALIZADA

(a) Pelo menos durante os últimos seis meses, venho sentindo preocupação e nervosismo excessivos, difíceis de controlar
(b) No mínimo nos últimos seis meses, tenho ficado extremamente ansioso e preocupado com uma série de
acontecimentos e atividades diferentes
(c) Pelo menos durante os últimos seis meses, venho me sentindo excepcionalmente agitado, cansado, irritado, tenso ou distraído


9- TRANSTORNO BIPOLAR

(a) Durante o ano passado tive variações súbitas de humor, sem qualquer razão aparente
(b) Meu humor muda rapidamente, de depressivo a esfuziante, sem qualquer motivo aparente
(c) Durante o ano passado o meu humor mudou mais de uma vez de deprimido para esfuziante

10- TRANSTORNO OBSESSIVO-COMPULSIVO

(a) Repito excessivamente certos comportamentos ou pensamentos, sem conseguir parar
(b) Pensamentos frequentes me causam grande ansiedade
(c) Acredito que esses pensamentos possam ser irracionais ou exagerados. Faço ou penso repetidamente


PONTUAÇÃO 

Se você deixou todos os itens em branco, parabéns! É provável que a sua saúde mental esteja muito bem. Caso contrário, lembre-se de que esta não é a versão completa do teste e, ainda que fosse, sua aplicação não tem peso diagnóstico. Mas os resultados podem ajudá-lo a pensar como tem se sentido e lidado com os problemas. Se marcou um item em uma ou mais categorias, é possível que esteja passando por situação de angústia que poderia ser mais bem compreendida (ou contornada) com a ajuda de um profissional. Se assinalou dois ou três itens em uma ou mais categorias, talvez seja mesmo uma boa hora para consultar um psicólogo e evitar sofrer sem necessidade, já que a maioria dos problemas de saúde mental podem ser tratados. Mais importante que o resultado do teste, entretanto, é voltar-se para si e perguntar-se se não seria o momento de cuidar de si mesmo. Afinal, quando temos uma dor de dente, por exemplo, não hesitamos em buscar um dentista. Se a dor é na alma, o psicoterapeuta é o profissional mais indicado para cuidar desse desconforto.



(Fonte:http://www2.uol.com.br/vivermente/reportagens/e_hora_de_procurar_ajuda_.html)

