quinta-feira, 7 de março de 2013

A Filosofia do Bovarismo


Emma Bovary e a realidade paralela (por Sebastian Dieguez)

Considerada a obra mais importante do francês Gustave Flaubert, Madame Bovary não tem nada de um romance de suspense moderno. Trata-se da história banal de uma mulher mal casada que trai o marido, o arruína e acaba se suicidando, por ter se perdido, perseguindo quimeras inspiradas em romances “água com açúcar”. De onde vem, então, o fascínio exercido por essa mulher cuja única particularidade é sonhar com aventuras maravilhosas, enquanto leva uma vida comum? A descrição de seus estados de espírito é tão precisa que foi forjado um termo para designar o mal que a consome: o bovarismo.

O ensaísta Jules de Gaultier propôs esse termo em dois livros sucessivos: primeiro, em Le bovarysme, la psychologie dans l’oeuvre de Flaubert (O bovarismo, a psicologia na obra de Flaubert), de 1892, e em seguida em Le bovarysme, essai sur le pouvoir d’imaginer (O bovarismo, ensaio sobre a capacidade de imaginar), de 1902: “Emma personificou essa doença original da alma humana, para a qual seu nome pode servir de rótulo, se entendermos por ‘bovarismo’ a faculdade que faz o ser humano conceber a si mesmo de outro modo que não aquele que é na verdade”. Ou seja, o bovarismo consiste em “se imaginar diferente do que se é”. Essa capacidade remete não a uma fraqueza de caráter, mas a um funcionamento psicológico, típico da espécie humana.



Podemos pensar que há um bovarismo intelectual e um sentimental, e cada um apresenta tanto aspectos “normais” quanto patológicos. Estes últimos representam o falseamento exagerado da concepção de si mesmo e a ausência de senso crítico em relação a um erro cometido. O bovarismo clínico implica não nos darmos conta de que imaginamos a nós mesmos de maneiras muito diferentes do que realmente somos.

Mas voltemos a Emma. Qual a origem de sua patologia? Gaultier questiona inicialmente sua educação em um colégio de freiras freqüentado por garotas da alta sociedade, onde aos 13 anos ela foi submetida à influência de uma “garota mais velha”, que lhe disse para ler as “sagas sentimentais” e lhe deu alguns livros. “Aquilo tudo não passava de amores, amantes, mulheres perseguidas e desmaiando em locais solitários, bosques sombrios, males de amor, juras, soluços, lágrimas e beijos, homens fortes como leões, suaves como cordeiros, virtuosos como nunca se é, sempre bem vestidos e que choram como bebês.” O efeito teria sido imediato: “Ela teria passado a sonhar em viver em algum velho palacete, como as castelãs de longos corpetes, que sob o trevo das arcadas passam os dias com o cotovelo na pedra da janela e o queixo apoiado na mão, olhando ao fundo da paisagem, para ver se do campo chega algum cavaleiro com uma pluma branca no chapéu, galopando um corcel negro”. Essa “atraente fantasia da realidade sentimental” em uma idade precoce marcaria seu desenvolvimento e se intensificaria com o passar do tempo.



O apogeu do bovarismo na psiquiatria se deu nos anos 30, na França. Em 1906, o psiquiatra Philibert de Lastic, em sua tese La pathologie mentale dans les oeuvres de Gustave Flaubert (A patologia mental nas obras de Gustave Flaubert) fazia de Emma uma “degenerada”, provavelmente histérica. Segundo ele, “o bovarismo patológico não passa de falta de capacidade de se adaptar à realidade”. Mais tarde, seria feita uma aproximação com a paranoia, da qual o bovarismo seria uma versão mais branda, mas comportando os mesmos sintomas – superestimação de si mesmo, desconfiança, erro de julgamento e falta de habilidade no convívio social. Mais tarde, outros psiquiatras incluíram noções de mitomania, ao definir o bovarismo como “capacidade de imaginar a si mesmo melhor do que se é” (e não apenas diferente).

No momento em que a heroína do romance conhece Charles, seu marido, ainda está sob influência da nostalgia do colégio de freiras e dos sonhos e histórias com “anjinhos de asas douradas, madonas, lagos e gondoleiros”. Acredita ter encontrado o amor, mas muito rapidamente se decepciona. Pouco depois do casamento, ela é tomada por um “inefável mal-estar, que muda de aspecto como as nuvens e turbilhona como o vento”. Na verdade Charles é insípido e está a léguas de corresponder à ideia que ela fazia dos homens. A conversa dele é plana, rasa, e suas palavras desfilam sem provocar nenhuma emoção, riso ou sonho. Ele não tem talento, ambição e nada parece realmente interessá-lo.Inevitavelmente, Emma acaba por se perguntar se não haveria como conhecer outro homem. Nesse momento, a protagonista já vive em um mundo paralelo à morna realidade que a cerca. Esses devaneios se tornarão exacerbados quando ela tiver ocasião de participar de um baile da alta sociedade.



