sábado, 20 de setembro de 2014

Partindo...but I´ll be back : )


"O vento que às vezes leva algo que amamos, é o mesmo que nos traz algo que aprendemos a amar. Por isso, não devemos chorar pelo que nos foi tirado e sim aprender a amar o que nos foi dado, pois tudo o que é realmente nosso, o vento nunca irá levar."

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Livro: Breviário das Más Inclinações


Precisava postar esse livro, que considero um marco no meu caminho espiritual com a verdadeira Bruxaria. Indicado pelo meu mestre Herne em 2010, depois da minha inciação em 2008, fazendo com que repensasse o verdadeiro olhar sobre minha religião, desmistificando tanta besteira que lemos por aí. 
Meu encontro com a Bruxaria já completa 6 anos, e esse marco posso dividí-lo em: "Antes do Breviário e Depois do Breviário", trazendo toda maturidade que fui colhendo desde então, relembrando minhas ancestrais, bisavós, avós, tias e mãe, suas histórias e experiências com o místico e com a simplicidade da cura e "feitiços" naturais que elas faziam (sem nem imaginar), seja para cozinhar, seja para celebrar algo, suas rezas, intuições, visões, pressentimentos e o motivo de sempre, desde menina sentir algo especial dentro de mim mas até então, não sabendo reconhecer a origem. Hoje muita coisa em minha espiritualidade e experiência pessoal se explica, muitas respostas encontrei e ainda estou encontrando. Nunca esquecerei a importância desse livro na minha vida, indico de coração às minhas irmãs que estão começando sua iniciação como também as velhas amigas que ainda não conheceram essa leitura tão especial.
Esse livro, trata-se de uma nova edição de um romance publicado pela primeira vez há duas décadas e intitulado "Breviário das Más Inclinações" (edição da Quetzal). Também é uma narrativa envolvente, inspirada em escritos antigos do livro “Vida e morte de José de Risso”

Yv Luna.


Sinopse:
"Depois de se ter deitado com um homem, lavava-se sempre numa infusão de folhas de arruda, apanhadas ao luar, e bebia tisanas com sementes de funcho e de sargacinha-dos-montes, para que as regras não lhe faltassem."

José de Risso é o personagem central da trama e é fruto de uma única noite de amor que sua mãe teve com um caixeiro viajante, que vai embora e a deixa grávida. A mãe morre no momento em que ele nasce e deixa José de Risso aos cuidados da avó.
Assim começa este romance que narra a vida e a morte dele, um homem de virtude que nasceu marcado nas costas com um sinal em forma de folha de carvalho, sinal esse de onde ele sangra cada vez que faz um milagre, coisa que não acontece a seguir a qualquer das suas malvadezas. Que são muitas, ao longo dos seus 33 anos de vida, entre 1923 e 1956, na localidade ficcionada em Vilarinhos dos Loivos, no norte de Portugal, numa zona próxima da fronteira com Espanha. 
Pelo meio há o enorme lobo de Espadañedo, um lobisomem que descia da serra quando a Lua lhe estava de feição; há receitas de chás e de tisanas que curam do mau-olhado, da má-sina com as mulheres, dos amores infelizes, das galhaduras, dos maus pensamentos; há chás e tisanas que fazem recobrar os ímpetos aos homens; há também Purísima de la Concepción, a bonita e alegre viúva galega, de quem se dizia (sem se ter a certeza) que encomendara a morte do marido a um matador de touros andaluz a quem as mulheres casadas chamavam, com disfarçado fervor e muita paixão contida, Niño del Teso.
José de Risso é um personagem misterioso e intrigante, a habilidade que possui com as plantas medicinais é uma fama de desgraçado e abençoado. Totalmente voltado para as más inclinações, José de Risso tão depressa presta auxílio ao seu próximo, como o despedaça e destrói sem piedade.