sexta-feira, 1 de março de 2013

Os Ciganos e a Lenda do Dom da Adivinhação



Era uma vez um povo...
Que vivia nas entranhas da Terra, tendo o fogo como seu elemento mágico e purificador, eram adoradores do fogo sagrado que há por dentro das profundezas da terra...
Esse povo vivia oculto, tendo suas ocupações e seus afazeres, sem conhecer absolutamente nada que pudesse existir na superfície.
As gerações se passavam inteiras enquanto os tempos corriam, e aquele povo permanecia vivendo dentro do mundo, ignorando tudo o que houvesse por fora dele...
Por conta disso, eles viviam injuriados e tristes, pois só conheciam noites sem fim... Mas tinham uma fé imensa e uma grande sabedoria.
Um dia, um homem, cansado daquela mesmice, cansado por conta da dificuldade em se conseguir água, adormeceu enfadado e sonhou com um mundo diferente...
Em seu sonho, uma mulher belíssima, vestida com um manto azul de estrelas, puxava-o do fundo da terra por uma cratera e descortinava-lhe tudo o que havia de desconhecido onde ela habitava...
Em seus sonhos viu coisas que nunca havia imaginado antes, um firmamento azul, as flores, as águas abundantes dos rios, as chuvas...Maravilhado, despertou com a idéia fixa de sair dali, e investigar se, de fato, na superfície havia tudo aquilo que a maravilhosa mulher lhe havia apresentado. Com uma tocha, o rapaz foi subindo, subindo, passando por meandros ocultos e galerias que conhecia, até chegar à uma caverna até então desconhecida, de onde pôde vislumbrar os raios da luz solar, que, a princípio, machucaram seus olhos tão afeitos à escuridão e à luz única do fogo sagrado...
Viu o céu límpido, onde criaturas aladas voavam e emitiam cantos sonoros... Viu árvores imensas, onde estavam pendurados frutos coloridos e bonitos... Pela primeira vez, sentiu o vento, ouvindo a música que ele toca quando passa... Viu inúmeras fontes de água e cascatas, cercadas de flores de cores vivas e animais diversos. Seus olhos não conseguiam entender tanta beleza, como ele seria feliz se ali pudesse viver...
Como seu povo seria feliz se visse tanta maravilha, tantas cores! Pensando nisso, ele desceu de volta às entranhas da Terra, levando pequenas coisas que pudera coletar: frutos e flores, pedras e ramos de árvore. Precisava provar aos mais velhos que ali estivera! Ao chegar, descreveu a todos os seus o que vira lá em cima, e todos, encantados e ansiosos com essa nova possibilidade, também quiseram vislumbrar esse mundo desconhecido...
A mais velha daquele povo, porém, munida por sua fé inabalável e pela experiência de anos e anos de vida, sentindo o impulso daquele povo passional em se arriscar pelo desconhecido, pediu:
- Meus filhos! Sempre vivemos aqui, não teremos outras possibilidades numa terra onde vivem outros seres diferentes de nós. O que faremos, num mundo adverso, e com tantas diferenças?
Temos crianças, que são frágeis...
Os que vieram antes de nós contam que muitos tentaram subir e se perderam...Eles, porém, estavam dispostos a tudo para subirem à superfície. Os mais velhos então orientaram:
- Vamos pedir um conselho aos Deuses sobre o que fazer. Se nos for permitido migrar dessas terras, que eles nos conduzam e abençoem nossas existências com a saúde e a sorte! 