Ali ela sente “o roçar da riqueza”. Ao ver os aristocratas, ela deseja conhecer a vida deles, penetrar nela, misturar-se a ela. De volta à tristonha casa de campo, lembranças da festa assumem a forma de ações inocentes, no início: “Ela comprou um mapa de Paris, e com a ponta do dedo deslizando sobre ele, fazia compras na capital”. Passou, então, a devorar todas as notícias sobre peças teatrais, lançamentos de produtos, festas e inaugurações. Sabia o que estava na moda e qual o endereço dos bons costureiros. 

Mais tarde ela conhece dois homens que considera maravilhosos. A verdadeira natureza de ambos, porém, se revela aquém de suas expectativas. O tímido Leon se parece bastante com o homem de seus sonhos, pois também vive em um mundo imaginário. Já Rodolphe conhece em suas amantes a tendência para o bovarismo e as explora sem o menor escrúpulo: “Emma se parecia com todas as outras amantes e o encanto da novidade, que foi caindo por terra, como uma peça de roupa, deu lugar à monotonia da paixão, que sempre tem as mesmas formas e a mesma linguagem.”



A cada desilusão, Emma é tomada de uma estranha “doença nervosa”. E para se curar ela se volta primeiramente para o marido, busca leituras mais sérias, e por fim abraça a religião. Mas sempre tem recaídas e, confundindo faltas, choraminga pelo veludo que não tem, pela felicidade que lhe falta, pelos sonhos impossíveis, pela casa pequena demais.

Flaubert sofreu a primeira crise epilética em 1844, aos 22 anos. E seguiram- se outras. Sem motivos consideráveis, o escritor erguia a cabeça e empalidecia ao sentir o sopro misterioso que parecia tocar sua face, e seu olhar se enchia de angústia. Então soltava um gemido, e sobrevinha a convulsão: todo o seu ser entrava em trepidação, que sucedia inevitavelmente um sono profundo. Pierre- Marc de Biasi, especialista em Flaubert, sugeriu um paralelo entre Madame Bovary e as crises de seu criador. Estas se assemelham à sofrida por Emma pouco antes de decidir-se pelo suicídio. “Ela mergulhou no estupor. Só o que doía nela era seu amor, e ela sentia sua alma abandoná-la junto com as recordações. De repente, ela teve a impressão de que glóbulos cor de fogo explodiam no ar, como esferas fulminantes que se achatavam e rodopiavam até derreter na neve. Até que tudo desapareceu.”

A intensidade imaginativa constitui a face produtiva do bovarismo – a protagonista aspira a algo, tenta escapar de sua condição. Todos os demais personagens do romance são prodigiosamente desinteressantes. Mas a heroína não contém o excesso de romantismo e desenvolve uma série de sintomas. Podemos dizer que esses são os sinais negativos do bovarismo e eles são numerosos, pois Flaubert oferece ao leitor um verdadeiro catálogo clínico das doenças da modernidade. Cada vez que vê suas esperanças destruídas, seus projetos contrafeitos e seus devaneios remetidos à realidade, Madame Bovary mergulha em uma estranha doença: sofre de torpores, calores, palpitações, sufocamentos, fica pálida, emagrece a olhos vistos, treme, chora, desmaia. Fica deprimida, irritadiça, exaltada, mente, mostra-se descontrolada e até má. Perde completamente o interesse pela filha e às vezes a detesta abertamente. E ainda manifesta uma “febre cerebral”, além de insônia e enxaqueca. 



Emma talvez seja a primeira personagem que se encaixa na descrição clínica da compulsão por fazer compras, a ponto de pôr a família em grave risco financeiro. Como não consegue estancar sua sede de romantismo, ela se volta para bens materiais, que ficam praticamente de imediato esquecidos no fundo do armário. Por fim ela terá alucinações, em especial em sua fase pseudomística, e manifestará sintomas semelhantes aos das histéricas atendidas no Hospital da Salpêtrière. 

A descrição de Emma leva inevitavelmente à conclusão de que Flaubert pesquisou sobre a histeria. É verdade que na época em que o romance foi escrito havia grande interesse por fenômenos como histeria, hipnose, neurose e dupla personalidade. Em 1880, durante uma discussão sobre a dupla personalidade de mulheres possuídas, demonizadas e sonâmbulas, o ganhador do Nobel de Medicina Charles Richet, praticante do exorcismo, disse: “Emma Bovary é uma histérica branda”. Ainda hoje a histeria é muitas vezes utilizada como expediente sexista, para desqualificar comportamentos femininos considerados inadequados. E Madame Bovary continua presente nessa discussão.