ELEMENTOS MÍSTICOS QUE RODEIAM A NARRATIVA DE JOSÉ DE RISSO: 
(por Professora Nayara)

A Narrativa é um breviário (espécie de manual), porque é quase uma súmula das crenças populares. Marcado por crenças, superstições, simpatias, mezinhas, rezas e ladainhas.
(Só quem como José De Risso, “sugou sofregamente, como se trouxesse uma fome de anos”  o leite materno com toda a sabedoria ancestral pode confirmar a veracidade dos rituais e das ladainhas que ele mesmo faz para curar as pessoas que nem mesmo médicos ou bruxos dão jeito)

Profecias - É a predição do futuro por alguém. O personagem mais marcante nesse elemento é o pai de José de Risso.
“O teu destino está preso a mim, também já o sabes (...). Ficamos ligados quando fechei esse cordão a pensar em nós.”
(Essa cena ocorre quando o caixeiro, que também faz serviços de ourives conserta um cordão que sua avó lhe dera que se partiu misteriosamente no dia em que a avó morreu. É importante lembrar que quando a moça usa o cordão novamente, ela sente a mesma sensação que sentiu no dia da morte da avó. Há na cena a presença do presságio, um sinal de que sua vida não vai ser tão longa. A fala do caixeiro é muito significativa porque a partir dessa fala começam o desenrolar de cenas que leva até o nascimento de Risso, que é realmente a prova da ligação que houve entre o caixeiro e a mãe de Risso.)

Sonhos - Muitas passagens falam da interpretação de sonhos como se estes fossem verdadeiras antecipações do que se vai acontecer.
“Ao pensar no cordão, algo lhe trouxe o sonho a memória: uma cobra que se agitava , saída de uma moita de espinheiros de flores amarelas, emitindo silvos e um barulho de pequenos guisos, e que mordia incessantemente a cauda. (...) De repente recomeçou a morder a cauda e transformou-se num só anel de carne, onde não se distinguia nem cabeça nem cauda.”(p.15)

(Este foi o único dia em que ela não se lembrou do sonho que teve. Aqui praticamente toda a simbologia do livro). Haverá mesmo uma aliança entre ela e o caixeiro que será o José de Risso, e que como em um círculo nasce com a chegada do caixeiro e morre também com a chegada do caixeiro. Assim como o cordão que ele fecha e o círculo em que a cobra se transforma há uma volta em toda a narrativa que termina em sua vinda novamente a cidade. as flores amarelas podem significar lágrimas, dor . Porque o amarelo é concebido como a cor da tristeza e a cobra foi vista por nós como a figura da traição do caixeiro que a deixou grávida e desapareceu. Inclusive José de Risso é depois morto pelo pai e por causa de muitos escorpiões que existem em sua volta as pessoas são obrigadas a fazerem um círculo de fogo ao seu redor para poderem tirar o corpo de um buraco, e quando o círculo se apaga o pai vai embora da cidade.)

Mezinhas - São receitas caseiras, feitas de acordo com as sabedorias populares ancestrais.
“lavava-se sempre numa infusão de folhas de arruda, apanhadas ao luar, e bebia tisanas com sementes de funcho e de sargacinha-dos-montes, para que as regras não lhe faltassem.”(p.9)

Superstições - A narrativa é recheada de superstições e simpatias, principalmente no momento em que ocorre o nascimento de José de Risso.

O bebê estava virado dentro da barriga - “Colocou então as mãos sobre o ventre da rapariga, e sentiu logo que a criança não se tinha voltado dentro da barriga. De maneira que era necessário subir ao telhado da igreja e voltar uma telha, para que também assim a criança se voltasse e se pusesse na posição certa de nascer.” (p.10)

Cuidados que a mãe tomou durante a gravidez - “Depois de saber que estava grávida (...) deixou de usar o cordão de ouro ou outro qualquer fio, para o bebê não nascer com o cordão umbilical enrolado a volta do pescoço, (...) partiu em casa todos os copos rachados para que não bebesse por eles, e não comeu carne de lebre durante todo o tempo da gravidez, pois a criança nasceria com o lábio fendido, leporino, e dormiria de olhos abertos;(...) e evitou olhar fixamente para o focinho de qualquer animal, o bebê poderia vir a ter feições de bicho.”(p.12)

Presságios - São os sinais ou fatos que prenunciam o futuro e que na obra quando não são interpretados acarreta em uma série de fatos.
“A velha sentira as primeiras dores no peito, pouco tempo depois de o José de Risso ter ouvido uma coruja piar na asna do telhado do Lagar Velho (...) Foi o estranho pressentimento disto e não ligar o pio do pássaro a morte da avó, que fez com que só voltasse para casa no final do dia.”