Dessa forma, aquele povo simples e sofrido começou a orar com fervor, imaginando como seria toda a maravilha que o rapaz tinha visto, toda a fartura e a cor que nunca tinham imaginado...
A esperança cresceu tal qual as labaredas de uma fogueira, muitos haviam ali que nunca antes tinham dado um único sorriso na vida, e agora tinham nos olhos de fogo o sonho de uma possibilidade de serem mais felizes...
Os Deuses então manifestaram-se pelo fogo sagrado, e disseram a eles que tinham permissão para viver onde quisessem, deixando as entranhas da terra. 
Porém, eles não teriam sobre essa terra nenhum poder, nem poderiam brigar pela posse delas, pois que elas nunca lhes pertenceriam. Poderiam andar por todos os quatro cantos do mundo, poderiam conhecer todas as nuances dessa terra, mas sem se fixar a nenhum lugar dela.
Os Deuses disseram que só assim eles cresceriam e levariam à frente a missão para a qual foram destinados.
Respeitosa, a anciã se curva ante o fogo divino e questiona:
- De quê viveremos nessa terra? Se não pudermos ter bens e haveres, se nesse lugar nada nos pertencerá, e estaremos nessa terra em êxodo constante, o que deixaremos às nossas crianças?
- Deixarão os dons que lhes foi concedido a partir de agora, e o exemplo vivo de que nada nos pertence de fato, que o que temos somente é a nós mesmos, nossa alma imortal que, como vós, ascende das profundezas para a luz! Deixarão o exemplo da dignidade de ser autêntico, de ser verdadeiro e fiel ao que se acredita.
Foi para isso que foram criados. Povo Cigano, terão o dom da adivinhação, com o qual podereis ajudar a todos os vossos semelhantes na dura jornada terrena. Lá em cima, eles pouco conhecem do futuro e do que a sorte lhes reserva...
Tem pouco consciência, e se perdem dentro de si mesmos e das dependências que criam.
Vós sabeis o que é o sofrimento e a tristeza, sabeis andar por reinos que eles desconhecem...
Dessa forma, podereis auxiliá-los a compreenderem a si mesmos, com esse dom divino que ora lhes foi dado.
Em troca da luz que desejam desfrutar, devereis vós iluminar os caminhos de vossos irmãos, para que eles se ajudem, se conheçam e se precavenham contra os males.
Dentro deles reina uma escuridão tal qual a que seus olhos vêem.
Damos-lhes o dom de iluminá-los com o fogo sagrado do conhecimento. Como vós andareis por todas as terras, todos os conhecimentos se fundirão...
Tereis também o dom da criatividade, sabereis ver além das aparências, e com isso, sabereis criar coisas lindas para os olhos e para a alma, concedo-lhes o dom de fazer coisas belas!
Boa sorte e cumpram a missão que lhes foi confiada, sendo felizes nesse mundo novo que os espera!
Os ciganos, então, de posse do que possuíam, e do dom da adivinhação dado pelos Deuses, deixaram as entranhas da terra, e, em sua primeira caravana, rumaram para a superfície, sendo guiados pelo rapaz que os conduziu à entrada da caverna.
Qual não foi a surpresa deles ao avistarem na entrada da caverna uma cigana belíssima, vestida com um manto azul forrado de estrelas, oferecendo-lhe as mãos:
- Meus queridos, vim para cuidar de vós. Sempre que precisardes, me chameis! Serei como estrela a vos guiar pelas estradas incertas dessa terra.
Dando as mãos a cada um dos ciganos que saía de dentro da terra, aquela entidade de luz abençoava a cada um com seu olhar plácido e benevolente. E todos os ciganos ficaram com a marca de luz daquele olhar que refulgia as estrelas...
Todos traziam dentro de si a certeza de que, pelo fogo sagrado, os próprios Deuses os ouviriam, e, admirando as estrelas e a lua cheia, se lembrariam dos olhos de sua poderosa protetora, que estendera as mãos bondosas para retira-los das trevas de onde viviam... Ela desapareceu num facho de luz, e os ciganos começaram sua eterna caminhada...
Como não conheciam as cores, se encantaram com elas, vestindo-se com a beleza do que elas representavam, dando vazão nas roupas a todo o colorido de suas almas...
Sabiam trabalhar com os metais, que podiam retirar das entranhas da terra, viram que as pessoas necessitavam demais dos artefatos que fabricavam...
Observando a natureza, seus ciclos e ritmos, seus elementos e seus animais, descobriram seu enorme talento para a música e a dança, criaram o circo...




Sua ligação com a magia do fogo permanecia, e isso continuou se transmitindo a todos os seus descendentes, era visível em seus olhos magnéticos, não era à toa que eram chamados “os filhos do fogo”...
Sabiam fazer coisas lindas, espalhando arte e beleza onde passavam, conduzindo o homem em seu sonho de liberdade sem fim. Menestréis da liberdade, muita vezes incompreendidos, nunca levantaram armas pela posse de terras, respeitando a missão sagrada que lhes foi confiada.
Sofreram inúmeras perseguições, mas sempre mantendo a sua fé em sua Protetora, chamando-a por vários nomes nas várias nações por onde passaram do decorrer de séculos. E o principal: lendo os olhos das pessoas, podiam dar vazão e crescimento ao seu dom: iluminar em troca de luz, auxiliar com a adivinhação os corações aflitos, distribuir alento e consolação aos que estavam sem esperanças...
Vendo a chuva, as flores, os animais e todos os elementos, desenharam-nos em pequenas chapas, com as quais falavam da sorte e dos destinos de quem os consultassem...
Comprovaram que a observação da natureza e das espirais do tempo auxiliavam sobremaneira o uso de seu dom sagrado... Eles correram o mundo, e continuam correndo...
Para quê os ciganos viajam tanto? Para chegarem ao fim do mundo...
E quando chegarem, farão o caminho de volta, para depois iniciarem tudo de novo, levando a arte, a magia e a alegria à todas as raças. 



Fonte: http://ruanodelacalle.blogspot.com/2008/01/lenda-cigana-do-dom-da-adivinhao.html

Fonte: http://artecigana.no.comunidades.net/