Por meio de sua personagem, o autor faz críticas a dois aspectos que considera os mais destacados de sua época – o tédio e a estupidez. A respeito do primeiro ele chegou a esboçar uma teoria. Segundo Flaubert, existem dois tipos de tédio: o comum, do qual todos sofremos em algum momento, e o tédio moderno, típico de uma geração, que caracteriza um mundo de progresso que oferece distrações fictícias e uma vida baseada no senso comum, desprovida de surpresas. Emma é uma desocupada, essa é a verdade. Seus sonhos são inacessíveis e a remetem a um mundo que simplesmente não existe. A monotonia lhe é insuportável: “Seu coração ficou vazio mais uma vez, e então recomeçava a mesma sequência de dias. E eles se seguiriam assim, um depois do outro, sempre iguais, incontáveis, e não trazendo nada! O futuro era um corredor escuro, no fim do qual havia uma porta bem fechada”. E de alguma forma todos os personagens do romance são vítimas dessa monotonia. No momento em que Flaubert escreve, pode-se dizer que o romantismo está morto e enterrado, e só sobrevive como objeto de zombaria. O que realmente desespera Emma é a imensa defasagem entre o que vive e aquilo a que aspira, assim como o fato de estar convencida de que, mais do que ninguém, tem o direito de realizar seus sonhos. Ou seja, Flaubert consegue a proeza de fazer um romance de sucesso cujo tema principal é o tédio. 


O segundo assunto, que também permeia toda a obra do autor, é a estupidez, característica da qual nem Emma nem nenhum outro personagem do romance escapam. Parece ser com imenso prazer que Flaubert escreve diálogos insípidos e cheios de clichês. A protagonista não se dá conta do absurdo de seus desejos, não consegue olhar a realidade de frente, não faz nada de efetivo para melhorar a própria sorte ou tentar compreender seu comportamento – e não tem o menor interesse pelas preocupações alheias. Ela simplesmente não tem os recursos que lhe permitiriam compreender o mundo que a cerca e analisar seus limites. Mas Flaubert consegue poupá-la, mostrando outros personagens tão estúpidos quanto ela, se não mais, por exemplo, o político que faz um ruidoso discurso em uma reunião agrícola, ou o farmacêutico Homais, que despeja uma coleção de ideias feitas sobre todos os assuntos possíveis. 

Podemos considerar que o bovarismo consiste em um desdobramento da vida consciente, entre imaginário e realidade. Por ocasião de suas crises epiléticas (ver quadro na pág. 69), enquanto alucinava e se via invadido por diversas sensações, Flaubert parecia manter a razão, ao menos enquanto não desmaiava. Ele fala disso em suas cartas: “Havia dentro de meu pobre cérebro um turbilhão de ideias e imagens nas quais eu tinha a sensação que minha consciência, que meu ser afundava, como uma nau sob a tempestade. Mas eu me agarrava à razão. Ela dominava tudo, apesar de sitiada e atacada”.



Em seguida, em outra carta: “Eis o que eu sentia quando tinha alucinações: primeiro, uma angústia indeterminada, um mal-estar vago, um sentimento de espera sem dor, como acontece na inspiração poética, quando sentimos ‘que alguma coisa vai chegar’. Depois, de repente, como um raio, a invasão, ou melhor, a irrupção instantânea da memória, pois a alucinação propriamente dita é só isso – ao menos para mim. É uma doença da memória, um afrouxamento daquilo que ela contém. Sinto ver as coisas falsas – saber que é uma ilusão, ter certeza disso, e no entanto vê-las com uma clareza tal, como elas fossem reais. Na alucinação pura e simples podemos perfeitamente ver uma imagem falsa com um olho, e os objetos verdadeiros com o outro. “Aliás, é justamente esse o suplício”. 

Flaubert estava, portanto, familiarizado com a ideia de que existem dois caminhos no pensamento humano: o das sensações ordinárias, da realidade, e o de um universo produzido como se fosse um paralelo do outro. O escritor tinha consciência do risco de se perder no mundo das alucinações e da importância de distingui-lo da inspiração criadora, voltada para o real. 
Em 1883, o escritor Paul Bourget descrevia assim sua versão do bovarismo, antes mesmo que Jules de Gaultier criasse o termo: Emma é vítima “de ter conhecido a imagem da realidade antes da realidade, a imagem das sensações e dos sentimentos antes das sensações e dos sentimentos”. Bourget via nessa tendência o reflexo do constante “processo de antecipação literária”, em Flaubert. Também é possível ver aí o reflexo da sintomatologia epilética e das alucinações que o acometiam. 



Emma nunca teve consciência do único talento que compartilhava com Flaubert – sua sensibilidade exacerbada. “Mas, então, o que é que a tornava infeliz? Onde estava a catástrofe extraordinária que a perturbava? E ela ergueu a cabeça, olhando em volta de si, como que à procura da causa do que a fazia sofrer.” Flaubert, ao contrário, tinha profunda consciência dessa dor – conseguiu catalisá-la em sua obra.




(Fonte:http://www2.uol.com.br/vivermente/reportagens/emma_bovary_e_a_realidade_paralela.html) 

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