Sina ou Destino - Do pai, da mãe e da avó José de Risso herda uma grande carga simbólica e sabedoria popular, por isso seu destino é marcado por muitas crendices e superstições.

O dia do nascimento - Nascera no dia de São Bartolomeu, dia em que, segundo a crendice popular o diabo anda a solta. “(...) Há coisas donde ninguém escapa (...)ter nascido no dia de S. Bartolomeu é uma delas” (p.6)

O batismo - José de Risso não foi batizado como deveria - “(...) logo há coisas em que se sabem logo, e essa foi uma delas, o padre entornou a concha de água benta para o chão quando o batizava, já não havia remédio, isto já toda a gente sabia. Não adiantava que fizesse piruetas para fugir a esta sina (...)”(p.6)

“José de Risso era mesmo amaldiçoado, tanto que nem batizado foi, na leitura do livro percebemos esse toque diabólico que existe nele, por exemplo. Ele está praticamente em todos os lugares quando acontecem coisas ruins ou boas, e quase ao mesmo tempo, o que de ruim acontece é culpa dele, o que de bom acontece também! Ele conhece todos os caminhos que leva a todos os lugares na vila e mesmo quem lhe tenta fazer mal não consegue.”

O pai - A vida de José de Risso parece estar determinada por duas vindas do Caixeiro ao cenário da história. A primeira marcando o seu nascimento e a segunda coincidindo com a sua vingança e morte. Inclusive o narrador conta quase com as mesmas palavras a cena em que o pai vai embora da cidade, deixando num primeiro momento a mãe de Risso marcada por uma “aliança” e num segundo desfazendo essa aliança”.

Trecho que narra à partida do Caixeiro, quando este deixa grávida a mãe de Risso.
“Ainda não sabia que alguém o vira subir pelo carreiro das vinhas do monte, parar lá no alto com ambas as malas, olhar para trás, e desaparecer de seguida por entre os castanheiros e os carvalhos” (p.12)

Trecho que narra à partida do Caixeiro logo após a morte de Risso.
“Quando o círculo se apagou, um homem começou a subir devagar o carreiro das vinhas do monte. Parou lá no alto com ambas as malas. Olhou para trás, e desapareceu de seguida por entre os castanheiros e os carvalhos.” (p.157)

“Entre os dois aparecimentos do vendedor de ouro, ambos na época da desfolhada ocorre os incidentes que o levam a autodestruição porque tal como a mãe, não repara que o responsável por toda desgraça é a presença destruidora configurada no pai, É como se a primeira vez ele tivesse ido estabelecer a aliança e depois destruí-la.”

A marca - O ciclo da vida do protagonista é marcado por uma mancha em forma de Folha de Carvalho que este tem estampada nas costas. Cada vez que José de Risso usava seus “poderes” ou passava por uma emoção muito forte, a marca sangrava. No dia em que a folha cai o ciclo da vida de José acaba. Nasce com a mancha nas costas, um presságio de infortúnios.
“(...) e com um sinal em forma de folha de carvalho mesmo no meio das costas, é uma marca de desgraçado toda gente o sabe. Quando passava já todos viam que ia para morto (...)” (p.6)

“Para muitos povos o carvalho é uma árvore sagrada, que significa vida. O sangue, também simboliza a vida, logo percebemos, que cada vez que a marca sangrava José perdia parte da sua vida. Aqui também existe a presença da superstição que diz que a mancha foi gerada pelo descuido da mãe, que só depois que ele nasceu reparou que tinha no bolso do avental uma folha de carvalho durante toda a gravidez.”

No dia em que seu pai chega à cidade a folha cai, logo mais José de Risso aparece morto da mesma maneira como costumava matar escorpiões quando criança.
“Tirou da água a marca em forma de folha de carvalho com que nascera; olhou-a sem curiosidade e atirou-a para o meio dos brincos e anéis. (...) e correu na direção do Cerro do Mocho. Esquecera-se de que tinha descido também a peia da porta do quintal, deixando encerrado em casa, Lázaro, o cão.
Um rapaz que levava o gado (...) encontrou José de Risso na manhã seguinte. Estava entalado, com os braços ao longo do corpo, numa fenda das rochas. Tinha a cara desfigurada pelas mordeduras venenosa das cobras e dos lacraus (eram tantos que, para o poderem erguer do buraco em que caíra tiveram que acender um círculo de fogo ao redor do corpo e esperar a morte dos escorpiões). ”(p.157)

“Quando o pai de José de Risso chega a cidade, José manda o cão roubar-lhe o ouro e os relógios como se fosse uma vingança, nesse mesmo dia a folha cai  e José de Risso aparece morto, assim como ele o pai é carregado de mistério. Morre com os escorpiões e como os escorpiões sem perceber que está caminhando para a própria autodestruição, igual a mãe não repara que o pai é a figura da desgraça, se vinga dele e recebe o troco.”

domingo, 14 de setembro de 2014

A rara "boa comunicação"...


Sempre pensei que a boa comunicação é  fundamental, uma tarefa para poucos. Mas comunicar-se não é só falar, é preciso ter interesse em escutar, compreender, se importar, saber interpretar, se colocar (e por que não?) no lugar do outro, mesmo pensando diferente e respeitar essas diferenças. O que seria da comunicação sem essa troca? 
Que sempre fique claro que não compartilho meus pensamentos achando que vou mudar a cabeça de pessoas que pensam diferente. Compartilho meus pensamentos para mostrar às pessoas que já pensam como eu, que elas não estão sozinhas.
Hoje percebo que as pessoas querem simplesmente falar o que pensam sem escutar a resposta do outro com o mesmo carinho com o qual foi escutado. Falar é muito bom, mas escutar é melhor ainda.
O que as pessoas mais desejam é alguém que as escute de maneira calma e tranqüila. Em silêncio. Sem dar conselhos. Sem que digam: "Se eu fosse você". A gente ama não é a pessoa que fala bonito. É a pessoa que escuta bonito. A fala só é bonita quando ela nasce de uma longa e silenciosa escuta. É na escuta que o amor começa. E é na não-escuta que ele termina. Não aprendi isso nos livros. Aprendi prestando atenção nas pessoas. 


Yv Luna

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Boa semana !


No documentário sobre Rubem Alves, vimos que tanto ele como Guimarães, partilhavam dos mesmos pensamentos de que o homem, precisa de metamorfoses e fugir da mesmice!

"Mire, veja, o mais importante e bonito do mundo é isto: Que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas, mas que elas sempre vão mudando. "

(Guimarães Rosa)

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Natureza e Mãe Terra


A paz perene com a natureza e a Mãe Terra
(por Leonardo Boff, para coluna JB, em 14/04/14 às 06h00)

Um dos legados mais fecundos de Francisco de Assis, atualizado por Francisco de Roma, é a pregação da paz, tão urgente nos dias atuais. A primeira saudação que São Francisco dirigia aos que encontrava era desejar “Paz e Bem”, o que corresponde ao Shalom bíblico. A paz que ansiava não se restringia às relações interpessoais e sociais. Buscava uma paz perene com todos os elementos da natureza, tratando-os com o doce nome de irmãos e irmãs.

Especialmente a “irmã e Mãe Terra”, como a chamava, deveria ser abraçada pelo amplexo da paz. Seu primeiro biógrafo, Tomás de Celano, resume maravilhosamente o sentimento fraterno do mundo que o invadia ao testemunhar: “Enchia-se de inefável gozo todas as vezes que olhava o sol, contemplava a lua e dirigia sua vista para as estrelas e o firmamento. Quando se encontrava com as flores, pregava-lhes como se fossem dotadas de inteligência e as convidava a louvar a Deus. Fazia-o com terníssima e comovedora candura: exortava à gratidão os trigais e os vinhedos, as pedras e as selvas, a plantura dos campos e as correntes dos rios, a beleza das hortas, a terra, o fogo, o ar e o vento”.

Esta atitude de reverência e de enternecimento levava-o  a recolher as minhocas dos caminhos para não serem pisadas. No inverno dava mel às abelhas para que não morressem de escassez e de frio. Pedia aos irmãos que não cortassem as árvores pela raiz, na esperança de que pudessem se regenerar. Até as ervas daninhas deveriam ter um lugar reservado nas hortas para que pudessem sobreviver, pois “elas também anunciam o formosíssimo Pai de todos os seres”.


Só pode viver esta intimidade com todos os seres quem escutou sua ressonância simbólica dentro da alma, unindo a ecologia ambiental com a ecologia profunda; jamais se colocou acima das coisas mas ao pé delas, verdadeiramente como quem convive como irmão e irmã, descobrindo os laços de parentesco que une a todos.

O universo franciscano e ecológico nunca é inerte, nem as coisas estão jogadas aí, ao alcance da mão possessora do ser humano ou justapostas uma ao lado da outra, sem interconexões entre elas. Tudo compõe uma grandiosa sinfonia, cujo maestro é o próprio Criador. Todas são animadas e personalizadas; por intuição descobriu o que sabemos atualmente por via científica (Crick e Dawson, os que decifraram o DNA) de que todos os viventes somos parentes, primos, irmãos e irmãs, por possuirmos o mesmo código genético de base. Francisco experimentou espiritualmente esta consanguinidade.

Desta atitude nasceu uma imperturbável paz, sem medo e sem ameaças, paz de quem se sente sempre em casa com os pais, os irmãos e as irmãs. São Francisco realizou plenamente a esplêndida definição que a Carta da Terra encontrou para a paz: “É aquela plenitude criada por relações corretas consigo mesmo, com as outras pessoas, outras culturas, outras vidas, com a Terra e com o Todo maior do qual somos parte”(n.16 f).

A suprema expressão da paz, feita de convivência fraterna e de acolhida calorosa de todas as pessoas e coisas, é simbolizada pelo conhecido relato da perfeita alegria. Através de um artifício da imaginação, Francisco apresenta todo tipo de injúria e violência contra dois confrades (um deles é ele próprio, Francisco). Encharcados de chuva e de lama, chegam, exaustos, ao convento. Aí são rechaçados a bastonadas (“batidos com um pau de nó em nó”) pelo frade porteiro. Embora tenham sido reconhecidos como confrades, são vilipendiados moralmente e rejeitados como gente de má fama.

No relato da perfeita alegria, que encontra paralelos na tradição budista, Francisco vai, passo a passo, desmontando os mecanismos que geram a cultura da violência. A verdadeira alegria não está na autoestima nem na necessidade de reconhecimento, nem em fazer milagres e falar em línguas. Em seu lugar, coloca os fundamentos da cultura da paz: o amor, a capacidade de suportar as contradições, o perdão e a reconciliação para além de qualquer pressuposição ou exigência prévia. Vivida esta atitude, irrompe a paz que é uma paz interior inalterável, capaz de conviver jovialmente com as mais duras oposições, paz como fruto de um completo despojamento. Não são essas as primícias de um Reino de justiça, de paz e de amor que tanto desejamos?


Esta visão da paz de São Francisco representa um outro modo de ser-no-mundo, uma alternativa ao modo de ser da modernidade e da pós-modernidade, assentado sobre a posse e o uso desrespeitoso das coisas para o desfrute humano sem qualquer outra consideração.

Embora tenha vivido há mais de oitocentos anos, novo é ele e não nós. Nós somos velhos e envelhecidos que, com a nossa voracidade, estamos destruindo as bases que sustentam a vida em nosso planeta e pondo em risco o nosso futuro como espécie. A descoberta da irmandade cósmica nos ajudará a sair da crise e nos devolverá a inocência perdida, que é a claridade infantil da idade adulta.



(Leonardo Boff, teólogo e filósofo, é autor de vários livros, entre eles, 'A oração de São Francisco: Uma 
mensagem de paz para o mundo atual' -Vozes, 2012).